Recomeços
Ela não soube até que horas ficou ali, encostada naquela porta, aos prantos. Já era dia quando foi para a cama com o rosto inchado.
Acordou algumas horas depois com o telefone tocando. Mal conseguia abrir os olhos, sua cabeça parecia que ia explodir, tateou no criado mudo até encontrar o celular e atendeu sem nem se dar ao trabalho de ver quem estava ligando.
- Alô. – sua voz mal saía.
- Lizzie, é a Char tudo bem?
- Não. – ao ouvir a voz da amiga caiu no choro novamente, tentava falar, mas os soluços não deixavam.
- Lizzie, você está me ouvindo? – ela conseguiu dizer um sim para a amiga - Você está em casa?
- Es... Estou.
- Em dez minutos chego aí.
A amiga parecia ter falado a verdade, pois logo Lizzie ouviu o interfone. Ela autorizou a subida, destrancou a porta e voltou para a cama.
Charlotte entrou no quarto e encontrou Elizabeth em péssimo estado, ela ainda estava aos prantos, completamente abatida e com profundas olheiras.
Ela abraçou a amiga que permaneceu chorando em seu colo até cansar.
- Melhor agora?
- Um pouco.
- Ótimo, agora me conte o que aconteceu?
- Minha cabeça parece que vai explodir... Bebi demais ontem e terminei com o Hugh.
Charlotte tirou um comprimido da bolsa e foi até a cozinha buscar água. Entregou o copo e o remédio e fez com que Lizzie tomasse.
- Você vai se sentir melhor com isso. Agora me diz, você terminou por estar bêbada e está chorando por estar arrependida ou a bebida só te deu coragem pra fazer o que você já tinha certeza que queria?
A amiga parece que lia seus pensamentos.
- Um pouco de tudo. Eu estava insatisfeita e infeliz há algum tempo. E ele também, eu sentia isso, ele só não conseguia ver que era por nossa causa.
Ela relatou à amiga tudo que acontecera na noite e grande parte da madrugada, e Charlotte ouvia tudo calada, deixava que ela desabafasse por completo, Lizzie sempre guardava as coisas pra ela, sempre ouvia e apoiava as amigas, se ela estava falando tudo tão facilmente agora era porque chegara a seu limite.
- Além disso, eu estou confusa. Eu acho que nunca amei Hugh de verdade, me apaixonei por ele e tudo, sentia muita atração, mas isso foi passando, acho que só gosto dele como amigo agora.
Depois que ela falou tudo que queria Charlotte a levou até o banheiro, encheu a banheira e Lizzie mergulhou enquanto ela sentava ao lado num banquinho.
- Você não vai falar nada Char?
- Você quer que eu fale?
Lizzie balançou a cabeça afirmando.
- A chegada de William Darcy tem algo a ver com essa confusão?
Lizzie recomeçou a chorar.
- Vou pedir algo pra você comer. Volto já. – Charlotte disse levantando-se.
Já eram quase quatro da tarde e ela sabia que a amiga não havia se alimentado ainda. Ligou para um restaurante chinês que ficava ali perto e pediu comida suficiente para as duas.
Voltou ao banheiro e sentou-se ao lado da amiga de novo, que parecia estar esperando por uma palavra que a confortasse.
- Lizzie, eu sei que ele mexe com você, eu percebi. Não sei o que aconteceu entre vocês no passado que te deixou tão magoada, porque vocês eram inseparáveis e do nada um bloco de gelo pareceu ter surgido entre os dois.
Lizzie permaneceu calada e baixou a cabeça.
- Eu entendo que você tenha guardado isso com você por quase dez anos e realmente não vou forçá-la a me contar agora, mas você precisa parar um pouco e refletir sobre o que está acontecendo. Quem tem as respostas é você mesma, e não eu ou qualquer outra pessoa. Eu sei que você está triste por tudo isso, essa confusão de sentimentos, a crise e o fim do seu namoro, esse mestrado que eu sei que é pesado, o monte de trabalho que você tem na escola, enfim, é um monte de coisas ao mesmo tempo, mas preste atenção.
Lizzie olhou para ela novamente.
- Hoje é sábado, são exatamente 16 horas, você tem até amanhã às 16 horas pra chorar e sofrer tudo que você tem pra chorar e sofrer. Coloque pra fora toda a raiva, a mágoa, o arrependimento, a culpa, tudo que possa te deixar triste. Mas você tem exatamente 24 horas, depois disso não quero vê-la mal nem chorosa, você está ouvindo?
Ela apenas balançou a cabeça.
- Amanhã às 16 horas eu volto, nós vamos lanchar em algum lugar, dar uma volta e curtir o final do dia por aí, estamos combinadas?
