Citações

O melhor e o mais sábio dos homens, e mesmo a mais sábia e a melhor das ações pode ser ridicularizada por quem faz da ironia o seu único fim na vida. (Jane Austen)

Outra Vez - Capítulo IX

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A noite estava fria, a Lua tentava emitir seu brilho apesar das nuvens teimosas que de vez enquanto encobriam parte do satélite, poucas estrelas podiam ser vistas no céu naquele momento. Todos e se acomodaram ao redor da fogueira, o vinho foi servido e a Sra. Paige levou alguns petiscos para os jovens beliscarem durante o luau.

Lizzie entregou o violão para Georgie, que apesar de ser a mais nova do grupo era a mais experiente no lado musical, depois de Hugh. A garota recebeu o instrumento e perguntou se alguém queria escolher a primeira música.

- Você escolhe – disse Jane.

 

- Ok, hum, vamos ver... – ela dedilhava as cordas do violão indecisa, depois se lembrou de uma música que ela gostava muito e começou a tocar.

 


Os primeiros acordes da canção foram acompanhados com atenção pelo grupo, Georgianna tocava extremamente bem e tinha uma voz doce e afinada. A primeira música que ela escolheu foi “If You Leave Me Now” do grupo norte americano CHICAGO que esteve em seu auge no ano de 1976.


Todos aplaudiram quando ela terminou a canção. Ela agradeceu e disse:


- Lembrei de uma que parece com essa noite!

Enquanto Georgianna tocava Hugh percebeu que a voz dela era muito mais linda do que Lizzie comentava. “Essa menina deveria ser profissional”.

A música terminou e Georgie foi aplaudida mais uma vez e passou o violão pra Lizzie.

- Vou tomar um pouco de vinho pra molhar a garganta, continua aí Lizzie.

- Só um pouquinho Georgianna. – William falou sério pra ela, e todos riram achando graça da preocupação do irmão.

- Ok Will, só um pouquinho.

- Alguém se candidata? – todos permaneceram em silêncio - Hugh?

Ele se limitou a balançar a cabeça negando.

Ela resignou-se que teria mesmo que tocar e começou a cantar a música You’re Still the One da cantora canadense Shania Twain. No refrão Jane, Charlotte e Georgianna acompanhavam, todos pareciam estar se divertindo muito, mas durante essa música William fixou completamente os olhos em Lizzie, milhares de coisas passavam pela cabeça dele naquele momento.

Ele só conseguia pensar nela, vendo-a correr pelos campos daquele mesmo lugar, ou no quintal da casa dela, as longas tranças balançando no vento, ela dançando balé ou jogando bola, ela cantando com Jane pra Georgie dormir, ela na biblioteca lendo os livros de adulto escondido do pai, ela na cachoeira de Pemberley, ou abraçada a ele na sombra de uma árvore, e aquele único beijo que trocaram. 

Sempre tentou se convencer que a Elizabeth que encontraria quando voltasse a Londres não mais o afetaria, todavia ao se deparar com uma mulher mais bonita do que seus mais impossíveis sonhos imaginaram, precisou de muito esforço pra esquecer tudo que passou e tomá-las nos braços novamente, não mais como dois adolescentes inexperientes, mas como um homem e uma mulher movidos pela paixão. 

Se esforçou o máximo possível para não olhar pra ela, mas era uma tarefa impossível. O corpo dela quase todo a mostra num biquíni pela manhã era de tirar o fôlego de qualquer homem em sã consciência. E não era só de biquíni que ela ficava linda, ali, toda coberta, de calça jeans, bota e blusa manga longa ela era o sinônimo da perfeição. Sua face levemente rosada pelo sol que pegara mais cedo parecia iluminada.

