Dido - Here with me
"Sem você eu viveria sim,
mas seria eu sem mim."
Cineas Santos, poeta e escritor piauiense.
A família Bennet estava completa na casa de Fitzwilliam Darcy prestando todo apoio possível. Por incrível que pareça Fanny estava calada a maior parte do tempo, afinal considerava Georgianna como uma filha e estava seriamente preocupada.
Lizzie estava apreensiva, temerosa, impaciente, arrependida. Tinha medo do que William e Hugh poderiam fazer para salvar Georgie e dos riscos que estavam correndo.
Desde o começo do relacionamento dos dois, o que ela mais temia era ficar sem Will como acontecera anteriormente. Quando soube da verdade sobre o motivo pelo qual ele se aproximou dela novamente perdeu o chão. Ela estava feliz como nunca estivera antes, se sentia completa, esperançosa, amada. E de repente pareceu-lhe que estava vivendo numa farsa, não soube o que pensar e sua primeira reação foi sair de perto de William e de tudo que pudesse lembrá-la dele.
Não podia, porém fugir de seus pensamentos, que constantemente a levavam de volta para ele. Nesses dias pôde pensar melhor, cada dia tinha mais certeza de que vivera sim momentos verdadeiros com ele e era capaz de perdoar os motivos que o levaram a isso já que de uma maneira ou de outra esses motivos fizeram com que eles se entendessem de uma vez por todas.
Mas agora não sabia o que pensar, rezava com todas as suas forças que todos voltassem bem e que William ainda tivesse disposto a amá-la e perdoá-la pela sua incompreensão.
Chás e calmantes já haviam sido servidos e a situação era tensa. A polícia estava bem próxima do endereço que William repassara e o chefe do caso prometeu ligar assim que tivessem notícias concretas. O seqüestrador ainda não tinha mantido nenhum contato, e o telefone da casa não era usado, para caso ele o fizesse. Mais de uma hora se passou até que o celular de Fitzwilliam tocou.
- Fitzwilliam Darcy falando.
Era o chefe da operação.
- Já estamos com a garota senhor.
- Como ela está?
- Ela está bem, estamos a levando para o hospital apenas para exames de rotina necessários para abertura do inquérito.
- Graças a Deus!
...
- Hospital San Genaro? – ele perguntou e o homem confirmou, todos ficaram ainda mais apreensivos ao ouvir essa informação, deduziram que algo mais sério havia acontecido. Lizzie torcia as mãos numa cadeira próxima.
Fitzwilliam permaneceu algum tempo calado, apenas ouvindo o investigador e balançando a cabeça.
- Quem foi ferido? – Fitzwilliam perguntou alterado e todos na sala ficaram tensos.
Lizzie imediatamente pegou sua bolsa e saiu correndo sem dizer mais nada, precisava vê-lo, sabia que não deveria ter deixado William ir sozinho, ignorou os protestos de seus pais e os chamados de Jane que corria atrás dela tentando alcançá-la e entrou no carro, dirigindo velozmente até o hospital.
Não conseguia controlar seus pensamentos que naquele momento a culpavam por não ter procurado Will antes. E se agora ele estivesse ferido? Ou pior, se estivesse morto? Não, ela não podia pensar aquilo, se nunca mais pudesse ver William sua vida não teria nenhum sentido.
Lizzie estacionou o carro de qualquer jeito e correu até a recepção, perguntando por William Darcy.
- Você é da família?
- Sou a namorada dele. – Lizzie respondeu.
- Ele está no quarto 17, senhorita.
Ela correu na direção que a mulher indicou, estava absurdamente tensa. Havia alguém ferido e ela não suportaria viver sem William. Respirou fundo e entrou no quarto indicado, as luzes estavam desligadas e apenas um abajur iluminava o aposento, havia alguém deitado na cama distante da porta com uma faixa que cobria o ombro e todo o peito. Lizzie levou as mãos à boca soltando um soluço de dor.
