Citações

A vaidade ao trabalhar em uma mente fraca é a fonte de todo tipo de discórdia. (Jane Austen)

Quando, quando, quando,... Capítulo 5

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Todos estavam na sala esperando por Darcy. Ele estava demorando bastante de sua conversa com a noiva, mas ninguém queria invadir sua privacidade.

A conversa ali girava em torno de Charles. Ele explicava que havia sido contratado e quais eram seus planos para a empresa da família Darcy, contou que seu pai era russo e sua mãe inglesa, mas era órfão e que a família de Willian o havia acolhido como um filho e como o havia conhecido em um jogo de rugby, anos atrás. Morava sozinho em uma mansão perto da família Darcy em Moscou e seus pais haviam lhe deixado uma grande herança, mas resolveu continuar na faculdade, formando-se em engenharia de produção.

 Jane se encantava com o jeito tímido e às vezes desajeitado do ruivo. Sem dúvida era um homem bonito e muito determinado. Pelo pouco que já podia perceber, também era muito sincero e espontâneo, compartilhando questões pessoais com sua família. A cada palavra proferida, Jane ficava mais vidrada. Observava o seu jeito de mexer as mãos, a forma como sorria, como abaixava um pouco a cabeça quando se sentia constrangido, principalmente com as conversas e perguntas de sua mãe que já sabia do interesse dele na filha mais velha.

Darcy e Bingley eram altos, com uma postura elegante. Charles parecia mais informal que o amigo e normalmente estava de calça jeans, um belo sapato italiano e uma blusa pólo ou de botões. Já Willian adorava usar seus ternos. Era quase impossível vê-lo de bermuda e tênis. Sempre estava impecável e abusava das blusas sociais e blazers. Darcy parecia ser mais forte, tinha os ombros mais largos e uma estrutura mais imponente. Jogavam rugby juntos há anos, o que exigia uma grande força física e agilidade.

“Deve ser essa a causa de toda essa estrutura...” pensava Jane observando os contornos dos ombros e braços de Bingley.

- Lizzie, vá procurar por Darcy. Seu pai quer saber se ele vai querer um whisky. Além disso, ele ainda não comeu o bolo que fiz para ele.
 
- Mas mamãe, ele está conversando com a noiva...

-Anda, Lizzie... sua irmã está aqui conversando com Charles – disse ela piscando - e Mary subiu para o quarto também para atender um telefonema do escritório.


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Lizzie saiu chateada na direção da biblioteca. Queria evitá-lo ao máximo, mas sua mãe não tinha ajudado.

Ela havia passado a noite insone, se martirizando pela atitude fácil e tranqüila que adotara com Willian na noite anterior quando se encontraram na boate.

“Eu devia ter virado as costas e ido embora! Em oito anos, mal nos falamos, ele some e quando volta eu vou abraçando e dançando com ele...O que foi que eu fui fazer?Sou uma boba, isso que sou...”

Deu dois leves toques na porta. Não ouvia nenhuma conversa ou gritos vindo lá de dentro e resolveu entrar.

Darcy tinha acabado de desligar o celular e virou-se em direção à porta olhando-a de uma forma diferente.

-Desculpe Willian, é que papai quer saber se você o acompanha no whisky e mamãe está louca para que você coma o bolo de ganache que ela fez. Acho que ela se lembrou de como você gostava desse bolo. – disse Lizzie sorrindo levemente, mas já se policiando.

“Não é para ficar lembrando das histórias e nem sorrindo para ele! Fique quieta e evite-o.”

Darcy deu um leve sorriso lembrando do sabor da delícia e de quando os dois comiam escondido o doce.

- Seu pai fez várias alterações aqui, não? Lembro dessa biblioteca um tanto quanto diferente...

- Sim. Logo depois que Jane se formou ele começou a aumentá-la. Aquele quarto pequeno de hóspedes que ficava aqui do lado acabou e mamãe colocou esse canto com o sofá e algumas fotos nossas para que pudéssemos ter mais conforto para ler. Agora temos livros jurídicos para todos os gostos, como você pode perceber, e mamãe fez mais algumas aquisições literárias.

Darcy olhou para o canto que Lizzie havia dito e viu a mesa ao lado do sofá com várias fotos. Aproximou-se e começou a olhá-las. Havia fotos das irmãs pequenas no colo dos pais, fotos do casal, de Lizzie, Jane e Mary de férias, fotos dos Darcy e dos Bennet juntos em uma viagem, fotos dele com Lizzie e Jane na festa de formatura do segundo grau.

