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Os Bennet chegaram a Netherfield por volta de oito horas. Foram recebidos pelo Sr. e Sra. Paige que tomavam conta da propriedade. Enquanto Anthony era levado pelo Sr. Paige para verificar a propriedade e os animais, Fanny dava instruções a sua esposa em relação ao almoço e aos quartos que deveriam ser preparados para as visitas.
Lizzie e Jane subiram para o quarto para acomodar seus pertences e aproveitaram para colocar o biquíni, vestindo as roupas que estavam novamente, deixariam para ir à piscina quando as visitas chegassem. Elas dividiam o mesmo quarto sempre que iam a Netherfield. A suíte era ampla e possuía duas bicamas, um guarda roupa, e uma varanda.
Pouco antes de nove os Darcy e os Bingley chegaram à residência de campo dos Bennet. Fanny recebeu todos com a espontaneidade de sempre, com exceção de Caroline a quem dirigiu um simples bom-dia. Ela por sua vez até se surpreendeu com a imponência da construção, não era tão bela como Pemberley, até porque tinham estilos diferentes, mas não poderia negar que a casa era bonita e bem decorada, embora um pouco simples a seu ver.
Jane e Lizzie desceram e foram cumprimentar os recém chegados que já se encontravam na sala de estar. Lizzie deu um bom dia de forma geral, pois se fosse falar individualmente com cada um teria que fazer o mesmo com William, o que não lhe agradava e se entreteve com seus tios e Georgianna. Jane fez o mesmo, mas logo foi até William, Caroline e Charles. Este só tinha olhos para ela, que estava com um vestidinho leve e uma sandália rasteira, ingênua, porém linda.
William evitava olhar para Elizabeth e tentava se concentrar na conversa que os três travavam ao seu lado, mas não obteve muito êxito, pois voltou o olhar algumas vezes em sua direção, mirando as pernas dela que o short curto deixava à mostra.
Fanny decidiu pôr o plano que elaborara durante a semana em prática e disse a suas filhas que acomodassem os convidados nos quartos enquanto ela verificava o andamento das coisas na cozinha.
- Michelle, o quarto de você e Fitz é o de sempre, vamos até a cozinha que os meninos levam as coisas de vocês. Compadre, Anthony e o Sr. Paige estão lhe aguardando está próximo ao lago.
- Jane, mostre a Will e Charles o quarto que eles vão ficar. E você Lizzie, leve Georgianna e a Srta. Bingley.
Satisfeita com a escolha da mãe de ter indicado Jane para levar os rapazes, Elizabeth seguiu com as duas mulheres.
O quarto dos rapazes era um dos primeiros do longo corredor, era bastante amplo e tinha duas beliches, um armário e um banheiro. Havia espaço para colocar mais dois colchões no chão caso todas as camas fossem ocupadas. Cada um escolheu uma cama, colocando as mochilas em cima. Jane avisou que iria para a piscina, se eles quisessem ir ela estaria lá esperando.
O quarto que Caroline e Georgianna ficariam era do mesmo modo, mas ficava no fim do corredor. Caroline mais uma vez não gostou de ficar separada de William e Georgianna de ficar perto de Caroline. A ruiva perscrutou o quarto atenciosamente, Elizabeth só observava a cara de nojo da outra. Ela se surpreendeu quando Caroline perguntou:
- Qual a temperatura da água do chuveiro?
Lizzie fez uma cara de quem estava ouvindo tudo como se Caroline falasse grego, irritando-a.
- Digo isso porque não suporto água fria, mas minha esteticista recomenda que a água esteja entre 30 e 35 graus para não ressecar a pele.
Georgianna e Lizzie seguraram o riso.
- Na verdade eu nunca me preocupei em medir a temperatura da água, mas se você fizer questão eu posso te arranjar um termômetro.
Ela virou o rosto e entrou no banheiro para fazer uma vistoria e Georgianna aproveitou para cochichar com Lizzie:
- Só tenho a opção de dividir o quarto com essa aí? - Lizzie riu.