- Lizzie? – ela estava ouvindo a voz dele. “Como era possível?” A pessoa deitada na cama estava dormindo, ela podia perceber.
Olhou ao redor do quarto e encontrou William em pé ao lado de uma poltrona olhando para ela emocionado.
- Will?
Ela correu até ele e pulou em seus braços, ele soltou um gemido de dor.
- Will, você está ferido? – ela perguntou apalpando todo o seu rosto.
- Algumas pancadas, arranhões e machucados apenas. – ele tranqüilizou-a.
Ela virou o rosto dele para a luz do abajur e fez uma careta. Havia um corte no lábio inferior, a ferida havia sido limpa, mas ainda estava muito inchada, um de seus olhos estava levemente arroxeado e sua orelha esquerda tinha cerca de 3 pontos. As mangas da camisa que agora estava dobradas na altura do cotovelo deixavam à mostra os arranhões, os primeiros botões estavam abertos e Lizzie viu machucados no peito dele também. Depois que ela conferiu a origem das dores de Will lembrou-se da pessoa que estava na maca e virou a cabeça naquela direção?
- Hugh? - Ela perguntou a Darcy.
- Ele tomou um tiro de raspão, já foi medicado e dormiu.
- E Georgie?
- Ela está bem, apesar de tudo, foi a única que não se machucou, pelo menos fisicamente! Está no quarto ao lado, foi examinada pelos médicos que preferiram sedá-la para que ela descansasse um pouco, afinal ela passou por um estado de tensão muito grande.
- E porque você não ficou lá no quarto dela?
- Estou esperando esse cara acordar. – Lizzie percebeu que o tom que Will usou quando disse “esse cara” não foi nem de longe grosseiro, muito pelo contrário – Devo minha vida a ele.
Darcy sentou na poltrona e puxou Lizzie para seu colo.
- Will, você não deve pegar peso.
- Eu preciso de você perto de mim. Por favor?
Lizzie não resistiu àqueles olhos azuis.
- Então me conte tudo o que aconteceu.
- Seu pedido é uma ordem.
“Will percebeu a manobra de Hugh e se jogou atrás de uma pilastra, como estava escuro George nem sabia pra onde mirar, de forma que o tiro passou longe de William. Hugh conseguiu segurar o braço de George e iniciaram uma luta corporal, mesmo sem enxergar muita coisa Will viu que Georgianna já estava fora da casa. Mas Wickham também era forte e seu instinto de sobrevivência fora acionado, com uma manobra rápida ele deu uma cotovelada no estômago de Hugh que a soltou automaticamente gemendo de dor. Wickham levantou e Darcy permaneceu escondido, George então apontou a arma para Hugh, mas uma voz o impediu de atirar:
- Wickham, eu sou William Darcy, irmão de Georgianna, viemos para conversar. – ele disse mais calmo aparecendo atrás da pilastra.
- Não tenho nada pra conversar com vocês!
- Podemos negociar e você não precisa sair tão mal nesse caso. Abaixe a arma e diga quanto você quer, posso dispor de alguma quantia em pouco tempo.
- Você espera que eu confie em você depois de tudo? Quem está no comando sou eu. Nada de abaixar a arma. Quanto você tem na carteira agora? - William colocou a mão no bolso de trás e George apontou a arma pra ele, com o pé no peito de Hugh. – e nada de gracinhas, se você tentar alguma coisa seu amiguinho aqui já era.
William abriu a carteira e tirou 300 libras.
- Apenas isso. – ele jogou o dinheiro nos pés de George.
- Ainda é pouco.
- Eu posso conseguir mais.
Hugh impaciente e mais recuperado da dor tentou chutar a mão de George que portava a arma, mas ele percebeu o movimento e virou-se de volta em cólera.
- O valentão agora está em desvantagem, é bom começar a rezAaaaahhhh!
Darcy viu que George ia atirar em Hugh e apanhara uma das caixas do chão e jogara em George, acertando sua cabeça. Ele virou e passou a procurá-lo, já que Hugh ainda estava no chão.
