Citações

Marienne Dashwood havia nascido para um extraordinário destino. Nascera para descobrir a falsidade de suas opiniões e para contrariar, pela sua conduta, suas máximas favoritas.(Jane Austen)

Outra Vez - Capítulo XXVII

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Alanis Morissette - Head Over Feet
 

Darcy tinha realmente ido a Paris recentemente atendendo aos insistentes pedidos da tia, ele já estava se irritando, havia inúmeros bons funcionários e executivos competentes na filial francesa, mas a tia insistia que apenas ele era capaz de lidar com as mudanças que estavam sendo implementadas na empresa, não entendia porque ela praticamente o forçava a ir, sempre o lembrando do tempo que ele morou com ela e que foi praticamente uma mãe para ele.

Mas daquela vez era diferente, William não estava indo apenas atender a mais um pedido da tia, mas sim pensando numa maneira de pedir a namorada em casamento de forma que tornasse aquele momento inesquecível e para isso se lembrara da carta que um dia escrevera e que Lizzie nunca recebeu. Sabia que não seria possível reaver a carta se realmente tivesse extraviado, porém tinha um rascunho que nunca foi jogado fora, pelo menos não por ele, havia uma chance de encontrá-lo e ele tentaria.

- William! Você disse que chegaria apenas a tarde! – sua tia viera almoçar em casa e fora avisado de sua chegada, adentrou o quarto que fora de seu sobrinho e o encontrou revirando o seu antigo guarda roupa. – O que você procura aí? Essas roupas nem servem mais em você.

- Estava procurando outra coisa. Mas já encontrei. - Ele virou sorridente com um papel amarelado nas mãos. Passara a manhã toda procurando nos bolsos das roupas e nas gavetas. Achara o rascunho numa caixa com fotos, a maioria de sua mãe que ele dificilmente olhava, pois quase sempre acabava muito triste.

- Que papel é esse?

- O esboço de uma carta. A carta que Lizzie nunca recebeu.

- Do que você está falando?

- Nada demais. 

Sua tia decidiu não provocar - Vamos almoçar?

- Claro.

Os dois foram até a imponente mesa de jantar onde um impaciente Bill Collins os esperava. Depois dos cumprimentos exagerados do marido da tia eles começaram a refeição.

- Recebi um telefonema do seu pai essa semana, William. Ouvi dizer que você pretende casar-se.

William respirou fundo. Comentara com o pai sobre seus planos, mas não esperava que sua tia soubesse tão cedo, ela provavelmente teria algo contra a dizer. Diante do silêncio dele Bill interviu.

- É verdade?

- Sim. – ele respondeu lacônico.

- Fico feliz! – sua tia o surpreendeu e ele cuidou para não engasgar com o alimento – Caroline é uma ótima moça.

Darcy tentou não sorrir, ou a tia estava sendo ingênua ou podia pressentir algo de errado.

- Sinto decepcioná-la, – ele redargüiu – mas eu não tenho mais nada com Caroline Bingley, há vários meses.

- Então quem é a escolhida? – ela se fez de inocente.

- Elizabeth Bennet, a mulher que estava ao meu lado a maior parte do tempo na festa de Georgianna.

- Não percebi. – ela mentiu - Você não está sendo imprudente? Até poucos dias atrás você tinha um relacionamento sério com a senhorita Bingley, como pode querer noivar com essa tal Bennet? 

Ele permaneceu calmo e respondeu a pergunta da melhor forma que podia:

- Minha tia como já havia dito antes não tenho nada com Caroline há certo tempo, e conheço Lizzie desde criança, sei que ela é a pessoa ideal pra mim. Não vejo imprudência nenhuma em unir-me com a mulher que eu amo.

Catharine estava tentando manter a calma, todavia ficava cada vez mais difícil. Seu sobrinho estava decidido, mas ela iria até o fim para impedir aquela união. Não queria a família Darcy mais uma vez envolvida com “gentinha” como ela pensava dos Bennet.

- William você não pode casar com aquela mulher! – ela falou enfática perdendo completamente a paciência.

- E eu posso saber por quê?

- Ela não é mulher pra você. Olhe ao seu redor, olhe pra você. Você é um Darcy, descendente da nobreza inglesa, herdeiro da maior companhia de engenharia do Reino Unido e da França.