- Sim. – pela primeira vez ela sorria, um sorriso um tanto triste que mais parecia uma careta, mas verdadeiro. Lizzie não sentia vontade de sair, mas a amiga estava certa, se entregar a tristeza e a solidão de nada adiantaria.
- Então vem, a comida deve estar chegando.
O entregador chegou com a encomenda e as duas se alimentaram com calma, quando Charlotte viu que Elizabeth estava mais calma foi embora, a deixaria sozinha para que pudesse refletir sobre tudo que aconteceu e voltaria no outro dia como combinado.
Lizzie permaneceu na cama após a saída de Charlotte, só saiu de lá com o toque insistente da campainha. Ela já estava decidida a não atender, contudo ouviu a voz de Jane chamando-a e foi até a porta.
A felicidade estampada no rosto de Jane se esvaiu no momento que viu a irmã, que apenas abriu a porta e rumou para a cama novamente.
Jane a seguiu e sentou-se na cama, passando as mãos nos cabelos da irmã enquanto pensava no que falar. Sabia que Elizabeth dificilmente falava de seus sentimentos, principalmente quando não estava bem, mas precisava saber o que estava acontecendo.
- Isso não é apenas ressaca, não é Lizzie?
- Não, isso é o que acontece quando as pessoas não sabem o que fazer.
- Quer falar sobre isso?
- Jane, a psicóloga aqui sou eu. – Lizzie disse produzindo um sorriso na irmã - Por enquanto não, agora eu preciso pensar, só devo informá-la que desde essa madrugada Elizabeth Bennet voltou a ser uma mulher solteira.
Jane disfarçou a felicidade, pois sabia que a irmã estava triste, mas isso logo ia passar, Hugh era uma boa pessoa, mas não era o homem ideal para ela, Lizzie precisava de alguém que a tirasse completamente do rumo, que trouxesse um sorriso verdadeiro ao seu rosto, que a fizesse realmente conhecer o significado da palavra paixão.
- Sem volta?
- Hun rum.
- Então acho melhor deixar a novidade para outro dia, você não está com ânimo pra isso hoje.
- Que novidade?
- Devo informá-la que desde essa madrugada Jane Bennet não é mais uma mulher solteira.
Lizzie passou do choro as gargalhadas com a notícia que recebeu, ajoelhou-se na cama com as mãos na cintura e um olhar travesso para a irmã.
- Só você mesmo Jane pra fazer isso comigo, não posso nem curtir minha fossa em paz que você me faz ficar feliz de novo!
- Ficar triste não resolve os problemas Lizzie, e você sabe disso!
- Eu sei Jane, só preciso refletir sobre a minha vida, amanhã voltarei a ser a Lizzie de sempre! Mas vamos, me conte os detalhes.
Jane contou o que se passou entre o novo casal desde a noite passada até o momento que ela o deixou no aeroporto com os Darcy. Ficara combinado que a cada 15 dias iriam se ver, alternando os países, uma vez ele iria a Londres e na outra ela iria para Paris, sendo que a primeira viagem seria feita por Jane dali a 15 dias, Charles também tinha estendido o convite a Elizabeth e Jane adorou, seria ótimo se a irmã fosse com ela.
Ao tomar conhecimento de tudo Lizzie parabenizou a irmã e disse que daria a resposta da viagem depois, naquele momento não queria decidir nada. Jane acatou a resolução dela, voltaria a tocar no assunto outra hora. Ficou com Lizzie um bom tempo depois de desistir de tentar convencer a irmã a dormir na casa dos pais, esperou que ela pegasse no sono e foi pra casa.
Como combinado no domingo às 16 horas Charlotte chegou ao prédio de Elizabeth, ela já estava pronta a espera da amiga e quando o porteiro interfonou ela pegou a bolsa e desceu.
- E então? Melhor? – Charlotte perguntou enquanto a abraçava.
- Bem melhor eu acho. O pior já passou.
- Ótimo, então vamos.
- Pra onde?
- Por aí, vamos andar sem rumo certo.
As duas seguiram em direção até chegarem a um parque poucos quarteirões do prédio de Lizzie. Conversaram amenidades até encontrarem um banco vago e sentarem.
- Então Lizzie, posso saber o que você decidiu depois desse tempo?
- Não consegui colocar todas as idéias no lugar ainda, isso vem com aos poucos. Mas tomei uma decisão e é o que importa. Decidi me dar o direito de ser um pouco egoísta, vou pensar mais em mim. A partir de amanhã volto pra academia, preciso produzir mais endorfina, movimentar meu corpo, voltar a fazer as coisas que eu gosto e que por algum tempo releguei a segundo plano, me dedicar aos meus estudos e ao meu trabalho, enfim, reaprender a viver como uma pessoa solteira e de bem com a vida! Não queria ver Hugh como um estranho, eu espero que ele entenda e que possamos sim ser amigos ao contrário do que ele me disse ontem.