Mas não era ele que estava do lado dela agora, não era ele que acordava do lado dela, não era ele que sentia o cheiro dela, que tocava seu corpo e sentia o gosto daqueles lábios rosados. E sim aquele cara que aparentava não ter onde cair morto, que se vestia de forma displicente e parecia não se importar muito com nada nem ninguém, que não tinha uma conversa surpreendentemente interessante e que provavelmente não conhecia sequer metade dos lugares por onde William Darcy já havia passado. O que ele tinha demais pra estar com Elizabeth há tanto tempo? 

“O que ele tem que não tenho?”. “Seu estúpido. Por acaso passou pela sua cabeça que essa música seria pra você? Ela nunca quis nada com você, nem hoje nem nunca. Eu já deveria ter deixado essas besteiras pra lá. Pare de pensar assim e foque nos objetivos.”

Ela terminou de tocar e também foi aplaudida, agradeceu e passou o violão pra Hugh.

- Só uma? – perguntou Charles.

- Só? Uma já foi muita tortura pra vocês. – ela respondeu sorrindo.

- Você canta muito bem.

- Bondade sua Charles, deixem os elogios pra Georgianna, ela sim canta muito bem!

Depois que Lizzie terminou Hugh abraçou a namorada e deu um beijo em seu pescoço, ela apenas virou pra ele e deu um sorriso fraco que não passou despercebido por William.              

Parecia que o relacionamento deles não ia muito bem. Mais cedo Charles comentou que passou pelos dois e sem querer escutou-os discutindo. 

“Se há uma brecha nesse namoro dela eu vou me aproveitar disso. Já sei que eu mexo com ela, percebi o jeito que ela me olhou no meu quarto, vou fazer com ela passe por tudo que eu passei, ela vai implorar pelo meu amor e dessa vez sou eu que não vou querer nada com ela.” 

Georgianna notou o jeito distante do irmão e foi até ele puxar conversa.

Hugh dedilhando algumas notas no violão quando todos viraram para Caroline assustados com o grito que ela deu.

- O que houve Caroline?

- Um mosquito me picou – disse zangada – é por isso que odeio mato, vou subir, boa Noite. – levantou-se de uma vez e saiu sem esperar que alguém respondesse.

- Em que planeta ela vive? – Charlotte zombou, fazendo todos, inclusive William sorrirem um pouco. 

Hugh retomou a música e o luau recomeçou. Ele não estava disposto a cantar e convidou Georgianna para acompanhá-lo enquanto ele tocava, ela não sabia se aceitava, “Porque ele não chamou a Lizzie” - ela pensava, olhou para a amiga que estava deitada no colchonete olhando para o céu, parecia completamente alheia e despreocupada com aquele convite, então ela aceitou completamente envergonhada, todavia aos poucos foi ficando mais tranqüila.

Várias músicas foram tocadas e até Lizzie arriscou mais algumas canções. Foi ficando tarde e todos foram se recolhendo, Lizzie e Jane organizaram as coisas e depois a mais velha subiu. Lizzie sentou no sofá da sala de estar e ficou de olhos fechados por alguns minutos, até que foi retirada do seu momento de relaxamento por uma voz masculina. 

- Cansada?

- Um pouco. E você?

Ele chegou perto dela, sentou-se próximo a seus pés e começou a descalçar suas botas.

- Muito.

- Que pena, apesar do cansaço eu estava completamente disposta a passar a noite acordada com você... – ela falava num tom altamente preenchido de segundas intenções.

- Comigo? Sinto muito, mas só tenho intenções de dormir.

- É?

- É.

- Nada faria você ficar acordado?

- Nada.

- Ok... – ela nem se surpreendeu, já esperava por essa reação dele, ultimamente tinha sido assim, seu namorado estava cada vez mais distante, fizera aquela última tentativa, já estava desconfiando que ele poderia estar com outra pessoa. Ia aproveitar que estavam a sós e tentar abordar esse assunto.

- A gente pode conversar?

Ele mudou completamente.

“Lá vem ela de novo com as conversas dela, eu não vou brigar, não adianta”.

- Elizabeth, são duas da manhã, vamos deixar pra brigar outro dia, ta?

