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Boa vontade com todos, mas não amizade com todos, faz de um homem o que ele deve ser. (Jane Austen)

Outra Vez - Capítulo XXVIII

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 Lizzie percebeu o quanto Darcy estava sério desde que chegara da França, evitara vê-la dizendo que estava com problemas e ela não insistiu. Passaram parte do jantar lado a lado, mas ele parecia aéreo a maior parte do tempo.

 

Sem mais agüentar Lizzie resolveu indagar sobre o que estava acontecendo com ele. William por um momento tentou disfarçar e atribuir seu jeito a problemas com as empresas, mas Lizzie retrucou, se o problema fosse esse o pai dele estaria preocupado também, e ao contrario do filho, Fitzwilliam estava ótimo. Com base nisso William resolveu baixar a guarda, prometeu que lhe falaria ainda naquela noite, mas em outro local.

 

- Vamos dar uma volta lá fora? – Lizzie convidou, mas William foi chamado pelo seu pai que estava conversando com os pais de Charles e queria que o filho ajudasse a explicar alguma coisa para o Sr. Bingley. Vendo a indecisão do amado Lizzie tomou a frente:

 

- Eu vou indo, quando você puder me encontra, tudo bem?

 

Ele assentiu e ela subiu até seu quarto para pegar algo que a cobrisse, percebendo a movimentação Caroline subiu logo depois, chegara o momento ideal para que ela pudesse agir.

Quando Elizabeth abriu a porta de seu quarto novamente encontrou Caroline com a mão levantada, pronta para pousar na porta.

 

- Algum problema? – Lizzie perguntou sem querer parecer agressiva.

 

- Na verdade alguns. - a ruiva respondeu – Posso falar com você em particular?

 

Lizzie não imaginava o que a mulher teria para falar com ela, mas não soube o que dizer, apenas afasto-se e deu espaço para que a outra entrasse em seu quarto.

 

- Eu não sei bem por onde começar.

 

Caroline parecia nervosa, segurava as mãos com força e não fixava os olhos em Lizzie que começou a ficar preocupada.

 

- Por que você não senta e começa pelo início?

 

Caroline obedeceu, sentou numa poltrona próximo a cama de Lizzie que fez o mesmo ficando de frente para a outra.

 

- Eu estou grávida, Elizabeth. – ela disse com os olhos baixos e por um segundo deixou Elizabeth atônita - Eu espero um filho de William.

 

Lizzie sentiu seu mundo rodar, aquilo só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto. Seria uma tentativa desesperada de Caroline? Ela seria capaz de fingir uma gravidez apenas pra tentar separá-los? Mas então se lembrou da atitude de William desde a última viagem a Paris e olhou pra cima tentando segurar uma lágrima.

 

- Não foi intencional – Caroline continuou – eu sabia que ele não gostava mais de mim, não como gostava de você. Mas eu continuei desesperadamente apaixonada por William. De uns tempos pra cá ele tem ido muito a Paris e acabamos nos reencontrando e eu aceitei ser apenas sua amante, eu aceitar me subjugar por poucos momentos de amor.

 

Lizzie mal podia respirar, aquela história toda lhe dava náuseas.

 

- Então uma vez perdemos o controle e não tivemos tempo de nos proteger... Há duas semanas comecei a sentir os sintomas e procurei um médico que confirmou minhas suspeitas. Liguei para William e contei tudo e ele disse que estava disposto a me pagar para que eu tirasse a criança e ficasse calada.

 

Elisa levou a mão a boca para segurar a onda de vômito que estava prestes a surgir. Respirou fundo tentando se controlar. Ela não podia acreditar que William era capaz de um ato cruel como aquele, traí-la, gerar uma criança em outra e ainda por cima querer dar cabo de uma vida inocente.

 

- Eu fiquei desesperada, com medo do que ele poderia fazer, não queria tirar o meu filho, ele apareceu de surpresa essa semana na minha casa e quase me agrediu, disse que eu tinha que dar um jeito nisso, que não queria um filho meu e outros absurdos.