- E? – ele perguntou sem paciência.

- E que ela não é nada comparada a você! É uma qualquer, sem nome, sem berço e sem honra.
- Eu não admito que você fale assim da mulher que eu amo. - Ele jogou o guardanapo na mesa e levantou, a mulher seguiu-o.

- William, me ouça! Você não precisa se desfazer dela, apenas esconda-a, faça-a sua amante, mas case-se com alguém do seu nível.

Aquilo já era demais, sua tia atingira o seu limite.

- Você tem noção do que está falando? As pessoas não são objetos tia, e nem tem seu valor pelo quanto ganham ou pelo sobrenome. As pessoas têm valor pelo que elas são. Eu ainda não pedi Lizzie em casamento, mas vou fazê-lo a senhora querendo ou não. E vou rezar para que ela sim, me ache digno dela e me aceite. Eu a quero ao meu lado, como minha companheira, minha amiga e minha amante, qualquer coisa menor do que isso não seria suficiente pra ela, que é a mulher mais honesta e mais incrível que eu conheci.

Ele pegou a mochila de volta no quarto e caminhou em direção a porta, mas foi impedido pela tia que se colocou na frente.

- Para onde você pensa que vai?

- Eu não penso, eu vou embora daqui e nunca mais piso os pés nessa casa.

- Você é um ingrato, depois de tudo que eu fiz pra você me trata assim. Você ainda vai se arrepender da besteira que está fazendo e virá de joelhos me pedir perdão.

- Pode apostar que não. Saia da minha frente.

Ela afastou um passo e ele saiu, mal deu dois passos quando ouviu a voz dela novamente.

- Eu afastei você dessa mulherzinha uma vez, quando você era apenas um adolescente bobo. Eu posso e vou fazer isso de novo. Não vou deixar aquela vagabunda repetir com você o mal que a sua mãe fez com o meu irmão.

William de repente entendeu porque sua carta nunca chegara ao destino. Pediu forças para os céus para que não conseguisse virar-se novamente e sujar suas mãos com aquela mulher. Fechou os punhos com força tentando controlar-se e sem virar-se para ela falou raivoso.

- Não ouse aparecer no meu caminho, esqueça que é da minha família e nunca mais ouse pronunciar o nome da minha mulher e da minha mãe. Você não tem dignidade para proferir essas palavras, está muito abaixo delas.

Andou apressado por muito tempo até ficar mais calmo, achou um táxi e seguiu para o aeroporto, conseguiu adiantar a passagem e enquanto esperava o horário do vôo foi até o bar, pediu uma dose de wisque sem gelo pra tentar abrandar o ódio que sentia naquele momento.

Na casa da sua tia a mulher se encontrava histérica, descontando no marido os insultos que fora obrigada a ouvir.

- Por que você não me defendeu? – ela indagou ao esposo. – Como conseguiu ficar aqui comendo tranquilamente quando o ingrato do meu sobrinho praticamente me agredia?

- Foi você que provocou, aceite as conseqüências de seus atos.

- Eu provoquei? E você acha errado defender a minha família de pessoas como aquela?

- Minha querida, - ele falou irônico – a única pessoa da qual sua família precisa se defender é de você mesma.

Ele comeu a última colherada de sua sobremesa e subiu para o seu quarto trancando a porta a fim de dormir um tranqüilo sono. Ele e a mulher não dividiam a cama há muitos anos, e ele não queria correr o risco de ser assassinado dormindo, sorriu e deitou-se confortavelmente.

***

Naquele mesmo dia duas mulheres com muito em comum encontravam-se.

- Como vai Caroline?

- Não tão bem quanto gostaria, Sra. Collins, não me conformo ainda de ver William com aquela mulherzinha.

- É exatamente sobre isso que desejo tratar. Até onde eu sei o seu irmão vai se casar com a irmã dela, estou certa?

- Infelizmente. Será uma cerimônia não oficial, apenas com familiares e amigos.

- Pois bem, é lá que começaremos a agir.

Caroline sorriu maldosa, acabara de lembrar de uma conversa que ouvira entre Charles e os pais na semana anterior, quando o irmão fora a Paris buscar os últimos pertences de sua mudança. 

- Já sei exatamente o que fazer.

