Os amigos chegaram logo em casa. Charles havia ido para o quarto que ocupava na antiga mansão dos Darcy alegando cansaço da noite e dor no pé.
Willian entrou em seu antigo quarto e começou a analisá-lo. Na noite anterior estava tão cansado, que mal acendeu as luzes. Estava exatamente do jeito que havia deixado. Mais vazio sem suas fotos, livros, seu som e seu computador. Sentou em sua cama e começou a olhar o espaço ao seu redor. A grande cama no centro do quarto, a bancada de estudos na frente e do lado esquerdo a porta do enorme closet.
Olhou para a porta do grande armário abrindo-a e vendo os inúmeros recados escritos na madeira clara. Durante os anos que morou naquela casa, seus amigos tinham o hábito de gravar dizeres naquela porta. Alguns de sua irmã, de seus antigos amigos, de Jane, Mary e incontáveis de Elizabeth. “você é o meu amor”, “ te adoro”, “você é lindo!”
Lembrou de como e quando cada um deles havia sido escrito. Procurou o canto da porta, quase na quina, e viu o recado que mais lhe interessava:
“Te amo para sempre”.
Aquelas letras vermelhas e pequenas, quase imperceptíveis no mar de recados eram as que tinham o maior significado para ele.
Sua mente foi levada ao dia que sua ex-namorada o escreveu:
“Lizzie estava deitada nua abraçada com ele naquela cama, coberta pelo seu lençol e com a ponta de seu nariz encostada no queixo dele. Estavam muito próximos. Aquela tinha sido a primeira vez que ela e Willian tinham se amado e também tinha sido a primeira experiência dos dois.
Suas mãos repousavam nas costas finas e delicadas da namorada enquanto fazia leves carinhos com os dedos sentindo a pele macia e gostosa. Estavam calados, apenas aproveitando aquele momento tão especial que acabara de ocorrer.
Ela levantou o rosto, olhou em seus olhos e fez um pequeno carinho em sua testa e em seu cabelo. Levantou-se pegando o lençol que a cobria e mexeu na mochila que havia levado consigo pegando uma caneta vermelha e seguiu em direção ao seu closet. Sorriu para Willian e lançou-lhe um olhar cúmplice enquanto escrevia algo que logo após ele leu: “te amo para sempre”. Aquelas palavras haviam preenchido seu coração de forma irreparável.”
Voltou à realidade.
Fechou a porta do closet com força e virou-se novamente para sua cama.
As lembranças de Elizabeth e de sua vida em Londres nunca estiveram mais vivas e pulsantes em seu pensamento. Começou a lembrar de detalhes e histórias que achava que tinha esquecido. As brigas e festas com os antigos amigos e com Elizabeth, a ida diária das irmãs com ele e seu motorista ao colégio que freqüentavam, a blusa vermelha que ela usava quando se beijaram pela primeira vez na biblioteca de seu pai, o cabelo preso no coque quando a levou na festa de formatura do colegial, os cabelos soltos e revoltos com cheiro de chocolate, suas poucas pintinhas nas costas, seu sorriso iluminado e os toques em seu rosto após terem se amado pela primeira vez, o cheiro doce e floral que ela tinha e dos olhos castanhos perdidos em lágrimas quando se despediram anos atrás.
Ele não tinha tido coragem de enfrentar aquela situação. Não podia fazer isso. Anos atrás, antes de partir, havia conversado com o pai sobre a possibilidade de ficar, mas foi totalmente repelido por ele. O tempo e a distância, acabaram separando o casal.
Eram muitas lembranças, muitos beijos, muitos abraços, muito carinho, muito afeto, muito amor...
“ Preciso parar de pensar nela ou vou ficar louco.”
Darcy saiu de seu antigo aposento pegando sua mala e levando-a para outro quarto de hóspedes ao lado do de Charles. Não podia ficar ali naquele lugar ainda tão cheio da presença dela.
Vestiu sua calça de moletom e a camisa branca que sempre dormia e desceu as escadas indo na direção da sala. Estava um tanto quanto nervoso e receoso. Deitou no sofá e ficou com o olhar perdido pela sala. Um mar de sensações invadia seu coração e ele sabia exatamente quem era a responsável. Sabia que não conseguiria dormir essa noite....
Nem por um segundo.
(sugestão de trilha dada pela nossa queridíssima Roberta)
Letra:http://letras.terra.com.br/the-cult/63514/ )
Sr. Bennet conversava no telefone com o velho amigo Anthony Darcy que chegaria a Londres no dia seguinte, colocando-o a par dos acontecimentos do dia anterior e na felicidade que estava sendo receber o “pequeno” Willian em sua casa novamente. Elizabeth estava na cozinha com a mãe e Hill ajudando nos últimos ajustes do almoço enquanto Jane e Mary conversavam na sala.
- Se outra pessoa tivesse me contado essa história, eu juro que não teria acreditado. E Lizzie, como se comportou com o “susto” que levou ontem? Imagino que ela deve ter tido uma parada cardíaca!- disse Mary sussurrando a última parte para Jane.
