I Will be there for you – Bon Jovi
Depois do que aconteceu entre Hugh e Georgianna ele ficou completamente sem ação. Saiu na moto sem direção e acabou parando numa pracinha que encontrou pelo caminho. Ele não acreditava que estivesse apaixonado, ele não “podia” estar apaixonado, não por Georgianna, ela era praticamente uma adolescente, ainda estava no colégio e pra piorar era praticamente parente de Lizzie. Isso nunca daria certo. Além disso, Hugh não sabia se queria alguma coisa séria com alguém naquele momento de sua vida, sua carreira estava dando uma guinada, e ele não queria fazê-la sofrer sem poder oferecer o que ela merecia. Sabia que devia se afastar, era o melhor que fazia, aos poucos os dois deixariam de se ver e o que quer que estivesse sentindo aos poucos desapareceria, afinal o que os olhos não vêem o coração não sente. Ele se deu por satisfeito e foi pra casa, não descansara o suficiente naquela noite, mas ao deitar uma certa ninfa de olhos verdes povoou seus sonhos.
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Georgianna não conseguia ficar triste, apesar das coisas ruins que aconteceram naquela noite, os fatos acabaram servindo para uni-la, mesmo por poucos segundos com o homem que ela mais amava no mundo. Hugh a beijara, ele tomara a iniciativa, ele deu seu telefone a ela, ele havia percebido que ela existia, e isso já era muita coisa. Estava mais eufórica do que o normal e foi procurar a madrasta para conversar sobre os detalhes de sua festa.
Michelle queria alugar um espaço diferente para comemorar os 18 anos de Georgianna, mas a garota fazia questão que a festa fosse em sua casa, afinal já tinha permissão para iniciar sua carreira e já no dia seguinte faria seus contatos na escola de música, não sabia se nós próximos dois anos pelo menos estaria em casa nessa época e queria guardar mais essa recordação feliz de seu lar. Como a decisão seria da aniversariante Michelle acatou prontamente, depois de ouvir seus argumentos. O segundo ponto discutido foi a temática, Georgianna não queria nada infantil e nada sóbrio ou sério demais. Acabaram decidindo por uma festa a fantasia, as duas estavam super empolgadas e sorrindo alto imaginando seus possíveis trajes quando Will se aproximou atraído pelas gargalhadas.
- Posso saber o que as duas estão aprontando? – ele perguntou depois de depositar um beijo no rosto da irmã e piscar para a madrasta.
- Estamos decidindo os detalhes do meu aniversário, será uma festa a fantasia, irmão!
- Não acredito nisso, você me coloca em cada enrascada. Eu não posso imaginar o que serei obrigado a usar.
- Hum, você ficaria bem de índio, minhas amigas iam adorar te ver de tanguinha de penas e cocar – a menina debochou do irmão que fechou a cara com essa resposta – mas acredito que você não ia aceitar, então talvez possa se vestir de Superman, também tem tanguinha e calça colada! Até porque você é muito branco para um índio.
- Seu irmão tem um porte aristocrático, ele ficaria bem melhor numa daquelas roupas de filmes de época, bem no estilo vitoriano. – Michelle opinou.
- Pelos menos alguém tem a cabeça no lugar! – William sorriu – Nada mal, Michelle, ao menos estarei vestido, ao contrário das fantasias que a minha irmã sugeriu, ela só quer me exibir pras colegas, acho que vou começar a cobrar.
- Eu posso ser sua empresária! – Georgianna continuou provocando enquanto seu irmão saía sorrindo da sala.
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Lizzie deixou o porteiro de sobreaviso, disse que esperava suas amigas e que ele nem precisaria ligar quando elas chegassem, ele a ajudou com as compras e voltou a seu posto. Elisa guardou tudo em seus lugares, deu uma arrumada rápida no apartamento e foi tomar banho e se trocar para esperar sua irmã e Char. Pouco depois Jane chegou, conversaram um pouco sobre sua família enquanto aguardavam Charlotte para iniciar os assuntos de interesse das três.
Charlotte Lucas não demorou muito, logo as amigas estavam na sala de Lizzie, comendo besteiras e conversando sobre a vida.
- Lizzie, me explica porque você está com essa roupa? Eu não sabia que era a festa do pijama. – Charlotte provocou. Elizabeth estava com um baby – dool rosa, como se estivesse pronta pra dormir – E eu que pensei que nós poderíamos até tomar um chope mais tarde.