- Eu não quero brigar Hugh, quero conversar, a gente precisa disso.

- Por que a gente precisa disso? Eu não vejo necessidade.

- Você não ver não significa que a necessidade não exista.

- Lizzie eu não vou discutir, estou indo dormir. Boa noite.

Ele deu as costas e subiu as escadas saindo do seu campo de visão, ela esperou mais um pouco e sem alternativas subiu para seu quarto também.

Resolveu tomar um banho antes de dormir, entrou debaixo do chuveiro e deixou a água quente escorrer no seu corpo enquanto e se permitia pensar em algo que martelava em sua cabeça desde o momento que terminou de cantar a primeira música. Notou que enquanto ela cantava Darcy olhava quase exclusivamente pra ela, e pouco depois que ela terminou, ele praticamente fingiu que ela não mais existia, deixando de olhá-la como tinha feito anteriormente. O que ele queria com aquilo? Ela não tinha a mínima idéia. Desde que ele chegara só conseguia incomodá-la, mesmo sem dizer nada. Só sua presença já a aborrecia. Depois do banho vestiu uma calça de algodão cintura baixa e uma camiseta regata que fazia conjunto com a calça e foi deitar. Ficou mais de meia hora tentando dormir e não conseguiu. Levantou-se e desceu decidida a procurar algo pra fazer que evitasse que ela ficasse pensando em William.

Entrou na biblioteca, ligou o som baixinho e ficou tentando ler deitada no tapete encostada nas almofadas. Cerca de dez minutos depois levantou assustada quando ouviu alguém falar com ela.

- Ainda acordada? – Darcy sussurrou.

- Você quer me matar se susto? – ela disse com a voz um pouco alterada.

- E você quer acordar a casa toda? Desculpe por ter te assustado, mas não precisa gritar.

- Eu não gritei.

- Quase.

- O que você faz aqui há essa hora?

- Vim beber água, não consigo dormir, e pelo visto você também.

- É, estou sem sono. O som está te atrapalhando?

- Não, só dá pra escutar daqui de baixo, ia passando e vi que tinha uma luz acesa e passei pra saber quem era o outro insone.

- Quer que eu pegue água pra você? – ela perguntou mais por educação do que por vontade de agradar.

- Não, mas aceito companhia.

- Ok. – ela fechou o livro e os dois seguiram para a cozinha.

Ele estava com uma calça escura e uma camiseta branca, ambos de algodão. A camiseta era fininha e era possível ver alguns contornos do corpo dele.

“Para já com isso Elizabeth Bennet.” – ela se recriminou quando se pegou olhando para o corpo definido dele.

Ela abriu a geladeira e colocou a garrafa de água em cima da mesa.

- Eu nem estava com fome, mas vendo esses sanduíches aqui vou aproveitar pra fazer um lanchinho. Aceita um?

- Traz também o suco. – ele disse rindo.

- O senhor está muito folgado Sr. Darcy. – ela colocou a mão na cintura e sorriu pra ele.

- Algumas coisas nunca mudam. – ele comentou pensativo.

- O que, por exemplo? – ela perguntou enquanto colocava os sanduíches e o suco na mesa e se virava pra pegar pratos e copos.

- Você sempre teve essa mania de colocar a mão na cintura exatamente como acabou de fazer. Parece uma mãe quando pega o filho fazendo alguma travessura.

Os dois sorriam e por alguns instantes parecia que tinham voltado a ser aquelas duas crianças de anos atrás, sem nada para separá-los.

- Quer que esquente o seu?

- Não, prefiro gelado assim.

- Eu também.

- Eu sei.

- Parece que o senhor não esqueceu as minhas manias.

- Algumas. Mas essa de me chamar de senhor é nova.

Ela ficou sem jeito diante daquela observação dele.

- Sou apenas três anos mais velho que você. E nos conhecemos a tempo suficiente pra que não exista tanta formalidade.