- A Charlotte chega mais tarde, ela vai ficar aqui com vocês, mas se ela encher muito você foge pro meu quarto, tudo bem?
- Valeu Lizzie! - Ela deu um beijo no rosto da amiga enquanto Caroline voltava sem entender a razão daquela alegria repentina.
Depois de todos instalados desceram para a piscina, Lizzie pediu que a Sra. Paige preparasse um lanche e servisse, afinal ela ainda não conseguira tomar café.
Logo estavam na piscina, Lizzie adorava sentir o sol na sua pele, gostava da cor saudável que ficava nela depois de um fim de semana como aquele. E quando estava bastante quente nada mais gostoso do que um mergulho!!
Georgianna possuía uma beleza rara, de pele branca, e corpo magro e pouco curvilíneo. Apesar de ser sete anos mais nova que Lizzie era muito madura, não ficava por fora nas conversas do grupo.
Enquanto Jane e Charles conversavam na piscina Lizzie tomava sol e conversava com Georgie que estava próxima dela, debaixo do guarda sol. Ela tentava não pensar em William e nem lembrar de como se sentira ao acordar na cama dele. Não desejava tocar nesse assunto e preferia que ninguém mais soubesse, além de Georgianna e Jane.
William e Caroline estavam sentados na varanda, um pouco afastados e pareciam estar discutindo.
- William tem certeza que vamos passar o fim de semana aqui?! Não podemos ir embora amanhã de manhã? Ou hoje à noite? Não tem nada de interessante pra se fazer aqui.
- Deixa de besteira Caroline. É só um fim de semana, não vamos embora agora, o que vão pensar da gente se saíssemos logo após termos chegado?
- Não estou preocupada no que essa gente pensa ou deixa de pensar, já não basta ficarmos enfiados em Pemberley no fim-de-semana passado agora já voltamos para o mato de novo. Você sabe que detesto verde William, gosto de cidade, concreto, fumaça... Isso aqui não é para mim, não vejo graça.
William já estava cheio dos chiliques de Caroline e entregou seu celular pra ela zangado.
- Pega.
- Para que eu quero isso?
- Liga para o aeroporto e vê qual o próximo vôo para Paris.
- Nós vamos voltar?
- Não, Caroline, você vai voltar.
Ela fez uma cara de quem não entendia nada.
- Não agüento mais você reclamando de tudo e ofendendo as pessoas e lugares que eu gosto. Essa “gente” são meus amigos e minha família, e esse “mato” foi onde passei parte da minha vida, e agora que eu voltei quero matar a saudade de tudo isso que você tanto odeia, mas você não deixa. Desculpe te fazer perder tempo. Eu posso ir te deixar no aeroporto e depois volto pra cá.
- Eu não vou voltar sem você.
- Então arrume o que fazer aqui, pois eu não agüento mais isso.
Ele deu as costas e rumou pra piscina deixando uma Caroline boquiaberta atrás dele. Ela virou-se e entrou na casa, subiu para o quarto e resolveu ficar lá até que William fosse pedir desculpas a ela.
Georgianna percebeu a chegada do irmão sozinho e indagou:
- Onde Caroline está Will?
- No quarto, disse que ia descansar.
- Ah. Você vai mergulhar agora?
- Acho melhor não.
- Então sente aqui conosco. A Lizzie está me contando da orientação profissional que é feita com os alunos da escola que ela trabalha. Eu estou tão confusa quanto ao curso que quero fazer.
Elizabeth detestou aquela idéia, ainda se sentia constrangida na frente dele, mas não podia fazer muita coisa, permaneceria calada o maior tempo possível para não dar motivos para discussões, do contrário não responderia por si mesma. Ele sentou ao lado da irmã de uma forma que ficava de frente para Lizzie, que estava deitada na cadeira de praia.
- Então, Lizzie, continua. – pediu Georgianna.
- Ah, ok, hum, como eu estava dizendo todos os anos temos a feira das profissões, os alunos são divididos em equipes e cada grupo fica responsável por pesquisar uma profissão, no dia da feira eles levam material prático, se possível e apresentam. Além disso, são oferecidas palestras com profissionais das mais diversas áreas que falam um pouco do curso universitário e do seu trabalho.