William começou a correr na sala escura desviando-se das balas atiradas ao acaso, já que havia pouca visibilidade, Hugh levantou e pensou em correr em direção a porta, mas se os dois fossem no mesmo sentido seriam um alvo fácil, Will deixou que Hugh saísse primeiro, mas a pouca claridade do lado de fora da casa entrava pela porta e George percebeu quando Hugh estava bem na saída e apontou a arma, mas quando ele ia apertar o gatilho recebeu outro empurrão. Will voou por cima dele e o prendeu com seus braços fortes. Hugh gemeu, Darcy não conseguiu impedir que ele fosse atingido, lutando com sua dor ele conseguiu ir até onde Will e George estavam e chutou a mão de George, empurrando a arma pra longe e provavelmente quebrando alguns dedos.
Nesse momento a polícia chegou e terminou o trabalho.”
William contou toda a história e Lizzie tinha os olhos cheios d’água. Segurou o rosto de seu amado nos lugares menos doloridos e depositou suaves beijos em sua boca.
- Vocês não acham que esse não é o lugar mais adequado pra isso? – Hugh perguntou mal humorado e Lizzie corou.
- Pensei que você não fosse mais acordar hoje. – William falou se aproximando.
- Era o que eu pretendia, mas os pombinhos aí não param de arrulhar! – ele fez piada.
- Estávamos esperando que você acordasse, preciso te agradecer.
- Eu que preciso te agradecer cara, senão fosse por você esse tiro teria me acertado em cheio.
- Você salvou a vida da minha irmã, e por conseqüência a minha também.
- E você salvou a minha. – Hugh disse sério – Mas não fiz nada por você, marmanjo! – agora ele brincava – Fiz o que pude pra tirar Georgianna das mãos daquele crápula, você que se meteu no meio e agora eu vou ter que dividir meu posto de herói com você!
Os três riram.
- Sr. Darcy? – uma enfermeira entrou e o chamou. – Seu pai está a sua espera no quarto ao lado.
- Ok. - Ele acenou com a cabeça – Você vem Lizzie?
- Daqui a pouco. – ele a beijou na testa e saiu.
- Você está realmente bem? – Lizzie perguntou para Hugh.
- Vou ficar melhor. – ele fez uma careta de dor ao tentar se mexer – Pelo menos estou inteiro. - Então, você e o Will estão juntos?
- Eu acho que sim. – ela respondeu sem graça.
- Suspeitei desde o princípio! – ele brincou e gargalhou, mas sentiu uma dor cortante no peito e teve que parar de rir – Agora tenho até que ficar sério! – ele fez biquinho.
- Hugh, eu queria que você soubesse que eu nunca tive nada com William enquanto estava namorando você.
- Eu sei disso, Lizzie. Não se preocupe. Não lamento o que tivemos, mas hoje eu vejo que não éramos as pessoas certas um pro outro.
- Obrigada! - Ela disse pegando sua mão.
- Você também? O que eu fiz por você?
- Você ajudou a trazer de volta pra mim três pessoas que eu amo muito! – Hugh ficou sem entender.
- Will, Georgianna e você! Ou você acha que deixei de te amar? – ela deu língua pra ele – E pode mudar de idéia em relação aquela estória de não querer ser meu amigo, agora que te devo essa não vou te deixar ficar muito longe de mim!
Ele sorriu. Lizzie era uma boa pessoa e uma ótima amiga. Além disso, tinha razão, não tinham mais motivos para não serem amigos.
- Ok, ok, eu me rendo. Agora traz um sorvetinho de contrabando pra mim que estou morrendo de vontade!
Ela pôs a mão na cintura autoritária.
- Ué? Você não disse que tava me devendo? To cobrando o favor!!
- Sem gracinhas!
- Brincadeira. Liz o papo ta bom, mas eu preciso mesmo dormir, me deram uma dose cavalar de antiinflamatórios e anestésicos, meus olhos estão quase se fechando à força, vai lá pro lado do seu namorado e me deixa quietinho agora, ta? Amanhã eu tomo o sorvete!