- Desculpa, é que passamos tanto tempo sem nos ver que nem sei como te chamar.

- Will, como sempre.

- Tem certeza?

- Por que não teria?

- Ok, se você prefere assim.

Os dois comeram e ficaram conversando durante um bom tempo, ali estavam duas crianças de anos atrás e não dois adultos cheio de mágoas e ressentimentos.

- Lizzie?

- Hum? – ela respondeu enquanto guardava o suco na geladeira.

- O que impede que nós dois voltemos a ser como antes?

Ela ficou em dúvida sobre o “antes” que ele estava falando. Antes de responder precisava se certificar. Virou-se e encarou-o.

- O que você quer dizer com isso?

Ele tinha que ir devagar, conquistar a confiança dela aos poucos, com o tempo Elizabeth Bennet estaria completamente a mercê dele.

- O que impede que sejamos amigos de novo?

- Não sei Will, o tempo talvez. Não somos mais as mesmas pessoas, não sei se daria certo.

- E se tentássemos? – ele sorria sedutor enquanto ela sentia que aquele sorriso dele era capaz de derrubar todas as barreiras entre os dois.

- É uma opção.

- Você está disposta então?

- Por que não? – por mais que sua razão quisesse se manter distante sua boca não a obedecia, ele parecia ser capaz de controlar até seus pensamentos. E como dizia o ditado, se não puder ir contra os inimigos junte-se a eles.

- Amigos então? – ele perguntou estendendo a mão.

- Você promete parar de implicar comigo?

- Prometo tentar. – ele sorriu, dessa vez com um olhar maroto, roubando um sorriso dela também.

- Amigos. – ela apertou a mão dele e sentiu uma onda de excitação percorrer seu corpo como se tivesse levado uma descarga elétrica.

“Isso não vai dar certo” – ela pensava enquanto ele sorria segurando a mão dela – “amigos não sentem isso ao se darem as mãos”.

Depois disso voltaram para sala.

- Vou desligar o som. – ela disse e ele a acompanhou.

Ela começou a cantar baixinho acompanhando a música que estava tocando enquanto se dirigia para o canto onde ficava o aparelho. Ele parou e ficou ouvindo.

- Que música é essa?

- É brasileira, o nome da cantora é Marisa Monte.

- Fala sobre o que?

Lizzie pensou um pouco e respondeu:

- Fala sobre uma mulher que perdeu o marido. – ela disse a primeira coisa que veio em sua cabeça.

Ele fingiu que acreditou e não disse mais nada.

- Acho que vou subir, parece que o sanduíche pesou no estômago e me deu um leve sono.

- Também já vou.

Os dois subiram as escadas e antes que Lizzie entrasse no quarto William falou num português carregado de sotaque deixando Lizzie estática.

- O Brasil é um país muito bonito e interessante. Boa noite Lizzie.

Sem deixar margens para perguntas ele entrou no quarto rapidamente e fechou a porta.

“Ele fala português e sem dúvidas entendeu a música e sabe que eu menti. Meu Deus, aonde eu fui amarrar meu bode?”

Ela entrou no quarto escovou os dentes e dessa vez conseguiu dormir. Só acordou às 10 horas e percebeu que estava sozinha no quarto. Foi até a varanda e viu que não fazia muito sol então nem colocaria o biquíni.

Tomou um banho e desceu pra tomar café, encontrou todos na mesa, com exceção dos mais velhos que provavelmente levantaram bem cedo e William, Charlotte e Hugh .

- Bom dia Bela Adormecida! – Jane falou.

- Bom dia minha irmã! Bom dia a todos!

Todos responderam de bom grado, entretanto Caroline soltou apenas um muxoxo.

- Onde estão os outros?

- Charlotte e Hugh saíram, foram até a cidadezinha aqui perto pra alugar uns filmes. – disse Jane.

- E William também não levantou. Acho que ele também foi picado pela mosquinha do sono! Só faltavam vocês dois acordarem! – Georgianna respondeu sorrindo.