Bebeu um gole de suco antes de continuar - Com os alunos que já estão mais perto de terminar a escola existem atividades mais específicas, como dinâmicas, dramatizações, testes. É bem interessante, a grande maioria gosta muito.
William que até aquele momento permanecia calado observando Elizabeth por trás de seus óculos escuros interferiu na conversa:
- Você é professora?
- Não. – ela apenas negou.
Percebendo que o irmão continuava sem entender e amiga parecia não ter a mínima intenção de explicar Georgianna respondeu por ela:
- Ela é a psicóloga da escola Will.
- Ah. – ele comentou monossilábico.
- Queria que na minha escola tivesse algo assim. Tenho medo de começar a cursar alguma coisa e me arrepender depois.
- Você pode freqüentar as palestras e a feira Georgie, basta me ligar que eu te levo.
- Jura? Ai, Lizzie, você é demais!
Ela sorriu com a espontaneidade da garota e decidiu sair um pouco dali já que o assunto com ela tinha acabado, queria sair de perto de William, desde que ele sentara perto delas Lizzie vinha se sentindo estranha, o que não era pra menos, uma vez que Darcy já tinha observado seu corpo dos pés a cabeça por trás de seus óculos escuros.
- Vou ver se o nosso lanche está pronto.
- Ok. – Georgianna respondeu e se dirigiu ao irmão quando Lizzie já estava um pouco afastada - Ela não é demais Will?
- Hum? – ele perguntou desviando os olhos do corpo de Lizzie.
- Lizzie, ela não é demais?!
- Realmente. – nem ele sabia do que estava falando, ainda estava com a cabeça naquela mulher maravilhosa deitada sob o sol. Ela era realmente linda, ele não tinha palavras pra exprimir sua surpresa. Antes de sair de Paris tinha torcido para encontrar uma Elizabeth feia, chata e burra, mas ela se revelara justamente o oposto.
Pouco tempo depois começaram a ouvir um ronco de motor e se viraram para a entrada da casa. Um casal acabara de chegar numa moto. Georgianna ficou tensa rapidamente e tentava não demonstrar seu desconforto.
Ela era apaixonada por um cara que nunca havia notado a sua presença. Numa festa em sua casa ela contratou a banda dele pra tocar, e lá descobriu que o jovem por quem ela nutria uma paixão era o namorado de Lizzie.
Sentiu-se extremamente decepcionada e culpada. Decepcionada porque ele demonstrava muito carinho no jeito que olhava para Elizabeth e culpada por não estar feliz com o namoro da amiga, que era praticamente sua irmã mais velha.
Georgianna gostou de Hugh desde a primeira vez que o viu, quando ele estava tocando numa boate que ela costumava freqüentar com as amigas. De cara ela ficou encantada com ele, que era moreno, um pouco mais escuro que seu irmão, tinha os cabelos pretos não muito curtos, num corte meio rebelde, aparentemente desleixado, mas nem por isso menos bonito, e seus olhos eram um mescla de castanho claro com um tom esverdeado, de modo que ela não podia precisar sua cor real. A princípio Georgianna acreditou que apenas o achara bonito, mas depois percebeu que ele ocupava seus pensamentos na maior parte do tempo. Quando descobriu sobre o namoro da amiga tentava de todas as maneiras esconder seus sentimentos, e até agora tinha tido sucesso.
Continuou a freqüentar com suas amigas os pubs, bares e boates onde Hugh costumava tocar, ela adorava o jeito como ele se empolgava com as músicas, seu sorriso quando o show terminava e eles agradeciam ao público. Ele falava rapidamente com ela e cumprimentava suas amigas, nunca imaginou que o motivo dela freqüentar estas festas seria ele, e ela também nunca deu motivos para que ele pensasse isso.