- Mary, ela levou um susto mesmo, foi até meio grossa em um momento, mas o Willian também me pareceu extremamente nervoso. Não sei, acho que os dois ficaram tão felizes de se reencontrar...parecia a Lizzie e o Willian de 8 anos atrás que conversavam sobre qualquer coisa. Sabe, ela não dormiu nada essa noite. Ficou assistindo tv na sala o resto da madrugada.
- Hum...e o “seu” engenheiro russo, hein?! Lizzie já me contou tudo e devo avisá-la que a mamãe escutou.
-Mary, você está brincando comigo! Não acredito. Minhas chances acabaram....
Jane foi interrompida pela campainha que havia tocado.
De dentro da cozinha Fanny saiu ensandecida seguindo pelo corredor para atender a porta. Pulou no pescoço de Willian abraçando e beijando o forte e enorme homem que estava a sua frente. Thomas, que mal cabia em si de felicidade, seguiu a esposa nos abraços e cumprimentos, também o fazendo em relação a Charles, que via toda aquela euforia um tanto quanto assustado. Os Bennet eram uma família muito calorosa e tinham adoração pelo ex-genro .
- Willian, eu quase morri do coração quando Elizabeth me disse que vocês viriam almoçar conosco hoje. Achávamos que você chegaria com seu pai amanhã e nem imaginávamos que estava em Londres! Que coisa feia não nos ligar, hein?!- disse Fanny fazendo cara de magoada. - E quem é o seu amigo bonitão? Soube que achou a minha Jane muito bonita, não?
As irmãs morreram de vergonha. Em alguns minutos sua mãe já havia conseguido intimidá-los.
- Mamãe!!! – disse Lizzie já segurando em seu braço.
- Mamãe, o que é isso?! O importante é que agora Willian já esta aqui e amanhã Anthony, Anna e Georgie estarão conosco. - disse Jane absolutamente ruborizada pelo comentário inconveniente da mãe. Vamos nos sentar porque acredito que todos estão morrendo de fome.
O almoço transcorreu da melhor maneira possível. Charles não conseguia tirar seus olhos de Jane sempre fazendo perguntas e querendo saber tudo sobre aquela advogada. Willian tentava não parecer nervoso e dividir suas atenções entre as perguntas de Thomas, Fanny e Mary. Porém, nessa tentativa de se mostrar tranqüilo, ele se fechou, ficando arredio e, muitas vezes, calado. Lizzie praticamente não havia lhe dirigido a palavra durante todo o almoço. Estava quieta, retraída, mas sempre que olhava em sua direção observava que ele procurava seus olhos como se quisesse lhe falar algo.
Lizzie havia passado a noite inteira acordada pensando nos eventos da noite anterior. Não parou de pensar no abraço que deu em Willian de forma impensada, de como havia esquecido naquele tempo que estiveram juntos na boate de seus ressentimentos por ele, de como ele estava bonito e maduro. Agora, sabendo que teria a companhia dele sempre, refletiu que deveria evitá-lo:
“Abracei, dancei e ainda conversei alegremente com ele...preciso parar com isso, ele está noivo e não me ama mais! Nossa história acabou.”
Logo após comerem, Sr. Bennet chamou todos à sala para que pudessem conversar mais um pouco.
- O que tem achado da cidade, Willian? Muito diferente de quando você a deixou há oito anos?
- Acho difícil ele encontrar alguma diferença – disse Charles – Nos últimos tempos ele tem vindo quase todo mês.
- Como??? Você esteve em Londres e não nos procurou? - perguntou Lizzie atônita.
Willian olhava para os amigos na sala. Fanny e Thomas esperavam a resposta para a pergunta da filha. Não era possível que ele tivesse ido a Londres sem nem ao menos
telefonar para os velhos amigos.
- Estive em Londres no ultimo mês sim, mas só fiquei apenas um dia. Vim ver como andavam as coisas na empresa, pegar alguns relatórios e balanços porque não consegui acompanhar tudo diretamente de Moscou, mas foi apenas uma vez. Charles realmente exagera muito. – olhou para Charles e este entendeu que havia falado demais.
Willian estava mentindo. Estivera em Londres pelo menos 3 vezes no ultimo mês, mas não queria e não podia ligar para os Bennet. Não se sentia confortável com a possibilidade de encontrar Elizabeth. Ficava apenas algumas horas ou no máximo um dia e logo voltava para sua antiga cidade.
- Ahn, filho. Sei como é. Essa vida de trabalho pesado às vezes nos absorve de tal forma...passamos a viver em aeroportos e rodoviárias. Quando eu era mais novo isso era comum, com o tempo as coisas vão melhorar. – disse o Sr. Bennet.
Nesse momento o celular de Darcy tocou.
Era Caroline.
Atendeu a ligação da noiva sentado no sofá, mas logo se levantou muito constrangido. Ela estava aos berros e com certeza seus amigos deviam ter escutado seus gritos do outro lado do telefone.
- Darcy, use a biblioteca para sua conversa.
- Obrigado, Jane.
Darcy colocou a mão no fone e logo entrou no aposento. Reparou algumas alterações. A biblioteca estava maior, com mais livros e agora possuía um grande sofá branco encostado em uma das paredes de frente para a estante de livros. Ao lado, uma pequena mesa com um abajur e muitas fotos. Não teve tempo de analisar o lugar com mais descrição, pois sua noiva gritava no telefone.