- Mamãe e Michelle estão andando por aí, e papai e tio Fitz estão preparando um churrasco para o almoço. – Jane completou.

Lizzie não comentou a respeito da noite passada, era melhor não dizer nada por enquanto, não sabia o que poderiam pensar. Sentou-se na mesa e começou a servir-se enquanto conversavam sobre o que fariam naquele dia.

Decidiram assistir os filmes que Charlotte traria enquanto o Sr. Bennet disse que prepararia um churrasco para o almoço e por volta de três da tarde voltariam a Londres.

- Não poderíamos voltar logo depois do almoço? – perguntou Caroline.

- Ninguém almoça e pega a estrada Caroline, dá muito sono, nós almoçamos, descansamos um pouco e depois saímos. – Charles respondeu.

- Se não tem outro jeito, fazer o que.

Ninguém disse nada ante o comentário desagradável dela e voltaram a conversar.

Quando já iam levantar da mesa William apareceu.

- Bom dia! – ele disse, pela primeira vez verdadeiramente sorridente e simpático com todos.

- Nossa, e que dia! Se você acordou assim tão bem creio que só posso esperar coisas boas hoje meu irmão!

- Bom dia meu amor. Como passou a noite? Muita saudade de mim? – disse Caroline praticamente se jogando nos braços dele.

- Muito bem. – ele respondeu frio e sentou para tomar café.

- O que foi que houve William pra você acordar tão tarde? Só faltava você e a Lizzie, o que vocês beberam ontem de diferente da gente? – Charles indagou curioso.

Todos olharam pra William esperando uma resposta, ele por sua vez olhou para Lizzie que estava um pouco vermelha, então ele deduziu que ela não tinha comentado sobre a noite passada.

- Não bebemos nada demais, pelo menos eu acho. Só estava com sono mesmo.

Caroline percebeu que Lizzie pareceu aliviada com a resposta dele e ficou com uma pulga atrás da orelha. Estava acontecendo algo que ela não sabia, mas não tardaria a descobrir. Resolveu que hoje mosquito nenhum ia fazer com que ela saísse de perto do namorado, pelo visto essa tal de Elizabeth não era confiável.

William ficou tomando café acompanhado por Caroline e os demais foram pra varanda esperar os filmes. Ficaram conversando até que avistaram a moto de Hugh, em pouco tempo eles desceram com alguns filmes.

- Então, o que trouxeram? – Jane perguntou curiosa.

- Filmes para todos os gostos. Uma comédia, um suspense e um romance. – Charlotte respondeu.

- Detesto suspense – disse Caroline que vinha chegando com William e ouviu o que Charlotte disse.

- E aposto que não entende as piadas da comédia! – Georgianna cochichou para Lizzie e as duas ficaram se segurando pra não rir.

Eles entraram e foram se acomodar frente ao DVD.

Lizzie percebeu que Hugh ficara distante dela de propósito, mas nada fez. Esperaria até onde ele ia com aquela birra infantil.

Assistiram dois filmes e foram almoçar. O clima estava bem mais leve comparado com o dia anterior, até aquele momento Elizabeth ainda não havia se zangado com William, Caroline não tinha dado nenhum chilique e Hugh e Lizzie se não se tratavam com carinho pelo menos não se destratavam na frente das pessoas.

Mas o que só os mais atentos perceberam, no caso Hugh, Caroline, Fanny e Fitzwilliam foi que Elizabeth se referia a William por Will e este a chamava de Lizzie.

Conversaram mais um pouco após o almoço e perto de três seguiram para Londres.

A semana passou tranqüila para Lizzie, Hugh estava frio desde o fim de semana, nem em sua casa ele estivera, mas ela ia esperar que ele viesse conversar, já havia tentado várias vezes e sua paciência estava por um fio, se ele ainda quisesse algo com ela teria que procurá-la. Jane e Charles continuaram saindo a semana toda já que no sábado ele e Caroline iam voltar para Paris.

