CAPÍTULO 6
(sugestão de trilha)
Elizabeth olhava incrédula para Darcy. Seu carro estava com a porta do motorista aberta, com o motor ainda ligado e com os faróis emanando uma forte luz. Ele saiu correndo de dentro para não perder a oportunidade de falar com ela. Se ela entrasse e trancasse a porta, dificilmente atenderia a campainha e ele sabia disso. Sabia como era teimosa e cabeça-dura.
-Sr. Darcy, acho que não temos nada para conversar. Depois daquela palhaçada na biblioteca e do espetáculo que demos no posto de gasolina, acho melhor o senhor seguir para a sua casa e eu entrar em meu apartamento. – ela dizia exaltada.
- Lizzie, por favor, me desculpe. Eu realmente preciso conversar com você. Não é nada sobre o que acabou de acontecer no posto. Quanto a isto eu peço mil desculpas, principalmente se a machuquei. Por favor, peço apenas cinco minutos da sua atenção para que eu possa explicar o que aconteceu hoje mais cedo, na sua casa.
- Não há nada a ser explicado. Também peço desculpas pelo que ocorreu, mas devo lembrá-lo que sou uma mulher de respeito e não uma qualquer, destruidora de namoros e noivados. Definitivamente esse NÃO é o meu perfil. Traições são atitudes abomináveis para mim, algo que não tolero e não perdôo e achei que o sr. compartilhasse dessa opinião, mas vi que...
-Não...você não entend...- disse Darcy interrompendo o discurso.
Lizzie não queria ouvir o que ele tinha para dizer. Provavelmente ia dar a velha desculpa de que o beijo foi um impulso e que ninguém precisava saber desse deslize. Ela o interrompeu continuando o que tinha começado a falar
-...mas vi que o senhor deve achar normal um homem beijar e se relacionar com outras mulheres mesmo estando tão comprometido.
Suas últimas palavras foram dita em um tom de voz alto e com seus olhos transbordando de raiva.
Darcy não podia acreditar. Ela tinha entendido tudo errado. Provavelmente, pensou que ele era mais um canalha que queria se divertir com a ex-namorada enquanto a noiva não aparecia. Isso não podia ficar assim e, pelo que conhecia de Elizabeth, ela não iria ouvir uma palavra de sua boca. Estava nervosa, com raiva. Ele precisava agir. Ela tinha que saber tudo que estava em seu coração e, principalmente, que a própria Caroline havia lhe pedido um tempo e pelo tom de sua conversa iria terminar o noivado.
Tudo estava acontecendo rápido demais. Mal tinha chegado a Londres, mal sabia o que iria ter pela frente no trabalho, aonde exatamente iria morar, como seria sua vida dali para frente. Tinha muitas dúvidas, mas depois que a encontrou, passou a ter algumas certezas: precisava se acertar com Lizzie e ela precisava saber de suas angústias e de tudo que passou enquanto estavam separados.
As palavras de Caroline horas atrás serviram como um empurrão para que ele concretizasse isso, mesmo se depois de falar o que precisava, Lizzie só o quisesse como amigo, ele precisava conversar com ela. E ia ser agora.
Elizabeth sentiu as mãos de Darcy segurarem com força seus ombros. Puxou-a para si e parou a centímetros de distância de seu rosto. Seu corpo amoleceu e as pernas fraquejaram.
[i]“Será que ele irá me beijar de novo? Não é possível!”
O olhar de Darcy transparecia segurança e força.
-Elizabeth, você vai me ouvir. Vai ouvir cada palavra que direi nesse momento. Olhe bem para os olhos e você saberá que estarei sendo sincero. Me escute com atenção e depois deixo você ir.
Ela respirou fundo sentindo o cheiro gostoso de seu perfume e sentindo os braços fortes de Darcy segurando com força os seus. A proximidade era tanta que podia sentir sua respiração forte em seu rosto.
- Elizabeth, você sabe muito bem o quão especial você foi e é na minha vida. Sempre lembrei de você com o maior carinho do mundo e sempre imaginei como estaria sua vida, quais eram seus planos, o que estava fazendo em um simples dia de domingo e, principalmente, se ainda lembrava de tudo que havíamos vivenciado. Me separar de você foi extremamente difícil, mas precisei seguir com minha vida. Me diverti muito, fiz loucuras, namorei muitas mulheres e conheci Caroline pouco mais de um ano atrás e nosso namoro estava péssimo há mais de um mês.
