| E Se Eu Pudesse? - Parte 1: Feliz Natal! |
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| Escrito por Klely Cruz |
| Ter, 24 de Fevereiro de 2009 00:15 |
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Trilha sonora (do filme “O Expresso Polar”):
Instrumental (pianista desconhecido) – When Christmans Come to Town Houve uma vez, em uma certa noite de frio, há um tempo impreciso, em uma mansão para além da realidade, onde sorrisos e votos de felicidades ecoavam pelas grossas paredes, olhei a minha volta e vi um casal caminhando lentamente em direção a uma sala enquanto seus filhos brincavam junto à majestosa árvore enfeitada. Eu sabia que eram seus filhos, quais eram seus nomes assim como sabia, ao vê-los atravessar a grande porta de madeira caprichosamente talhada, que eles entravam na biblioteca. Percebi que carregavam um embrulho nas mãos e que não fecharam as portas completamente. Aproximei-me e olhei pela fresta, curiosa por saber o que faziam. Corei ao perceber que se beijavam e antes que pudesse desviar o olhar uma voz semi-infantil feminina chamou meu nome. Virei, torcendo para me desvencilhar do flagrante e me deparei com um par de olhos cinza amendoados que, em um segundo, já estavam próximos a mim. Caminhei apressadamente ao seu encontro, girando-a para que me acompanhasse. - Grace! Fale baixo. Não é educado falar alto assim com as pessoas. Você deve se comportar afinal já é uma moça! - Eu sei, eu sei. Mas o Matt pegou meu diário de novo. A senhora tem que intervir e mandar ele me devolver! Hoje é Natal e ele não deveria se comportar assim. Ele é muito travesso! - Com licença Sr. Bennet, mas preciso ter uma conversa com o rapazinho atrás do senhor. O velho senhor apenas riu e olhou para o neto como que dizendo: “Quero ver como vai se sair dessa.” - Mathew, saia já daí e devolva o diário de sua irmã. - Eu não sou o Matthew. Sou o Andrew. Pare de me confundir Srta. Cruise. - Mathew, Mathew. Conheço você como se tivesse saído de mim e não de sua mãe. Pare de se fazer passar por Andy e obedeça. - Não sou o Matt. Sou o Andy. Veja, lá está o Matt.
Por um segundo duvidei e quando me virei para conferir lamentei ter duvidado. Em um segundo Matthew saiu de sua barricada e correu gargalhando com vontade, o que fez Grace encher os olhos de lágrimas. Segui a passos firmes em direção ao menino que já se encontrava ao lado do seu gêmeo e, gentil porém firme, solicitei que ele devolvesse o diário da irmã. Ele já ia se fazer de desentendido novamente quando Andrew falou: - Devolva Matt. Veja como Grace tem lágrimas nos olhos. Matthew ficou desconcertado ao perceber a reação da irmã e, com um pedido de desculpas, devolveu o objeto roubado. Grace, ainda sentida, virou-lhe as costas irritada e seguiu para encontrar um novo esconderijo para seu melhor amigo. - Matt, meu irmão, que ato pouco cristão de sua parte roubar algo tão precioso para Grace justo em uma data tão significativa como a de hoje. Você pode ter arruinado a alegria dela sabia? - A voz de William surgiu por detrás do irmão. - Eu não queria que ela ficasse chateada. Estava apenas brincando. Ela nunca chorou antes. - Grace nunca teve 15 anos antes, Matt. Ela já não é mais a menininha que brincava conosco. - William continuou. - Eu não quero magoar a Grace... E também não quero que ela cresca! - concluiu emburrado. - Todos nós cresceremos Matt, quer você queira quer não. Daqui a alguns anos Grace encontrará o homem certo, irá casar e … - Grace? Casar? Nunca!- Os gêmeos falaram em uníssono, o que arrancou gargalhada da mãe que, saindo da biblioteca, deparou-se com a cena. - Sim, meus amores, sua irmã irá casar algum dia. - Ela disse. - Claro que isso acontecerá rapazes, mas não se preocupem, no que depender de mim ocorrerá somente depois que ela completar 30 ou 40 anos. - O pai falou com um irônico semblante sério. - Fitzwilliam?! Como pode falar assim? - A mulher retrucou severamente. Vendo que a situação ali estava sob controle afastei-me discretamente enquanto a conversa seguia entre lamentos e objeções e segui pelos salões admirando os convidados. - Jesus, isso não está ajudando! - Falei baixinho para Ele ouvir e ri da frase que ouvi: - É perfeito como é. Sim, Ele tinha razão. Em seu contexto, tudo ali era perfeito e familiar. Estranhamente familiar. Caminhei vagarosamente até a varanda, abri um pouco a porta e aspirei o ar frio, deixando que seu frescor tomasse conta de meus pulmões e expandisse por meu corpo, deixando-me com uma sensação de suave inércia. Após alguns poucos minutos, quando já