Ela riu.
- Lizzie? – ele a chamou quando ela já dava as costas - Georgianna, ela, hum, ela está bem?
- Sim, está dormindo.
Ele balançou a cabeça.
- Amanhã venho te ver. – deu um beijo no rosto do novo amigo e foi para o quarto ao lado.
Quando Lizzie entrou no quarto ao lado encontrou além de William, seu tio e sua esposa a sua mãe e um médico que se virou e sorriu para ela assim que a viu.
- Elizabeth Bennet?
- Como vai, Paul?
- Melhor agora! Você é da família?
- Sou. Ela está bem? – disse caminhando em direção a Georgie.
- Está, eu estava explicando os motivos pelos quais ela tem que ficar aqui, talvez você possa me ajudar!
- Se eu puder! - Lizzie sorriu.
Paul Owen era médico do Hospital San Genaro desde que se formara, Lizzie o conheceu quando ela passara por um estágio obrigatório naquele hospital antes de concluir o curso, na época Paul era residente e trabalhavam na mesma equipe. Lizzie era a estagiária responsável pelo apoio a familiares, médicos e enfermeiros e pacientes da ala de emergência e os dois desenvolveram uma grande amizade.
William sentiu-se enciumado com aquela intimidade e se colocou mais perto de Lizzie. Fanny, Michelle e Fitz perceberam a manobra, mas permaneceram em silêncio, se não fosse a situação em que estavam aquilo seria motivo para várias risadas. William e Elizabeth passaram tanto tempo indo contra aos seus sentimentos e agora nem ao menos conseguiam disfarçar.
- Como eu estava dizendo, - continuou Paul – em caso de estresse grave, no momento, ou logo após a situação traumática pode ser que a paciente não demonstre nenhum tipo de seqüela, mas se não houver um acompanhamento adequado pode haver o desenvolvimento de síndromes como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, onde há um intenso sofrimento do paciente em relação à situação vivida anteriormente, que pode levar inclusive ao medo de tudo que estiver relacionado com o acontecimento ou que o lembre de alguma forma, no caso dela o seqüestro.
- É inclusive indicado o acompanhamento psicoterápico por algum tempo, pois muitas reações nervosas são normais, mas podem vir a se tornar algo mais grave como já foi dito. – Lizzie completou e ele concordou.
- Aqui no hospital ela será observada diretamente por profissionais qualificados, amanhã ela será atendida pela nossa psicóloga e a noitinha poderá ir para casa.
- Nesse caso o melhor que fazemos é deixá-la aqui, meu bem! – Michelle disse, já que seu marido queria levar a filha para casa.
Fitzwilliam concordou, mas antes assegurou-se de conseguir a permissão do hospital para colocar um segurança vinte e quatro horas na porta do quarto de sua filha.
- Nesse caso eu vou ver outros pacientes, fiquem a vontade. – Paul pensou em se aproximar de Lizzie, mas percebeu o olhar repleto de animosidade que o irmão de sua paciente, antes tão educado lhe lançava.
Pouco tempo depois Lizzie lembrou que Will também precisava descansar, ela já tinha visto Georgie, embora não pudesse falar com ela, viu que seus tios e sua mãe estavam mais calmos e chamou Will pra ir embora.
- Vem Will, vou te levar pra casa, você também precisa descansar. – Lizzie falou e ele não se opôs – Quer ir agora também, mamãe?
Fanny queria permanecer perto de Georgianna, além disso, preferia que os dois seguissem sozinhos, eles pareciam estar bem agora, mas precisavam de mais tempo juntos para resolver de uma vez seus desentendimentos, tinha esperanças de que Lizzie tivesse aprendido uma boa lição com aquela situação.
Despediram-se de Michelle, Fitz e Fanny que ficariam mais um pouco e assim que estavam fora do quarto Will perguntou em tom de brincadeira abraçando Lizzie por trás e beijando seu pescoço:
- Na sua casa ou na minha?