Elizabeth ouvia cada palavra de Willian tentando parecer um tanto quanto desinteressada.
“Por que ele está me dizendo tudo isso? Qual o motivo disso?”
Darcy continuou
- Voltar a Londres depois de todos esses anos está sendo maravilhoso, mas me deparei com um dos maiores conflitos de minha vida: estava noivo de uma mulher que não sabia se realmente amava, mas louco para te beijar, para estar com você e recuperar todos esses anos que eu desperdicei. Sei dos meus erros e quero repará-los! Entrar na biblioteca de seu pai e ver nossas fotos preencheu um vazio no meu peito...
Lizzie o interrompeu:
- Estava noivo?
Seu olhar mudou completamente. Se antes sua expressão era de concentração, apesar de querer parecer desinteressada, agora tinha no rosto um grande ponto de interrogação.
- SIM!!!! ESTAVA! – ele sorria devagar - Era isso que tanto queria lhe falar. Você levantou do sofá tão resoluta que nem ouviu o que eu ia dizer! Passei o resto da noite tentando falar com você, mas você me evitou.
-Não estou entendendo... o senhor chegou em minha casa e se referiu a ela como “minha noiva” e agora, algumas horas depois está tudo acabado? Me desculpe, mas que tipo de noivado é esse?
- Lizzie, aquela ligação que recebi e que fui para a biblioteca, como você e todos provavelmente perceberam, era de Caroline. Nosso relacionamento estava péssimo e hoje, enquanto conversávamos, chegamos à conclusão que o melhor seria ficarmos separados um tempo. Ela mesma foi quem propôs isso e eu só pude concordar e me encher de esperanças em relação a nós dois. Pelo tom de nossa conversa nosso noivado irá terminar assim que pudermos conversar melhor, frente a frente. Já percebi que ela também não acredita na nossa felicidade. Eu não conseguirei ser feliz com ela e acho que já sabia disso, mas tive a certeza depois de estar com você novamente, de te sentir perto de mim.
Ela não estava acreditando. Meses atrás, quando recebeu a notícia de que ele estava noivo, sentiu em seu coração sentimentos conflitantes que quase a levaram a loucura: estava muito feliz por Willian ter encontrado a mulher de sua vida, mas ao mesmo tempo sentia-se triste por perceber que não era ela essa mulher.
Passou noites insones, lembrando de cada momento, de cada beijo de cada vez que se amaram. No fundo ainda nutria uma pequena esperança, mas quando soube que ele iria se casar, essa faísca havia se apagado. Agora com ele ali, na sua frente, segurando em seus ombros, dizendo o quanto estava feliz em revê-la e que era um homem praticamente livre, uma verdadeira fogueira estava incendiando seu peito.
- Lizzie, por favor, acredite em mim...preciso que você diga olhando nos meus olhos que acredita em mim.
- Eu não sei...- ela baixou seu olhar - horas atrás você estava noivo e agora está aqui, me dizendo tudo isso...
- Lizzie, por favor, eu sei que cometi muitos erros. Eu sei disso, mas eu estou aqui, sendo o mais sincero possível com você! Segui o seu táxi como um louco, sai correndo do meu carro, praticamente te puxei à força...tudo isso porque eu quero, eu preciso que você acredite em mim!
- Mas você não me ligou e nem apareceu quando veio a Londres...- ela levantou o olhar e passou a olhá-lo.
- Eu sei e admito mais esse erro, mas entenda, eu achava que não estava preparado para encontrá-la! Eu reconheço e peço desculpas pelo meu egoísmo, mas, por favor, olhe para mim e acredite no que eu estou dizendo! Só quero que você acredite em mim!
Continuaram se olhando por algum tempo com Darcy ainda segurando seus ombros com força e com seu carro estacionado na porta de seu prédio com a porta escancarada e o motor ligado.
- Está bem Willian, eu acredito. Realmente, mesmo depois de tudo o que você fez, não sei se deveria, mas acredito...