Catharine Collins assentiu e ela começou a colocas suas idéias para a mulher. A mais velha também repassou as informações que tinha e as duas elaboraram uma forma de separar o casal.

- E se ele contar a verdade pra ela? – Caroline perguntou após repassarem o que fora combinado.

- Ela não irá confrontá-lo se você fizer a sua parte direito, e dessa forma ele não tem como falar a verdade. Se ele disser alguma coisa de nada adiantará, ela estará tão magoada que não conseguirá sequer pensar direito, ele por sua vez vai ficar com raiva porque ela irá duvidar dele. Não tem erros, dessa vez meu sobrinho nunca mais vai querer ver aquela mulher.

*****

William queria ir direto para o apartamento de Lizzie quando chegou de Paris, mas ainda estava nervoso e não queria que ela o visse daquela maneira, com certeza indagaria o motivo de ele estar mau humorado e taciturno e ele não saberia esconder. Não queria magoá-la com as palavras da tia, era melhor ficar um pouco sozinho e esfriar a cabeça. Foi para o escritório e trabalhou até tarde tentando não pensar nos acontecimentos da manhã.

Dois dias se passaram rápido e o fim de semana chegou. Darcy e sua família estavam indo em direção a Netherfield. Ele vinha em seu carro com um ansioso Charles e seu pai e Michelle vinham em outro automóvel. Georgianna tinha um compromisso profissional e talvez chegasse atrasada.

Lizzie havia ido no dia anterior, estava acompanhando a decoração junto com Jane, que agora estava no quarto que havia sido construído para ela quando casasse, já estava pronta aguardando o momento de descer. Olhava para a janela a bela paisagem bucólica da propriedade. Estava feliz, e tentava segurar as lágrimas para não borrar a maquiagem. Dali a pouco tempo estaria unida com o homem dos seus sonhos, alguém que a fazia sorrir quando ela estava preocupada, que a fazia tremer de prazer com seu toque macio, que a fazia gemer de desejo com seus beijos úmidos e quentes e principalmente a fazia feliz pelo simples fato de receber um olhar carinhoso. Não queria uma cerimônia porque não acreditava que era necessário alguém para lhes dizer que deveriam se amar e se respeitar por toda a eternidade, acreditava que o amor era único, raro e quando encontrado era impossível de ser destruído.

Era daquela forma que ela queria, apenas os dois, um de frente para o outro, seus olhares dizendo o quanto se queriam por todo o sempre. Foi tirada de seus devaneios quando ouviu a voz de sua irmã próximo de si.

- Jane! Pensei que tivesse fugido! Bati na porta várias vezes e você não respondeu!

- Eu estava distraída! 

Lizzie viu o brilho nos olhos da irmã, e sentiu uma inveja saudável, era muito bom ver a felicidade exposta no sorriso daquela que sempre seria sua melhor amiga.

- Estou muito feliz por você, Jane! Você mais do que ninguém merece ser feliz.

- Eu estou tão feliz que chego a temer, Lizzie! Tem sido tudo tão perfeito que tenho medo de algo dar errado.

- Não pense assim, nada pode dar errado a alguém como você! Eu te trouxe um presente. – Elizabeth esticou a pequena caixinha para a irmã.

- Lizzie não precisava de nada disso... – Lizzie pegou a mão da irmã e colocou a embalagem em cima. Jane não teve alternativa a não ser abrir a caixinha, ficou surpresa quando viu que dentro da embalagem tinha um minúsculo gorrinho de bebê.

- O que é isso, Lizzie?!

- Para o meu sobrinho, ou sobrinha!

- Mas eu não estou grávida!

- Mas um dia vai ficar! Eu sonhei com um bebê essa semana, só pode ser seu filho ou filha. Quando passei em frente a uma loja não resisti.

- Você sabe que não sei se quero ter filhos, não sei se tenho vocação pra maternidade.

- Você seria a melhor mãe do mundo, minha irmã! Ninguém é tão amorosa como você. Eu espero que essa indecisão chegue ao fim e você me dê o prazer de segurar seus filhos no colo. Prometo que serei uma tia exemplar e não encherei meus sobrinhos de doces! Pelo menos não nos dias de semana! – ela brincou.

As irmãs se abraçaram e foram interrompidas pelo seu pai.

- Lamento separar vocês duas, mas tem um ruivo impaciente lá embaixo. 