- Sem gracinhas hoje, Will! – ela tentou parecer brava, mas era impossível – Já disse que você vai pra sua casa descansar. –Enfatizou.
- Eu posso descansar no seu apartamento.
- Pode, mas lá não vê vassoura há uma semana, estou na casa do papai esses dias.
- Por que você está na casa do padrinho? Aconteceu alguma coisa no seu apartamento? – ele perguntou curioso.
- Na verdade não, depois conversamos sobre isso. – Lizzie desconversou.
Quando chegaram ao estacionamento William esticou a mão para Lizzie:
- Chave do carro?
- Pra quê? Algum problema em ir de carona? Você por acaso está pondo em dúvida a minha capacidade de dirigir?
- E de estacionar também! – Ele apontou o carro de Lizzie com a cabeça.
Eles sorriram. Na pressa de ver Will, Lizzie deixara o carro completamente torto e ocupando mais de uma vaga.
- Foi uma exceção, ok? – Lizzie respondeu achando graça de si própria – Eu não ia me preocupar com esse detalhe enquanto estava completamente fora de mim com medo do que pudesse ter acontecido a você. – ela disse empurrando-o levemente para dentro do carro pelo lado do passageiro.
- Desculpa. – ele disse já sentado no banco, segurando a mão de Lizzie que o olhou sem entender – Por ter feito você se preocupar à toa.
- Não foi à toa, Will! E agradeça por estar bem, do contrário eu mesma faria picadinho de você!
Lizzie ocupou o seu lugar e pôs o carro em movimento.
- Agora você pode me dizer por que está na casa dos seus pais?
William percebeu que as mãos de Lizzie apertaram o volante.
- Mais tarde, Will. – ela pediu.
- Quando nós chegarmos em casa? – ele insistiu.
- Quando você estiver de banho tomado, barriga cheia e pronto pra dormir.
Ele aceitou tentando parecer emburrado.
Ao chegarem ao destino Lizzie acenou para o porteiro que depois de observar quem ocupava o carro abriu os portões. Depois do que acontecera recentemente ele e todos os funcionários haviam recebido ordens para redobrar a segurança. Ela estacionou o automóvel impecavelmente provocando Darcy e logo depois entraram juntos na Mansão.
Depois de ser cumprimentado pelos empregados da casa Lizzie solicitou que o pessoal da cozinha preparasse um lanche para os dois e levassem ao quarto de Will.
Ele tomou um merecido banho enquanto Lizzie verificava o receituário que o médico passou com alguns analgésicos que Will deveria tomar. Depois os dois comeram o lanche preparado e Will puxou Lizzie pra cama, ela, no entanto tentou se afastar.
- Meu amor, eu tenho que ir agora.
- Não, você vai dormir aqui comigo. Eu preciso de você hoje, estou traumatizado! – ele brincou.
- Eu não posso dormir aqui, Will.
- Por que não?
- Porque... porque... – nenhuma resposta plausível surgia na cabeça de Lizzie, ela então acabou falando as primeiras coisas que surgiram – Por causa do seu pai e de Michelle, e também porque eu preciso de um banho.
- Isso não é desculpa, Lizzie, você ainda acha que existe alguém que não saiba de nós? Além disso, aqui tem água, toalha e sabonete!
- Mas não tem roupa minha! – ela mostrou a língua pra ele.
- Mas tem minhas camisas. Sem mais desculpas. Você não me convenceu. Você tem 5 minutos pra tomar banho e vir deitar comigo.
Lizzie sorriu e obedeceu ao namorado, ela queria mesmo ficar ao lado dele, passara momentos difíceis sem saber o que se passava com ele, e já que Will dissera não haver problemas ela entrou debaixo do chuveiro e deixou que os jatos fortes de água relaxassem seus músculos. Penteou os cabelos em frente ao espelho, escovou os dentes com a escova dele e abriu o perfume de Will, adorava sentir o cheiro dele. Estava com saudade do perfume e de tudo relacionado ao homem que ela amava. Não passou o perfume nela, apesar de querer, porque sabia que ele gostava do cheiro dela, Will já havia dito uma vez e hoje ela não queria desagradá-lo.