 

- Eu disse a ele que estava disposta a ir embora, viver longe de todos e ele nunca precisaria assumir a criança e então ele aceitou. Estar aqui hoje para o casamento do meu irmão foi a única coisa que eu pedi e ele só admitiu porque ainda não dá para perceber a gravidez. Mas amanhã mesmo vou partir, vou pra ter meu filho bem longe e nunca ninguém vai saber quem é o pai, não aceitei nem o dinheiro dele, não quero mais nada de um homem como ele. Eu só pedi pra falar com você porque sei que você também é apaixonada por ele, e de nada tem culpa assim como eu, mas você não merece um homem assim. Eu assumo que antes eu não gostava de você, mas agora é diferente. Essa nova vida dentro de mim despertou sensações que eu imaginava não existir, eu sinto que preciso te proteger, você merece um homem melhor, íntegro, honesto e sincero e não um monstro que é capaz de fazer o que ele tentou comigo. Eu queria que você me entendesse, você é mulher, vai ser mãe algum dia, quando você tiver uma vida dentro de você vai entender o que eu estou passando.

 

Depois de alguns segundos de silêncio ela continuou:

 

- Agora preciso ir, tenho medo do que ele possa fazer se descobrir que eu falei como você. - Caroline se levantou enxugando uma falsa lágrima do rosto e voltou o olhar pra Lizzie quando chegou na porta – Por favor, apenas você sabe disso, eu peço que fique entre nós, se qualquer pessoa souber disso e chegar aos ouvidos de William não sei o que poderia acontecer comigo e meu filho.

 

Ela saiu do quarto e fechou a porta, assim que se encontrou no corredor não mais conseguiu esconder um sorriso vencedor no rosto.

 

Elizabeth não sabia dizer quanto tempo passou encarando a porta a sua frente depois que Caroline Bingley saiu de seu quarto. Um completo vazio apoderava seu ser, o choque das palavras da ruiva que ainda ecoavam em sua mente impedia qualquer pensamento ou articulação de idéias.

 

“Eu estou grávida. Estou esperando um filho de William.”

“Ele disse que estava disposto a me pagar para que eu tirasse a criança e ficasse calada.”


As palavras a atingiam como facas afiadas, e mesmo sem saber o que pensar queria apenas acreditar que tudo era um sonho, um sonho ruim, que ela acordaria com a voz de William e perceberia que nada daquilo era real.

Mas os minutos foram se passando, e ela cansou de esperar que o pesadelo acabasse. Esforçou-se para racionar e começou rememorando todas as palavras que ouviu, buscando um ponto qualquer que não fizesse sentido. Infelizmente o que Caroline havia dito condizia com o comportamento atual de William. Ele realmente estava indo mais freqüentemente a Paris, com a desculpa de negócios, Lizzie não podia negar, e, além disso, Will esteve lá na última semana e voltou extremamente distante e tenso, provando que algo realmente grave acontecera.

Ponto para a ruiva.

 

Por outro lado Lizzie passara boa parte daquele ano ao lado de William, ele nunca dera mostras de qualquer tipo de comportamento baixo como aquele. Eles se conheciam praticamente desde a infância, e por mais que tenham passado dez anos sem se ver não havia nenhuma mudança nesse sentido, William era uma pessoa boa e Lizzie sentia que ele não era capaz de traí-la, ele dera provas suficientes de seu amor. E ainda tinha o fato da suposta criança, ele nunca seria capaz de rejeitar um filho, alguém de seu próprio sangue, mesmo que a mãe fosse alguém fútil e vazia como Caroline.

 

Ou estava errada? William seria capaz de traí-la? De ameaçar aquela mulher e seu próprio filho? Esse simples pensamento provocou novamente a náusea que a acometeu enquanto Caroline falava voltou ainda mais forte e ela correu para o banheiro onde colocou pra fora todo o conteúdo do seu estômago.

 

Tocou na testa suada, mesmo com a temperatura baixa do lado de fora da casa, onde os primeiros flocos de neve do inverno começavam a cair. Jogou água no rosto e lavou a boca, tentando tirar o gosto amargo. Estava confusa, oprimida e magoada, mas precisava fazer alguma coisa. Um dia ela já quis que William nunca mais aparecesse na vida dela, mas ele reapareceu e a fez esquecer todas as noites que chorava em silêncio pelo abandono dele, os momentos ao lado daquele homem eram tão perfeitos que nos últimos tempos ela não conseguia mais imaginar como seria sua vida sem ele.

 

Sentia que os dois eram partes de um todo, que se complementavam, se entendiam como mais ninguém, e definitivamente haviam sido feitos um para o outro. No entanto, como um animal que se alimenta da felicidade alheia as palavras de Caroline agiam como veneno, infestando Lizzie de dúvidas e sofrimento.