- Você está certa amiga, e tem todo o meu apoio. Não tem sentido manter um namoro sem amor, sem paixão. Se vocês permanecessem juntos iam chegar ao ponto de se odiar e isso ia ser bem pior. E quanto a William Darcy?
- Não tenho nada a decidir sobre isso, Char, ontem eu admiti que ele mexe comigo sim, mas provavelmente são só as lembranças do passado que estão vindo à tona novamente.
- Mas, Lizzie, você tem certeza que é só isso?
- Char, eu vou ser sincera com você, mas é a última vez que tocamos nesse assunto certo?
- Tudo bem. – Elizabeth respirou fundo e falou, olhando fixo para um ponto qualquer a sua frente.
- Eu amo Will Darcy. – Charlotte sorriu satisfeita – Mas não esse William Darcy que nós reencontramos. – a amiga agora a olhava sem entender - Eu amo aquele garoto de anos atrás, aquele menino levado e ao mesmo tempo doce, que esteve ao meu lado nos melhores momentos da minha infância, que era meu companheiro nas brincadeiras, que literalmente me ajudava a levantar quando eu caía e que enxugava minhas lágrimas quando elas teimavam em correr. Amo o garoto que me ensinou a gostar e a jogar futebol e pior, me convenceu a torcer pelo Arsenal só por causa dele.
Charlotte sorriu.
- Eu amo o Will adolescente que me assustava com aquele tamanhão todo, que me olhava de longe como se só ele tivesse crescido e eu ainda fosse uma criança, que me fazia morrer de raiva, pois eu sabia que no mínimo 80% das meninas da escola dele viviam suspirando ao vê-lo, amo o cara que me salvou de morrer afogada em Pemberley, que me levou com ele no mesmo cavalo porque eu estava com o pé torcido... – ela parou, precisava respirar, mais ainda havia algo a ser dito. Lizzie abaixou a cabeça e a colocou entre as mãos e continuou.
- Amo o Will que foi meu amigo, meu irmão e meu primeiro amor... Eu amo o garoto que demorou a acordar e enxergar que eu cresci, mas que largou uma festa pra conversar comigo porque eu não podia andar por causa de um pé recém-engessado, amo o garoto que me deu o primeiro e o melhor beijo da minha vida.
Charlotte estava boquiaberta com as palavras da amiga, sabia que havia algo escondido ali, mas não imaginava nada tão intenso, Lizzie continuou.
- É aquele Will que eu amo, e odeio ao mesmo tempo.
- Odeia porque Lizzie?
- Porque aquele beijo me despertou sensações e sentimentos completamente opostos. Nossos corpos reagiram de uma maneira que eu desconhecia e logo depois ele foi embora pra outro país levando uma parte de mim e esqueceu-se da minha existência, nunca deu notícias, nunca se preocupou em saber se eu estava viva, como se eu não fosse nada, como se tudo aquilo não significasse nada pra ele.
- Mas agora ele voltou Lizzie, e pelo que eu vi aquele namoro dele não dura, ele parece não ter o mínimo sentimento por Caroline. Quem sabe ele percebe o erro e vocês têm uma chance de ficar juntos?
- Essa possibilidade não existe, Char. William Darcy hoje é quase um desconhecido pra mim, passamos muito tempo longe, não vou me iludir por lembranças, a vida segue independente disso.
- Eu te entendo, mas não se feche para o amor, não se torne uma pessoa amargurada, quem sabe William não faz você se apaixonar por ele de novo? Como ele é agora?
- Não sei se estou preparada para um relacionamento agora, tenho que primeiro me sentir bem sozinha, mas não se preocupa, não vou me tornar uma tia velha solteirona e amargurada, viu?
Elas sorriram e resolveram comer alguma coisa antes de voltarem pra casa. Charlotte foi com Lizzie até seu prédio e de lá seguiu para a estação a fim de pegar o metrô.
*
A semana passou com novidades e mudanças pra todos, Fanny Bennet exultou quando Jane contou do namoro com Bingley e do término do relacionamento de Lizzie, seus planos agora iriam se direcionar a outro casal. Anthony ficou feliz por Jane e aliviado por Lizzie, sabia que aquele namoro da filha mais nova não duraria muito mesmo. William estava cada dia mais por dentro dos negócios da família na Inglaterra, seu pai estava mesmo decidido a largar a presidência do grupo e deixar Will em seu lugar, para isso estavam trabalhando duro ultimamente e William não tinha mais tido notícias de Elizabeth agora que Charles voltara a Paris. Sentiu vontade de ligar para Lizzie várias vezes pra saber se ela estava bem depois daquela noite, mas sentia raiva por estar se preocupando com isso e acabava sem ligar, de forma que ele não tinha tomado conhecimento do fim do namoro. Georgianna agora passava horas no telefone, Wickham estava investindo todas as fichas na garota e insistia em vê-la o mais rápido possível, mas ela deixou claro que só poderia sair aos fins de semana, eram as regras do seu pai.
