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Podem existir sintomas mais otimistas? Não é a desatenção que nos rodeia a própria essência do amor? (Jane Austen)

Outra Vez - Capítulo XXIII

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Lizzie esforçou-se para atender ao telefone, já fazia três longos dias que não via Will e não queria perder a oportunidade de falar com ele. Fez um esforço enorme para levantar da cama e foi até a sala, retirou o aparelho da base e deitou-se no sofá com cuidado.
 
- Liz?
 
- Morreu. – Lizzie respondeu mal humorada – Quem está falando é o lobo mal.
 
- Credo amiga! O que houve com você? – Charlotte estranhou.
 
- Cólica, dor de cabeça, inchaço, etc. Estou praticamente doente.
 
- Aqueles dias?
 
- Exatamente. Parece que estou tendo uma hemorragia interna, estou prestes a procurar um médico.
 
- Sério assim?
 
- Sim. - Lizzie gemeu.
 
- Então vamos fazer o seguinte, estou precisando de você, mas não nessas condições. Eu te pego, te levo ao médico e depois você vem comigo aqui em casa pode ser?
 
- O que você quer, Char?
 
- A gente conversa no caminho, em 15 minutos estou na sua porta. Você consegue descer sozinha.
 
- Também não é pra tanto, Char. – Lizzie revirou os olhos – Eu realmente não tenho escolha?
 
- Não, você não tem, estou chegando. – ela desligou antes que Lizzie dissesse qualquer coisa. Elizabeth tomou um banho rápido, colocou um vestido leve, calçou um sapatinho baixo e confortável e desceu para a recepção. Em pouco tempo Charlotte chegou e a levou a um centro médico.
 
- E aí? - Disse Charlotte quando Lizzie saiu do consultório.
 
- O médico disse que isso realmente não era normal, tinha a ver com um probleminha que eu tenho, mas que assim que minhas regras terminassem eu ficaria melhor. Passou um mote de exames e pediu que eu fizesse o mais rápido possível.
 
- Ele passou algum remédio?
 
- Hun rum. Preciso passar na farmácia.
 
- Ok.
 
Lizzie comprou o remédio e foram para a casa de Char.
 
- Então? – Lizzie falou ao deitar-se na cama de Char enquanto ela procurava algo no guarda roupa.
 
- Eu preciso que você me dê a sua opinião para a minha fantasia.
 
- Era apenas isso Char?
 
- Como apenas isso, Lizzie? Eu sou uma mulher solteira sabia? Diferente de você e Jane que estão na coleira! Preciso estar linda, e você tem que me ajudar.
 
- Tudo bem, Charlotte. – ela resignou-se com o desespero da amiga. – E o tal professor? Como estão as coisas?
 
- Não estão. Não mais.
 
- O que houve?
 
- Lizzie, o cara é tudo de bom, nossa, ele sabe realmente como fazer “as coisas” direito. Foi uma noite ótima!
 
- Uma noite?
 
- É, não passou disso. O sexo foi perfeito, mas só.
 
- Eu pensei que você tivesse interessada nele.
 
- Eu estava, especificamente interessada em ir pra cama com ele. – Charlotte sorriu - Mas sempre falta algo sabe, Lizzie? Ainda não encontrei alguém que me fizesse querer mais do que isso.
 
- Eu sei amiga, mas essa pessoa um dia vai chegar.
 
- E eu já estou cansando de esperar.
 
- Olha só:
 
Charlotte terminara de se arrumar, estava com uma saia xadrez acima do joelho, camisa branca por dentro, meias brancas até o joelho, sapatinho preto e gravata preta.
 
- Que tal?
 
- Tá legal. – Lizzie disse um pouco desanimada.
 
- Eu sei que não é a coisa mais original, mas é o que combina comigo, Lizzie. – Charlotte sorria empolgada – Pensa comigo, essa fantasia vai atrair justamente o tipo de homem que eu gosto.
 
- Nisso você tem razão.
 
- Então, como fiquei?
 
- Você está linda Char. De verdade, todos os coroas da festa vão babar!
 
- Ai, Lizzie, obrigada, era isso que eu queria ouvir!
 
- Ótimo então! Estou liberada?
 
- Nada disso. Agora me fale sobre a sua fantasia.
 
Ainda não pensei nisso Char, esse mal humor tem me acompanhado e eu não consegui ânimo pra resolver isso.
 
- Então vamos resolver agora. – Char decidiu.
 
