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Eu poderia facilmente perdoar o orgulho dele, se não tivesse mortificado o meu.(Jane Austen)

Home Juliana Batalha Quando, quando, quando,... Capítulo 7
Quando, quando, quando,... Capítulo 7 PDF Imprimir E-mail
Escrito por Juliana   
Ter, 01 de Setembro de 2009 01:21

CAPÍTULO 7

 

Os Darcy finalmente estavam em Londres. Iriam permanecer na casa que moraram antes de sair da cidade e que havia ficado sob os cuidados dos criados. Anna, uma mulher madura, muito bem vestida, com 50 e poucos anos e com olhos azuis mais claros que os de seu filho mais velho. Tinha os cabelos escuros, pele clara e um sorriso fácil. Essa era sua principal característica: seu bom humor e sua alegria. Já seu marido, Anthony, com seus 60 e poucos anos era um homem muito bonito, mas sempre carregava um semblante sério, apesar de ser extremamente amoroso e tranqüilo com seus familiares e amigos mais próximos. Os anos de diplomacia e suas reuniões que mudavam os rumos de países inteiros acentuaram essa sua característica. Era um homem correto, sempre transparecia concentração, controle e era muito bem articulado.

Georgiana era a filha caçula do casal, que não esperava ter mais filhos após o nascimento de Willian. Isso acabou se refletindo na diferença de idade dos irmãos. Agora ela estava no auge dos seus 16 anos e Darcy com 28. Era uma aluna muito aplicada e, quando mais nova, imitava sua amiga Lizzie em tudo, talvez porque fosse a pessoa com quem ela mais de identificava.

Aos 4 anos começou a tocar piano sob influência de Elizabeth que ficava praticando em sua frente. Era uma eximia musicista, mas seu sonho de carreira era o mesmo de Lizzie: ser médica. Ainda não sabia exatamente o que faria, mas tinha essa idéia fixa na cabeça. Lembrava-se de Elizabeth brincando com ela fingindo dar choques cardíacos em Willian e de como ele se fingia de morto para que ela pudesse examinar o irmão. Durante os anos que passou fora, ligava para Elizabeth para saber como estava a faculdade, o que estava aprendendo, como era examinar um paciente.

- E então, meu filho, como foi o encontro com os Bennet ontem? Soube que vocês encontraram Jane e Lizzie em uma boate no dia anterior. Como foi que isso aconteceu? – perguntou Sra. Darcy.

- Foi bom, mamãe. Muito divertido e uma enorme coincidência termos nos encontrado com elas...

Na verdade, sua mãe estava querendo saber como foi rever Elizabeth. Conhecia muito bem o filho e, apesar de ele nunca tocar em assuntos de mulheres, sabia de tudo que os dois haviam passado e de como seu filho ficou durante os anos de separação. Culpava-se às vezes por não ter incentivado a relação dos dois após deixarem sua cidade, pois sentia que o filho tinha um carinho imensurável pela ex-nora.

- E meu amigo Thomas, como está? Já liguei para ele avisando que já chegamos e estamos em casa. Vamos todos sair para jantar hoje. Vai ser ótimo!

Willian não sabia o que responder. Ia sair com Lizzie naquela noite, mas achava cedo demais contar tudo aos seus pais.

- Pai, quem sabe outro dia? Vou ficar o dia todo na empresa e, além disso, almocei ontem com eles. Já pude conversar bastante ontem. Provavelmente estarei muito cansado e rabugento, o senhor me conhece. Aliás, estou atrasado. Mais tarde nos falamos.

Willian saiu da sala da mansão rumando para o escritório junto com Charles que começaria a trabalhar na empresa. Estava animado com o trabalho e também com a noite que viria...

 

 


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Lizzie quase não dormiu e passou horas conversando com Jane.
Acordou cedo, viu o dia surgindo e foi se arrumar para o trabalho. Colocou sua calça social preta, uma camisa de botão azul e seu scarpin. Passaria o dia atendendo pacientes e sempre gostava de estar arrumada. Pegou seu jaleco, chamou Jane e as duas saíram para seus respectivos trabalhos. Eram oito horas da manha e ela já pensava onde e com quem estaria às oito horas da noite daquele mesmo dia. Sua irmã sabia que ela sairia com Darcy e, naquela mesma noite, ela sairia com Charles.

