CAPÍTULO 16
A notícia da gravidez de Caroline caiu como uma bomba na família Darcy e Bennet.
Anthony e Anna não sabiam exatamente o que sentir: estavam felizes pelo fato de se tornarem avós, mas arrasados em ver o filho naquele estado.
Logo após a conversa com Lizzie ele chegou em casa extremamente alterado.
Seu pai precisou contê-lo pelo seu acesso de fúria e tristeza. Willian havia quebrado quase o quarto inteiro. Esmurrava e chutava a porta, a cama. Anthony segurou-o com força e o abraçou sentindo a dor do filho ao ver as grossas e pesadas lágrimas saindo dos olhos azuis.
Há dias Elizabeth se recusava a falar com ele. Não estava preparada ainda para o teor da conversa que teriam. Sabia que aquilo não era certo: deixá-lo sofrendo sem uma resposta, sem uma posição dela, mas ela não sabia bem o que fazer, o que dizer. A história parecia estar se repetindo de novo: quando tudo parecia tranqüilo, em paz, algum problema aparecia para separá-los. Agora que ela tinha certeza que eles seriam felizes, que iam estar juntos sempre, que formariam a sua família e morariam na casa bege que ele havia comprado...
Seu pai, sua mãe e Georgiana estavam dando total apoio a Darcy e ficariam ao seu lado independente de qualquer decisão que ele resolvesse tomar. Darcy e os pais ainda não tinham sentado para um conversa séria. Ele ainda não conseguia raciocinar direito. Caroline agora teria o acompanhamento do melhor médico de Londres, que também era um amigo da família. Anna tratou de logo marcar uma consulta para saber da saúde do neto.
Anthony estava feliz por se tornar avô, mas sentia que precisava conversar com o filho sobre um assunto complicado: seria mesmo Willian o pai? Os dois haviam terminado o noivado e passaram 2 meses separados...Era um homem vivido e sabia que mulheres dissimuladas e perdidas estavam em todas as classe sociais, apesar de Caroline não aparentar ser assim e vir de uma família rica e tradicional...Ia esperar as coisas de acalmarem para conversar com o filho.
Tudo parecia estar em “suspenso”.
O ar da casa estava pesado. O filho mal dormia. Parecia um zumbi pela casa pensando em Elizabeth e depois no filho que teria. Darcy sentia no peito uma alegria suprema, imaginando que em alguns meses seu filhinho estaria em seus braços, com suas mãos miúdas e delicadas, mas seu coração era implodido em pensar que não seria a “sua” Lizzie que estaria segurando aquela criança. Que não seria ela quem ele levaria para casa com seu filho nos braços, não seria os olhos castanhos cor de madeira que iriam chorar com a emoção do nascimento daquela criança.
Os Bennet estavam ainda incrédulos com a notícia. Lizzie estava há dias em casa, zanzando de um lado para o outro ou então deitada dormindo ou chorando por horas.
Recusava-se a falar com Darcy que ia em seu apartamento pedir para que conversassem. Ela ainda não sabia o que ia fazer: não sabia se gritava, se chorava, se caía na cama, se ia para o trabalho, se comia, se respirava...
Seguiria um relacionamento com ele, mesmo sabendo que sua noiva (ou ex) estava grávida, que ele vinha de um noivado sério, com casamento praticamente marcado? Terminaria tudo e ficaria com sua consciência tranqüila sabendo que não separou um casal que se casaria naquele ano, que vinha de um relacionamento estável, de mais de um ano e que agora esperava um filho, fruto de um amor anterior?
Jane dava-lhe todo o apoio e havia pedido alguns dias de férias para que pudesse ficar com a irmã.
Alheia a tudo isso, Caroline via-se cada vez mais feliz e realizada em saber que os dois estavam cada vez mais separados. Queria que seu filho fosse um grande herdeiro e estava decidida a se casar com Willian. Mesmo sem amá-lo, ela sabia que poderia ter muito conforto para ela e para o filho. Procurava-o todos os dias tentando jogar seu charme, forçando que pegasse em sua barriga, inventava desejos, mas ele só pensava nela, na “sua” Lizzie. Estava hospedada na casa do primo, mas fazia visitas diárias aos Darcy como se nada estivesse acontecendo.
-Mas, Excelência...