Quando ela voltou ao quarto Will apontou para o closet, na direção que estavam as camisas. Lizzie se deparou com duas fotos suas presas ao espelho com um pequeno ímã. Numa delas estava ela e Will ainda crianças, no jardim da casa dela, de mãos dadas vestidos com uniforme de futebol, ele segurando uma bola ao lado de seu corpo. A outra era mais recente, os dois abraçados na Torre Eiffel. Se alguém naquele dia perguntasse se ela imaginaria no futuro estar ao lado dele ela nunca teria aquela resposta.
Lizzie procurou uma camisa simples e confortável, e levou pra perto de Will. Quando ele percebeu que ela tiraria a toalha na frente dele falou assustado:
- Liz, se você quer que eu descanse não ouse tirar essa toalha na minha frente, por favor, volte para o closet e só apareça aqui vestida!
Ela sorriu e o obedeceu mais uma vez. Ao voltar deitaram-se lado a lado, trocando carinhos leves.
- Posso perguntar mais uma vez?
- Você está ficando insistente, William Darcy!
- Você disse que conversaríamos aqui, não fuja novamente.
Lizzie suspirou e assentiu. Responderia a verdade já que ele mostrava-se tão curioso.
- Então, porque você não está no seu apartamento? – Will sabia que tinha algo a ver com o desentendimento dos dois, mas insistia no assunto para que pudessem conversar sobre aquilo, queria a certeza de que os dois estavam realmente bem e que ela não estava ali apenas por causa dos momentos difíceis pelos quais ele passou.
- Eu precisava de um tempo pra pensar, Will, longe de você e de tudo que me lembrasse nós dois, inclusive o MEU apartamento, que você fez o favor de imprimir sua presença em cada canto.
- Deu certo?
- Pensar sim. Ficar sem lembrar de você, não! Descobri que você está dentro de mim, e sempre vai estar, independente do lugar onde eu esteja.
Ela sorriu e ele a apertou entre os braços.
- Estou perdoado então?
- Quase. – ela respondeu sorrindo.
- Posso saber o que falta?
- Eu preciso que você prometa... – Lizzie falou mais séria – que nunca mais vai mentir ou esconder nada de mim. Nunca mais quero me sentir como naquele domingo.
- Eu prometo meu amor. Isso nunca mais vai acontecer. Eu prometo que eu nunca mais vou te deixar. – ele se referiu ao que ela disse na primeira vez que se amaram - Agora perdoa esse homem que te ama tanto e que por tanto te amar quase te perde.
Lizzie beijou sua boca levemente, uma única lágrima caiu do canto de seu olho e ela sorriu.
- Estou perdoado? – ele disse apagando o caminho feito pela lágrima no rosto dela.
- Ainda resta alguma dúvida?
- Não, até que foi fácil! – ele brincou – Se eu soubesse teria me colocado em perigo antes!
Lizzie escolheu um lugar que não estivesse dolorido e beliscou-o.
- Sem brincadeiras, Will. Nunca mais me faça passar por algo assim!
Ele a abraçou novamente e depois de algum tempo dormiram juntinhos, aliviados das desconfianças e dos medos.
No hospital:
- Michelle, - disse Fanny prestativa – leve Fitzwilliam para casa, eu passo a noite aqui com Georgianna, vocês precisam descansar.
- Se você não se importar, Fanny, eu prefiro ficar. Eu gostaria de estar aqui quando ela acordar, embora ela não seja minha filha biológica eu a considero como tal. Eu estive ao seu lado no primeiro dia de aula, quando ela aprendeu a nadar, em sua primeira apresentação musical, foi pra mim que ela contou quando teve sua primeira menstruação, enfim, sinto como se ela fosse um pedacinho de mim. Eu me senti tão perdida enquanto ela estava em poder daquele bandido que sinto que só vou me recuperar quando ela abrir os olhos e me dizer se realmente está bem.