Charles e Jane também estavam gastando muito do seu tempo e de seu dinheiro também nas ligações interurbanas, geralmente se falavam a noite, com exceção dos dias que Charles tinha plantão.
Já Elizabeth passara a correr todos os dias bem cedo no parque próximo a sua casa, o mesmo que servira de cenário a conversa com Charlotte, depois tomava um banho rápido e ia para a Universidade, onde passava o restante da manhã. Depois de almoçar seguia para a escola e só saía à noite, indo direto pra academia onde voltou a freqüentar as aulas de dança. A rotina só mudava na quarta, porque ela passava à tarde no Instituto atendendo os idosos e ajudando no que fosse possível. Chegava em casa tão exausta que só tinha coragem para um banho e depois praticamente desmaiava na cama. Essa rotina impedia que ela pensasse muito e de certa forma facilitava um pouco.
*
Certa noite Georgianna aceitara sair com George e por coincidência acabaram indo a um pub muito famoso onde a banda de Hugh iria tocar. Hugh chegou perto de meia noite, pois a “Banda de garagem” seria a segunda a se apresentar, ele caminhava até o bar quando encontrou Georgianna abraçada a Wickham e se sentiu um pouco incomodado com isso. Já tinha visto aquele jovem em outros lugares e de vez em quando ele estava envolvido em confusões e brigas, creditou seus sentimentos de desconforto à familiaridade entre a garota e sua ex-namorada e decidiu ficar de olho no casal a fim de protegê-la caso acontecesse algo, apesar de os últimos acontecimentos terem tornado o irmão dela a última pessoa que ele quisesse ver, conhecia a menina desde o início do namoro com Lizzie e simpatizara bastante com ela.
Foi até os dois e cumprimentou a garota que surpreendida com a situação inusitada não sabia como reagir. Wickham, consciente da beleza da garota, tomou a frente da situação com o intuito de proteger aquela relação que seria lucrativa para ele.
- Não vai me apresentar seu amigo, Georgie? – ele perguntou simpático, sabia disfarçar bem quando precisava.
- Cla-ro. – ela gaguejou um pouco.
- Esse é Hugh Felton, namorado de uma grande amiga, praticamente uma irmã.
- Ex-namorado. - Hugh corrigiu um pouco sem graça, deixando-a mais surpresa ainda.
- Desculpa, Hugh, eu não sabia.
- Sem problemas, loirinha, deixa pra lá.
Vendo que mais uma vez estava fora da conversa George falou:
- Eu sou George Wickham, namorado da Georgianna.
Hugh mal apertou-lhe a mão, não tinha nenhum prazer em conhecer aquele sujeito, mas nada poderia fazer quanto ao fato de Georgie estar namorando com ele, não era suficiente íntimo para alertá-la sobre algo. Mas ao pensar em uma maneira de se aproximar mais da garota e aprofundar uma amizade perguntou discretamente se ela conhecia determinada música, vendo que a garota afirmara conhecer e gostar da música viu que sua idéia poderia dar certo, despediu-se dos dois e rumou para o bar com a intenção de encontrar os colegas de trabalho.
Combinou com os amigos sobre o que desejava fazer e vendo que nenhum se opôs a idéia foram preparar os instrumentos já que a outra banda acabara de encerrar.
Naquela noite Hugh estava realmente inspirado e tocou divinamente bem, quando viu Georgianna e o namorado relativamente perto do palco fez sinal para os amigos e ao encerrarem aquela música ele foi à frente do palco com o microfone.
Agradeceu aos aplausos da platéia e disse que queria convidar alguém muito especial para comparecer ao palco e olhou para Georgianna, que não sabia o que viria a seguir.
- Georgianna Darcy, a Banda de Garagem tem a honra de convidá-la para nos prestigiar com a sua voz!
A garota por sua vez não sabia como reagir, todos os olhares se dirigiram a ela, e sua amigas que também estavam no pub fizeram muita algazarra insistindo que ela fosse até o palco. George não gostara muito da situação, mas disfarçou e também lhe deu força.
Ela caminhou envergonhada até a banda e Hugh tomou sua mão a ajudou a subir. Ela acenou para os outros músicos e recebeu o microfone sorrindo para Hugh e dizendo que ele era maluco. Ele confirmou que tocariam a música que ele perguntara se ela conhecia mais cedo e a tranqüilizou dizendo que ele e o Rupert, vocalista fariam o backing vocal e a substituiriam caso ela esquecesse algum trecho.
- Pronta? – ele perguntou achando graça da timidez dela.