William começara a passar o dia todo na empresa com o pai, para ficar por dentro de todos os detalhes dos negócios. Michelle também trabalhava o dia todo e Georgianna passava a manhã na escola e a tarde nas aulas de música. Bingley não desgrudou mais de Jane, quando não estava com ela ficava pela livraria lendo algumas coisas enquanto ela estava muito ocupada. Por causa disso Caroline se sentia cada dia mais sozinha, passava boa parte do dia no shopping, mas já estava cansada daquilo, queria voltar pra casa, queria estar na sua cidade, e queria que William voltasse com ela.

Na quarta, Will chegou exausto com seu pai perto das nove da noite. Ela estava completamente emburrada e ele logo notou, mas não disse nada. Depois do jantar ele foi até ela para conversarem.

- O que houve Caroline? Cansada?

- De fato. Cansada de ficar trancada aqui o dia todo.

- Mas você não passa o dia na rua? Tem um motorista a sua disposição, e até onde eu sei onde você menos fica é em casa.

- Lógico Wiliam, eu ficaria com quem aqui, com as paredes? Você tem que me dar mais atenção.

- Caroline estive a semana passada inteira com você, mas agora eu preciso trabalhar, não posso ser sua babá.

- Eu não preciso de babá! – ela disse contrariada.

- É o que está parecendo.

- Em Paris só nos víamos nos fins de semana, mas você não trabalhava tanto lá. Aqui nem nos fins de semana você tem tempo pra mim.

- Porque lá eu era praticamente um empregado. Todas as decisões eram tomadas pela minha tia. Aqui não, eu estou sendo treinado pra gerir uma empresa e tomar as decisões. É uma responsabilidade bem maior, e você sabia disso quando veio.

- Eu sabia que você ia trabalhar e não fingir que eu não existo. Você vai continuar assim? Eu vou embora no sábado, preciso marcar uma hora na sua agenda com a sua secretária pra me despedir de você?

- Não exagere. A gente sai sexta à noite.

- Só?

- É o único jeito possível.

- Pois faça o impossível.

- Não dá.

- Não dá? Tudo bem então.

Ela virou as costas e foi para o quarto em que estava acomodada. Decidiu ir embora no primeiro vôo da manhã. Era melhor não dizer nada a ninguém, nem a Charles. Se não fosse Jane acreditava que ele não se oporia a antecipar a volta, mas como ele só tinha olhos para ela se soubesse quais seus planos contaria para Darcy e talvez ele a impedisse. Ligou para a empresa aérea e conseguiu antecipar sua passagem para quinta às nove horas.

“Um horário ótimo” – ela pensou – “Todos já terão saído e ninguém fará perguntas”.

Arrumou suas malas e partiu no dia seguinte.

À noite quando Michelle chegou com Georgianna foram informadas pelos empregados que Caroline tinha ido embora.

- Que moça estranha. Ela nem se despediu de ninguém. Será que aconteceu alguma coisa?

- Deixa pra lá Michelle, ela já foi tarde, nunca conheci ninguém mais insuportável.

- Melhor avisar a seu irmão e ao Charles.

- Eu ligo pra eles pode deixar.

- Vou tomar um banho e desço pra ficar com você enquanto esperamos que eles cheguem para o jantar.

Ela subiu e Georgianna ligou para seu irmão e contou o que ficara sabendo. Will disse que se encarregaria de falar com Charles, pois estava saindo da empresa e ia passar na Austen Books para pegá-lo e irem pra casa.

William conhecia a impulsividade de Caroline. Ela era muito mimada e queria viver cercada de atenção. “Melhor deixá-la respirar um pouco, no fim de semana eu ligo pra ela.”

- Era Georgianna no telefone filho? – Fitz perguntou quando o filho desligou o celular.

- Sim papai, ela ligou pra avisar que Caroline antecipou a passagem e foi embora.

- Vocês brigaram?