- Claro, minha querida! – Fanny estava comovida com tamanha declaração – passo aqui amanhã cedo para ver as duas, tudo bem?
Ficou tudo acertado e Fitzwilliam seguiu para casa, deixando sua comadre antes.
Na manhã seguinte o médico examinou Hugh mais uma vez e pediu que ele continuasse no hospital até a tarde. Ele perguntou se poderia ver Georgianna e foi autorizado.
Uma enfermeira ajudou que ele levantasse e os dois foram até o quarto do lado.
- Bom dia! – a enfermeira disse depois de bater levemente na porta e entrar.
- Bom dia! – responderam Georgie e Michelle ao mesmo tempo. A menina já estava acordada, sentada na cama conversando com a madrasta.
- Tem uma visita pra você, mocinha! – a mulher disse trazendo Hugh com cuidado, ela o acomodou na cadeira que Michelle desocupava e o oferecia ao lado de Georgie e depois saiu.
Georgianna queria sorrir por ver o homem que ela amava tão perto, mas se sentia culpada pelo estado dele.
- Oi! – Hugh falou tímido.
- Como você está, meu rapaz? – Michelle perguntou?
- Quase bom eu acho!
- Espero que sim. Não se preocupe quanto aos custos do hospital, tudo será por nossa conta.
Hugh sentiu vergonha, e mal esboçou uma reação.
- Nós só temos a lhe agradecer! – Michelle disse.
Um silêncio constrangedor invadiu o ambiente, mas logo foi cortado.
– Vocês se incomodam se eu for até a cantina comer alguma coisa?
Os dois sentiram um alívio interno e garantiram que não havia problema. Quando ela saiu Georgie tomou a palavra:
- Muito obrigada por tudo que você fez ontem, Hugh, eu realmente não sabia pra quem estava ligando e nem se tinha alguém ouvindo tudo, mas fico feliz por você ter me salvado.
- Seu irmão também estava junto.
- Eu sei, vou falar com ele também. Eu lamento por você estar assim.
- Não lamente, eu teria feito tudo de novo se você precisasse. E também não precisa agradecer.
- Você já está virando meu anjo da guarda! – os dois sorriram.
- Você não vai mais precisar de mim. Wickham está preso e provavelmente vai permanecer por um bom tempo.
Ela permaneceu calada, queria buscar os olhos dele, mas a coragem lhe faltava, tinha medo que ele percebesse o que ela pensava: “Enquanto eu te amar eu vou sempre precisar de você”. Hugh quebrou o silêncio conversando amenidades e logo Michelle voltou.
No decorrer do dia Georgianna recebeu várias visitas, seu pai permaneceu uma grande parte do tempo com ela, mas o quarto começou a encher de gente e ele decidiu voltar para casa para que a filha pudesse receber melhor seus visitantes sem tumultos. Fanny e Anthony também passaram por lá, Jane não pôde ir, mas telefonou e falou com ela. Mary, Kitty de Lydia também foram ao hospital, Lydia queria saber de todos os detalhes e dava gritinhos enquanto Georgie narrava exaustivamente a perigosa aventura. Mary precisou exigir que ela se controlasse, pois ela ficava repetindo o tempo todo que nunca acontecera nada tão emocionante assim com ela. Lizzie e Will chegaram de mãos dadas deixando-a radiante. Lembrou da noite que dormira na casa da amiga e confessara sua paixão por Hugh, Lizzie havia dito que gostava de outra pessoa, naquele momento ela estava tão concentrada em seus próprios problemas que não se atentou para o fato. Porém quando viu a reação natural de todos os outros logo descobriu que era a única que não tinha percebido nada, seus pais e seus tios já estavam atentos ao relacionamento que os dois tentavam manter escondido e que veio a público com o incidente do dia anterior. Mary piscou pra ela discretamente, lembrando-a de sua profecia na noite em que Lizzie e Will estavam próximos na boate: “- Não dou um mês pra sua amiga-rival virar sua cunhada.”