-Srta. Mary Bennet ! Está decidido. A audiência está suspensa devido ao pedido do novo promotor que está no caso, Sr...
-Certo, Excelência!! Já entendi!
A audiência foi finalizada e Mary saiu correndo pegando sua bolsa.
-Excelência, me desculpe – o novo promotor se aproximou do juiz – o senhor disse “Mary Bennet”??
-Sim. Não se preocupe. Ela é um pouco agressiva assim, mas é só aqui no Tribunal. É um doce de menina e até meio tímida, quieta do lado de fora. É filha de um grande amigo meu, Thomas...
O magistrado não teve tempo de terminar a frase, pois o homem que havia lhe pedido a informação havia saído correndo atrás da advogada.
-AHHH!!!Que homem mais...mais...hunf! Vou ter um surto de raiva!
Mary empurrava com força a porta da sala de audiências e andava a passos largos pelos corredores do Palácio da Justiça. O scarpin preto batia com força pelo chão e ela ajeitava o terno bufando.
- Quem ele pensa que é? Acabou de entrar no processo e me trata desse jeito? Ahn...mas isso não fica assim!!Não fica mesmo!!
Ela sussurrava palavrões e seguia com cara de poucos amigos quando ouviu alguém lhe chamar
-Srta. Mary!!Srta. Mary Bennet!
Ela virou o pescoço e viu justamente o homem. Alto, com cabelos e olhos castanhos, com aproximadamente 30 anos. Seu rosto era familiar, mas depois da audiência que acabara de ter, não pensava em mais nada. Apenas sentia raiva dele que estragara sua audiência, entrando em seu caso e já fazendo exigências e fazendo comentários que ela não havia gostado. Seu passo ficou mais apressado. Definitivamente, ele era a última pessoa que ela queria ver na sua frente!
Quando deu por si ele estava ao seu lado ofegante, como se tivesse corrido para alcançá-la.
-Srta. Mary, por favor, eu não tive a chance de me apresentar, mas é que eu não a reconheci. Só vi quem de fato você era no final da audiência, quando o juiz pronunciou seu sobrenome e se tivesse esperado um pouco, se lembraria de mim.
Ela não parou de andar e seguia como se não o tivesse ouvindo.
-Mary!!Por favor!Sou eu! Não se lembra de mim?
Ela o conhecia? Aquele rosto era familiar, mas ela realmente não se lembrava exatamente da onde o conhecia. Parou e olhou-o com um ar de desdém.
-Não sei da onde o “senhor-novo-promotor-do-meu-caso” me conhece. E se me conhecia, qual o motivo de ter sido tão desnecessariamente sarcástico comigo? O senhor praticamente me mandou voltar para o colégio e vestir fraldas!
-Me desculpe! Por favor! Foi um grande erro. É que eu acabo usando essas artimanhas, mas vejo que lá dentro isso não funcionou com você. Somos amigos, mas eu realmente não te reconheci! Você está tão mudada! Está com quantos anos? Vinte e quatro, vinte e cinco? Não posso acreditar que é a mesma Mary que vivia pelos cantos da casa estudando, lendo, que nunca saía e só sabia falar de livros...Você era muito comedida, retraída e agora na audiência você estava...
-Ahn...não se engane...anos de prática com o meu pai. Mas foi difícil perder aquele meu jeito! Desde o primeiro ano da faculdade que eu....EI!!!Espere!!! Da onde o senhor me conhece? Como sabe como eu era mais nova?
O homem apenas riu.
- Você realmente não se lembra de mim, mas é totalmente compreensível. Com certeza, há mais de 8 anos que eu não te vejo! Eu sabia que era advogada, mas não sabia que já estava tão atuante e ficado tão bonita...
- O senhor está dizendo que eu era feia? Que ótimo!Além de quase me humilhar na frente do juiz, também quer me insultar aqui do lado de fora! Que maravilha! Meu dia hoje está ótimo com o senhor! – disse ela sarcástica
Virou-se saindo com mais raiva. Sentiu que o homem segurou seu braço, logo acima do cotovelo.
-Espere! Me desculpe! É que para mim, você ainda era uma garotinha...a última lembrança que tenho de você é como uma adolescente franzina que vivia lendo pela casa e só falava de livros. Você me deu um apelido com o meu sobrenome. Eu não desgrudava do meu primo e vivia com um casaco que imitava o colete do exército e você só me chamava de Coro..