As duas sorriram e Lizzie desceu, deixando seu pai a sós com a filha mais velha.

- Você não vai mudar de país mesmo, não é? – ele perguntou quando a filha colocou o braço no seu.

- Não tenho essa pretensão, porque papai?

- Não sei se agüentaria sua mãe sem o seu temperamento calmo por perto. – ele gracejou fazendo Jane sorrir, ele só queria fazê-la relaxar um pouco, mas não admitia que havia um fundo de verdade naquelas palavras, sentiria falta da filha mais velha e seu comportamento doce e carinhoso.

- Eu não vou deixar vocês dois. – Jane beijou a face do pai

- Eu sei que não. – ele sorriu.

Jane Bennet descia com seu pai a escada enfeitada com rosas brancas, suas flores preferidas. Para Charles ela parecia uma fada, ou um anjo, nem ele sabia definir tanta perfeição. Os familiares dela, alguns amigos e a família dele também observavam a cena embevecidos.

Quando ela chegou ao último degrau ele se aproximou.

- Charles Bingley, - um emocionado senhor Bennet falou diante de todos – eu hoje lhe entrego uma das duas rosas mais preciosa do meu jardim, de uma beleza inexplicável e de uma sensibilidade maior ainda. Eu espero que você a faça feliz. É a única coisa que eu lhe peço em troca.

Charles inclinou a cabeça com respeito e o sogro apertou sua mão, descendo o último degrau e se colocando ao lado da esposa que chorava emocionada. Ele tomou as mãos de Jane entre as suas e disse, tentando não tropeçar nas palavras.

- Jane, eu prometo amá-la, respeitá-la, protegê-la e viver todos os dias da minha vida para fazê-la feliz!

Ela não ensaiara nada para aquele momento, mas as palavras saíram de sua boca sem que precisasse emitir nenhum esforço.

- Charles, eu prometo amá-lo, respeitá-lo e cuidar de ti por todos os dias da minha vida, que será repleta de felicidade apenas por te ter ao meu lado!

Os dois trocaram um beijo terno e apaixonado na frente de uma platéia encantada e a festa teve início.

Todos conversavam alegres enquanto uma música suave preenchia o ambiente, o jantar foi servido e logo depois o bolo branco com detalhes prateados foi partido. Todos acharam graça dos bonequinhos de mãos dadas um de frente para o outro, uma loira e um ruivo moldados com as feições dos dois sorriam apaixonados com os narizes próximos, como se estivessem brincando.

**

Ainda em Londres Georgianna saia às pressas de uma reunião com a produção de seu show na sede da gravadora quando esbarrou em Hugh.

- Nossa! Pra onde vai tão apressada, loirinha? – ele perguntou.

- Pro jantar da Jane e do Charles. – ela respondeu olhando o relógio – e há essa hora todo mundo da minha casa já deve estar lá.

- Era hoje? – Hugh perguntou preocupado.

- Mais precisamente foi há quarenta minutos. – ela disse sorrindo do esquecimento dele.

- Vem comigo então. – ele puxou-a pela mão.

- Preciso ir em casa trocar de roupa. 

- Eu também preciso, algum problema pra você?

Ela respondeu que não e incomodaria contanto que os dois chegassem naquela noite ainda e os dois partiram na moto. Hugh pegou a única roupa formal que possuía, pois não gostava de eventos do tipo, mas se afeiçoara a Jane desde a época que namorava sua irmã e havia prometido a ela que compareceria a esse jantar. Vestiu a calça social e a camisa de mangas longas, colocando um blazer da cor da calça para agüentar o frio. Sua elegância e seu cabelo rebelde formava um contraste que o deixava mais sedutor e Georgianna não podia evitar de olhar pra ele.

Subiram na moto novamente e foram até a casa dela. Georgianna tomou um banho rápido, colocou um vestido e grossas meias-calça, e passou uma maquiagem leve no menor tempo possível, desceu as escadas correndo segurando os sapatos na mão. Calçou-os na sala e encontrou Hugh do lado de fora.

- Nós vamos de moto? – ela indagou percebendo o fato apenas naquele momento.

- Algum problema?

- Meu cabelo, minha roupa...

- O cabelo vai debaixo do capacete, não assanha com o vento, e se o seu vestido não te impede de sentar não vejo problema.