- Tudo bem então, o que você sugere?
 
Charlotte deu algumas idéias para Lizzie e ela foi se empolgando com as sugestões.
 
***
 
Hugh ouvia um barulho ao longe, como se uma campainha soasse em sua mente. Ele virou-se para o lado na cama, o barulho ficava cada vez mais perto. Agora além da campainha ouvia pancadas fortes. Foi ficando consciente, a campainha e as pancadas eram na sua porta. Ele mal abriu os olhos e levantou praguejando.
Abriu a porta com violência e se assustou:
 
- Zaira? O que você está fazendo aqui?
 
- Isso é jeito de receber a sua irmãzinha? – ela entrou no apartamento de uma vez, jogou as malas no chão e abraçou o irmão – Eu também estava morrendo de saudades! – ela ironizou.
 
- Você tem idéia de que horas são?
 
- Tenho sim, são onze da manhã, hora de gente decente estar acordada!
 
- Eu trabalhei até tarde ontem sua doida, tenho direito de dormir!
 
- Você já começou com a banda nova e não me convidou pra assistir? Nossa Hugh, você é terrível, às vezes esquece que não tem família.
 
- E não tenho mesmo. – ele respondeu mal humorado.
 
- E eu sou o que? Uma pária? - Ele sorriu com o drama da irmã.
 
- Tudo bem, tenho você, mas bem que você podia ter escolhido uma hora melhor para aparecer.
 
- Agora sim, meu irmãozinho está voltando ao normal.
 
- Eu preciso de um banho e você também, vamos almoçar por aí e colocar os papos em dia!
 
Os irmãos se arrumaram e foram a um restaurante que Hugh gostava, já que sua irmã preferia que ele escolhesse. Conversavam enquanto comiam.
 
- Então, o que aconteceu pra você aparecer assim?
 
- Eu me separei. Só isso. – ela respondeu depois de engolir a comida com certo esforço.
 
- Você o que? – ele perguntou assustado.
 
- Me divorciei Hugh.
 
- Mas como? Por que?
 
- Simplesmente não deu certo, sem traumas, sem neuras.
 
Hugh ficou pensativo, inseguro, achava que a irmã estava sofrendo e não sabia como ajudá-la. Zaira percebeu e o acalmou.
           
- Eu estou bem meu irmão, de verdade, só precisava mudar de ares. Não precisa se preocupar.
 
- Tem certeza? – Hugh perguntou e Zaira respondeu com um sorriso.
 
- Então, quais nossos planos pro fim de semana?
 
- Eu tenho um aniversário, festa a fantasia.
 
- Adoro festas a fantasia!
 
- Nem me olhe assim, eu não vou te levar, você nem conhece a aniversariante. – Hugh disse ao observar as feições pidonas da irmã.
 
- Você está negando diversão pra sua irmã mais nova querida e amada?
 
- E a única também.
 
- Você pode me apresentar a todos, não vou reclamar.
 
- Zaira você não tem fantasia.
 
- Arrumo uma num instante.
 
- Você não vai desistir mesmo? – ela balançou a cabeça sorrindo, percebendo que ele já havia cedido.
 
Entraram no apartamento de volta e enquanto Hugh trancava a porta Marc apareceu com um calção minúsculo.
 
- Ligaram pra você do estúdio.. oh, oi! – ele gaguejou ao ver a mulher ao lado de Hugh – Não sabia que você tinha visita.
 
- Marc, essa é a minha irmã Zaira, Zaira Marc, meu colega de AP.
 
Ela acenou pra ele enquanto pensava mordendo os lábios, “essa temporada vai ser melhor do que eu esperava”.
 
- Ela vai ficar aqui conosco uma pequena temporada. – ele alfinetou a irmã – Você se importa?
 
- De maneira nenhuma. “Hugh nunca comentou que a irmã dele era tão bonitinha, ah se eu soubesse disso antes!” – ele pensou.
 
***
 
- Eu não vou usar isso Georgianna. Não adianta.
 
- Mas, Will todo mundo vem fantasiado, você não pode ser o único sem fantasia.
 
- Georgianna, eu procuro outra, mas essa aí é ridícula.
 
- Não é ridícula Will, são as minhas prediletas, desde o começo imaginei nós dois assim.
 
- Eu não mandei você imaginar nada.
 
- Will, por favor, é meu aniversário, faz isso por mim?
 