 

Sentou em sua poltrona e abraçou as pernas, tentando pensar claramente em tudo que aconteceu ali.

Só restavam duas opções: Ou ela estava cega de amor e não via esse William cruel que Caroline pintara ou era tudo uma mentira, uma tentativa desesperada de Caroline recuperar o que nunca teve de verdade. E então Lizzie se lembrou de uma revista que Jane lhe mostrava certa vez, o próprio Charles alertara a cunhada, Caroline era capaz de tudo para ter o que quer, e era óbvio que ela queria William Darcy.

 

Eram várias perguntas e poucas respostas, mas Lizzie tinha uma certeza, uma verdade que superava e valia mais do que qualquer outra: amava William Darcy com todas as suas forças, cada centímetro de sua pele pedia por ele, seus pensamentos sempre estavam conectados com as lembranças dos dois, ela o perdeu uma vez quando ele foi embora e por pouco não o perdera de novo porque quase não conseguiu perdoá-lo quando ele assumiu um erro. Essa lembrança ajudou um pouco a esclarecer as coisas. Will já errara com ela, mas foi sincero em assumir e corrigir seu comportamento baseado em vingança. Ele a amava, ela sabia, sentia.

Mas mesmo assim sentia um medo inexplicável, uma ansiedade que a corroia e atrapalhava seu raciocínio. Sentia que o ar lhe faltava, precisava sair dali, precisava ficar sozinha, precisava respirar.

Pegou um casaco e desceu as escadas em direção a movimentação de pessoas que comemoravam com Charles e Jane a simples e emocionante união, mas ao invés de permanecer ali com os poucos convidados pegou o caminho da cozinha e saiu pelos fundos.

 

Andou sem direção, pensado no que deveria fazer. Caminhou por quase meia hora, sentindo a completa confusão que ecoava em sua mente enquanto torcia para Jane não sentir a falta dela naquele momento. Lembrou que o namorado decidira conversar com ela, seria isso que ele tinha a dizer? Talvez sim. E uma centelha de esperança surgiu em seu peito. Se ele fosse sincero, se ele confirmasse a versão da ruiva seria menos doloroso, porque ele pelo menos estava sendo honesto, e ela talvez conseguisse se recompor e tentar viver sua vida sem ele, sabendo que se William quisesse ficar com a mãe de seu filho, já que ela nunca seria capaz de fazer o mesmo por ele, pelo menos não lhe faltara com a verdade.

 

Virou as costas, ansiosa para voltar e encontrá-lo, para esclarecer aquilo tudo. Foi quando reparou na figura máscula que andava em sua direção. A noite estava escura, somente a grande casa estava iluminada e o local onde ela se encontrava estava apenas na penumbra.

 

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Soneto do teu corpo – Leoni

 

Ele se aproximou em silêncio, ficando frente a frente com ela, seus olhos cheios de amor. Lizzie não tinha mais o que pensar. Não se importava com o que ele tinha ou não feito, não se importava com verdades ou mentiras. Amava aquele homem e se dependesse dela ninguém o tiraria de seu lado. Ele tomou as duas mãos dela nas suas e levou aos lábios, depositando um beijo suave.

 

- Não está com frio? – ele perguntou com a voz que a fazia esquecer o próprio nome e ela estremeceu diante do poder daquele homem sobre ela.

 

William percebeu e tirou o próprio sobretudo, cobrindo seus ombros.

 

- Agora não mais. – ela respondeu olhando-o, mas ela não falava do agasalho e sim da presença dele. Era William que aquecia seus dias e noites, era ele que iluminava a sua existência. Ele era a estrela luminosa em torno do qual ela gravitava.

 

- Lizzie, sobre hoje mais cedo... – ela interrompeu-o colocando o indicador nos lábios dele.

 

- Shiiii. Espere um momento antes de continuar. Pra mim não importa o que aconteceu, eu amo você e se você me quiser podemos enfrentar isso e qualquer outra coisa juntos.

 

- Se eu lhe quiser? – era como se ela perguntasse se um vampiro gostaria de um pouco de sangue* – Alguma dúvida que eu quero você pelo resto dos meus dias?

 

Ela permaneceu em silêncio apenas olhando-o e ele continuou.