O vestido dela era solto após a cintura e não atrapalhava em nada que ela montasse.

- Não, eu acho...

- Então não tem mesmo nenhum problema, vamos.

- Um segundo.

Ela entrou correndo e pegou um sobretudo atrás da porta de casa, não iria agüentar o frio apenas com aquele vestido, voltou rapidamente e montou na moto atrás dele, achando graça da situação e rapidamente os dois pegaram a estrada.

Estavam na metade do caminho quando um forte barulho veio de um dos pneus da moto, Hugh precisou ser rápido e fazer muita força para controlar a moto e ambos não caírem. Parou no acostamento e os dois desceram vendo o estrago que tinha atingido o pneu. Ele levou as mãos no cabelo e praguejou.

- Olha a boca suja! – a menina reclamou. – Não adianta fazer escândalo.

- E por acaso a senhorita tem outra alternativa? 

- Claro que tenho! É só ligar pra alguém que esteja no casamento e pedir pra nos buscarem. – ela falou tirando o celular da bolsa – Droga! Sem sinal!

- Olha a boca suja! – ele caçoou recebendo um olhar fulminante dela.

- E agora? O que vamos fazer?

- Esperar passar alguém.

Ficaram mais de meia hora na estrada escura, poucos carros passavam e os que passavam nem encostavam por medo de ser algum tipo de emboscada ou algo assim.

O frio aumentava cada vez mais e embora confortáveis naquele momento ficariam vulneráveis se esfriasse mais, e isso era o que tendia a acontecer.

Decidiram andar e procurar algum posto de gasolina ou algo do tipo para telefonarem, Georgianna já reclamava de dor nos pés quando viram uma estradinha de terra e uma luzinha não tão distante. O homem escondeu a moto nos arbustos e eles caminharam decididos a pedir ajuda a alguém e encontraram uma cabana. Hugh bateu na porta e uma mulher com um bebê no colo atendeu surpresa.

- Boa noite, desculpe incomodá-la, mas nossa moto teve um pneu furado há alguns quilômetros daqui e nós queríamos saber se a senhora pode nos deixar usar o telefone.

A mulher olhou desconfiada para os dois e Georgianna tentou convencê-la.

- Nós estávamos indo para um jantar numa casa de campo quando o pneu furou, nós queríamos apenas fazer uma ligação e pedir que alguém venha nos pegar aqui.

A mulher pareceu acreditar depois das palavras de Georgie quando ela olhou os dois dos pés a cabeça e percebeu os trajes elegantes cobertos pelos agasalhos.

- Não tem telefone aqui, e nem outra casa aqui perto que vocês possam pedir. Mas tem uma casinha aqui nos fundos que era da minha sogra, eu sempre mantenho limpa, vocês podem passar a noite lá se quiserem, posso emprestar também alguma coberta pra vocês. É só o que posso oferecer.

“Passar a noite?”, Georgianna e Hugh pensaram ao mesmo tempo sem conseguir acreditar nas palavras da senhora que os recebeu.

- Meu marido tem um cavalo e ele pode ir até o próximo posto fazer a ligação pra vocês...

- Isso seria ótimo! – Georgianna interrompeu alegre – Nós vamos esperar.

- Mas ele trabalha numa fazenda há alguns quilômetros e só chega amanhã.

A garota frustrou-se novamente, mas percebeu que não tinha outra saída, iam receber um teto e cobertores, já era muito. A mulher abriu mais a porta e eles puderam ver a simplicidade dos aposentos e cerca de três crianças além do bebê que a mãe segurava.

- Petter, leva os moços até a casa que era de sua avó! - Um rapaz de aproximadamente onze anos olhou tímido para os dois, pegou uma chave num prego ao lado da porta e saiu da casa. – Eu vou separar uns cobertores limpos e mando deixar depois.

Hugh e Georgianna assentiram e seguiram o garoto que depois de apanhar uns pedaços de madeira passou para os fundos da casa, percorreram cerca de 300 metros até o fim de uma estradinha cercada de grandes árvores, onde existia uma minúscula e simples casinha.

O menino destrancou a porta e entrou com os dois, colocou a madeira na pequena lareira e acendeu.
Os adultos agradeceram a gentileza e o rapazinho saiu calado.