-Lizzie, o que você acha de sairmos todos juntos hoje? Ligue para o Willian e explique que Bingley me chamou para sair de novo. Podemos ir juntos. O que acha?

- É verdade, Jane. Farei isso mais tarde.

[i] “Acho até melhor nós não sairmos sozinhos...”[i/]

 

 

 

O relógio marcava 11:48.

Lizzie havia passado a manhã inteira atendendo pacientes e pensando no beijo da noite anterior. Ainda podia sentir o gosto e o toque da boca dele na sua.

Precisou ter muita força para não perder sua concentração inúmeras vezes.

-Preciso pensar muito bem no que farei, preciso ir com calma...

Ouviu duas batidas na porta e logo viu sua secretária adentrar no consultório com uma ficha na mão.

-Dra., me desculpe, mas acabou de chegar um paciente. Ele não tinha hora marcada, mas disse que é uma emergência.

- Nossa, uma emergência? Mande-o entrar, sra. White. Irei atendê-lo.

Sua secretária saiu com um sorriso no canto dos lábios. Lizzie estava sentada e de cabeça baixa verificando alguns exames e realizando algumas anotações.

-Espero não estar atrapalhando, Dra. Elizabeth Bennet.

Ouviu aquela voz de novo. Não era possível. Levantou seu rosto com as mãos ainda paradas sobre a mesa. Era ele.

Estava sorrindo de forma brincalhona e com um pequeno arranjo de flores na mão. Ela começou a sorrir sem graça e ficou surpresa ao vê-lo parado ali, em seu consultório com seu terno escuro e seu cabelo levemente despenteado. Estava incrivelmente lindo.

- Darcy! Não esperava vê-lo aqui tão cedo. Aconteceu alguma coisa? – levantou-se de sua mesa e foi ao seu encontro.

- Aconteceu sim. – disse em tom sério - Não consegui parar de pensar em você nem por um minuto e resolvi vir até aqui para te ver.

Ele estendeu as flores dando um belo sorriso. Elizabeth viu o lindo arranjo de flores do campo e colocou-as em cima de sua mesa ajeitando as flores e logo virando novamente. Estava feliz de vê-lo ali, mas não sabia o que fazer.

[i]“Devo dar um beijo no rosto, um abraço, um aperto de mão? O que devo fazer?” [i/]

Darcy foi em sua direção e definitivamente acabou com sua dúvida. Colocou suas mãos em seu rosto e começou a beijá-la. Cada beijo levava à outro beijo. Suas bocas não se largavam e cada vez que ela colocava as mãos nas costas dele ou nos seus cabelos curtos e escuros, ele respondia explorando mais o seu rosto e sua nuca com a ponta dos dedos. Ele segurava em seu cabelo e em seus ombros, sem parar o movimento que fazia com sua boca.

Ele interrompeu o beijo e disse baixo com sua voz grossa e rouca em seu ouvido:

- Da próxima vez que nos encontrarmos, é assim que eu quero que você venha falar comigo.

E voltou ao beijo.

 

 

Jane e Charles tinham saído para almoçar naquele mesmo dia. Ela havia passado no novo trabalho do engenheiro e seguiram para um restaurante próximo.

Ele estava hipnotizado.

Pediram um vinho leve e começaram a conversar sobre o encontro da noite anterior. Jane preferiu não tocar no assunto de Darcy e Lizzie porque não tinha noção do quanto Charles sabia da história. Além disso, Caroline era sua prima, apesar de ele ter declarado abertamente que era mais próximo dos Darcy do que de seus próprios tios, pais dela.

Conversaram muito e riram bastante, mas quase discutiram quando Charles se recusou a deixar que ela pagasse metade da conta. Ele estava ali com ela. Isso era impagável e se dependesse dele, ela nunca mais pagaria um centavo de conta nenhuma.

Deixaram o restaurante e seguiram para o carro de Jane. Ele ainda andava com um pouco de dificuldade e não queria dirigir.

Chegaram ao estacionamento e Jane foi abrir o carro encaixando a chave, mas viu-se impedida por um braço estendido na sua frente, segurando a porta.

-Jane, você já deve ter percebido que sou um tanto quanto....um tanto quanto...

-Espontâneo? Carinhoso?