 

- Eu não conseguiria viver longe de você, Lizzie, meus ouvidos clamam pela tua voz, porque nenhuma outra é doce e hipnotizante como a sua, meus olhos vivem pra olhar nossas lembranças, os lugares que me lembram você, e principalmente pra procurar por você, esquadrinhar cada detalhe seu. – Will tocava seu rosto com carinho – Meu nariz implora pelo teu cheiro e minha boca pelo seu gosto, meu pensamento está repleto de imagens e lembranças suas, e o meu corpo reage ao seu de uma forma única e especial. Eu preciso de você, pra sempre.

 

Naquele momento não existia uma pequena comemoração de uma união ali tão perto deles, não havia nenhuma Caroline Bingley e muito menos Catharine Collins também.

 

Ele encostou a testa no rosto dela e ouviu seu sussurro.

 

- Eu amo você, mais que a mim mesma.

 

- Eu também amo você, Elizabeth Bennet. – ele falou e continuou depois de respirar fundo - Tenho pensado na melhor forma para fazer isso há algum tempo e tenho andado com isso há no bolso há uns dias.

 

William colocou a mão no bolso, retirou um envelope e entregou a Lizzie. – Foi isso que eu fui fazer em Paris dessa vez, buscar alguma prova concreta do meu amor por você. Eu sei que não é a original, apenas um rascunho, mas o conteúdo é praticamente o mesmo, e os sentimentos com certeza são ainda maiores.

 

Ela abriu o envelope trêmula e retirou um papel amarelado de dentro. Desdobrou a carta frágil pelo tempo e iniciou a leitura em voz alta.

 

Lizzie,

Meu amor,

Querida Lizzie,

“Talvez seja estranho receber essa carta, afinal não nos vemos há uns três meses pelo menos. Mas eu precisava tentar, não posso passar o resto dos meus dias sem você.”

 

- Achei melodramático demais na época, não quis te assustar. – ele falou quando ela parou a leitura e olhou pra ele interrogativa.

 

“Você deve estar estranhando receber uma carta minha, afinal desde o aniversário de Georgianna em Pemberley não nos falamos mais. Porém não consigo mais reprimir nem esconder meus sentimentos... Em vão tenho lutado comigo mesmo, mas nada adiantou... Eu amo você, ardentemente...” – a última frase foi dita por ele, e Lizzie viu um brilho em seu olhar.


“Queria pedir desculpas sobre... Desculpe se estou soando clichê, mas queria pedir-lhe perdão pelo que se passou entre nós em nosso último encontro, não sei o que houve, aliás, sei, perdi o controle, estar perto de você me fez perder a cabeça, fiquei completamente a mercê dos meus sentimentos...”

 

- E dos hormônios! – ele completou com um sorriso doce.

 

“Depois disso percebi que a distância física não é nada comparada a distância que colocamos entre nós, estou cheio de incertezas quanto ao que você está pensando de mim, será que me odeias? Será que pode me perdoar um dia? Será capaz de me amar? O que você pensa de mim? E sobre nós?

Essas perguntas só você pode responder, mas preciso que você saiba o que eu penso de você, de nós e dos meus sentimentos.

Lembra quando você era menor sempre me perguntava o que eu via quando olhava pros seus olhos? Hoje eu tenho a resposta: Eu vejo futuro, um futuro ao seu lado. Porque você é a melhor parte de mim, minhas perspectivas, meus planos, meus sorrisos. E a vida sem você não tem luz e não tem cor e nem tem graça.

E por mais que eu tente não pensar em você tudo que eu vejo lembra teu sorriso, teus olhos, tua voz... E se torna cada vez mais impossível não te amar...


Te peço uma nova chance. Dê-me uma chance para recomeçarmos? Dê uma chance a nós dois? Se você me der o seu perdão serei o garoto mais feliz do mundo. No entanto se sua resposta for negativa prometo nunca mais incomodá-la.

Um beijo...

Will William Darcy

Do sempre seu William Darcy”

 

Ela o fitou intensamente, e antes de dizer qualquer coisa ele tirou uma caixinha do bolso.

 

- Eu só queria mudar o último parágrafo antes de lhe entregar isto. – Lizzie mordeu os lábios com a visão da caixinha de jóias – Seja minha pelo resto da vida e eu serei o homem mais feliz do mundo. Eu juro que nunca vou deixar de amar você, juro que vou te fazer feliz, juro que você vai acordar todos os dias sem motivos pra se arrepender dessa decisão. Você quer ser minha esposa Elizabeth Bennet?