Quando soube que iriam passar esse fim-de-semana em Netherfield pensou em recusar, mas como não teria nenhuma desculpa plausível não teve alternativa. Mas imaginava que seria uma tortura vê-lo tão perto e ao mesmo tempo tão distante dela. Mas chegaram lá e Hugh não estava e Lizzie não comentou nada sobre ele, de modo que ela acreditou que ele não iria e ficou mais relaxada, exatamente o oposto do que estava sentindo agora. São coração acelerou e ela, ao contrário de William, evitava olhar na direção da casa.
Hugh estacionou a moto e desceu depois de Charlotte. Jane os viu e puxou Charles para irem recebê-los.
Jane cumprimentou os recém chegados e apresentou Charles a Hugh.
- Onde está a Liz, Jane? – Hugh perguntou depois de olhar para a área da piscina e constatar que estavam apenas Georgianna e um homem que ele não conhecia.
- Ela acabou de entrar, vai lá na cozinha pode ser que você a encontre.
- Prefiro esperar aqui, vai que eu encontro a mãe de vocês primeiro, não quero correr o risco de enfrentá-la sozinho!
Jane e Charlotte sorriram, elas sabiam que Fanny não fazia a mínima questão de tratar bem o namorado da filha. As duas amigas e Charles continuaram conversando e Hugh disse que ia esperar perto da piscina.
Hugh se aproximou e deu bom dia direcionado ao homem que ele não conhecia e a Georgianna, se aproximando e sorrindo para a garota.
- Oi loirinha! – deu um beijo na bochecha dela enquanto sentava na cadeira vaga do seu lado, deixando a garota completamente sem graça. – Como você está?
William detestou aquela intimidade do desconhecido com sua irmã. Quem era ele para chamá-la de loirinha?
- Você é? – William interrompeu o diálogo que ia se iniciar.
- Perdão, Hugh Felton, mas pode me chamar de Hugh. – ele disse estendendo a mão para William.
- O namorado de Charlotte eu suponho. – ele continuou, Georgianna queria um buraco pra enfiar a cabeça. A menina estava vermelha e completamente sem ação.
- Na verdade o nome da minha namorada é Elizabeth, só dei uma carona a Charlotte. – ele corrigiu achando graça sem saber direito quem era aquele cara e por que ele parecia tão sério.
Foi a vez de William Darcy procurar um buraco. “Namorado? Ela tem um namorado? E ele veio de moto? Que tipo de pessoa vem de moto de Londres até aqui?”. Depois de perceber o que estava pensando começou a se reprimir. “E daí que ela tem namorado? Deixe de besteira William Darcy e se recomponha.”
- Esse é meu irmão William Darcy, Hugh. Ele chegou de Paris há uma semana.
- E aí cara? – cumprimentou William de maneira mais relaxada e depois direcionou-se a Georgianna - Eu pensei que você era filha única, loirinha! Bem vou entrar e procurar a minha namorada! – ele sorriu e deu um tapinha amistoso no ombro de William, deixando-o mais irritado ainda. Sua irmã percebeu e aproveitou-se da situação.
- Que baita king kong hein Will?
Ele virou sua face irritada para a irmã que achou melhor guardar os comentários sarcásticos para outro momento.
Antes de Hugh chegar a casa, Lizzie o encontrou, ela estava voltando para a piscina, ajudando a senhora Paige com as bandejas. Sorria de um modo tão carinhoso para o namorado que William sem pensar levantou, virou as costas tirou as roupas rapidamente ficando apenas de calção de banho e pulou na piscina. Precisava esfriar a cabeça urgentemente. O “mico” comentado pela sua irmã não era nada perto do que ele sentia agora. Por que nunca ninguém comentara com ele que Elizabeth tinha um namorado? Se soubesse não teria feito aquele papel de bobo. Estava se sentindo incomodado, como uma criança que tem o doce roubado da boca. Que sentimento estranho de posse era aquele? Afinal ele não tinha nada com ela, e ele também tinha uma namorada. Ficou imaginando qual teria sido a reação dela ao se deparar com Caroline também.
