Ballade no. 1
Esta a noite cheguei em casa, cansada, doida por um banho, uma rede e um bom livro. Nada me seria mais agradável do que isso. O barulho da chuva do lado de fora, a luminária me permitindo mergulhar com clareza nas palavras, sentir a estória tomando conta de mim e, porque não, saborear um bom vinho africano. Isso, claro, se eu ao menos me lembrasse do nome daquele vinho maravilhoso que provei com Luis, um caro amigo dos tempos da faculdade. Nos encontramos em uma reunião na casa de uma amiga comum. Ele havia levado o tal vinho. Provei e nunca mais esqueci o gosto encorpado que me anestesiou sem me tirar o chão. Talvez perfeito demais para a minha realidade atual – Luis e o vinho.
Mas voltando ao sonho de uma noite de leitura, abri a porta e eles correram em minha direção com os braçinhos abertos, ansiando por minha atenção. Não se iludam. Estou falando deles mesmos: os meus filhos. Correram os quatro – sim você leu direito, são quatro mesmo - sedentos e ansiosos pela atenção daquela que nenhum outro ser humano será capaz de substituir: a mamãe. Não me presumam arrogante ao dizer isso, mas toda – eu disse TODA – criança que convive com uma mãe que se permite ser mãe fará isso ao vê-la entrar pela porta após um longo dia de ausência. E eu sou uma dessas mães que assume as alegrias e sofrimentos do oficio, portanto, não poderia ser diferente. Por isso e provavelmente por mais que isso (talvez por genética, instinto, desespero de causa ou qualquer outra coisa que por vezes eu adoraria que não existisse) não existe papai, vovó, vovô, titia nem babá que faça com que eles não me busquem primeiro sempre que estou por perto.
Entrei e me ajoelhei, tentando preservar intacta ao ataque a bolsa do notebook e manter o equilíbrio ao mesmo tempo, enquanto eles se jogavam sobre minhas pernas e meus braços.
"Ok. Ok. Agora deixem a mamãe chegar direito e já venho falar com vocês."
É preciso entender que garotas de 6 anos e garotos de 5 já tem uma certa noção desse comando. Já os pequenos gêmeos de 3 ignoram-o completamente. Assim, fui perseguida por dois pontos loiros até meu quarto onde coloquei sobre a cama as duas pesadas bolsas. Passei os olhos rapidamente pela rede enrolada e pendurada no suporte e pela pilha de livros por ser lida próxima a ela. Suspirei e, voltando-me para aqueles quatro olhinhos azuis sedentos, disse:
"Quem já jantou e comeu todo o “papá”?"
Eles saltitaram gritando “Eu, eu, eu” a plenos pulmões para em seguida começarem a falar, os dois ao mesmo tempo, tudo o que haviam feito de certo, de errado, as novidades da escolinha, quem havia feito malcriação, enfim, um histórico completo das alegrias e travessuras do dia. Olhei para a babá com complacência e a agradeci silenciosamente pela ajuda, como em todas as noites. Ela me retribuiu com um sorriso exausto e se recolheu para hibernar, como em todas as noites.
Não posso reclamar. Minha babá é meu braço direito e esquerdo. Quem em sã consciência aceita cuidar de quatro crianças até eu poder estar de volta do trabalho, às vezes tão tarde que os pequenos já dormem? Eu poderia até ponderar que eles estão na escola pela manhã - onde aqueles anjos em forma de santas se dedicam conscientemente a instruí-los naquilo que não podemos fazer em casa, o que para mim já seria suficiente para lhes assegurar uma passagem se escalas para o Paraíso – mas cuidar de quatro crianças ao mesmo tempo é coisa para quem tem “ser mãe” por ofício.
Imagino que quem me lê assim deve imaginar que acredito que crianças dão muito trabalho, são trelosas, difíceis, custosas. Bem, há momentos em que elas são tudo isso sim, mas eu não acredito que elas sejam assim a maior parte do tempo, portanto quem imaginou essa possibilidade errou. Eu realmente amo meus filhos e me divirto muito com eles. Eles encheram de reflexões o meu dia. Mas quem é pai ou mãe sabe que às vezes dá vontade de colocar “pausa” no controle remoto de Deus e tirar umas férias. Praia... campo... cachoeira... ou simplesmente uma rede, um livro e um bom vinho africano. Meu terapeuta diria... bem... na verdade, ele não diria muito. Ele não é de falar muito sobre as decisões que eu tenho que tomar. Coisa de psicanalista. Eu às vezes quero mandar ele a merda (desculpem, mas não tem outra palavra). Meu autocontrole, porém, não me permite isso tantas vezes quanto gostaria. Em todo caso, eu, em uma sessão de análise qualquer, chegaria a conclusão de que preciso organizar melhor o meu tempo, minha vida, minhas prioridades. Humm. Fácil pensar. Difícil fazer.
Ah, e claro, ainda existe ele – o marido.