- Bem, eu ia dizer atrapalhado! – ele deu um leve sorriso -  Tentarei não estragar tudo.... - ele olhava para os lados e procurava as palavras  -  é que...bem... você sabe que desde que te vi sábado no parque não paro de te admirar e de pensar em você. Se eu pudesse ligaria mil vezes para o seu celular durante o dia para ouvir sua voz, saber o que você está fazendo, mas fico me policiando para não fazer isso. Nossa noite ontem foi, com toda a certeza, a melhor que já passei ao lado de uma pessoa, de uma mulher e....bem...

Charles tinha receio de dizer o que ele desejava desde o instante que a viu, mas continuou respirando fundo e buscando forças.

-.... sei que é cedo, mas queria muito poder te beijar.

Disse as últimas palavras olhando fixamente para os olhos da loira que estava ao mesmo tempo admirada e feliz ao ouvir cada palavra. Já tinha percebido que ele estava interessado por ela e isso era recíproco, mas não tinha noção de como havia mexido com ele.

Não pensou em mais nada e foi ao encontro dos lábios dele que estava parado na sua frente um pouco desacreditado da resposta afirmativa dela.
 
Achava que tinha poucas chances com uma mulher como ela: linda, estonteante, cheirosa, inteligente, meiga, doce. Mal pôde acreditar que ela veio ao seu encontro e que estava beijando aquela mulher.

Jane respirava fundo e sentia o beijo dele. Era carinhoso e calmo, mas suas mãos a seguravam pelas costas fazendo-a sentir mole, perdida, mas ao mesmo tempo totalmente amparada pelos braços fortes que ele tinha. O beijo dos dois combinou como uma peça final em um quebra-cabeça e ambos sentiram que aquele seria o primeiro de muitos que ainda viriam...

 


Lizzie estava feliz, mas ainda muito receosa por tudo. Darcy havia levado flores e aparecido de surpresa em seu consultório com um objetivo bem definido: beijá-la. Ficaram juntos em sua sala quando ele percebeu que precisava voltar para a empresa. Não poderia sair para almoçar porque estava atolado de trabalho e ainda precisava conversar com Bingley sobre tudo que havia acontecido. Tinha concordado em sair mais tarde os quatro, indo para um pub próximo ao hospital de Lizzie. Ele aproximava-se da porta par ir embora.

-Darcy, erh...

-Sim, Lizzie. Algum problema?

-Não...Bem, sim..

-Não gostou da minha visita?

-Não é isso, mas eu realmente acho que você, que nós, podemos estar sendo um pouco...precipitados...

-Lizzie, você me conhece há anos. Sabe que sou uma pessoa determinada e quando eu quero alguma coisa, eu vou atrás. Será que você ainda não entendeu que eu te quero? Coloquei todo meu orgulho de lado, assumi meus erros, pedi desculpas, corri atrás de você...eu quero que fiquemos juntos e eu não vou mais desistir disso. Já perdemos tempo demais...

Saiu pela porta e deu um leve sorriso. Ela viu a porta se fechando e voltou para a cadeira e para sua mesa de trabalho.

- Elizabeth Bennet, bem-vinda ao mundo das mulheres terrível e irremediavelmente apaixonadas...

 


Willian ouviu as batidas na porta de sua enorme sala. Era Charles que voltava do almoço com Jane. Darcy sabia que os dois iriam se encontrar porque havia ligado para ela mais cedo pedindo as informações do consultório de Lizzie e também foi convidado a se juntar aos dois no passeio à noite.

- Willian, estou apaixonado. – disse sentando-se na cadeira na frente do amigo.

- Ih...já vi isso milhões de vezes, mas já vou avisando que Jane é como se fosse minha irmã e se você se meter a besta com ela vai se ver comigo – disse Darcy.

-Darcy, ela é um anjo. Nunca na minha vida conheci alguém como ela. Como não a conheci antes? Nunca vi uma única foto dela nas suas coisas, só fotos da Elizabeth... Meu Deus, quanto tempo eu perdi sem essa mulher!

-Bingley, você não acha que está sendo muito apressado? Perceba o que você acabou de dizer: parece até que encontrou a mulher da sua vida, a mãe dos seus filhos e só saiu com ela duas vezes!