Willian deu um sorriso de alívio e expirou uma quantidade de ar abaixando um pouco a cabeça. Se deu conta que ainda estava segurando Elizabeth com força. Olhou para baixo com um olhar envergonhado. Devia ter machucado seu braço. Recuou um pouco e ficou olhando para seu rosto e como ela parecia assustada.
- Será que podemos continuar nossa conversa em seu apartamento. Estamos aqui no meio da rua, discutindo coisas importantes para mim. Por favor, eu só quero conversar com você, saber o que fez durante esses anos... como amigos.
- Tudo bem, mas acho que seria melhor você desligar e trancar seu carro antes.
Darcy olhou para seu carro totalmente aberto e ainda ligado, mostrando o desespero com que ele saiu do seu interior para tentar parar Lizzie na porta do prédio que ela morava. Os dois riram da situação.
O apartamento de Jane e Lizzie era bem amplo. Na sala dois sofás com uma pequena mesa de centro e outra ao lado com uma pequena luminária e algumas fotos ao lado do telefone. Mais a frente uma porta que levava até a cozinha que também era ampla com uma pequena ilha com panelas postas ao alto. Havia um pequeno escritório e ao lado uma escada que levava aos quartos das irmãs no andar de cima.
- Quer um café, um capuccino?
- Acho que um café seria bom.
Tiraram seus casacos e seguiram em direção à cozinha. Enquanto Lizzie preparava a cafeteira, ficaram conversando sobre o almoço em sua casa, de como Mary estava enorme e dedicada à advocacia, de como estava Georgiana e suas aulas de piano, as viagens que haviam feito.
O café ficou pronto e levaram suas canecas para a sala. Sentaram-se em um dos sofás de lado, ficando um de frente para o outro.
- Seu café é muito bom. Já aprendeu a cozinhar ou continua a Lizzie de antigamente que mal sabia fritar um ovo? – Darcy brincava com Lizzie e dava um leve sorriso.
- Sim, sim...agora sou uma verdadeira chef! Depois que eu e Jane nos mudamos para cá tive que aprender a me virar, apesar de às vezes contar com a ajuda da Hill.
- Nossa, me lembro que nós infernizávamos na cozinha. Eu vivia com fome e sempre roubava bolo quando ainda estava quente. Lembra-se?
A cada nova lembrança que compartilhavam um sorriso largo e gostoso brotava na boca dos dois. Ficaram um bom tempo rindo das antigas brincadeiras e das vezes que se deram mal e ficaram de castigo, das viagens, da escola que frequentaram.
- Sinto muita falta daquela época...– disse Lizzie olhando para seu café e tomando um gole.
- Do que você sente mais falta, Lizzie?
- Não sei exatamente. Acho que éramos muito unidos. Sua família parecia a minha família. Acho que sinto saudade disso, do resto da família: seus pais, Georgiana. - suas última palavras foram ditas rindo, em tom de brincadeira. – E você? Do que sente mais falta?
- Eu achava que era dos momentos em família, de quando nos juntávamos. Mas percebi que senti mais falta de outra coisa: de você.
Ele olhava fixamente para seus olhos castanhos. Lizzie não sabia o que fazer. Era cedo demais para se envolver com ele. Horas atrás estava noivo e já havia sofrido demais por causa dele. Colocou sua caneca na mesa logo à frente e levantou-se do sofá colocando as mãos no bolso:
- Darcy, acho que já está na hora de você ir. Está ficando tarde e Londres não é um exemplo de segurança. Além disso, seus pais chegam amanhã e você precisa estar descansado.
Ele balançou a cabeça e percebeu o tamanho do desconforto que havia causado. Colocou sua caneca ao lado da dela e levantou-se ficando em sua frente. Não conseguia se controlar diante dela. As linhas de seu pescoço, seu busto, os braços, a linha do queixo, sua boca, o nariz pequeno e arrebitado. Tudo era um convite para sua boca e para seus olhos. Queria muito beijá-la.
- Lizzie, me desculpe. Vou embora. – disse seguindo em direção à porta da sala. - Erh...podemos nos ver amanhã?