- Sim, Caroline. AGORA você pode falar.
- Como assim, AGORA? Onde você está, Willian Darcy?
-Caroline, estou na casa dos grandes amigos do meu pai, os Bennet. Com certeza você já ouviu falar muito deles.
- Ahn...sim! Na casa da sua namoradinha, não é mesmo?
- Caroline, não estou entendendo esse seu tom. Pelo que eu me lembre você não apareceu no aeroporto para pegar o vôo com Charles, sequer me ligou. Apenas mandou uma mensagem dizendo que teve problemas na sua loja e não atendeu minhas ligações ontem. O que está acontecendo?
Darcy havia conhecido sua noiva em uma festa na casa de seu melhor amigo. Se apaixonou rapidamente pela ruiva de olhos escuros. Era uma mulher muito determinada e ele admirava isso. Porém, desde o início do namoro, Caroline mostrou-se extremamente ciumenta e possessiva. Sempre mexia escondido em suas coisas e várias vezes aparecia de surpresa nos lugares que ele estava no intuito de flagrá-lo em alguma atitude errada.
Darcy já não agüentava mais aquele comportamento doentio e as brigas constantes do casal e nas últimas semanas isso havia se intensificado. Parecia que ela procurava motivos para que terminassem, brigassem...apesar disso, sempre voltava no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.
- O que está acontecendo??Essa pergunta é minha, o senhor não acha?? Ligo para seu celular e vejo que está almoçando com Charles na casa da ex-namorada. Isso é um absurdo. Não serei humilhada assim!
- Caroline, já te expliquei um milhão de vezes essa história e não irei repeti-la. Quero saber quando você chegará a Londres. Virá com meus pais amanhã?
Darcy não ouviu nenhum sinal do outro lado da linha.
- Caroline? Caroline? Está aí?
-Willian, estou com um problema com meus fornecedores de Armani e Chanel. Você sabe que às vezes tenho que espernear para conseguir uma peça exclusiva, não sabe? Por isso, acho que não conseguirei ir para Londres agora.
- Você havia me dito que ficaria alguns dias aqui comigo e depois retornaria para Moscou para o Natal. Você então não virá?
- Não poderei. Essa época é a de maior movimento por aqui. Além disso, acho que talvez também não irei a Londres para o Ano Novo.
- Mas qual o motivo dessa mudança repentina de planos? Entendo que queira passar o Natal com sua família, mas você me assegurou que estaria aqui no dia 29 de dezembro. Se você quer passar essa data com seus pais, chame-os para cá.
Darcy estava confuso porque a noiva sempre fora possessiva e sempre queria estar onde ele estava e agora iria deixá-lo sozinho paras as festas de fim de ano, justamente quando estavam noivos e ela poderia se exibir com seu anel de noivado. Se isso se concretizasse, Willian estaria em sério perigo. Passaria o Natal e o Reveillon com sua Lizzie, como nos tempos que eram amigos e namorados.
- Willian, estou farta. Você está me sufocando com suas perguntas. Mal posso passar as festas de fim de ano com meus pais e você fica desse jeito....sabe, venho pensando seriamente na felicidade de nosso futuro casamento. Você não entende meu jeito.
O “jeito” que Caroline se referia era o seu consumismo desenfreado e suas atitudes loucas de vez em quando. Era uma menina minada. Saía na noite e acabava bêbada na casa de alguma amiga ou se portava de forma inconveniente e muito sensual com Darcy no meio de um bar ou festa.
-Caroline, você está terminando comigo? É isso? – Darcy estava apreensivo pela resposta.
“Imagina se ela disser que sim...posso ter uma chance de novo com Lizzie”
-Não é isso. Só acho que devemos dar um tempo. Não sei, esfriar nossas cabeças. Estamos brigando demais, você não acha? Acho que precisamos ter uma conversa séria sobre nosso “possível” futuro. Talvez nem haja futuro...
Willian estava assustado. Era a mesma Caroline que estava falando com ele? Sua noiva? Impossível!!! Alguma coisa estava errada com ela. Em pouco mais de um ano de namoro essa era a primeira coisa sensata que ela falava.
- Sim, Caroline. Honestamente, eu concor...
Foi interrompido pela noiva que dizia que então eles estavam combinados. Iam dar um tempo e depois teriam uma conversa séria para resolverem o que fariam quanto ao compromisso. Ela estava com pressa e quase desligou o telefone na cara de Willian.
Ele estava muito confuso. O que será que tinha acontecido? Aquilo, definitivamente, não era típico dela. Aquela atitude era muito estranha. Por que ela estava daquele jeito esquisito? Parecia querer se livrar dele de qualquer jeito...
Logo ocupou seus pensamentos com outra preocupação:
“Talvez ela percebeu que nosso namoro estava péssimo... fomos apaixonados um dia, mas já passou. Mas e agora? O que eu faço?”
Foi desperto de suas indagações com dois leves toques na porta da biblioteca.
Era Lizzie.
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