- Na verdade não, mas eu tenho escolha? – ela sorriu.
- Agora não mais, confio em você, vamos lá! – ela gostou disso, o fato dele admirá-la e confiar nos dotes musicais dela era extremamente agradável. O baterista bateu as baquetas três vezes e a música começou.
No início Georgianna permaneceu tímida e atenta a letra e a melodia, tentando não esquecer nem errar na hora de acompanhar a banda, mas ao ver que o público estava gostando e que Hugh movimentava a cabeça apoiando-a e confirmando que estava tudo “ok” ela foi se soltando mais, na metade da música já havia percorrido todo o espaço do palco e interagido com o público numa performance mais ousada.
Quando a música acabou ela foi bastante aplaudida e várias pessoas pediam bis, contagiando o restante da platéia, ela olhou surpresa pra Hugh que apenas disse:
- Você escolhe o que quer cantar que a gente toca.
Ela pensou rapidamente e falou o nome de uma música que gostava, Hugh confirmou que eles sabiam tocar e pediu que ela escolhesse logo outra para emendarem as duas. E assim foi feito, ela cantou mais duas músicas e Hugh adorou vê-la no palco, desde o fim de semana no campo ele havia percebido o talento dela e agora via que além de uma ótima voz ela possuía uma presença de palco muito boa, que poderia ser aperfeiçoada com o tempo.
Ele agradeceu com um abraço e disse que quando acabassem iria até ela para conversarem. Georgianna desceu e foi recebida com festa pela amigas e pelo namorado, embora a contra gosto, ele preferia que ela não estivesse tão exposta, afinal não queria que outras pessoas com a mesma intenção dele se aproximassem dela.
Como havia prometido Hugh procurou Georgianna após o show e agradeceu por ela estar sozinha com as amigas, George havia ido ao banheiro e eles puderam conversar por alguns minutos. Lydia, Kitty e Mary logo se afastaram deixando os dois sozinhos.
- Que tal a sensação de cantar num palco pra tanta gente? – ele perguntou sorrindo.
- No início pensei que eu fosse desmaiar de tanto nervosismo, mas depois relaxei um pouco. O que você achou? Fui muito ruim?
- Ruim? Se todos fossem ruins como você músico nenhum morria de fome! – os dois sorriram – Você foi divina! A platéia se empolgou com seu jeito meigo cantando esse tipo de música, você nasceu pra isso! Quando podemos assinar o contrato então?
- Contrato? Você fala sério? Acha realmente que eu poderia participar de uma banda?
- Não tenho nenhuma dúvida.
- Não sei se meu pai permitiria, adoro música, mas creio que ele quer que eu curse uma universidade, tudo muito certinho.
- Existe faculdade de música, muito boas por sinal.
- Talvez minha família não veja a música como uma profissão... – ela foi interrompida por uma mulher alta e bronzeada que se aproximou de Hugh:
- Hugh Felton? – ela perguntou olhando diretamente nos olhos dele.
- Exato.
- Sou Sulani, mas pode me chamar de Su, podemos conversar?
- Claro. – ele respondeu, mas antes de ir se aproximou de Georgianna e disse:
- Pense nisso. – ela sorriu e ele saiu com a desconhecida.
Ela o levou até a sala da administração do pub e o convidou a sentar.
- Não sabia que você trabalhava aqui. – ele comentou após se acomodar em um dos sofás. Reparara que ela era bastante exótica e não parecia ser inglesa, tinha um leve sotaque que ele não sabia precisar de onde seria.
- Não trabalho, apenas me dou bem com o proprietário e ele me cedeu essa sala por alguns minutos. Nossa conversa será rápida, a não ser que você deseje prolongá-la. – ela sorriu sedutora e sem deixá-lo responder continuou – Eu trabalho com Lionel Lyon, acredito que você já ouviu falar dele.
Hugh acenou com a cabeça que sim, tratava-se de um importante empresário do ramo musical.
- Nós estamos com um projeto de lançamento de uma nova banda, e estamos buscando talentos desconhecidos do grande público. E você está entre os músicos que temos observado e que completam os critérios que procuramos, vim aqui hoje especialmente para convidá-lo a conhecer nosso projeto e quem sabe participar desse lançamento.
- Eu estou lisonjeado, mas preciso de um tempo para analisar sua proposta.
- Você terá esse tempo, fique com o meu cartão, tem todos os meus contatos, inclusive meu telefone pessoal. – ela usou o mesmo olhar de anteriormente - Entrarei em contato em breve e espero receber uma resposta positiva. – ela dizia enquanto se afastava rumo a porta.
- Espere, vou te passar meu número. – ele disse ansioso.
- Não precisa – ela respondeu sem olhar pra trás - sei tudo sobre você.