O casal entrou em casa para que Hugh falasse com as outras pessoas e guardasse suas coisas no quarto dos rapazes. Por mais que ele tentasse ser a melhor pessoa do mundo com a Sra. Bennet a sogra sempre achava uma maneira de irritar o rapaz e ele já estava cansado disso e dessa vez não fez o mínimo esforço para parecer agradável.
- Bom dia. – ele falou de forma seca, sendo respondido da mesma forma.
- Eu não sabia que você viria, provavelmente Lizzie se esqueceu de me informar esse detalhe. – ela não ia perder a chance de provocá-lo.
- Talvez, mas agora que já estou aqui não faz mais diferença. – ele tentava não ficar por baixo.
- Bem, creio que não seja necessário eu dizê-lo para ficar a vontade.
- Imagine, não desperdice suas palavras comigo.
Elizabeth saiu do choque de ver Hugh enfrentando sua mãe tão deliberadamente e resolveu intervir antes que a situação piorasse. Saiu puxando o namorado pelo braço em direção ao quarto.
- O que deu em você pra falar com a mamãe daquele jeito?
- Você queria que eu passasse a vida toda tentando domar a megera? Sinto muito, mas não tenho vocação para beato.
- Hugh, não fala assim da mamãe. – Elizabeth não queria defender a mãe afinal ela exagerava mesmo, mas não gostava de vê-lo ofendendo-a.
- É ela que me provoca, mas eu não vim aqui para brigar por isso.
- Então guarda tuas coisas e vamos voltar para piscina antes que eu perca todo o sol.
Lizzie continuou a pegar sol enquanto Hugh sentou-se ao lado de Georgianna novamente. Ela preferia ficar na sombra porque sua pele era muito clara e ficava vermelha facilmente. Hugh também não gostava muito de sol e de piscina e aproveitou para conversar com a quase prima da namorada, de início ela praticamente só respondia as perguntas dele, mas depois foi relaxando e curtindo o papo. Perceberam que tinham muitas coisas em comum, gostavam de algumas bandas de rock, adoravam filmes de suspense e principalmente eram apaixonados por vídeo game. Hugh nunca tinha encontrado uma menina que gostasse tanto de games como ela. Passariam horas discutindo sobre isso se fosse possível.
Elizabeth que não entendia nada daqueles assuntos e já estava cansada do sol, entrou na piscina, se juntando a Jane, Charles e conseqüentemente William. Como Charles e Jane não se desgrudavam Lizzie se colocou no canto da piscina um pouco mais distante e William se aproximou dela já que os dois estavam sobrando e resolveu puxar papo e descobrir mais sobre aquele namoro, talvez isso atrapalhasse seus planos. Essa era a única desculpa que ele admitia.
- Parece que a Jane tirou o francês do sério, não é?
- An ram. – ela respondeu lacônica.
- Gostei das melhorias que o padrinho fez, Netherfield está muito mais bonito do que na última vez que estive aqui.
- Que bom que você gostou.
Lizzie estava completamente sem jeito, não tinha gostado daquela aproximação, tudo que ela menos queria era ficar perto dele, tinha medo do rebuliço que ele causava nela. Seu coração acelerava, suas pernas tremiam e ela não conseguia falar direito.
- Você e aquele cara namoram há muito tempo?
- Sim. E aquele cara tem nome.
Lizzie tentava de todas as maneiras que ele desistisse de falar com ela, mais quanto menos ela falava mais ele puxava assunto.
- Desculpe. Quanto meses de namoro?
- Um ano.
- Ah – ele se assustou com o tempo de namoro, devia ser mais sério do que ele imaginava - Porque você prefere ficar na piscina do que com ele?
Depois dessa pergunta Lizzie não se segurou mais. Levantou a cabeça e encarou-o.
- Você realmente está me perguntando isso? – Ele sorriu do jeito irritado dela, mais uma vez a tirava do sério!
- Qual é o problema dessa pergunta?
- Porque você não está com a sua namorada? Devia estar com ela ao invés de ficar me aborrecendo com perguntas bobas. Com quem eu estou ou deixo de estar não é da conta de ninguém.