-Coronel Fitzwillian!!Oh!!Richard, é mesmo você? Meu Deus, me desculpe! Não sabia que tinha se tornado promotor! – disse ela levando uma das mãos na testa.
Ele se aproximou e lhe deu um abraço.
-Não tem problema algum. Eu também não te reconheci! Faz tanto tempo que não vejo você ou suas irmãs! Você já é uma mulher...está tão mudada...
-Ahn...que isso!Continuo a mesma Mary de sempre só que agora preciso ser mais... mais agressiva no meu trabalho. Mas continuo lendo muito e caseira como sempre. – ela disse sorrindo.
- Encontrei com meu tio e meu primo Willian semana retrasada e me disse que ele e Lizzie voltaram mais forte do que antes! Que a coisa agora está super séria! Fiquei muito feliz com a notícia. Eu sempre me dei muito bem com a sua irmã.
-Ih, Richard...acho que você ainda não sabe das “novidades”...
-Novidades? Que novidades?
-É uma longa história. A ex-noiva ou noiva, sei lá, do Darcy voltou e...
- Mary, desculpe interromper, masjá passa das duas da tarde. Você não quer almoçar comigo? Conversamos sobre os últimos acontecimentos...sobre você, sobre o que tem feito...
-Claro! Vamos sim!
Os dois seguiam pelos corredores conversando animadamente e Mary sem perceber que alguns olhares de admiração eram lançados em sua direção...
-Mary, me desculpe se estou sendo repetitivo, mas você está tão mudada...
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Willian não agüentava mais: precisava conversar com Elizabeth. Como fazia nos últimos 4 dias, foi até o apartamento das irmãs, mas Jane não deixou que ele entrasse. Lizzie ainda não se sentia preparada para conversar com ele sobre isso, mas sabia que não podia ficar postergando a conversa que teriam.
- Jane – ele batia na porta com força com os punhos fechados - você sabe que a sua irmã é a mulher da minha vida. Sou louco por ela e preciso que me escute.
- Willian, por favor, volte outro dia. – respondia ela segurando a porta com força - Ela não quer ver você ainda. Espere mais um pouco. Não sabe como me dói ver minha irmã e meu melhor amigo sofrendo assim...
- Jane, eu amo você como minha irmã. Nos conhecemos desde que nascemos e você sabe do que eu sou capaz: se você não abrir essa porta eu juro que irei arrombá-la!
Ela não sabia o que fazer. Foi surpreendida pela voz de Lizzie:
- Jane, deixe-o entrar - disse Lizzie ao lado da irmã que segurava a porta e que ainda não tinha visto a sua presença.
Elizabeth tinha ouvido os gritos de Darcy na sua porta. Desceu com sua calça de moletom surrada, um casaco azul escuro e seus chinelos. Sua aparência não era das melhores e apresentava os olhos inchados pelo choro e olheiras profundas pelas noites insones.
Jane olhou para a irmã e abriu a porta. Olhou para o amigo, subiu para seu quarto e logo pegou seu celular: ia ligar para Charles porque Darcy não parecia nada bem e pelo teor da conversa que teria com sua irmã, as coisas iam piorar. Ela já sabia o que Lizzie iria dizer e a apoiou na decisão que tomara.
- Lizzie.... – Darcy entrou e foi logo abraçando-a.
Elizabeth não sabia bem o que sentir. Havia pensado dias sobre o que faria de sua vida. Amava Willian, mas antes dela, ele havia tido uma história com outra pessoa, apaixonou-se por Caroline, ficou com ela por mais de um ano e ainda tinha lhe pedido em casamento! Tinham sido noivos por meses e pretendiam se casar. Agora estavam esperando um filho. Um filho que havia sido gerado do amor dos dois, meses atrás...
[i]“ Não posso entrar na vida de um casal e em menos de dois meses mudar tudo, colocar o mundo de cabeça para baixo, ainda mais agora que estão esperando um filho juntos...isso não seria justo com eles e com essa criança”[/i]
- Lizzie, por favor, me ouça. Nós vamos ficar juntos. Eu amo você, apenas você... – ele olhava fixamente para ela – Isso é uma fase ruim e eu sei que vai passar. Vamos ficar juntos, não vamos terminar...
