- Lizzie não foi... - ele tentou falar alguma coisa, mas Lizzie aumentou o tom de voz.
- Essa palhaçada toda pra se vingar? Você nunca gostou de mim? Era só uma competição entre você mesmo e o seu ego?
- Lizzie, eu amo você, sempre amei, mas o sofrimento que eu senti me deixou cego, irracional.
- Eu também sofri, William, e, no entanto eu nunca pensei nem fiz nada tão baixo como o que você fez.
- Lizzie, me entende, eu estou arrependido, por isso estou te contando a verdade, aos poucos percebi que você me amava, e essa idéia estúpida foi cada vez ficando mais fraca.
- Não dá pra entender. – ela disse dando as costas.
- Lizzie, me escuta. – ele falou segurando se braço – Aonde você vai?
- Qualquer lugar longe de você. – ela puxou o braço com violência – E não ouse me procurar.
Ele ficou parado olhando-a sair. Passou a mão pelos cabelos, nervoso. Estava tremendo. Sabia que ela não lhe escutaria, não agora.
- Char, sou eu, Lizzie. Você esta ocupada?
- Não, amiga, o que houve? – Charlotte notava pela voz de Lizzie que ela não estava bem.
- Preciso de você. – ela tentou falar, mas as lágrimas voltaram e dessa vez foi mais forte. - Posso ir até aí?
- Claro, Lizzie!
Lizzie desligou rapidamente e andou até o apartamento, pegou sua bolsa e as chaves de seu carro, e do automóvel de William, ela deixaria as chaves dele na portaria.
- Lizzie? O que aconteceu? – ela perguntou assustada com o estado da amiga.
- Só me deixe ficar aqui. – Lizzie sussurrou, abraçando a si mesma.
Por sorte os pais de Charlotte haviam saído e só voltariam no fim da tarde. Levou Lizzie para seu quarto e como fizera poucos meses atrás acariciava os cabelos dela, agora deitada abraçada aos joelhos dobrados, esperando que ela dissesse alguma coisa. Mas ela não o fez dessa vez.
Jane estava passeando com Charles quando atendeu a chamada de Charlotte. Talvez isso explicasse o que havia acontecido mais cedo, Charles ligou para William a fim de convidá-los juntamente com Lizzie para um almoço entre casais, mas ele não aceitou o convite. Não deu maiores explicações, mas disse que retornaria assim que fosse possível. Infelizmente os homens não eram tão sensíveis quanto as mulheres e Charles não atentou para a voz de William, se o tivesse feito perceberia o quanto o amigo estava arrasado. Explicou a situação para Charles ele a acompanhou e permaneceu na sala dos Lucas enquanto a namorada acompanhava Charlotte ao quarto.
Ele tentou ligar para o celular de Lizzie, mas ela não atendeu nenhuma das vezes.
- O que aconteceu com Lizzie, Will? – ela perguntou assim que ele atendeu.
- Ela está com você? Ela está bem? – ele perguntou exasperado.
- Estou na casa de Charlotte com ela, fisicamente ela está bem, não sei quanto ao resto, ela não diz nada. – Jane preferiu não contar que a irmã havia adormecido - Agora me diga o que aconteceu?
- Nós brigamos. – tal palavra saiu arranhando a garganta de Will. “Eu a magoei”. Ele pensou. – Eu posso vê-la?
- É melhor não, me deixe falar com ela primeiro.
- Jane, eu amo a sua irmã, acredite nisso. Não deixe que ela pense outra coisa.
- Isso não depende de mim, Will, agora preciso desligar.
- Pode te pedir pra me manter avisado sobre ela?
- Farei o que for possível. – Jane disse antes de se despedirem.
- O que ele disse? – Charlotte indagou.
- Que os dois brigaram. – Jane respondeu pensativa.
- Deve ter sido algo sério pra ela estar assim.
- Não entendo. Eles estavam tão bem ontem à noite.
Lizzie se mexeu, abriu os olhos confusa, não sabia onde estava. Olhou para as paredes desconhecidas e então lembrou que estava na casa de Char, virou para o lado e encontrou dois pares de olhos a observando.
- Muito bem, mocinha, hora de nos contar o que está acontecendo. – Jane disse se aproximando.
- Oh, Jane, eu tenho sido tão cega! – ela disse numa careta de dor, não queria mais pensar no que acontecera, mas era impossível. Todas essas semanas estivera iludida numa falsa felicidade, num amor inexistente, numa mentira cruel.
Darcy não gostava dela, estava envolvido numa vingança por causa de uma rejeição inexistente de dez anos atrás, e ele havia obtido êxito, lá estava ela, sofrendo pela desilusão que ele provocara.
Mas ela não queria contar sobre aquilo pra ninguém, já bastava ele rindo as suas custas.
- Vou te levar pra casa.
- Não precisa, estou com meu carro. - Lizzie falou. Não queria voltar pra casa, as lembranças dos dois naquele apartamento eram muito vívidas. Sua própria pele estava marcada por ele. Mas não tinha escolha, se não fosse elas iriam perceber que sua melhora era apenas uma farsa. Ficou envergonhada quando encontrou Charles e os Lucas, mas fez mais palhaçadas e todos acabaram achando graça.