- Não me olhe assim, Georgianna, eu sempre faço tudo que você me pede, por favor, dessa vez não.
 
- William, eu juro, é a última vez que te peço algo, por favor? – ela percebeu que ele estava a caminho de ceder – Apenas prove a roupa, veja como vai ficar ótima em você. Você prova?
 
- Georgianna, por que não Zorro? Batman? Até palhaço seria melhor do que isso.
 
- Por que esse é diferente, incomum. Por favor?
 
- Eu vou apenas provar, só pra te provar o quão ridículo vou parecer.
 
- Eu duvido.
 
...
 
- Então? Ela perguntou sorridente quando o viu. Ficou perfeito não achou?
 
William fechou a cara.
 
- Definitivamente não Georgianna, jamais vou vestir isso.
 
- Tudo bem, Will, saiba apenas que não é só a mim que você vai decepcionar.
 
- Sem dramas, mocinha.
 
- Não é drama, William, você não lembra que esse é o super herói predileto da Lizzie também?
           
- Não. Até onde eu sei ela adora o Homem Aranha e o Zorro.
 
- Ela gosta deles sim, mas o predileto dela é esse.
 
- Tem certeza?
 
- Absoluta. Ligue pra ela e confirme. – ela disse entregando-lhe o celular.
 
- Oi, amor! – Lizzie respondeu mais animada.
 
- Você está melhor?
 
- Estou sim, já fiz todos os exames, me sinto bem disposta agora! E você?
 
- Estou bem. Mas me tira uma dúvida.
 
- Oi.
 
- Qual seu herói predileto?
 
Lizzie respondeu o que Georgianna a fez prometer que diria. Não se sentia enganando o namorado, sabia que Will iria ficar lindo naquela fantasia, pois se dependesse dele iria fantasiado de executivo: terno e gravata.
 
Ele fechou os olhos como se tivesse escutado uma sentença de morte. Georgianna sorriu por dentro e ele se olhou no espelho mais uma vez.
 
- Te vejo mais tarde?
 
- Inevitavelmente. – ela respondeu sorrindo.
 
- Quer que eu te pegue?
 
- Não precisa, vou com a Char e uma amiga dela.
 
- E sua fantasia?
 
- Continua surpresa. – ele sorriu com a teimosia de Lizzie.
 
- Dorme aqui hoje? – William queria explicar os motivos, mas sua irmã ainda estava do seu lado.
 
- Proposta interessante!
 
- Pense nisso.
 
- Pensarei.
 
- Te amo, pequena.
 
- Eu também te amo meu herói!
           
- O que eu não faço por vocês duas, hein sua pestinha? – ele resmungou e Georgianna saiu aos pulos pela casa feliz pelo irmão ter cedido aos seus apelos.
 
**
 
Alguns dias antes:
 
- Oi minha morena.
 
- Oi meu amor!
 
- Como foi o trabalho hoje?
 
- Cansativo. Repeti milhares de vezes a mesma cena, o clima não estava ajudando muito, acho que amanhã faremos tudo de novo.
 
- Que pena. – Rachel beijou o marido com carinho.
 
- As crianças já estão deitadas?
 
- Hunrum, esperaram por você até pouco tempo. Elas adoraram a propaganda que está saindo na TV amor, você precisava ver a carinha deles babando pelo pai. – Matthew sorriu feliz. Tinha a família perfeita.
 
- Vou dar um beijo neles. – Matthew começou a andar em direção ao quarto dos filhos quando voltou para perto da esposa novamente.
 
- A babá vem sábado à noite?
 
- Não, esse sábado é a folga dela. Você disse que ficava com os meninos amor, nesse sábado eu tenho Clube de Leitura. Vamos jantar na casa da Tânia.
 
- Esqueci completamente. – ele a olhou desconfiado.
 
- David Matthew Macfadyen o que você aprontou? – Rachel disse cruzando os braços em frente ao corpo.
 
- Lembra do Darcy, Rachel Macfadyen? – ele brincou com a postura defensiva dela.
 
- Claro.
 
- Ele nos convidou para o aniversário da irmã dele, nós não podemos faltar meu amor, ele quer me apresentar à namorada dele.
 
Rachel sorriu, lembrou-se de como tinha conhecido William Darcy, um dos melhores amigos de seu esposo da época de escola.
 