Ele dizia e redizia essas palavras. Não podia imaginar sua vida agora sem ela e precisava acreditar que nada de mal iria acontecer entre os dois.
- Willian, me ouça... – ela respirou fundo tentando tirar forças da onde não tinha – estamos juntos há um mês e meio. Apenas um mês e meio. Mesmo sabendo que nossa história foi linda, perfeita, não posso, não devo, me permitir ficar entre você e Caroline. Vocês estavam juntos há um bom tempo, mais de um ano, e pretendiam se casar nos próximos meses... – sentiu sua força acabar e começou a chorar. Respirou novamente e continuou em meio às lágrimas.
- ...e agora terão um filho juntos. Um filho, um bebê, uma criança que foi concebida quando vocês eram noivos. Noivos! Iam se casar, ter uma casa, uma família. Eu cheguei agora nessa história, nesse hiato que momentaneamente separou vocês e gerou um grande mal entendido. Não posso chegar agora e com um mês e meio mudar tudo isso, todos os planos que vocês haviam feito juntos. Não é Caroline a estranha na relação...eu sou essa pessoa...essa “estranha” que apareceu do nada e está criando um problema para vocês que, com certeza, tinham planos e estavam apaixonados, já eram um casal antes de eu chegar. Iam se casar, ter uma família, um lar...e agora vão ter um filho!
- Lizzie, nunca mais diga isso. – abraçou-a com força, mas ela não o fazia de volta. – Eu amo você e não me interessa o que eu tive antes com ela.
- Willian, por favor...
- Você é a mulher da minha vida. Muito, muito, muito antes de Caroline, você já estava no meu coração. Nós apenas retomamos o que não devíamos ter parado! Por favor, Lizzie, não faça isso com a gente. Eu já te disse que eu darei toda a assistência à Caroline e ao meu filho que vai nascer, mas que não vou deixá-la. Eu já desisti de nós dois uma vez e eu não vou fazer isso de novo e não posso deixar que agora você desista da gente, da nossa relação.
Abraçou-a de novo com intensidade, mas não sentia que ela fazia o mesmo. Os braços e mãos dela estavam parados, sem reação. Ela saiu do abraço e passou a olhar para ele.
- Willian, me diga, como será então? Pelo que eu pude perceber sua noiva ou ex-noiva, não sei, parece ser uma pessoa bem difícil. Acha mesmo que ela vai seguir tranquilamente a vida dela sem ir atrás de você e com seu filho nos braços? Acha que será fácil?
- Lizzie, eu sei que não vai ser fácil, mas...
-Darcy, vocês estavam noivos! Noivos! Noivos! Iam se casar e agora terão um filho! Um filho! Um bebê! As coisas seguiram o caminho natural que um casal planeja: namoro, casamento, filhos...Eu sou uma estranha nisso tudo, uma estranha que você evitou por oito anos! Oito anos! Oito, oito, oito anos! Não posso voltar e em pouco tempo destruir tudo isso! Como acha que vou encarar minha consciência sabendo que separei duas pessoas que iam se casar em alguns meses e agora terão ter um filho? Me diga? Como vai ficar a minha consciência?
-Lizzie, não faça isso...
- Willian... – as lágrimas densas caíam - eu já fiz....
Lizzie rumou decidida na direção da porta. Abriu-a e olhou para ele.
Darcy estava incrédulo. Seu coração havia sido partido em um milhão de pedaços. Sentiu o nó na garganta se formando. Seus olhos azuis estavam embaçados pelas lágrimas. Respirou fundo, saiu pela porta e não olhou para trás.
Willian foi amparado por Charles, que havia sido avisado por Jane que ele estaria lá, e o viu saindo desorientado do apartamento. Lizzie foi ajudada pela irmã. Até então, aquele havia sido o pior dia de suas vidas.
Willian não conseguia pensar em absolutamente nada. Estava sem rumo, sem chão. Todos os seus planos de vida, seus sonhos, suas expectativas, haviam sido destruídas.
[i]“ Como vou seguir com minha vida?”[/i] - Esse era o pensamento na cabeça dos dois.