Ela deu as costas novamente e saiu. Naquela noite eles não se encontraram mais, no entanto além da proposta aquela mulher deixara Hugh intrigado, seu jeito direto e decido chamou sua atenção, e ele foi pra casa pensando que tinha outros motivos para querer que ela entrasse em contato novamente.
Durante a semana Hugh pensou bastante sobre a proposta, afinal estava há bastante tempo com esse grupo, mas um contrato com uma banda nova, porém empresariada por um homem como Lyon era uma oportunidade única. Resolveu pelo menos conversar com o empresário e torcia para que a misteriosa mulher voltasse a entrar em contato.
Alguns dias depois seus desejos foram atendidos e Su ligara marcando um encontro naquela mesma noite. Ele chegou ao local marcado e a encontrou numa mesa, ela estava com uma calça jeans e uma bata branca solta e trazia um casaco no colo. Sulani era uma mulher madura e decidida, nascida em Recife, no Nordeste Brasileiro. Largara seu emprego público para viajar o mundo e conhecera o famoso cantor Luís Miguel em uma dessas viagens, ele rapidamente se encantou por ela e iniciaram um romance, através dele conheceu Lionel Lyon que estava precisando de uma assessora e viu nela a pessoa ideal, madura, extrovertida e persuasiva, exatamente como ele precisava.
De início ela ficou em dúvida com a proposta, afinal vivia em um sonho com Luís Miguel, mas sabia que aquilo não duraria para sempre, ele estava rodeado por mulheres interessantes e ela precisava realmente voltar a trabalhar, essa era uma oportunidade ideal, viajaria bastante e conheceria muita gente. Aceitou a proposta de Lyon e rumou com ele para Londres onde ele residia. O romance com Miguel durou pouco depois disso, afinal agora os dois tinham uma carreira internacional e agendas lotadas e mal tinham tempo de se encontrar.
Esse foi um dos assuntos que conversaram, com alguns detalhes omitidos é claro. Sulani contou a Hugh apenas que era brasileira e que conhecera Lyon em uma viagem. Em relação ao contrato ela apresentou maiores detalhes a ele, indagou se ele também estava disposto a cantar caso houvesse necessidade, discutiram alguns valores, o que agradou imensamente a Hugh, e outros detalhes do projeto.
Dessa forma ficou acertado um encontro entre Hugh e Lyon, mas os dois ficaram conversando e se divertindo o restante da noite.
*
O fim de semana chegara e Elizabeth decidiu se refugiar na casa dos pais, não queria ficar sozinha no apartamento nem tinha vontade de sair pra algum evento noturno. Arrumou uma mochila com roupas suficientes para os dois dias e saiu apressada a fim de chegar a tempo do almoço. Passou o fim de semana em companhia da família e se sentiu bem melhor, ninguém tocou no nome de Hugh e ela ficou aliviada. Jane insistia que as duas fossem a Paris no fim de semana seguinte e ela resolveu aceitar, precisava mesmo de novos ares. No momento que sua mãe foi avisada da viagem arrumou uma desculpa qualquer e ligou para Fitzwilliam, deixando escapar da viagem das filhas e do fim do namoro de Lizzie. Este não perdeu tempo e arrumou alguns afazeres relacionados à empresa e pediu que o filho fosse a Paris resolver, de forma que ele aproveitaria para rever sua tia. Contava que Charles o mantivesse lá até o fim de semana.
*
Georgianna chegou em casa com uma dúvida no pensamento, finalmente saíra com Wickham e ele tinha se mostrado uma pessoa maravilhosa, os dois ficaram juntos e ela tinha gostado bastante, embora não sentisse nada muito forte ele era uma companhia agradável. Mas George dissera a Hugh que era seu namorado e no final da festa a pedira em namoro e ela não sabia o que dizer, pedira um tempo para pensar e ele aceitara. Marcaram de sair no fim de semana seguinte. Mas outra dúvida martelava em sua cabeça, desde cedo gostava e estudava música, a experiência de cantar em público havia feito muito bem a ela, e a idéia de cursar uma faculdade de música voltou a sua cabeça, mas temia a reação de seu pai e seu irmão, falaria com Michelle assim que tivesse uma oportunidade, talvez isso ajudasse um pouco.
*
Na quarta-feira pela manhã William desembarcou em Paris e foi direto para a empresa da família. Ficou aguardando em sua antiga sala enquanto sua tia terminava uma reunião importante. Pegou o jornal que a secretária deixara lá para ele e começou a folhear. Depois de dar uma olhada nas principais notícias e nas páginas de economia encostou o jornal na mesa, mas uma foto lhe chamou atenção.
A página exposta era justamente a das colunas sociais, uma ruiva sorridente de braços dados com um homem lhe fizeram rir.