Sim, aquele que fazia o coração palpitar, a boca secar, a mão tremer... bem, 19 anos juntos é tempo suficiente para que esses sintomas não aconteçam mais. Verdade... o olhar dele não me paga uma passagem de ida e volta sem escalas até a Lua como já o fez. Nem fico buscando trilhas sonoras para nossos encontros ou mesmo sonhando com uma cena romântica, num lugar paradisíaco – Pemberley, provavelmente. Ele seria Mr. Darcy - lindo, rico, orgulhoso, preconceituoso, carinhoso, ardentemente apaixonado e, provavelmente para minha plena satisfação, um pouco tarado. Eu seria Lizzy – com uma beleza muito além do que tolerante, espadas na língua, segurança, firmeza de caráter, coragem, ousadia, orgulhosa, preconceituosa e perdidamente apaixonada.
O lance é que a vida muda suas prioridades e nossas expectativas vão com a mudança. Isso não é ruim, só muda toda a forma de se ver as coisas. Se minha editora não fosse tão insuportavelmente Caroline Bingley ela perceberia isso e veria que a minha falta de inspiração não vem da falta de experiência, mas sim do fato de que eu, agora, sou mãe e esposa e se torna completamente impossível se escrever mais do que duas páginas em casa sem ser interrompida por um “mamãe” ou por um “Meu bem...”. Mas, como diria Jane Bennet: “Ela tem lá seus problemas também.”
O fato inquestionável é que tenho uma data limite para a conclusão do meu livro, ou seja, preciso de inspiração a qualquer custo. Não posso simplesmente abandonar Anne à própria sorte. Ela não merece. Já lhe basta ter os parentes que tem. Sério, se eles não fossem tão fundamentais à estória eu já teria feito um “personagencídio”. Pobre Anne. Como lhe trazer o amor que merece? E como fazer com que tudo se encaixe? Se eu não conseguir mapear a trama muito bem vai ficar confuso... a não ser que... sim... quem sabe se...
“Mamããããããããããeeee...”
Tentei conter a irritação.
“O QUE É?????”
“Você ainda não orou com a gente?!”
Tentei conter o sentimento de culpa profunda e segui para uma pausa de dez minutos. Na volta suspirei.
“Onde eu estava mesmo??? Era sobre Anne... o que era mesmo... Ah! (suspiro), perdi. Estava bem aqui, bem aqui. Tinha a ver com uma volta... Isso, ele volta... e daí...”
“Boa noite meu bem!”
Foi impossível conter a minha cara de choro.
“Boa noite? BOA NOITE! Só se eu conseguir concluir essa linha de raciocínio sem que alguém me interrompa!”
“Estava escrevendo? Hummmm... deixa eu ver... é sobre aquela mulher? Como é o nome dela mesmo...”
Soprei por entre os dentes.
“ANNE”
“Isso mesmo meu bem. Obrigado. A Anne... e aí? Já decidiu como ela vai reencontrar o amor?”
“É exatamente o que eu estou tentando fazer, se eu conseguir ter um momento de silencio e quietude. Por favor, dê atenção às crianças por mim caso elas me chamem... por favoooooorrrrrr.”
“Claro. Fique tranquila que eu tomo conta de tudo.”
Ele selou minha testa com um beijo.
“Ah, até que enfim vou ter paz. Às vezes eu gostaria de ter sido uma solteirona no século XVII. Deveria ser bem mais fácil: sem pressão da editora em ser um best-seller, sem concorrência... Bem, como era mesmo... sim, Anne reencontra o amor. Mas eles não podem se unir assim, sem mais nem menos. Uma carta! Claro! Tem que ter uma carta!”
“Meu bem, você ...”
“Ahhhhhhhhh. SERÁ QUE...”
“Hey, desculpe. Eu só vim lhe trazer uma taça de vinho. Ainda não descobri o Africano, mas esse é dos melhores Chilenos. Prometo que dessa vez vou deixá-la quieta. Não gosto de vê-la entre a angústia e a esperança. ”
Ele pousou a taça ao lado no notebook e tentou me acalmar com outro beijo na testa, enquanto eu, com olhar de espanto, sussurro:
“Angústia e esperança!!! A carta...”
“Só mais uma coisa.”
“Sim!”
“ Darcy e Lizzy...”
Voltei à realidade e fitei-o.
“O que tem Darcy e Lizzy?”
“Falta algo no final. Um diálogo que mostre como seria o relacionamento deles a partir de então.”
Arregalei os olhos.
“Sim. Sim. Claro!”
“E, bem, é apenas uma sugestão: Orgulho e Preconceito seria um bom título.”
Permaneçi em silêncio meditativo.
“Espero que tenha boas idéias e inspirações. Boa noite, Jane.”
“Espere!”
Corri até ele e lhe dei um beijo terno.
“Boa noite Tom. Obrigada. Por tudo.”
“Você vai finalmente assinar Jane Lefroy?”
“Jane Austen é muito mais sonoro Tom. Além do mais não estamos no século XVII para que eu tenha que usar o seu sobrenome em tudo.”
Falei com um sorriso triunfante.
“Eu ia gostar...”
“Tom...”
“Tá, não se pode ter tudo. Se precisar de mim estarei no escritório estudando um caso de persuasão.”
“Persuasão!!!!”
A chuva continuava a cair. A pilha de livros estava no mesmo lugar. Mas, agora, meus filhos dormiam e meu marido havia me ajudado a encontrar definitivamente a inspiração. A taça de vinho ficou parcialmente esquecida. Tudo silenciou quando comecei a dialogar com meus personagens.
FIM.
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