 

William abriu a caixinha revelando a aliança em ouro branco e amarelo com um enorme diamante incrustado.

Ela deu-lhe a mão direita e sorriu, colocando na face de William um sorriso largo e sincero. Ele colocou a aliança em seu dedo anelar e Lizzie fechou seus braços em torno dele, apertando-o em seu corpo como se quisesse torná-los um só.

 

- É claro que quero ser sua esposa, Will. Mais do que isso, quero ser a sua mulher. E eu juro ser tua e só tua enquanto eu viver.

 

Beijaram-se com paixão, as lágrimas que Lizzie tanto segurou desde a fatídica conversa em seu quarto desciam pelo seu rosto e molhavam a face de William. Mas agora elas não eram lágrimas de dor, e sim de alegria, de felicidade plena, uma felicidade que só os que amam verdadeiramente são capazes de sentir.

 

Nada importava naquele momento, William era de Lizzie e ela era dele, e ela não deixaria nada e nem ninguém separá-los.

 

Andavam de mãos dadas de volta a casa quando ele parou e virou-se para ela:

 

- Devemos esperar pra anunciar nosso noivado outro dia?

 

- Acho melhor, hoje é o dia de Jane e Charles. Mas acho que não saberei mentir se alguém reparar na aliança. – ela sorriu.

 

- Eu acho que nem eu.

 

Voltaram a caminhar, mas foi a vez de Lizzie parar.

 

- Will?

 

- Hum?

 

- Porque hoje? Porque você me pediu em casamento hoje se já tinha a carta e o anel antes?

 

- Eu estava mal humorado esses últimos dias Lizzie, tive uma discussão feia com a minha tia. Não queria que isso estragasse o nosso momento. Mas quando te vi ali na penumbra, tão solitária, com tanto medo no rosto, então eu me decidi, queria te proteger, te amparar, não agüentei mais esperar.

 

- Por que você brigou com a sua tia?

 

- Tivemos uma pequena discussão. Ela não é a favor do nosso relacionamento e o modo com que ela disse isso me irritou. Mas deixa esse assunto pra lá, nada é capaz de nos separar.

 

- Você encontrou alguém conhecido além da sua tia?

 

- Não, cheguei do aeroporto e fui direto pra residência dos Collins, encontrei a carta e discuti com Lady Catharine em pleno almoço, de lá fui direto pro aeroporto e consegui mudar a minha passagem.

 

- E Caroline? Você a viu?

 

- Ciúmes de novo meu amor?

 

- Não, é só que...

 

- Depois do aniversário da minha irmã só hoje revi Caroline. Pare de pensar nela, nunca houve nada de sério entre nós, não havia sentimento, Lizzie. Você foi, é e sempre será a mulher da minha vida.

 

Ela lhe deu um selinho e murmurou um pedido de desculpas. Todos os seus medos eram infundados, Caroline nada mais era do que uma minúscula pedra no caminho dos dois, que acabara de ser chutada pra bem longe e nunca mais atrapalharia a vida que eles levariam dali pra frente.

 

Entraram na casa e passaram o resto do tempo juntos. Lizzie estava extremamente feliz, não pensaria mais em Caroline e no que ela havia dito. Conhecia William desde que nascera e sentia que ele nunca agiria daquela forma cruel nem com seu maior inimigo. Não perderia o tempo dos dois dando crédito ao veneno de alguém como aquela francesa mal amada.

 

*

 

Charlotte se perguntava por que Richard não falara com ela ainda. Ele simplesmente fingia não vê-la e ela já estava realmente impaciente. Ele estava sozinho próximo a janela, observando a paisagem lá fora, precisava aproveitar aquele momento, caminhou até ele decidida, colocando-se exatamente a sua frente com um olhar inquisidor.

 

- Estou invisível agora?

 

Ele fingiu não vê-la.

 

- Interessante! Escuto uma voz, mas não sei de onde vem.

 

Charlotte fechou a cara e ia virando-se quando ele a pegou pelo braço impedindo que ela se afastasse.

 

- Dá pra largar o meu braço? – ela perguntou brava quando virou de novo pra ele.

 

- Talvez! – ele sorriu. – Se você me disser o que te deixou zangada assim. – provocou.

 

- Eu não estou zangada!!

- Está sim Srta. Luccas, e você realmente se irrita muito fácil! – antes que ela respondesse à provocação ele continuou – e permita-me dizer que fica ainda mais linda quando irritada.