- Discutimos apenas, ela queria mais atenção e eu precisava trabalhar. Logo passa.

- Meu filho você gosta dessa mulher?

William estranhou a pergunta do pai, mas respondeu-o sem rodeios.

- Ela é uma boa companhia. Mas se o senhor quer saber se eu a amo a resposta é não.

- E por que está com ela?

Dessa vez ele permaneceu calado.

- Meu filho, venho observando vocês dois e vejo que vocês não dariam certo nunca, ela parece ser uma boa moça mas a personalidade dela é meio... – Fitz temia que suas palavras ofendessem ao filho, já estava quase desistindo, pois não encontrava a palavra certa William completou:

- Fútil, boba, e sem conteúdo. Eu sei pai, não quero passar a vida toda com ela.

- Então a deixe livre para encontrar alguém que queira. Não use as pessoas meu filho.

- Não estou usando pai.

- Existem vários modos de se usar uma pessoa, e esse é um deles. Me parece que ela é apenas um passatempo pra você, alguém que está ao seu lado apenas pra ocupar um espaço vazio, mas esse espaço já tem uma dona. E você sabe de quem eu estou falando.

William ficou nervoso e preferiu desconversar.

- Não tenho a mínima idéia de quem meu pai fala, mas em relação a Caroline prometo pensar sobre suas palavras.

Fitzwilliam já tinha chegado aonde queria, o resto viria por si só, o filho estava escondendo de si próprio o que sentia, mas tudo é apenas o que tem de ser. Um dia ele iria enxergar. Para finalizar emendou.

- De qualquer forma esse espaço não é de Caroline, deixe-o desocupado até a pessoa certa chegar.

Nesse momento chegaram à livraria e Darcy encostou para Charles entrar, ele e Jane estavam na calçada esperando-os.

- Vamos lá pra casa também Jane? – Fitzwilliam indagou para a sobrinha.

- Obrigada tio, mas meus pais estão me esperando em casa. Deixa para próxima, ok?

- Tudo bem, quando você quiser.

- Você está de carro? – Foi a vez de William perguntar.

- Sim, vou ficar aqui até um pouco mais tarde, pois tenho uns pedidos para organizar ainda hoje, dá um beijo na Michelle e na Georgie por mim!

- Tudo bem, até mais.

Eles se despediram de Jane e seguiram pra casa.

William ficou um pouco receoso de contar para o amigo a “novidade” sobre sua irmã, mas não via alternativa, iria direto ao assunto. Relatou brevemente o que acontecera, todavia Charles não se surpreendeu. Apenas disse que Caroline não sabia o que queria da vida e começou a falar de Jane.

- Vejo que você está apaixonado Bingley! E não podia escolher melhor, não é por ser praticamente minha sobrinha, mas Jane é a criatura mais doce que eu conheço, ela me lembra bastante a mãe de William. Além de ser encantadoramente linda!

Charles ficou vermelho, mas concordou.

- Acho que é isso Sr. Darcy, devo estar realmente apaixonado.

- O famoso Don Juan Charles Bingley, apaixonado? Estou impressionado! – William zombou. Mas logo seu pai continuou.

- Jane e Elizabeth são garotas maravilhosas, os homens que conseguirem conquistá-las serão verdadeiramente afortunados.

- Mas Elizabeth é o oposto de Jane papai. – William comentou.

- Concordo com você, mas ela não deixa de ser maravilhosa, elas se complementam, o que uma tem de calma a outra tem de agitada. Enquanto Jane é mais focada, Lizzie é impetuosa, ela está sempre à frente. O engraçado é que Georgianna tem um pouco das duas, ela lembra bastante a mãe e Jane na beleza angelical e na bondade, mas parece que aprendeu a ter a língua afiada com Lizzie.

- Percebe-se. – Darcy falou enquanto os três sorriam.

Ao chegarem em casa após serem recebidos por Michelle e Georgianna e foram jantar, comentando os assuntos do dia.

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