“O casal ainda namorava, faziam sua primeira viagem juntos pra fora do país, passariam dois dias na França antes de seguirem para a Espanha que era seu destino. Ela não entendia a insistência do namorado em passar por Paris, afinal os dois conheciam a cidade, mas ele disse que explicava depois. Estavam numa livraria-café, pois ela era apaixonada por livros quando percebeu que seu esposo conversava animadamente com um homem levemente parecido com ele, os dois passariam por irmãos em qualquer lugar sem problemas. Ela esperou um pouco e depois Matthew a chamou. Apresentou-a ao amigo e ela percebeu a cumplicidade entre os olhares dos dois.
Quando estavam novamente a sós ele explicou:
- Antes de William ir embora pra França nós fizemos um trato. Assim que um de nós encontrasse a mulher da sua vida deveríamos apresentar para o outro, e eu o fiz hoje. – Rachel sorriu com a declaração do namorado. - Por isso que fiz questão que passássemos por Paris.
- E ele aprovou a escolha?
- Ele disse que eu não poderia estar melhor acompanhado!
Naquele mesmo dia os dois saíram para jantar num dos mais românticos e tradicionais restaurantes de Paris e Matthew a pediu em casamento.”
 
Por isso ela entendia o esposo, Darcy agora queria apresentar alguém para Matthew, e ela não ia atrapalhar isso.
 
- Vou falar com a Tânia e dizer que não posso ir. A gente deixa os meninos na casa da mamãe.
 
Matthew sabia do esforço que a esposa fazia, seu encontro com as amigas era sagrado, todos os meses elas se reuniam em algum lugar para conversar sobre livros, filmes e suas próprias vidas, dificilmente uma delas deixava de ir mesmo com toda a correria e afazeres do dia a dia.
- Chame-as para ir conosco.
 
- Tem certeza?
 
- Claro, ele mandou 4 senhas, na certa acha que nossos filhos já são adolescentes!
 
- Elas vão adorar.
 
Rachel ligou o computador para avisar as amigas que não poderia comparecer ao encontro e convidá-las para a festa enquanto Matthew passou no quarto para olhar os filhos.
Os dois conversaram muito antes de dormir decidindo fantasias e sorrindo das últimas descobertas dos filhos até dormirem abraçados.
 
Estava quase na hora da festa e William vestido apenas com uma boxer branca olhava para afantasia que sua irmã escolhera. Ainda não acreditava que ela realmente queria que ele usasse “aquilo”. Não queria de maneira alguma vestir aquela roupa, no entanto temia magoar a irmã caso não o fizesse.
 

Respirou fundo e levantou em direção ao cabide. Vestiu a fantasia e ficou receoso de olhar para o espelho, antes de descer tirou a falsa espada de sua posição e um papel caiu no chão, ele apressado recolheu e leu o bilhete direcionado a si:
 
“William, meu irmão querido!
Se você achou esse bilhete é porque realmente aceitou usar a fantasia que eu escolhi e eu o agradeço muito! Mas eu não ousaria ser tão malvada com você, essa foi apenas uma brincadeirinha, sua verdadeira fantasia está na 3ª porta do seu closet do lado esquerdo, num cabide coberto por uma capa preta. Não se preocupe, dessa vez vou conseguir lhe agradar!
Beijos da sua irmã predileta (e única)!
Georgianna Darcy”
 
Will surpreendeu-se ao ver a nova fantasia. Ele nunca imaginara aquela e ao mesmo tempo adorara. Tratava-se de um personagem completamente diferente dele e que ao mesmo tempo o agradava. Tratou de tirar rapidamente a fantasia de He Man escolhida anteriormente e vestir a calça jeans clara bastante justa, a camiseta branca e a jaqueta de couro preta. Calçou as botas negras que estavam do lado da roupa junto com um pote de gel para cabelos. Foi para a frente do espelho, besuntando os cabelos com o produto e arrumando o topete. Estava pronto, mas antes de descer decidiu ligar para Lizzie.
 
- Oi, meu amor?! – ela atendeu carinhosa.
 
- Você já está aqui? – ele perguntou ansioso.
 
- Estou a caminho, Char me pegou e estamos indo buscar uma amiga dela, daqui a pouco estaremos aí.
 
- E a sua fantasia? Não vai me dizer mesmo?
 
- Não, já disse que é surpresa.
 
- E como faço pra te achar?
 
- Eu te encontro.
 
Ela desligou antes que ele continuasse com as perguntas e William desceu intrigado com o mistério da namorada.

~x~
 

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