À tardinha Georgie foi liberada, ela passou no quarto de Hugh para se despedir, ele também estava de saída e seus pais o levaram para casa após acertarem todas as despesas com o hospital.
Lizzie e Will saíram de casa rapidamente, passaram na casa dos pais dela para que ela pudesse trocar de roupa e depois foram ao hospital, não demoraram muito, no entanto, porque Lizzie insistia que Darcy deveria permanecer de repouso. Ele já se sentia bem melhor, mas não teimava com a namorada para ter argumentos logo mais a noite, já que ele queria que ela mais uma vez passasse a noite na casa dele.
Depois de utilizar todo seu repertório de desculpas dramáticas Will conseguiu convencer Lizzie a dormir novamente na casa dos tios, mas ela garantiu ao namorado de que seria a última.
Depois do jantar em família, já que Lizzie realmente era considerada como tal, os dois foram para o quarto e assistiram a um filme que passava na TV, na verdade Lizzie assistiu já que William dormiu dez minutos depois que o filme começou. Lizzie percebeu que o namorado dormia ao seu lado, mas não se incomodou, sabia que os remédios para dor que ele estava tomando possuíam esses efeitos.
Quando o filme terminou ela tentou sair da cama para vestir uma camisa de Will para dormir novamente, mas ele passou o braço por cima dela e impediu.
- Te acordei?
- Deveria, mas acordei sozinho. O filme já acabou?
- Hunrum.
- Ufa, ainda bem!
- Will! Você dormiu de propósito?
- Não, mas você há de convir que esse filme é muito chato.
- Não achei.
- Qual o filme que você não gosta? – ele indagou fazendo-a sorrir.
- Vários, mas outro dia eu faço uma lista pra você. Vou me trocar pra dormirmos.
- Agora eu perdi o sono. – ele disse se colocando sobre ela.
Lizzie sabia que não deveriam fazer nada, na noite anterior conseguiram dormir na mesma cama da maneira mais inocente possível, mas agora como Will em cima dela fitando-a com seus olhos famintos seu corpo a traía e começava a exibir reações que provavam o quanto ela sentira falta de Darcy.
- Will... – ela tentou esboçar um pedido, mas ele calou-a com sua respiração quente em seu pescoço e o resto da frase saiu mais como um gemido – por favor...
- Por... – ele roçou os lábios na garganta dela – favor... – beijou seu queixo demoradamente - o que? – desviou da boca de Lizzie e passou seu nariz delicadamente pelo dela, fazendo com que Lizzie se sentisse embriagada pelo cheiro bom que saia da boca dele.
Nem ela mais sabia o que queria pedir. Procurou a boca dele com desejo, contudo ele se afastou um pouco, encarando os olhos dela que se abriram assustados com a recusa.
- Por favor o que, Lizzie?
- Por favor, me beije. – ela falou encarando seus olhos e mudando completamente de idéia.
William não precisou de mais nada, sua língua invadia a boca de Lizzie de maneira possessiva, enquanto as mãos de Lizzie acariciavam as costas dele.
Beijaram-se e acariciaram-se por longo tempo, seus corpos, porém imploravam por mais. Sem a necessidade de palavras se amaram mais uma vez, calma e lentamente, experimentando cada segundo de sensações tão prazerosas.
Quando atingiram o máximo do prazer permaneceram unidos, num clima de cumplicidade extremamente natural como nenhuma outra pessoa nunca os havia feito sentir.
- Eu nunca mais vou te deixar sair de perto de mim, pequena.
- Quem disse que eu quero sair?
- Estou falando sério. Quero ficar com você pelo resto da minha vida.
Lizzie sorriu. Eles se beijaram mais uma vez e dormiram abraçados.
~x~
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