Pegou um porta-retrato de madeira escura e sentou-se no sofá. Na foto estava ele, Lizzie, Jane, Georgiana e Mary brincando na neve durante uma viagem à casa de campo dos Bennet. Todos estavam com enormes sorrisos e em cima da neve grossa. Ele e Lizzie estavam abraçados em pé enquanto Jane e Georgiana estavam sentadas e Mary deitada na frente do grupo fazendo graça na neve.

-Lembro exatamente de tudo que aconteceu nesse dia. – disse Darcy com as mãos fixas no porta-retrato.

Lizzie, que até então estava perto da porta, sentou-se ao seu lado e olhou a foto que ele segurava. Estava difícil evitá-lo.

- Eu também. Com certeza foi um dos momentos que mais ri em toda a minha vida. Lembro que sem querer te acertei com uma bola de neve com tanta força que você saiu correndo atrás de mim até que eu caí por cima da Mary que estava sentada. Como eu ri nesse dia.

Os dois riram juntos lembrando do ocorrido.

- Lembro que nesse dia te pedi em namoro para o Sr. Bennet. Você se lembra? – ele agora falava sério

- Lembro sim, Willian. Nunca tinha te visto tão nervoso em toda a minha vida. Nem quando o papai quase nos pegou beijando escondido no meu quar...- a voz de Lizzie morreu.

Ela não devia ter dito aquilo. Eram tantas memórias, tantos momentos que surgiam na sua cabeça. Virou seu rosto ao lado oposto ao dele.

“ Que idiota que eu sou...fique quieta, Elizabeth!”

Willian percebeu o desconforto dela e começou a rir. De repente, ainda olhando para a foto, ele ficou sério.

- O que aconteceu com a gente, Lizzie?

- Não entendi...

- Por que nos separamos?  - Disse olhando para ela que estava sentada ao seu lado no sofá e virada para ele.

- Willian, você se esqueceu que seu pai foi para a Embaixada no Brasil? Que tentamos ficar juntos e que foi difícil manter nosso namoro com a distância?

-Eu nunca devia ter te deixado...- ainda olhava para ela – devia ter ficado aqui ou ter insistido no nosso namoro, não sei...Desde que meu pai anunciou nosso retorno à Londres, tenho pensado em tudo que aconteceu e hoje percebo que cometi um erro. Um não, vários...Parti da premissa que nosso relacionamento estava fadado ao fracasso com você aqui e eu no Brasil e isso acabou repercutindo na forma como te tratei, nesses anos. Namorei e fiquei noivo de uma pessoa muito diferente de mim.


Ele olhava para o porta-retrato com ele ainda nas mãos.

-Depois que nos encontramos e conversamos ontem na boate, me senti ...não sei, me senti culpado, estranho por tudo o que eu fiz. Queria te pedir desculpas, mas ao mesmo tempo perguntar como estavam suas coisas, como estava a sua vida. Percebi que fui muito feliz aqui, mais do que em qualquer lugar ou com qualquer outra pessoa...

Elizabeth o olhava com espanto. Nunca esperava ouvir isso dele: Willian Darcy. Ele, que sempre foi problemático quanto a expressar suas idéias e sentimentos. Ele que não a procurou durante anos e mesmo quando estava em Londres não lhe telefonou. Lembrou-se da tentativa fracassada de namorarem à milhares de quilômetros de distância.

Darcy estava calmo. Aquelas eram palavras que ele queria ter dito no segundo em que a viu naquela noite na boate. Queria que ela soubesse que ele sentiu sua falta, que lembrava de seu cheiro e da maciez do seu cabelo, do toque suave da sua pele e do carinho gostoso que só ela sabia fazer em sua nuca.

-Senti muito a sua falta esse anos...das nossas conversas, almoços, passeios, do tempo que ficamos juntos. Sei que sou um perfeito idiota em não ter ligado tão pouco todos esses anos, mas foi muito difícil para mim, tive medo, estava inseguro. Além disso, eu era muito imaturo. Mas foi muito difícil, mais até do que eu achei que ia ser... – disse Darcy.

Lizzie prendeu sua respiração e olhou para baixo, não querendo encará-lo.

- Sei como se sentiu...- disse quase em um sussuro.

Elizabeth levantou seu rosto e os dois se entreolhavam como nos velhos tempos. Os olhos cor de mar de Darcy estavam mergulhados nos olhos cor de madeira dela. Sentiu seu coração disparar e percebeu que ele se aproximava para lhe dar um beijo com o mesmo jeito lento e delicado que fazia quando eram um casal.

“Ele vai me beijar, ele vai me beijar, ele vai me beijar...”