- Caroline você não tem idéia de como está facilitando a minha vida! – sussurrou sem acreditar no que via.
A porta da sala principal se abriu e sua tia entrou demonstrando intensa satisfação em tê-lo ali novamente.
Depois dos cumprimentos ele perguntou se poderiam discutir o assunto que o levara até lá, ela preferiu que deixassem os negócios para a tarde. Ficaram conversando até o momento que Collins também chegou e foram almoçar na casa do casal.
À tarde voltaram para a empresa e discutiram os detalhes de um projeto que foi implantado na sede inglesa e que Catherine queria levar para a filial francesa. Antes de voltar para a casa da tia William resolveu ligar para Charles, talvez conseguisse ver o amigo ainda naquela noite e pudesse voltar pra casa no outro dia.
- E aí, Will?!
- Tem tempo pra um amigo hoje?
- Você está em Paris?
- Por pouco tempo eu espero. E aí? Tem uns minutos ou não?
-Na verdade estou meio sem tempo, estou tirando todos os plantões possíveis pra ter o fim de semana livre porque a Jane vem pra cá. Mas passa aqui no hospital que a gente toma pelo menos um café.
- Ok, chego aí em 20 minutos.
William chegou ao hospital e se dirigiu a lanchonete, ligou para o amigo e em pouco tempo um sorridente Bingley apareceu com suas roupas brancas e o estetoscópio pendurado no pescoço.
Depois de se abraçarem sentaram numa mesa e pediram café para os dois.
- Então, o que te trouxe aqui de novo? Não vai dizer que foi a minha irmãzinha porque se ela soubesse que você estava aqui teria deixado escapar.
- Na verdade vim por causa da empresa, Caroline ainda não sabe que eu estou aqui, e prefiro mesmo que ela não saiba por enquanto.
- Se depender de mim ela não vai ficar sabendo.
- Então a Jane vem passar o fim de semana com você?
- Isso. – ele sorria bobo – ela e a Elizabeth.
William não conseguiu disfarçar a felicidade. No mesmo momento decidiu que ficaria até o fim de semana.
- Você vai embora quando? – Bingley indagou.
- Ainda não sei. – ele mentiu.
- Você deveria ficar até domingo também. Assim sairia com a gente e Elizabeth não se sentiria tão deslocada, que tal?
- Pode ser.
Darcy sorveu um longo gole do café e começou outro assunto que precisava conversar com Charles.
- Charles, eu acho que vou terminar com a Caroline, e entendo que como meu amigo você deveria saber, quero logo explicar meus motivos e pedir para que você tente entender, eu sei que ela é sua irmã e isso torna as coisas um pouco mais difíceis, então...
Charles interrompeu o amigo com uma exclamação que mais o assustou do que aliviou, mas as palavras que se seguiram o deixaram mais tranqüilo.
- Pensei que você nunca fosse fazer isso cara!
- Então você não acha ruim?
- Lógico que não, esse namoro não tinha um pingo de lógica, você não sente nada por ela e nem ela por você. – Will fez uma cara de quem não estava entendendo muita coisa – Caroline não gosta de você William, nunca gostou, ela gosta do status que ela tem ao estar ao seu lado, de exibi-lo como uma conquista dela, afinal qual mulher não gostaria de ser a namorada de um dos solteiros mais cobiçados da Inglaterra? Se ela gostasse de você ela estaria pelos cantos sofrendo ou teria se mudado de mala e cuia pra sua casa, mas não, ela está cada dia numa festa diferente, curtindo a vida como se nada tivesse acontecido. Aliás, aproveite esse fato na hora de terminar com ela, faça com que ela se sinta culpada pelo fim.
- Charles, isso é coisa de cafajeste! – William falou um pouco exaltado.
- Vai por mim cara, se você der um fora nela ela vai ficar tão maluca que não vai mais te deixar em paz, mas se você der uma de coitadinho ela vai adorar se ver livre de você, pode confiar.
- Ela vai estar em casa amanhã pela manhã?
- Provavelmente vai estar dormindo, afinal essa hora ela está em alguma festa por aí.
- Então passo lá de manhã.
- Ok, você quer ir buscar as meninas comigo no aeroporto sexta?
- Não, prefiro que a gente se encontre sábado, e não comente com elas que eu estou aqui, prefiro fazer uma surpresa.
- Claro, a gente combina os detalhes depois.
Os dois pagaram a conta e se despediram, William foi pra casa e Charles voltou ao consultório.
No dia seguinte pela manhã William chegou à casa dos Bingley, foi informado de que Caroline ainda estava dormindo, mas ele não quis que a acordassem. Ficou na sala de estar esperando por ela que só apareceu perto do meio dia, ainda de camisola e olheiras profundas deixando visível que ela estava de ressaca. Ela estava indo em direção a cozinha para comer alguma coisa murmurando sozinha que estava com muita dor de cabeça quando escutou a voz de William e se assustou.