-Darcy, por mais incrível que isso possa parecer, essa é a sensação que eu tenho. Quando encontramos uma pessoa que consegue nos preencher por completo, que nos faz sorrir por qualquer bobagem, não importa se a conhecemos há décadas ou  horas. Eu me sinto muito, muito, muito bem ao lado dela. Por mais racional que você, Willian Darcy, seja, precisa concordar comigo que quando uma mulher arrebata o nosso coração dessa forma...é difícil escapar, meu amigo. Sabe muito bem como é se sentir assim. A partir daí, é rumo ao altar! – disse brincando e sorrindo com o amigo.

- Entendo Charles, mas veja, eu e Caroline...

Darcy foi interrompido pelo amigo.

-Não estava falando da Caroline, apesar de você insistir nesse noivado maluco! Você sabe muito bem a quem eu me referia e, definitivamente, não era a minha prima...

Willian ficou em silêncio e levantou-se de sua cadeira. Virou-se de costas para o amigo e passou a olhar para a parede logo atrás, toda de vidro. Via a cidade de Londres de seu escritório.

-Charles, acho que precisamos conversar e o assunto é bem sério. – disse ele ainda de costas para o amigo.

Virou-se e parou.

- Caroline me ligou no domingo, na casa dos Bennet, como você deve ter percebido pelos gritos no meu celular e praticamente terminou nosso noivado. Na verdade, ela deixou bem claro que tem sérias dúvidas quanto ao nosso possível casamento, que devíamos dar um tempo e conversarmos sério sobre o nosso compromisso. Eu devia ter gravado a conversa para você ouvir o que ela falou. Nosso noivado está acabado. Estou esperando encontrá-la para colocar um ponto final “oficial” no nosso relacionamento.

O ruivo levantou-se de sua cadeira com espanto.

- Caroline?  A minha prima? Desistindo assim do Sr. Willian Darcy? Tem certeza absoluta disso? O que deu na cabeça dela? Nunca imaginei que isso seria possível. Ela só faltava te dar um GPS de tanto ciúmes!  O que está acontecendo com ela?

-Pois é, eu também não entendi absolutamente nada do que aconteceu. Eu devo assumir que nosso namoro estava péssimo e semanas antes de voltarmos para Londres ela estava um pouco estranha, aérea, impaciente, não sei... Mas a questão é que ela disse que eu a estava sufocando demais e que precisávamos dar um tempo e ficarmos separados e pelo que eu entendi, ela não pretende levar nosso o noivado adiante. Aliás, ela praticamente desligou o telefone na minha cara quando eu concordei com isso, parecia que queria logo se livrar de mim, da situação, não sei.

Bingley o olhava estupefato. A prima sempre fora muito impulsiva, mas de um dia para o outro resolver desmanchar um compromisso desse jeito? Aquilo estava estranho...

- Mas o ponto principal que preciso conversar é um pouco mais delicado.

O amigo o encorajou com o olhar a falar o que queria.

- No domingo mesmo, quando eu e Caroline terminamos...eu beijei a Lizzie

-Como?? – Bingley o olhou com olhar de surpresa.

Darcy ficou em silêncio e abaixou a cabeça esperando uma reação raivosa do melhor amigo, afinal de contas, Caroline era sua prima e eles foram noivos! Já sentia o descontrole do amigo quando ouviu uma sonora gargalhada. Não entendeu mais nada.

- Charles, qual o motivo da graça? Contei alguma piada? Eu estou aqui te dizendo que no mesmo dia que Caroline, sua prima, praticamente terminou nosso noivado, eu beijei outra mulher. Beijei duas vezes outra mulher porque quando estávamos no apartamento dela nos beijamos de novo.

- Darcy, acho que você se esqueceu que sou seu melhor amigo há anos e que antes mesmo da sua EX-noiva sonhar em te conhecer eu já sabia tudo da sua vida. TUDO. Do seu namoro com a Dra. Elizabeth, de tudo que fizeram juntos, de seu carinho absurdo por ela. Aliás, você nem precisava me contar porque era só olhar para sua cara quando falava dela... Além disso, só você não percebeu o seu olhar de paixão naquela boate. Eu já sabia que vocês iam ficar juntos, com ou sem Caroline. Era só uma questão de tempo.

- Como assim você sabia que íamos ficar juntos?

-Darcy, meu amigo, eu já ouvi você falando dela milhões de vezes e ela é o amor da sua vida e não Caroline. Sempre foi.

Bingley dirigia-se para a porta:


 - E você, Darcy, sabe disso.


[i]“ Será que Charles tem razão?[i/]

 






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