- Ah, Char, qual o problema do meu pijama? Você não queria que eu me arrumasse pra vocês, queria? – elas gargalharam.
- Ela agora só se arruma para “certa” pessoa Char. – Jane instigou.
- Como assim, dona Lizzie? Quer dizer que você está saindo com alguém e não me contou nada?!?! – Lizzie ficou vermelha.
- Eu só descobri porque peguei os dois se pegando no avião, Char, na volta de Paris, e ela ainda teve a cara de pau de me negar quando eu perguntei. Tive que usar métodos de tortura medievais para ela abrir a boca.
- No avião, hein? E quando eu vou conhecer tal pessoa?
- Você já conhece. – Jane respondeu, deixando Lizzie ainda mais envergonhada.
- Então? Você vai me contar ou vou ter que pedir a Jane para lhe torturar outra vez? – Charlotte brincou.
- Will. – Lizzie sussurrou, abrindo a boca pra participar daquele tópico pela primeira vez.
- O que? – Charlotte não conseguira escutar.
- Will. Darcy. William Darcy. – dessa vez Lizzie gritou e começou a rir.
- Eu não posso acreditar. O último homem do mundo virou o primeiro?
Elas gargalharam.
- Eu sabia, mas não esperava que fosse tão rápido. Vocês já foram juntos pra França?
Lizzie então contou toda a história, de como se encontraram ao acaso na França (pelo menos na cabeça de Lizzie foi ao acaso), do jantar no barco, da volta pra casa, da noite em que saíram pra dançar, da viagem a Pemberley e do presente que ganhara dele. Estas últimas informações detalhadas também eram novas para Jane.
- Então vocês estão namorando?
- Até ontem estávamos, mas hoje ele estava muito estranho. – ela então passou a falar obre os acontecimentos daquele dia.
- Lizzie, ele deve estar com ciúmes. – Charlotte disse parecendo óbvia.
- Ciúmes? Por que?
- Hugh, Lizzie, é óbvio.
Lizzie bateu a mão na cabeça como se estivesse em outro planeta.
- É claro! Ele deve estar se perguntando por qual motivo Hugh trouxe Georgianna pra cá.
- Ta vendo, sua boba? Deixe de imaginar coisas e fique as boas com seu gatão de novo. – Char aconselhou – Falando nisso como ele é? – ela perguntou mal intencionada.
- Alto, branco, cabelos escuros e olhos azuis. – Lizzie respondeu fazendo todas sorrirem mais uma vez.
- Você entendeu queridinha, como ele é entre os lençóis. – Charlotte especificou.
- Dizer que ele me faz completamente feliz responde a pergunta? – as outras duas balançaram a cabeça negando.
- Ok. Vocês venceram. Ele é muuuuuuuuuuuuito bom, quando estou com ele perco completamente o controle, ele me provoca, me tenta, e está escrito em seus olhos o quanto me deseja. De verdade eu nunca me senti tão desejada por um homem como eu me sinto por ele. Além de tudo quanto mais nós praticamos, digamos assim, mais queremos estar perto um do outro. É uma atração irresistível, parece que nossos corpos foram moldados um para o outro, há um encaixe perfeito, e tudo maravilhosamente intenso quando estamos juntos, e ele sabe como seduzir uma mulher em todos os sentidos. E eu não canso de olhá-lo, meu Deus, que corpo, que costas, que peito...
- Hã hã... – Jane pigarreou – não precisa descer mais Lizzie.
Charlotte se abanava com uma das almofadas espalhadas pelo sofá enquanto Jane sorria da empolgação da irmã.
- Ah, precisa sim! – Charlotte disse.
- Você fala como se Will fosse um pedaço de carne à mostra, só esperando alguém pra comprar. – Jane caçoou.
- E ele é o próprio filé mignon! – Charlotte falou e Lizzie concordou, batendo a mão na mão da amiga.
- Sua vez, Jane. – Lizzie indicou. – você nunca falou disso com o Francês.
- Ah, o Charles é muito parecido comigo, mais calmo, mais quieto.
- Entendi, então se depender de vocês não serei tia nunca. – Lizzie provocou.
- Não é assim, Lizzie, nós só não somos tão sensuais como você e Will. Mas é divino ir para a cama com o Charles, eu me sinto uma atriz e cinema de filmes românticos! É tudo tão lindo, tão perfeito.
- Já chega, Jane. Daqui a pouco até eu vou estar achando que eu estou mais para atriz de filme pornô. - Lizzie interrompeu fazendo piada.