- A noite foi boa Caroline?
- Que noite? Do que você está falando? – ela respondeu sem graça. – Desde quando você está aqui? Como você ousa chegar aqui assim? Olha o estado que eu estou William!
Ela estava visivelmente desconcertada com aquela visita. Ele com certeza percebeu o estado que ela se encontrava pois a cada segundo ela entendia que estava em grandes apuros.
- A resposta da primeira pergunta é a noite de ontem. Eu sei onde você estava e com quem. E eu estou aqui desde quarta, vim resolver uns assuntos da empresa. E eu ouso chegar assim porque até onde eu sei eu ainda sou seu namorado, ou estou errado?
- William, eu estava com meus amigos numa festa, apenas isso, fico feliz que você esteja aqui, mas você deveria ter ligado antes.
- Pra que? Pra você ficar em casa e fingir que não sai todos os dias? Não tem necessidade, está tudo bem. Eu só vim te liberar da culpa, não se preocupe mais com o que eu vou pensar. A partir de hoje você e eu não temos mais nada. – ele fingia raiva quando na verdade sentia vontade de rir com o rosto assustado dela.
Ela não estava acreditando naquilo, como ele ousava dispensá-la.
- Você não pode fazer isso William, eu não permito que você faça isso comigo.
Ele viu que Caroline não ia aceitar aquele fim e resolveu apelar para meios, digamos que mais baixos, baixou a cabeça como se estivesse triste e falou baixinho.
- Se eu não sou o suficiente pra você nada mais justo do que te deixar livre. Já vi que nunca te farei feliz, nunca serei o homem que você merece. Não vim implorar pra que você fique comigo porque sei que não adiantaria, já me resignei Caroline, não se preocupe, eu vou tentar não sofrer, mas não posso te garantir. Não quero mais fazer você perder seu tempo. Já estou de saída, meu vôo sai daqui à uma hora. Adeus.
Ele ainda conseguiu ver o olhar estupefato da mulher na frente dele, vendo que ela continuava calada se dirigiu a saída da casa.
Caroline ficou tão assustada com a atitude de William que não conseguiu exibir nenhuma reação. Aquele não era o William Darcy que ela conhecera. Onde estava aquele homem insensível de antes? Ele praticamente se humilhara por ela, demonstrara saber que ela estava curtindo a vida como se estivesse realmente solteira, e parecia ter terminado contra sua vontade. Ela não tinha nenhuma intenção de terminar a relação, afinal por mais que vivesse bem Darcy era um homem muito bonito e desejado, e adorava exibi-lo nos eventos, além disso, sua família tinha muitas posses, o que lhe garantiria uma vida luxuosa caso o relacionamento viesse a se tornar mais sério. Mas depois daquilo todo interesse dela se perdeu, ela não suportava homens fracos, se ele agora se resumisse a isso já ia tarde, era bonita e interessante, não faltariam homens a seus pés agora que praticamente dispensara William.
Ela voltou a se dirigir a cozinha enquanto pensava no remédio que deveria tomar pra se sentir melhor dos sintomas da bebedeira da noite anterior, até que surgiu uma idéia em sua mente, iria aproveitar-se da situação, pegou o telefone e ligou para Jacques um colunista muito amigo seu.
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Na sexta à noite Elizabeth e Jane pegaram o vôo das 23 horas para Paris. Charles as aguardava no aeroporto para levá-las até o hotel, já que Jane e Elizabeth insistiram que não queriam dar trabalho para a família dele e se sentiriam mais a vontade num hotel. Pensando que o casal merecia um pouco de privacidade Lizzie fez questão de cada uma ficar em um quarto sozinha e reservaram duas suítes que ficavam lado a lado.
Charles e Jane mataram um pouco a saudade, e ele contou que William também estava em Paris.
- Ele veio ver Caroline? – ela perguntou curiosa.
- Não, ele veio por outra pessoa.
- Quem?
- Alguém que está mais próximo do que você imagina! – disse isso e apontou para a suíte ao lado.
- Lizzie? - Jane estava espantada e levou a mão até a boca - Como assim?
- Ele nunca veio ver Caroline depois que foi embora, estava aqui para resolver uns problemas na empresa e iria voltar logo, mas foi só eu comentar que vocês passariam o fim de semana aqui e ele decidiu ficar.
- E a sua irmã?
- Eles terminaram. Escuta não comenta nada com a Lizzie certo? Amanhã ele vai nos encontrar e você finge que não sabe de nada.
- Tudo bem, agora quero muitos beijos pra guardar esse segredo.
- Não precisa pedir duas vezes.
O casal continuou matando as saudades e Charles só foi pra casa bem mais tarde.
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