Sentiu os lábios dele tocarem muito delicadamente o cantinho de sua boca. Os dois ainda estavam de olhos abertos se olhando, apesar de toda a proximidade. Ele recuou um pouco e ainda olhava fixamente para ela. Parecia que esperava algum sinal de encorajamento, mas Lizzie estava petrificada. Ele então avançou colocando sua boca diretamente na dela, buscando a maciez e o gosto que só aquele beijo poderia lhe oferecer.

Lizzie sentiu seu toque tranquilo, mas instantaneamente lembrou-se de um pequeno “detalhe” que a fez levantar imediatamente do sofá partindo em direção à porta da biblioteca interropendo o momento:

- Desculpe, Willian. Você está noivo e sabe muito bem que não sou esse tipo de mulher! Isso não está certo...seu...seu... – estava nervosa e olhava-o com raiva.

- Espere, Lizzie! Preciso te dizer...

Não teve tempo de explicar para ela que sua noiva praticamente havia desmanchado todo o compromisso e que, inclusive, não viria para as festas de final de ano. Ela partiu chateada,  batendo a porta com raiva e deixando seu perfume doce e floral que ele tanto conhecia.

Tinham se beijado no mesmo lugar que deram seu primeiro beijo anos atrás.

“Estou perdido.”

Enquanto isso, Elizabeth voltava para a sala e já ouvia sua mãe lhe chamar. Seu rosto estava pálido e seu coração acelerado. Não podia aparecer assim na sala. Logo entrou no banheiro e trancou a porta. Olhava-se no espelho e perguntava-se o que exatamente havia acontecido.

“Ele passa oito anos fora, chega há dois dias e já está me beijando...mas o que é isso?! E ainda é noivo! Que homem mais safado! Não vou tolerar isso!”

Ouviu o toque na porta

- Lizzie, é você? Sou eu, Jane. Está tudo bem?

Elizabeth respirou fundo e abriu a porta com um sorriso tentando disfarçar o que acabara de acontecer. Provavelmente ela tinha demorado demais e sua irmã devia estar procurando por ela, mas se surpreendeu quando Jane resolveu entrar no banheiro junto com ela, não deixando-a sair.

- Lizzie, preciso que me ajude - disse Jane olhando para a irmã e segurando em suas mãos - Charles acabou de me chamar para sair e eu estou muito tentada a aceitar o convite, mas você sabe que ele não está podendo dirigir por causa do pé e que não posso sair sozinha com ele aqui de casa em um táxi sem que a mamãe comece a especular sobre a cor dos olhos dos nossos filhos....

As irmãs riram e concordaram. Esse era exatamente o jeito de sua mãe. Quando Elizabeth e Willian namoravam, chegava ao cúmulo de ficar perguntando ao rapaz quando seria o pedido de casamento e ainda ficava imaginando, sozinha, aonde seria a lua-de-mel.

-Mas como faremos, Jane?

- Acabei de falar com Charles e Willian, que acabou de voltar para a sala. Consegui interceptá-lo no corredor voltando da biblioteca. Sairei daqui com você, no seu carro, mas no posto da esquina você me empresta o carro e eu saio com Charles.

- Jane, mas e eu?

- Willian faz questão de te deixar em casa – disse com um sorriso malicioso.

- Ahn, não. Jane, não existe essa hipótese. Eu voltarei para casa de táxi.

- Lizzie, mas ele te deixa em casa! Qual o problema? O que esta acontecendo? Não pense que não percebi o tempo que demoraram lá dentro...

Lizzie não queria discutir os acontecimentos ali, no banheiro de sua casa, enquanto os convidados a aguardavam na sala. Acertou os detalhes com a irmã e saiu decidida que não voltaria para casa com ele.


Lizzie estacionou o carro no posto e ficou aguardando o carro preto e reluzente de Darcy. Jane estava nervosa aguardando Bingley. Parecia uma adolescente saindo escondida dos pais com o namoradinho.

Logo viram o carro de Willian virando a esquina. Eles tinham dado a volta no quarteirão para despistar os pais de Jane. Mary já estava ciente do esquema e também ajudou a irmã.

Charles saiu do carro pegando suas muletas e indo na direção das irmãs. Ele estava muito feliz e mal podia acreditar que Jane tinha aceitado sair com ele, mesmo estando naquelas condições e sem a menor possibilidade de dirigir seu próprio carro para levá-la a um encontro. Não importava. Pelo menos teria sua companhia por mais um tempo e isso era bastante satisfatório.

Jane pegou as chaves do carro e deu a bolsa da irmã que já estava do lado de fora do veículo.