- Vocês são diferentes até nisso, não sei como se dão tão bem. – Charlotte comentou – Jane é bem mais amorosa e tranqüila, e você, Lizzie, é completamente passional e impulsiva. Mas no fim tudo é amor, só uma forma diferente de amar.
- Chega de filosofar Char, agora é sua vez de nos contar da sua vida. – Elizabeth pediu.
- Ah meninas, conheci um cara, nossa, vocês não tem noção.
- Qual a idade dele, Char? – Jane perguntou ressabiada.
- Ah, não sei, uns 48, 50 acho.
- De novo, Charlotte Lucas? Você não cansa dos vovôs, não? – Lizzie sorria.
- Vovô não, Liz. Coroas, enxutérremo por sinal. E a resposta a sua pergunta é não, prefiro mil vezes um coroa experiente do que o boyzinho convencido. Homem é que nem vinho, quanto mais velho melhor. Esses garotões da nossa idade não sabem como conquistar uma mulher, se acham os gostosos e ficam esperando sentados enquanto nós nos estapeamos por eles.
As três sorriram e Charlotte continuou.
- Os coroas não, eles entendem do ramo, sabem chegar, manter uma boa conversa, seduzir, provocar, tudo sem pressa, eles sabem como fazer as coisas.
- E qual é o nome do coroa de agora?
- Ah, o nome dele é Allan, ele é professor do curso que eu estou fazendo.
- Você ta pegando um professor, Charlotte Lucas? – Lizzie colocou as mãos na cintura fingindo-se de brava.
- Ainda não. – ela gargalhou – mas o jeito que ele me olha leva a crer que isso não vai demorar. Na verdade estou pensando se enrolo um pouco mais na hora pra ir embora na próxima aula e espero todos saírem da sala, sempre tive o desejo de fazer amor loucamente com um professor na mesa dele, o que eu vocês acham?
- Que você é completamente maluca! – Jane falou enquanto Lizzie balançava a cabeça confirmando.
- Mas depois nos conte os detalhes! – Lizzie piscou fazendo as três sorrirem.
A campainha tocou e as três se entreolharam.
- Você está esperando mais alguém? – Jane perguntou.
- Não, ninguém. Ela respondeu enquanto levantava pra abrir a porta.
William estava com as duas mãos apoiada nas laterais na entrada do apartamento, uma perna passando na frente da outra e a cabeça baixa. Ele levantou a cabeça sutilmente e Lizzie percebeu pequenas rugas no meio de sua testa, sinal de que ele estava zangado.
Um segundo depois William viu duas cabeças atrás de Lizzie olhando em sua direção e se sentiu envergonhado.
- Hum, eu não sabia que você tinha visitas, volto depois.
- Oi, Will - Jane falou e ele acenou para ela e Charlotte.
- Nós já estávamos indo embora. – Charlotte levantou puxando Jane para alívio de Elizabeth, que ainda segurava a porta aberta sem saber o que dizer.
- Você tem certeza? – ele perguntou olhando para Lizzie.
- Hum rum. - Ela se apressou em responder e estendeu a mão pra ele, que aceitou depois de olhar para as mãos de Lizzie paradas em sua frente e entraram no apartamento de mãos dadas.
Jane abraçou a irmã e o cunhado e Charlotte cumprimentou Will e abraçou a amiga cochichando em seu ouvido:
- Se mudar de idéia e quiser ajuda com o filé eu posso me oferecer pra temperar. Abro algumas exceções para essa idade quando a carne é nobre.
- Esse filé é só meu. – Lizzie respondeu possessiva, mas com tom de brincadeira – Eu dou conta do recado.
- Você vai cozinhar hoje? - William não pôde deixar de ouvir e perguntou quando ficaram a sós.
- Não, andei pensando em levar um prato para o jantar que a mamãe vai oferecer a Charles no fim da semana, Charlotte me ofereceu ajuda, mas acho que vou comprar algo pronto.
- Charles está vindo?
- Na sexta. Você vai estar lá, não é? Jane disse que essa semana ligaria pra sua casa.
- Você quer que eu vá?
- Lógico, Will. – ela acariciou a mão dele.
- Lizzie, eu preciso saber mais algumas coisas sobre o que aconteceu ontem. – ele disse sério.
- Tudo bem, vamos sentar. – Os dois se acomodaram no sofá e ela esperou que ele falasse, mas percebeu que não estava sendo muito fácil pra ele e resolveu iniciar.