Lizzie sentiu fome, mas quando chegou na cozinha e viu os pães que sobraram do café da manhã tudo veio a tona de novo, ela então voltou para o quarto, ligou o som, e permaneceu lá até o dia seguinte.
- Fico muito feliz de tomar café novamente com toda a minha família reunida, mas eu preferia que estivéssemos juntos por um bom motivo. – ele falou voltado para Lizzie que permaneceu calada, se falasse algo naquele momento talvez não conseguisse segurar as lágrimas.
- Anthony! Estamos juntos e isso basta, não importa o motivo que trouxe Lizzie até aqui! – Fanny respondeu alterada. Ela tinha desconfianças de que a tristeza da filha tinha tudo a ver com seu afilhado e já estava pensando em uma maneira de reverter a situação.
O Sr. Bennet não pretendia discutir com a esposa, mas voltaria a tocar no assunto em outra hora em particular com Lizzie. Ela pareceu notar e fugia do pai todas as vezes que ele iniciava uma conversa.
Heaven (Paraíso)
Desistiu da leitura e enxugava uma lágrima que escorria do canto do seu olho quando ouviu o som de uma pessoa batendo palmas ali perto. Andou até a escrivaninha e encontrou o pai sentado em sua poltrona.
- Papá? Pensei que já estivesse deitado!
- Vim pegar outro livro, acabei o que estava lendo e você sabe que não durmo sem devorar algumas páginas! Adorei a música! Hoje você está inspirada! – ele gracejou.
- Pode me dar dez minutos? – a vontade de Lizzie era de inventar uma desculpa qualquer e subir para o antigo quarto, mas não podia mais fugir do pai. Se não fosse naquele momento ele encontraria um jeito de falar a sós com ela.
- Claro! – ela sentou no tapete e encostou-se na poltrona do pai. Ele começou a acariciar-lhe os cabelos como costumava fazer quando ela morava lá.
- Você sabe que é muito bom ter você aqui, não sabe?
- Um rum. – ela consentiu.
- Mas você sabe que eu sei que você está aqui porque está triste, não sabe? – Lizzie não tinha como mentir, era uma questão de tempo todos perceberem sua felicidade forçada.
- Sei pai.
- Eu posso te ajudar de alguma forma? – Lizzie suspirou, não queria envolver seus pais naquela história, esse era o motivo principal dela ter escondido seu relacionamento com William.
- Estar aqui já está me fazendo bem, não se preocupe, só tenho me sentido carente, logo passa.
- Promete que fica bem logo?
- Prometo papá! Agora vou deitar, ok?
- Tudo bem. Posso te indicar um livro?
- Eu adoraria.
Seu pai foi até uma das estantes e facilmente encontrou o livro que procurava. Entregou o grosso volume a filha, que sorriu com o título: Love in the Time of Cholera by Gabriel Garcia Marquez (Amor nos tempos do Cólera).
Elizabeth encontrou a irmã no computador, ela estava num site de uma imobiliária.
- Indo dormir? – Jane perguntou a Lizzie.
- Na verdade vim saber se tem uma vaguinha pra mim aqui!
- Claro, Lizzie! Vou desligar o computador pra conversarmos.
- Você está procurando imóveis? Vai abrir outra filial da livraria?
- Na verdade estou procurando a nossa futura casa! Minha e de Charles!
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!
- Shiii! – Jane levantou e tapou a boca da irmã com a mão. - Pare de gritar, não quero que ninguém saiba ainda.
- Jane, você vai casar e não me contou nada? Estou seriamente magoada! – Lizzie cruzou os braços. Jane a puxou para a cama e elas sentaram frente a frente.
- Lizzie, você está num estado lastimável desde sábado, não achei que era o momento mais propício para contar-lhe, mas você não sabe o esforço que tenho feito para não sair gritando aos quatro ventos a minha felicidade. E, além disso, não vamos casar, quer dizer, não de papel passado, vamos morar juntos, quem sabe se der certo nós oficializamos um dia!
- É claro que vai dar certo, Jane! Vocês foram feitos um para o outro!
- Assim como você e William!
- Ah não Jane, se você for começar com esse assunto eu prefiro dormir sozinha. – Lizzie disse levantando-se.
- Ok, ok, parei. – Jane a puxou de volta – Mas você sabe que não pode passar a vida toda fugindo desse assunto, em algum momento você precisa encarar a situação.
- Jane? – Lizzie levantou a sobrancelha ameaçadoramente.
- Pronto, agora parei.
- E esse livro? Pensei que não te interessasse ler romances agora.
- Papai acabou de me indicar, você conhece esse? – Jane sorriu e Lizzie revirou os olhos com sua pergunta boba – É claro que conhece, quais livros você e papai ainda não leram? Sobre o que esse fala?
- É um romance que supera várias dificuldades, inclusive o tempo. Nem me lembro quando eu li, mas ele é muito bom!
- Sei. – Lizzie falou tristonha - Vou trocar de roupa e venho deitar com você.
Lizzie deixou o livro em seu quarto vestiu uma camisola e voltou pra perto de Jane. As duas deitaram na cama e
Lizzie abraçou a irmã, nos últimos dias tinha chorado todas as noites antes de dormir, mas a presença de Jane perto dela a deixou mais tranqüila, e pela primeira vez desde a discussão do sábado Lizzie tinha uma noite de sono sossegada.
~x~
LAST_UPDATED2