- Nada mal. – Hugh comentou – Pelo menos tem fogo e está tudo limpinho.

A casa continha apenas um cômodo, uma cama de solteiro pequena encostada na parede, um colchão próximo a ela e nada mais. Georgianna aproximou-se do colchão e apalpou a parede que estava gelada.

- Hugh, aqui é muito frio, me ajuda a colocar o colchão perto do fogo?

Ele aproximou-se e apanhou o colchão, colocando no lugar que ela pediu.

- Obrigada! – ela disse sentando e descalçando os sapatos.

- Obrigada? Só isso? Eu não ganho nada por ter conseguido um abrigo pra nós dois?

- Quem conseguiu o abrigo fui eu! – ela sorriu - Se não fosse por mim aquela mulher teria fechado a porta na sua cara.

- Se não fosse por mim – ele respondeu zangado com a falta de consideração dela - nós teríamos ficado a noite toda do lado daquela moto esperando um carro passar porque você não queria andar.

- Se não fosse por você e a sua moto eu estaria no casamento agora e não aqui olhando pra sua cara.

Tanto trocaram acusações que estavam com os rostos bem próximos, e, sem nem perceber ele colocou a mão no rosto dela, acariciando a pele macia e branca. O cheiro que emanava dela o embriagava e quando estava prestes a diminuir o espaço entre os dois alguém bateu a porta.

Eles viraram-se surpresos e Hugh foi até o recém-chegado. Dessa vez veio a mulher e o rapazinho com os acompanhara. Ela trazia um pequeno caldeirão onde alguma coisa bem cheirosa fumegava e uma garrafa de alumínio e o garoto trazia um cobertor e um lençol nos braços.

- Eu trouxe uma sopa para vocês, é simples, mas ajuda pelo menos a aquecer. No fundo da casa tem um poço, se vocês precisarem de água.

- Muito obrigada senhora...

- Lucy Newton – ela respondeu e Hugh recebeu o caldeirão e colocou perto do fogo enquanto Lucy colocava dois copos e duas colheres num banquinho que eles não tinham percebido.

- Ela deu boa noite aos dois e saiu novamente com seu filho deixando-os a sós.

Georgie pegou o lençol e cobriu o colchão, Hugh apanhou as duas colheres e sentou ao lado de Georgie, abrindo a tampa do caldeirão.

- Huuummm, sopa de legumes.

Georgianna fez uma careta. – Eu não posso acreditar que vou comer mato ao invés dos docinhos e bolos que deve ter em Netherfield!

- As damas primeiro! - Hugh sorriu com a infantilidade dela.

- Eu não quero, pode ficar.

- Tudo bem.

Ele sorveu a primeira colherada e fechou os olhos deliciado. – Está uma delícia! – comentou pra garota e continuou comendo.

Primeiro ela pensou que ele estava comendo aquilo apenas por fome, depois percebeu que Hugh realmente comia com gosto, e começou a ficar curiosa, detestava legumes e verduras, mas sua barriga já doía de fome.

- Está mesmo gostoso? – ela perguntou tímida.

- Ô!

- Deixa eu provar, então. – mas quando ela ia mergulhar a colher no caldeirão Hugh segurou sua mão.

- De jeito nenhum, você disse que não queria, agora vou comer sozinho. – ele provocou.

- Mas Hugh, só um pouco, estou morrendo de fome.

- Então durma e sonhe com doces e bolo de casamento.

- Humfp! – ela virou emburrada e Felton começou a gargalhar.

- Qual é o seu problema? – ela levantou do colchão afastando-se dele.

- O meu eu não sei, mas o seu é excesso de infantilidade! – ele ainda sorria, deixando-a ainda mais zangada.

- Você está me chamando de criança?

- Não, estou te chamando de boba, agora senta aqui e vem comer, eu só estava brincando.

Vendo que ela permaneceu calada ele levantou e encheu a colher de sopa indo em direção a ela.

- Olha o aviãozinho!!

Sem conseguir segurar mais a seriedade a garota soltou uma gargalhada e os dois começaram a rir. Passaram alguns segundos achando graça da discussão estúpida dos dois e ele a pegou pela mão e sentaram no colchão novamente, dessa vez os dois alimentando-se da deliciosa sopa preparada pela camponesa que os acolhera.
 
 

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