- Tem a ver com o Hugh?
Ele a olhou surpreso, era tão óbvio assim? Balançou a cabeça afirmando e começou a falar.
- Eu realmente não entendo a participação dele nessa história.
Lizzie explicou que Hugh estava tocando e viu quando Georgie foi puxada de forma grosseira por Wickham para fora do pub, uma vez que Georgianna contou apenas que havia tido uma discussão bem séria com o namorado. Disse que ele conhecia o rapaz de vista e saiu para ver se ela estava bem e encontrou-a sendo maltratada por ele. Que a própria Georgianna pediu para que ele não a levasse para casa, pois não queria que sua família a visse naquele estado, ele preferiu não levá-la pra sua própria casa, e a trouxe pra o apartamento dela, afinal ele sabe o quanto Lizzie se dá bem com a família dele.
- E o que ele fazia aqui hoje de manhã? Por acaso ele dormiu aqui também?
Lizzie ficou surpresa, ela não sabia que Will tinha conhecimento da presença de Hugh na casa dela naquele dia.
- Ele ficou preocupado com a sua irmã e perguntou se poderia vê-la hoje, já que ontem eu pedi que ele nos deixasse a sós. Claro que ele não dormiu aqui, Will, porque você acha isso?
- Porque ele atendeu o telefone quando eu liguei hoje.
- Ele deve ter atendido sem nem perceber Will, esquece isso, Hugh e eu nunca tivemos nenhum contato antes da noite passada depois do fim do nosso relacionamento. Não quero que você pense besteiras. – ela disse se aproximando dele.
- Não quero você nem minha irmã perto daquele cara. Não gosto dele.
- O Hugh é uma pessoa boa Will, você deveria agradecê-lo pelo que ele fez ontem, não posso imaginar o que poderia ter acontecido com Georgie se ele não tivesse aparecido.
- Agora você quer que eu seja eternamente grato ao ex-namorado da mulher que eu amo?
- Não, você deve ser grato ao homem que ajudou a sua irmã, apenas isso.
William continuava sério, estava inseguro, não sabia o que dizer, amava aquela mulher mais que tudo, mas as marcas de sua primeira rejeição ainda doíam, ele não queria passar por aquilo de novo. Estava arrependido de estar ali, precisava de espaço para pensar sobre aquilo, desde que Hugh atendera o telefone da casa de Lizzie o ciúme o corroia por dentro. Fora até ali com o propósito de esclarecer os fatos, mas assim que a vira queria tomá-la nos braços novamente, não conseguia raciocinar direito. Além disso, havia outra coisa martelando em sua cabeça. Porque Lizzie não quis que suas famílias soubessem do namoro? Será que ela não pretendia assumi-lo? Levantou apressado e deu as costas a Lizzie caminhando para a saída.
- Aonde você vai? – ela perguntou confusa.
- Preciso pensar um pouco. – ele respondeu ainda de costas.
Lizzie permaneceu estática observando-o sair do apartamento. Não acreditava que ele faria isso com ela mais uma vez, ele não podia a deixar assim depois de tudo. “Tudo isso seria apenas ciúmes”? Ela pensava se Jane e Char tinham mesmo razão, mas percebeu que William estava inseguro, talvez ela pensasse o mesmo se estivesse no lugar dele. Precisava fazer alguma coisa, não deixaria que aquele homem escapasse, sem perceber a roupa que “não” estava vestindo correu até o elevador de baby-doll, mas este tinha acabado de fechar as portas. Se dirigiu então para as escadas e correu o mais rápido que pôde, mas logicamente não o encontrou mais depois de descer 10 lances. O porteiro a olhou espantado e ela indagou sobre o homem que acabara de descer, ele indicou a direção que ele tomou e ela saiu do prédio correndo mais uma vez. Avistou-o no meio do quarteirão seguinte, andando devagar com as mãos nos bolsos. As ruas estavam quase desertas, o início do outono havia deixado aquele fim de domingo levemente frio. Ela tentou gritar, mas não tinha mais fôlego, andou o mais rápido que pôde e juntou forças para chamá-lo.
- Will? – sua voz saiu desesperada e ele olhou pra trás assustado - Não vai.
As poucas pessoas que passavam pela rua pararam para olhar a estranha mulher de baby-doll falando com aquele homem lindo, mas com feições tristes.