não podia mais suportar o frio em meu interior, fechei a porta e voltei-me para contemplar o salão. Foi quando vi meu reflexo no espelho e percebi que, naquela perfeição que me rodeava, eu era a única que estava fora do contexto. “Como vim parar aqui?” - foi a pergunta óbvia que me fiz em seguida mas não consegui obter uma resposta convincente. Dei-me conta de que estava vestida com roupas de época, primorosamente penteada, adornada com finas jóias e absolutamente ignorante sobre qualquer fato anterior à visão de Darcy e Lizzy entrando na biblioteca. “Muito estranho.”, pensei enrugando a testa. Tudo me era familiar, em tudo eu me identificava, como se aquele ambiente fizesse parte de minha história. O ar me faltou por instantes ao perceber a pressão do espartilho que comprimia meu ventre e minha cintura. Ri nervosamente, confusa sobre aquilo, mas achando tudo incrivelmente instigante e curioso. Caminhei um pouco inquieta e, sem perceber, parei junto à porta principal. Foi quando o mordomo, Sr. Stewart, anunciou a chegada dos primeiros convidados além da família. Todos aproximaram-se com sorrisos, alguns espontâneos, outros falsos, enquanto eu, somente eu, permaneci estática ao ouvir os nomes: - Senhor Fitzwilliam Darcy, sua esposa Sra. Elizabeth Darcy e seus filhos, Margareth, Victory, William, Jonathan e Frank.*1 Meu coração disparou e senti as pernas tremerem. “Como assim?” A família entrou e me cumprimentou como a uma velha amiga. Devolvi as vênias e reverências, torcendo para meus joelhos não falharem. Busquei uma cadeira onde sentar no exato momento em que um garçom passava carregando uma bandeja com taças de vinho. Aceitei uma, agradecida pela coincidência, e dei um grande gole enquanto fechava os olhos e tentava assimilar aquele absurdo. Foi quando ouvi uma sucessão de convidados serem anunciados: - Sr. Fitzwilliam Darcy, sua esposa Sra. Elizabeth Darcy e sua filha Elenne. *2 - Sr. Fitzwilliam Darcy, sua esposa Sra. Elizabeth Darcy e seus filhos William, Sebastian e Sophie *3 - Sr. Fitzwilliam Darcy, sua esposa Sra. Elizabeth Darcy e suas filhas Jane e Cassandra. *4 - Sr. Fitzwilliam Darcy, sua esposa Sra. Elizabeth Darcy e seus filhos, Mark, Arthur e Anne. *5 - Desculpe Sr. Darcy. Não sabia que o senhor estava aqui. - Minha voz soou entrecortada mas ao menos este eu conhecia muito bem. - Não há o que desculpar Srta. Cruise. - Ele hesitou e continuou. - Seguia para a biblioteca? - Sim, mas não era nada urgente. Posso aguardar. - Eu não quis incomodá-lo com minha presença, embora a idéia de ficar em sua presença não me fosse exatamente desagradável. - Na verdade seria bom ter um pouco de sua companhia. Entre, por favor, e converse um pouco comigo. Obedeci. Ele me ofereceu uma cadeira e sentei imediatamente. A tontura havia passado. Estranhamente - ou não, não pude deixar de pensar - ele me acalmava. Seu semblante, porém, estava carregado. - O Senhor está bem? - Não resisti. De alguma forma eu o conhecia melhor do que qualquer um, melhor até mesmo que Lizzy. Escondi um sorriso de satisfação que surgiu com esse pensamento. - Estou um pouco incomodado essa noite. Permaneci em silêncio aguardando que continuasse. Ele se sentiu confiante e foi direto ao ponto, como era seu hábito. - Sabe, é estranho. Pela primeira vez tenho a sensação de que Pemberley não é somente minha. É como se ela pertencesse à várias pessoas ao mesmo tempo! - Ele abaixou o tom de voz com certa frustração e continuou. - Não sei se a Senhora me entende. Isso é muito surreal. - O Senhor nem imagina o quanto! - Sussurrei e elevando a voz, continuei. - Deve ser apenas a quantidade de pessoas que está aqui hoje Senhor Darcy. - Você reparou... - disse ele em tom de confidência, aproximando-se. - ...que existem vários casais aqui... - calou-se e não ousei pronunciar um som, receosa de como aquela conversa transcorreria se eu dissesse o que achava. Ele, então, balançou a cabeça e continuou: - Esqueça. Acho que ando me ocupando demais com os negócios. Vamos voltar para o salão pois Lizzy e as crianças devem estar precisando de nossa ajuda. - Disse desistindo, enfim. Abaixei a cabeça em consentimento, parte sedenta por dizer o que sentia e parte feliz por colocar um fim naquela conversa. Embora gostasse de imaginar que eu não era a única insana no local a confirmação de minha insanidade por outra pessoa era demais para mim. Voltamos ao salão e ousei encarar os presentes, ainda incerta se meus nervos aguentariam a provação. - Ok! Ainda estamos de pé. - Murmurei e olhei para cima. - É bom o Senhor me