 

- Richard! – ela sorriu e corou. – Por que você não falou comigo?

 

- Medo de pegar outra resposta atravessada como a que eu levei na festa da minha prima.

 

- Eu já me desculpei por aquilo.

 

- Eu sei, mas nunca se sabe quando os hormônios entram em ação de novo. – ele provocou.

 

- Você não cansa dessa brincadeirinha infantil, não?

 

- Às vezes. – e completou mudando de assunto. - E aí, você ainda vai demorar por aqui?

 

- Não, se eu pudesse já teria ido embora. Praticamente só tem casais aqui. – ela bufou cruzando os braços na frente do corpo.

 

- E por que não foi?

 

- Porque vim com os meus pais, e pelo visto eles ainda não estão pensando nessa possibilidade. – Charlotte apontou os Luccas que estavam não muito longe dali. Sua mãe num grupo de mulheres entre as quais a Sra. Bennet e seu pai conversando com os pais de Charles.

 

- Posso te levar se você quiser.

 

- Você realmente já quer ir ou está querendo ser gentil?

 

- Quero mesmo voltar, estou me sentindo um intruso no meio desses casais. – ele usou a mesma desculpa dela fazendo-a sorrir e depois de se despedirem dos conhecidos Charlotte avisou aos pais que pegaria uma carona e eles saíram juntos.

Nem mesmo sentiram o tempo passar e logo estavam em Londres, conversaram bastante pelo caminho e discutiram um pouco também.

 

- Pode me deixar na estação mais perto pra você e eu pego o metrô. – disse Charlotte.

 

- Onde você mora?

 

- No Queen´s Park. Mas eu pego o metrô, não se preocupa.

 

- Vamos logo negociar o pagamento. Você primeiro tem que tomar um drink comigo, depois você resolve onde quer ficar. – Richard falou sedutor – Pode ser?

 

- Hum, tudo bem então. Até que não é um valor tão alto!

 

Pararam num barzinho e fizeram seus pedidos, continuaram a conversa e não repararam que um drink virou dois, que virou três, e assim sucessivamente.

 

- Nossa! Já são duas da manhã! Charlotte surpreendeu-se quando olhou no relógio. Preciso ir pra casa.

 

Richard pediu a conta e depois de brigarem porque Charlotte queria rachar a conta levantaram-se da mesa, e ela quase perdeu o equilíbrio.

 

- Ops! - Ela disse quando ele segurou-a pela cintura – Acho que exagerei.

 

- Não tem problemas, você não vai dirigir mesmo. Eu te levo em casa.

 

- Richard?

 

- Oi?

 

- Não conta pra ninguém que eu fiquei meio alta, ta?

 

- Claro, agora é melhor nós irmos.

 

Richard estacionou em frente à casa de Char e deu a volta no carro, abrindo a porta pra ela, ajudando-a a descer. Ela colocou a chave na porta com um pouco de dificuldade e ele achou graça.

 

- Bem, obrigada pela carona e pela companhia.

 

- Eu que tenho que te agradecer, precisamos fazer isso mais vezes.

 

Ela aproximou-se do rosto dele para dar um beijo de despedida e ele virou rapidamente sem querer, encostando os lábios nos dela por milésimos de segundos.

Afastaram-se com o susto do contato e ficaram em silêncio por um momento. Quando Charlotte abriu a boca para se desculpar-se Richard interrompeu-a.

 

- Se eu te beijar amanhã você esquece?

 

Ela sorriu e respondeu. – É pra esquecer?

 

- Você decide.

 

- Então vamos tentar, se eu lembrar eu te aviso.

 

Richard aproximou-se outra vez, dessa vez encostou sua boca na dela propositalmente, num longo beijo.

**

Quando Caroline viu Darcy e Elizabeth entrando na casa de mãos dadas pegou a chave do carro que os pais alugaram e saiu de fininho. Tinha quase certeza que a estúpida da irmã da sua cunhada acreditaria piamente no que ela dissera, mas pelo visto errara. Ou mesmo acreditando em tudo talvez Elizabeth preferisse continuar com William a deixá-lo. Mas não importava o motivo, os dois continuavam juntos e ela precisava sumir por uns tempos, não podia correr o risco da estória se espalhar, aproveitaria a passagem para o Havaí que já havia sido comprada em seu nome por Catharine Collins como parte do plano e tiraria umas férias sem data definida.