- Divirtam-se e juízo, viu?!  - Disse Lizzie brincando.

Ficou olhando o carro partir podendo imaginar o sorriso de contentamento da irmã.

“Pelo menos alguém sai feliz nessa história...”

Darcy, que até então permanecia no interior de seu luxuoso carro, viu Elizabeth de costas vendo o casal partir. Saiu do carro e andou em direção a ela.

Lizzie  estava vendo o carro se afastar quando ouviu aquela voz grossa e rouca perto ao seu pescoço:

-Vamos, Lizzie?

Sentiu os pêlos se seu antebraço e de sua nuca se arrepiarem instantaneamente.


“Seja forte, Srta. Elizabeth Bennet.”


-Willian, muito obrigada, mas prefiro ir de táxi. – olhou-o ainda com um ar raivoso pelo beijo que haviam trocado, afinal, ele estava noivo, era um homem comprometido e não tivera muita consideração com ela nesses últimos anos.

-Como? – disse ele elevando um pouco o tom de sua voz – Que absurdo. Eu prometi para Jane que te deixaria na porta da sua casa e assim o farei.

- Sr. Darcy, mais uma vez obrigada pela gentileza, mas eu realmente vou de táxi. Meu apartamento fica a apenas cinco minutos daqui.

Lizzie só se dirigia a Darcy como “Sr.” quando estava irritada ou queria brincar com ele, mas nessa ocasião, pelo seu tom de voz, ele entendeu que se tratava do primeiro caso. Ela já se dirigia à rua fazendo sinal para um táxi que já estava vindo.

- De jeito nenhum! A senhorita vai comigo, no meu carro. Que idéia absurda é essa?

Darcy se dirigiu a ela e segurou em seu braço olhando fixamente para ela. Estava chateado e bravo.

“Qual o problema de ela ir no meu carro? Quer se meter em um táxi essa hora da noite? Será que está chateada com o beijo? Com as coisas que falei?Ahn...não  acredito!!!Preciso me explicar. Ela precisa saber que eu e Caroline estamos praticamente terminados. Ela deve estar pensando que eu sou um safado.”

O motorista estava parado logo ao lado dos dois e esperava uma posição da moça que era agarrada pelo braço pelo homem alto com um sobretudo escuro.

Lizzie puxou seu braço com força olhando para Darcy com cara de poucos amigos e entrou no táxi sem dizer uma palavra.

“Mulher teimosa. Tinha me esquecido disso...”

Darcy estava decidido: ela iria ouvir suas explicações.  Se ela era teimosa, ele era duas vezes mais e não era homem para ser deixado para trás por mulher alguma.
Entrou apressado em seu carro e logo começou a seguir o táxi onde Elizabeth estava.

Ela precisava ouvi-lo. Ela ia ouvi-lo.

Elizabeth entrou no táxi pasma com a atitude dele. Havia segurado em seu braço impedindo-a de seguir.

“ Quem ele pensa que é para me tratar assim?Primeiro, passa anos mal falando comigo, me deixa louca com sua volta, depois me beija mesmo estando noivo e depois quer que eu aceite essa maluquice de ficar pegando carona? Que horror...”

- Senhorita, me desculpe, mas parece que seu namorado está nos seguindo. - disse o motorista tirando Elizabeth de seus pensamentos.

-O que? - Voltou-se para o vidro traseiro e logo atrás viu o carro com os vidros escuros de Darcy – Não é possível!

- A senhora quer que eu fique dando voltas no quarteirão até ele cansar?

-Não, não será necessário. E ele não é meu namorado.

Lizzie imaginou que Darcy estava seguindo o táxi por ter prometido a Jane que a deixaria em casa. Sabia que ele sempre cumpria suas promessas. Pensou em descer logo do táxi e entrar rapidamente em seu prédio. Ele havia percebido que ela estava com raiva e não iria segui-la até a porta do seu prédio.

“Seria muita audácia.”

- Chegamos, senhorita.

Elizabeth pagou a pequena quantia ao motorista e já segurava a chave da porta de seu prédio em suas mãos. Viu que o carro de Willian estava logo atrás ao que ela estava. Desejou feliz natal ao senhor e foi para a calçada olhando para o carro parado logo atrás. Os faróis estavam acessos e a luz forte em sua direção a impedia de ver Willian. Subiu os pequenos degraus que levavam à porta de seu prédio com as chaves já prontas para serem encaixadas no buraco da fechadura.
 
-Elizabeth...

Ela ouviu de novo “aquela” voz.

-...precisamos conversar.

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