- Você é o homem da minha vida, não existiu e nem existirá nenhum outro. Eu quase morri quando você foi embora pra França, eu aprendi a ser durona para fingir pra todo mundo que eu nem estava ligando quando por dentro eu estava estilhaçada. – ela parou para recuperar o fôlego enquanto ele e a platéia a olhavam atônitos. - Passei meses pra colocar um sorriso sincero no rosto, anos pra voltar a ser a Lizzie extrovertida e ousada que todos conheciam. Eu não vou agüentar se você fizer isso de novo.
As pessoas agora olhavam para ele, a espera de uma resposta.
- Por favor? – Lizzie suplicou e se aproximou ainda mais, agora poucos metros os separavam.
Era muito sentimento sendo declarado naquele momento. Se nas primeiras frases William se sentiu o mais feliz dos homens, mas nas últimas ele era o próprio ponto de interrogação. Não conseguia entender. Se ela gostava dele porque não respondeu a carta? Era o momento de saber.
- Se foi isso que você sentiu porque não me disse na época? – ele deu um passo pra frente e a platéia curiosa voltou-se para Lizzie novamente.
- Como eu poderia? Eu só tinha notícias suas através dos outros, e eu deduzi que você não queria nada comigo, caso contrário teria feito algum contato.
- Mas eu fiz. – ele respondeu irônico – a carta que eu mandei por acaso não valeu nada?
Lizzie exibia uma intensa dúvida no olhar, enquanto Will a olhava com descrença.
- Eu nunca recebi carta nenhuma. – ela disse séria enquanto ele a olhava ressabiado - Acredite em mim, eu teria dito tudo isto na época se eu tivesse recebido sua correspondência, isso teria nos poupado anos de sofrimento, mas o passado não volta, e nós temos a chance de ser feliz hoje.
- Te mandei uma carta pouco tempo depois que eu cheguei a Paris, onde eu falava tudo o que eu sentia por você, e que estava inclusive disposto a largar tudo e voltar por nós dois. – ele explicou, mas continuou parado, olhando para ela como se não acreditasse em suas palavras.
Will ouviu uma voz diferente e olhou para o lado, uma senhora idosa de cabelos brancos levava as mãos ao rosto para enxugar uma lágrima que descia. - Ela ama você meu filho, não a perca.
Ele encarou Lizzie mais uma vez, seu olhar agora exibia derrota, ela já havia dito tudo que poderia para provar seu amor, e ele estava ali, agindo como um juiz, acima de tudo e de todos. De repente tudo ficou claro, todos os momentos que passaram juntos e o fizera desconfiar que ela não recebera a carta voltaram a sua mente. Ele mesmo não tinha certeza de que isso realmente tinha acontecido, ele mesmo tinha dúvidas quanto aos sentimentos dela por ele, sempre pareceram mais verdadeiros do que ele achava. Ela o amava, e ela nunca recebera a missiva, sua vingança mal sucedida nunca tivera um real motivo para existir.
Mas agora Lizzie lhe dava as costas, cansara de esperar, via apenas indecisão nos olhos de William, não sabia mais como demovê-lo de seus ciúmes e desconfianças, talvez ele não gostasse dela como Elizabeth o amava.
Ele precisava agir, deu o primeiro passo, mas uma mão o deteu. Um vendedor de rosas que assistia emocionado a cena entregou-o uma linda rosa vermelha, William colocou as mãos nos bolsos para procurar algum dinheiro para o homem, mas este o olhou amorosamente e balançou a cabeça negativamente. Darcy entendeu e correu até Lizzie.
Elizabeth ouviu passos se aproximarem rapidamente, mas se recusou a ter esperanças de que seria William, até que ouviu a voz embargada dele.
- Me perdoa?
Ela virou as costas devagar, olhou profundamente em seus olhos azuis e abriu seu sorriso mais sincero.
- Sempre. – ela disse enquanto pulava nos braços dele, segurando-se em seu pescoço enquanto Will a prendia pela cintura e girava com ela, ao som dos aplausos dos transeuntes que ainda os olhavam maravilhados.
- Parece que eles estão esperando o último ato. – Lizzie disse a William ao perceber a platéia ao redor deles.
- O último para eles. - Will falou colocando-a de volta no chão e capturando sua boca para um beijo apaixonado.
- Hora de fechar as cortinas – William falou após o beijo, enquanto tirava o blazer e o colocava nos ombros de Lizzie, que agora corava pelos trajes.