 

Os outros convidados aos poucos foram deixando a casa, até que só restaram Jane e Charles, seus respectivos pais, que voltariam juntos para Londres, William e Lizzie e as pessoas que trabalharam na festa.

 

Fanny Bennet dava ordens aos funcionários para a reorganização da casa enquanto seu esposo conversava com as filhas e os genros.

 

- Vamos, Lizzie? – perguntou Darcy.

 

- Vamos, estou morrendo de sono.

 

Ela se despediu de todos, mas quando chegou à porta sentiu um mal estar, sua visão escureceu completamente e perdeu o equilíbrio. Estancou de uma vez e apoiou-se em William. Foi a última coisa que se deu conta.

Todos viraram rapidamente quando William chamou Charles assustado.

 

- Leve-a para o quarto. – o amigo falou assim que viu Lizzie desmaiada nos braços de William. Ele obedeceu e subiu as escadas com a namorada. Jane seguiu atrás dos dois e o Sr. Bennet queria fazer o mesmo, mas sua esposa começou a reclamar dos nervos por causa do estado da filha e impediu que seu marido saísse de seu lado.

 

William deitou Elizabeth na cama e Charles pediu que Jane pegasse sua maleta de primeiros socorros. Ele sempre andava com ela e a deixara no quarto de hóspedes onde ele colocara suas coisas quando chegou a casa mais cedo, já que os dois passariam a noite em Netherfield.

 

Em pouco tempo ela voltou com tudo que o marido precisava. Charles tomou o pulso e auscultou os batimentos de Lizzie, abriu um frasco e embebeu um chumaço de algodão, colocando-o próximo as narinas dela, que tossiu um pouco e abriu os olhos. Ficou sem entender com fora parar ali e o cunhado explicou depois de pedir que os deixassem a sós.

Mediu sua pressão e ao verificar que estava normal começou a fazer-lhe perguntas.

 

- Lizzie, você sentiu mais alguma coisa? O que aconteceu antes de você desmaiar?

 

- Eu não senti nada eu acho. Só aquela tontura mesmo.

 

- Tem certeza?

 

- Eu tenho andado enjoada, cheguei a vomitar algumas vezes, acho que estou com algum problema no estômago, mas nunca tinha desmaiado.

 

- Apenas isso?

 

- Claro Charles.

 

- Como está seu ciclo menstrual? Suas regras já vieram esse mês?

 

- Hum, eu não sei direito. Eu sempre esqueço se já aconteceu ou não. – ela então percebeu o que ele desconfiava e procurou acalmá-lo - Charles, eu não estou grávida, ok? Isso é impossível.

 

- Você faria um teste de gravidez então?

 

- Charles, eu não posso ter filhos.

 

- Não pode ou as possibilidades são mínimas?

 

- As possibilidades são quase zero.

 

- Então há possibilidade. – ele concluiu vencedor - Me responda mais duas perguntas apenas. – diante da concordância dela ele continuou – Você tem dormido mais que o normal?

 

- Sim, eu tenho sentido muito sono, porque tenho estudado demais. – ela enfatizou.

 

- Ganhou peso?

 

- Um pouco, porque passei uns dias sem ir às aulas de dança.

 

- Eu não estou tão certo quanto a isso, Lizzie. - Charles não era especialista, mas sabia que muitos tipos de esterilidade tinham tratamento e outros eram temporários, poderia ser o caso de Lizzie. Todos os sintomas que ela relatou condiziam com uma gravidez, e, além disso, já ouvira Jane e o próprio Darcy reclamar que Lizzie estava insuportavelmente nervosa e chorona, mas todos acreditavam que tal comportamento se dava pela tensão que ela estava com a proximidade de defender sua dissertação de mestrado.

 

- Eu vou embora, isso não tem sentido, eu não estou grávida, Charles.

 

- Então me prove, faça um exame.

 

- Certo. Amanhã eu vejo isso.

 

- Promete?

 

- Charles, que exagero, foi um desmaiozinho de nada.

 

- Considere o pedido como um presente de casamento. E me ligue assim que tiver o resultado.

 

Elizabeth voltou pra casa com William, no caminho pediu para o namorado passar em uma farmácia e ela desceu para comprar o teste. Ele estava no celular quando ela voltou e nem se lembrou de perguntar o que Lizzie havia comprado.

Os dois dormiram abraçados pela primeira vez como noivos.

 

~x~

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