sustentar durante essa noite e espero sinceramente que não esteja rindo. A resposta foi bombástica: - Foi você quem pediu. Eu já ia retrucar mas um criado anunciou a chegada de um último conjunto de famílias e toda aquela profusão de nomes foi repetida pela enésima vez, porém algo diferente aconteceu. Todos os presentes silenciaram e se inclinaram demonstrando total honra e reverência por aquela família. Juntei as sobrancelhas, intrigada, quando então tudo se tornou límpido em minha mente. Todos os outros foram criados a partir daqueles. Eles eram os “originais”, o molde inicial, a fôrma base. Pensei na minha família, tentando encontrar a relação e me dei conta de que aquilo fazia sentido. Olhei-os imaginando uma curiosidade que constatei na verdade ser fascínio. Eles eram perfeitos. Cada um deles. Mesmo Caroline e Lady De Bourgh eram perfeitas em sua má vontade e Wickham, tive que admitir, era perfeito também fisicamente, sendo mais belo que Darcy. Seu caráter então surgiu em minha mente e sorri em triunfo pelo último. “Não. Ninguém é mais belo que Darcy.” Admirei-os enquanto entravam e, logo em seguida, um criado anunciou que a ceia seria servida. Todos tomaram seus lugares na mesas que preenchiam não somente um mas vários salões da mansão, sendo que a família original ocupou um local de destaque entre as outras e, na mesa mais próxima a deles, eu tomei meu lugar junto à minha família Darcy. “O” Darcy levantou-se. Todos silenciaram novamente. - Esta data é especial. Especial não por causa de seus presentes, ou de seus alimentos, ou mesmo pela reunião e reencontro das pessoas. Esta data é especial pois nela relembramos que fomos amados mais do que qualquer um de nós pode compreender. Ela é o memorial de que um menino nasceu, cresceu, viveu e morreu entre nós, por amor de nós. Antes dele o sacrifício para a expiação do pecado era de animais. Depois do Cordeiro de Deus, nenhum sacrifício de sangue mais é necessário, basta um coração arrependido. Ele veio para nos mostrar o quanto somos amados e que sempre, SEMPRE, há uma chance. Todas as manhãs as misericórdias são renovadas e todo o momento é hora de se arrepender. O nascimento de Jesus é um marco de esperança e fé. Fé em um destino melhor do que nosso mais perfeito sonho ou do que a mais dolorosa provação. E Esperança... Esperança de Deus em Sua criação. Esperança de Deus em nós. - Ele pausou. - Ele acreditou em nós e nos deu seu único filho. Está somente em nossas mãos, agora, acreditar n'Ele. Louvemos então, nessa noite gloriosa, o Seu Amor por nós e que este Amor nos preencha de forma tão definitiva que possamos espalhá-lo entre nós e onde quer que formos. - Ai meu Deus, - supliquei - então é real. Eu estou louca! Será que isso é um sanatório e eu estou tendo uma crise psicótica? Permaneci ali, congelando enquanto percorria de um lado para o outro o comprimento da varanda, até que o medo me abandonasse. Percebi então o momento raro que estava presenciando e analisei com mais calma minhas chances. “Bem, se estou louca então porque não aproveitar?” pensei com um sorriso. Voltei para o salão e, enfim, comecei a agir como se conhecesse a todos de longa data. Fiquei surpresa ao constatar que algumas de suas histórias, de fato, me eram familiares e me diverti muito brincando com as crianças. Em determinado momento vislumbrei a minha família Darcy junto ao piano, com Andrew e Grace tocando primorosamente uma suave melodia enquanto William, Mathew, Darcy e Lizzy se deliciavam ao redor deles, todos sorrindo enquanto me observavam, inclusive Darcy que parecia, como eu, ter decidido aproveitar a noite. Devolvi o sorriso e permaneci interagindo com todas aquelas outras formas de se reescrever uma estória até me aproximar deles. O clima agradável de paz nos envolveu e Lizzy, aproximando-se mais de mim, disse piscando maliciosamente o olho: - Aproveite querida. Será assim até o Ano Novo e ainda temos muito a fazer até lá! Me pareceu que ela sabia exatamente sobre o que falava. Sorri, satisfeita com a possibilidade.
*** FIM DA PARTE 1 ***
Nota: A família Darcy, Lizzie, Grace, William, Andrew e Matthew faz parte da oFanfiction Aliança, de minha autoria. As outras famílias citadas no conto fazem parte de:
*1 - Fanfiction: Um Herdeiro Para Pemberley - Autora: Helena *2 - Fanfiction: Uma Segunda Chance - Autora: Fátima *3 - Fanfiction: Armações do Destino - Autora: Mirian *4 - Fanfiction: Filhos, Problemas... - Autora: Julia *5 - Fanfiction: As Quatro Estações - Autora: Mari |
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