Eles seguiram para o apartamento e ficaram juntos até a manhã do dia seguinte, a pedido de William e com o consentimento expresso de Elizabeth. Separaram-se com relutância quando saíram do prédio, Lizzie ia para a universidade e Will para casa trocar de roupa para ir trabalhar.
*
Darcy estava dividido, por um lado sentia-se completo, afinal agora estava com a mulher que amava, mas por outro lado se sentia angustiado, estava escondendo algo dela e isso não era bom. Por um tempo pensou em nunca revelar a Lizzie sobre a vingança que planejou e começou a executar, guardaria esse segredo para si mesmo, seria melhor que ela nunca ficasse sabendo. Mas não achava justo, estavam começando um relacionamento que ele queria que fosse para a vida toda, não era saudável iniciar com omissões e mentiras. Decidiu contar tudo a Lizzie, mas esperava pelo momento certo.
*
Essa semana tinha sido extremamente importante para Georgianna, a escola de música que ela freqüentava era tradicional e ligada a música clássica, apesar disso, ela encontrou o apoio que precisava de alguns professores que inclusive entraram em contato com algumas pessoas do ramo para ela, de forma que já naquela semana ela faria alguns testes. Um dos produtores que ela encontrou apreciou bastante seu desempenho, lógico que ela precisava aprender muitas coisas antes de iniciar a carreira, mas ela já tinha o principal, o dom. Faria mais alguns testes ao vivo com banda e logo partiriam para escolha de repertório, ela já tinha músicas de sua própria autoria, que apesar de agradarem ao produtor não preencheriam um CD.
George ligou algumas vezes para ela, mas a garota preferiu não atender, não queria mais nenhum contato com uma pessoa que não teve qualquer respeito por ela. Também não teve novas notícias de Hugh, ele nunca mais a procurara e ela preferiu não ligá-lo, apesar de em vários momentos ter procurado pelo nome dele na agenda do celular, mas sempre desistia antes de apertar a tecla para chamar.
*
Jane passou a semana ansiosa, Charles chegaria na sexta e passariam mais um fim de semana juntos. Estava sendo muito difícil para ela ficar longe de seu amado, tinha andado triste e aérea, mas agora que estava próximo de vê-lo novamente seu ânimo ia melhorando. Decidira com sua mãe alguns detalhes do jantar, Fanny queria transformá-lo num grande acontecimento, mas Jane não permitiu, decidiram os pratos que seriam servidos e a mulher permaneceu em casa para providenciar tudo enquanto Jane tirou o dia de folga para se arrumar. Foi ao salão, fez cabelos, unhas, depilação e uma massagem relaxante e voltou pra casa no fim da tarde, tomou um banho rápido, trocou de roupa e foi até o aeroporto esperar seu namorado.
Ela não conseguia ficar parada no saguão do aeroporto, não se continha de aflição. Depois de esperar meia hora que para ela mais pareceu uma década viu um homem de cabelos ruivos e sorriso franco aproximar-se dela com uma pequena mala. Surpreendendo a si mesma Jane correu e atravessou a distância que os separava, Charles derrubou sua bagagem no chão e abraçou a namorada com todas as suas forças. Ficar longe um do outro estava sendo intolerável para aquele casal, e Charles teve certeza disso quando sentiu o corpo de Jane junto ao seu. Podia parecer cedo, mas ele sabia que ela era a mulher com quem ele passaria o resto da vida. Depois de alguns beijos apaixonados os dois seguiram para a casa dela onde sua sogra preparara o quarto de hóspedes para ele. Jane falou dos amigos que iriam jantar com ele naquela noite, e Charles brincou fingindo-se de insatisfeito, pois não queria ninguém além de Jane, mas ela o convenceu que depois desse evento os dois teriam todo o fim de semana só para eles. No fim das contas Charles ficou contente com o evento, afinal queria mesmo rever seu amigo William Darcy e a família dele que o recebera tão bem da outra vez.
Na casa dos Bennet apenas os pais de Jane o aguardavam, Fanny obrigou seu marido a chegar mais cedo do trabalho para causar boa impressão a seu genro e a fim de evitar as ladainhas intermináveis da mulher Antony cedeu.
Lizzie faltaria a sua aula de dança naquela noite e iria do trabalho diretamente para a casa de seus pais, para não chegar muito atrasada. Estava arrumando suas coisas para deixar sua sala quando seu celular tocou. Ela atendeu depois de olhar o visor:
- Oi amor!
- Oi, pequena. Estou morrendo de saudades.