- Não sei, Darcy...Acho que você estará bastante ocupado com sua mudança e de seus pais.
- Eu dou um jeito. Por favor!!! Vamos sair para conversar... Posso passar às oito?
- É...eu realmente não sei se é uma boa idéia.
-Lizzie, por favor! Não há mal nenhum em sairmos. Vamos conversar...
-Erh...tudo bem.
Darcy sorriu e pegou em sua mão. Em um impulso puxou-a para si e a abraçou com força. Estava muito feliz. Ele iria sair com Elizabeth.
Lizzie se assustou com a atitude inesperada, mas logo passou suas mãos naquelas enormes omoplatas, seguindo depois suas mãos para cima seus ombros. Abraçava-o forte e sentia o cheiro delicioso que ele exalava. Seu rosto descansava por cima dos ombros largos de Darcy. Sentiu que ele cheirava e pegava em seu cabelo.
Logo depois, começou a se desvencilhar do abraço e passou a olhá-la. Colocou sua mão direita nas bochechas dela e começou a acariciar seu rosto. Seu toque era sensível e ao mesmo tempo forte.
Willian colocou sua mão esquerda ao redor da cintura de Elizabeth. Sentia o mesmo cheiro de chocolate vindo de seus cabelos, assim como anos atrás, e não estava mais agüentando: precisava beijá-la.
Elizabeth sentiu quando a mão esquerda dele que pousava em sua cintura trouxe-a para mais perto. Olhou-o um pouco assustada, ainda sem saber o que fazer. Ele ainda olhava-a profundamente e sem mais delongas, Darcy começou a beijá-la. Um beijo lento, delicado, molhado: era o beijo dele. Seu toque era seguro, forte, mas muito carinhoso.
Suas línguas se abraçavam delicadamente e ela não queria que aquilo acabasse. Lizzie colocou suas mãos na nuca dele e começou a acariciá-lo, fazendo um pequeno movimento em uma área peculiar de seu cabelo que ela sempre pegava e sentiu quando ele aprofundou seu beijo, respirando fundo.
Willian se lembrou automaticamente daquele carinho que só ela sabia fazer em sua nuca. Como sentiu falta daquele toque leve e gostoso.
Ela não conseguia pensar em nada, apesar sentia seu toque e seu cheiro.
O beijo parecia não ter fim.
Sentiram algo vibrar. O celular de Willian estava tocando em seu bolso.
-Droga! – disse ele – É o Charles!
O amigo queria saber onde estava Darcy, pois ele estava saindo do pub com Jane e não tinha chave da casa dos Darcy. Estavam voltando para o apartamento de Jane, onde ele pegaria um táxi.
-Charles, estou no apartamento da Lizzie. Venha para cá e voltamos juntos.
Ele bufou um pouco enraivecido e desligou o telefone sem falar mais nada. Percebeu que Lizzie olhava-o com uma cara envergonhada. Ela saiu de sua frente e foi sentar em um dos sofás permanecendo muda. Ela estava pensativa e ainda um pouco ofegante.
Os amigos se encontraram e voltaram para casa. Charles estava insuportavelmente tagarela e não parava um minuto sequer de enunciar as qualidades de Jane. Já Darcy estava calado. Na verdade, não prestara atenção em uma palavra dita pelo amigo. Só conseguia pensar “nela”.
Lizzie estava pensativa e estranha, o que foi logo percebido por sua irmã. Passaram horas conversando sobre suas respectivas “noites”. Jane, cada vez mais encantada com Bingley e Lizzie ainda perdida e receosa do que estava acontecendo.
Darcy queria se desculpar por tudo e mostrar para ela que estava arrependido e, depois daquele rápido e intenso beijo, teve a certeza que isso seria uma obsessão em sua vida. O que um dia havia sentido por Caroline estava longe do que sentia por Lizzie e percebeu que todos esses anos amou apenas ela, apesar das mulheres com quem havia estado e apesar de ter ficado noivo. Tinha certeza que só queria ela. Ela era a dona dos seus pensamentos, das suas memórias, dos seus planos, do seu coração... Voltou dirigindo sem prestar atenção em seu amigo e com um único pensamento
[i]“Mais uma noite insone”