- Exagerado, nos vimos ontem. – ela sorriu alto.
- Isso é suficiente pra você?
- Confesso que não. – foi a vez dele sorrir.
- Então, quer que eu te pegue para ir ao jantar?
- É melhor não, Will, se chegarmos juntos causaremos tantos comentários que chamaria mais atenção do que o próprio Charles.
- Ok. – ele respondeu triste – Te vejo lá então.
- Tudo bem, beijos.
- Outro. – Will respondeu rapidamente antes de desligar, ele ainda não entendia a necessidade que Elizabeth tinha de esconder o relacionamento dos dois, conversaria sobre isso com ela assim que possível, não queria mais esconder de ninguém seus sentimentos.
Mas ao chegar à casa dos padrinhos logo depois dos pais esqueceu qualquer motivo para estar chateado.
Ela estava com uma roupa mais séria, diferente do que ele estava acostumado a ver, contudo não menos bonita, seu olhar de moleca continuava ali, disfarçado pela sobriedade de seus trajes. Lizzie permaneceu séria quando o viu, mas piscou rapidamente o olho esquerdo quando só ele a observava fazendo com que Darcy se empolgasse e entrasse na brincadeira, seria bom provocá-la durante a noite. Ele cumprimentou Jane, Charles, Fanny e Anthony com muito carinho, e depois se virou para ela sério, cumprimentando-a formalmente segurando o riso e a vontade de beijá-la.
Lizzie percebeu e fingiu desagrado quando ele se afastou, fazendo Jane sorrir discretamente. Ninguém mais pareceu perceber nada e os dois permaneceram afastados, trocando olhares de vez em quando. Charles conversou rapidamente com os Darcy e depois seguiu em direção a seu amigo. Conversaram um pouco e depois Jane e Elizabeth juntaram-se aos dois, a conversação começou amigável, mas Will e Lizzie começaram a brincar fingindo trocar farpas, de maneira que até a própria Jane se assustou.
- Eu soube das pretensões artísticas de Georgianna, Will, estarei torcendo muito por ela, sei que talento ela já provou ter, não esqueci da demonstração na casa de campo dos pais de Jane.
William fechou a cara contrariado.
- Parece que só eu percebo a besteira que ela está fazendo. – ele disse sem perceber que Georgianna se aproximava.
- Quem está fazendo besteiras irmão?
- Ninguém. - ele disfarçou fingindo medo.
- Quero aproveitar que estão todos juntos para avisar do meu aniversário, vou fazer uma festa em casa e lógico, estão todos convidados.
- Ótimo! – Charles exultou - Georgianna você acaba de me dar mais um motivo para voltar mais cedo do que eu esperava a Londres. – ele sorriu enquanto aproximava Jane de si pela cintura.
- Será uma festa a fantasia, então podem começar a procurar o que vestir.
- William de fantasia? - Charles gargalhou. – Terceiro motivo!
Todos riram.
- Eu já disse a ela que não vou usar fantasia, não me prestarei a esse papel ridículo.
- Típico. – Elizabeth provocou.
- Como? – ele encarou-a.
- Típico de pessoas como você esse pensamento.
- Pessoas como eu? – ele enfrentou.
- Sim. – ela continuou – Pessoas orgulhosas, egoístas e insensíveis como você.
- Fique sabendo que sua opinião não faz diferença para mim.
- Não espero que faça. Mas deixe-me sugerir uma fantasia ideal para você. – William ficou curioso, mas se perguntasse sobre isso entregaria seu disfarce, por isso manteve-se sério e com aparência de zangado. Foi Georgianna que indagou.
- Que fantasia Lizzie? – ela perguntou assustada com o tom da discussão dos dois, porém absurdamente curiosa.
- Homem das cavernas. – Lizzie sorriu provocativa para ele. – Selvagem, insensível e bruto.
William não agüentou e gargalhou alto, chamando a atenção de todos os convidados para si.
- Então por que você não vai vestida com roupa de criança e uma mamadeira do lado, é o que você parece com essas ofensas infantis.
Lizzie permaneceu séria e fingiu-se de ofendida.
- Isso já está ficando ridículo, Jane se precisar de mim estou na biblioteca. – ela disse olhando séria para William.
Poucos minutos depois Georgianna se afastou e William declarou já impaciente que precisava ir ao banheiro, Charles e Jane começaram a sorrir e sua cunhada disse:
- Te damos cobertura! – fazendo William sorrir. Pelo visto os dois já sabiam de tudo, Charles sempre desconfiara do que ele sentia por Lizzie, e Jane além de tê-lo visto na casa de Lizzie era irmã e melhor amiga de sua namorada, que já devia ter comentado sobre os dois. Com esses pensamentos seguiu para o interior da casa e entrou discretamente na biblioteca.
A mão de Lizzie o puxou rapidamente e eles foram para trás das estantes, de forma que se alguém entrasse não os veria.
- Homem das cavernas, é? - Ele disse enquanto a puxava delicadamente pelos cabelos e alcançava sua boca.
- O meu homem das cavernas! – ela disse depois que se afastaram para recuperar o fôlego.
- Assim fica melhor. – eles sorriram e voltaram a se beijar.
- Temos que ir agora, Will, daqui a pouco vão começar a estranhar.
- Não. – ele gemeu – É horrível ficar longe de você.
- Mentira. – ela bateu de leve no peito dele – Você estava adorando me enfrentar.
- É divertido, sim. – ele confessou – Mas o martírio de ficar longe da sua boca supera a parte agradável.
- Mas agora temos que ir mesmo. Vai na frente, daqui a pouco eu apareço. Ah, dispensa a sobremesa porque eu preparei algo pra você lá em casa.
- É de comer?
- Em que sentido? – ela brincou.
- Não faz isso Lizzie, não posso aparecer na sala “alterado”. – ele tentou não pensar na imagem dos dois fazendo amor para não despertar seus instintos facilmente despertos a simples menção do nome dela.
- Vou até sair logo pra não piorar as coisas. – ele disse depois de roubar mais um beijo de Lizzie deixando-a entregue aos pensamentos da noite que ela imaginara para os dois.
William voltou à sala como se nada tivesse acontecido, tentando em vão esconder o sorriso de seu rosto. Fitzwilliam e Fanny se entreolharam de forma cúmplice, no entanto nada comentaram. Jane deixou Charles com o amigo e foi até a biblioteca procurar a irmã.
- Lizzie?- ela disse enquanto abria a porta.
- Estou aqui Jane. – Elisa respondeu dos fundos da biblioteca, estava sentada numa das grandes janelas.
- Aconteceu o que eu estou pensando? – Lizzie a olhou sorridente. – Qual o sentido daquela farsa lá fora?
- Evitar que a mamãe se meta onde não deve, apenas isso.
- Hum, entendo. Mas saiba que isso não vai durar pra sempre, a paixão parece estar marcada a ferro na cara de vocês!
- Deixa de exagero Jane. – Lizzie não acreditou.
*
- Eu pensei que vocês tinham se acertado em Paris, Darcy. – Bingley insinuou após a volta do amigo.
- E nos acertamos, pelo menos começamos a nos acertar. – ele respondeu sorrindo enquanto Bingley o olhava interrogativo.
- Estratégia, caro amigo! E até estou me divertindo com isso!
Bingley balançou o rosto sem acreditar que o sério William Darcy estava namorando escondido, parecia outra pessoa.
- Essa mulher te domou mesmo meu amigo. – ele comentou dando tapinhas no braço de William, que não pode responder, pois avistou Lizzie e Jane vindo na direção dos dois. Lizzie sorriu para ele e seguiu em direção aos outros convidados, após deixar Jane ao lado do namorado.
Pouco tempo depois a refeição foi servida. Os únicos adereços da mesa eram delicados arranjos de papoulas alaranjadas já que o jantar seria servido à americana. Próximo a mesa de jantar, que comportava facilmente 12 pessoas, estava uma bancada auxiliar com os pratos empilhados e os talheres e lenços dispostos ao lado. Em seguida os pratos frios e depois os quentes. Havia dois tipos de carne, o primeiro prato era Carpaccio de abóbora com azeite de manjericão e o outro tratava-se de um carne assada recheada, havia também Filé de pescada com purê de maçã, Risoto de camarão, dois tipos de salada e creme de espinafre e repolho. Como sobremesa havia uma torta de ameixa, um tipo de doce de frutas e um sorvete.
Tudo estava delicioso e impecável, e como Lizzie havia alertado Darcy recusou a sobremesa. As duas famílias e Charles permaneceram juntos por algum tempo e Lizzie foi a primeira a ir embora, não sem antes passar discretamente por Darcy enquanto ele se servia de café tocá-lo levemente a mão e sussurrar baixinho deixando-o arrepiado:
- Te espero em casa.
~x~
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