- Opa, calma, foi só uma pergunta. Não precisa falar assim com seu ex-quase-noivo.
- Como assim? – Lizzie perguntou sem entender onde ele queria chegar com aquilo.
- Não era assim quando éramos crianças? Perdi a conta das vezes que você apanhava umas flores do jardim de sua casa, colocava um lençol cobrindo a cabeça mandava Georgianna fingir de dama de honra e a pobre Jane de sacerdote e me fazia esperar por você nos degraus da entrada para celebrarmos nosso casamento de mentirinha?? Vai dizer que não lembra disso Lizzie? – pela primeira vez ele a chamava pelo apelido, e pelo tom deixou bem claro pra ela que estava fazendo isso de propósito.
Ela corou imensamente ao vê-lo zombando dela dessa forma, talvez pela primeira vez na vida não soubesse o que responder. Respirava fundo tentando se recompor.
- Pelo visto você não esqueceu nossas brincadeiras de infância, mas você tem que lembrar que eram apenas brincadeiras, nós não estávamos cientes da gravidade de um compromisso desses naquela época.
- Não esqueci mesmo Lizzie, infelizmente você e nossas irmãs foram minhas únicas companhias durante algum tempo.
“Como ele podia? Como ousava ofendê-la daquele modo?” Ela tinha que reagir, felizmente lembrou de um pequeno detalhe que poderia ser usado contra ele, por mais que ela não quisesse tocar naquele ponto talvez ele a deixasse em paz depois.
- Era por isso que você corria atrás de mim depois do falso casamento querendo me beijar de verdade??
Foi a vez dele enrubescer. Mas sorriu ao relembrar a cena, e para não ficar por baixo respondeu.
- Possivelmente, talvez se o sortimento de meninas fosse maior eu não correria atrás de você!!
“Sortimento de meninas?? De onde ele tirava esses absurdos? E mulheres para ele eram mercadorias para serem sortidas??” – ela estava cada vez mais irritada.
- Ainda bem que esse tempo passou não é Sr. Darcy? E não deve precisar mais correr atrás de mim! Além disso me poupa o trabalho de ter que correr do senhor!
Disse isso e saiu da piscina com raiva, passando rapidamente onde estava Hugh e Georgianna sem responder ao namorado que a chamava, entrando direto em casa. Ninguém entendeu o que havia acontecido, só viram Lizzie sair rapidamente.
- O que deu nela? – Hugh indagou a Georgianna sem entender o que houve com a namorada.
- William deve ter feito alguma coisa pra aborrecê-la – disse olhando para o irmão e repreendendo-o com o olhar. - Vou falar com ela.
- Não Georgie, deixa que eu vou. – disse Jane, pegando um roupão e seguindo o caminho de casa.
Bateu de leve na porta e entrou, encontrou a irmã ainda de biquíni com um roupão por cima, sentada na rede da varanda do seu quarto.
- O que houve Lizzie?
- Nada Jane. – ela respondeu séria.
- Como nada? Você saiu feito uma bala da piscina e vem pro quarto com essa cara emburrada, vem, me conta o que está te deixando assim.
- Ah Jane, é o Darcy.
- O que o William te fez?
- Sei lá, tudo que ele fala me irrita, me incomoda. Só queria que ele fingisse que não me conhece.
- Liz, você sabe que isso é impossível. Vocês eram muito amigos, ele deve estar tentando se reaproximar de você, afinal vocês se gostavam muito.
- Gostavam Jane, passado. Não gostamos mais.
- Ele deve gostar de você ainda, tente aceitá-lo, eu nunca o vi fazendo ou dizendo nada demais, isso é só neura da sua cabeça.
- Eu não sei Jane, sinto que ele só quer me irritar mesmo. Já se passou muito tempo, não dá para retomar uma amizade assim, e nem sei se quero isso.
- Se não da para ser amiga dele tente ao menos tolerá-lo. Pelas nossas famílias, Lizzie.
- Ok. Vou tentar ser mais paciente. Quero curtir meu fim de semana em paz.
- Vamos descer então? – Jane sorriu e estendeu a mão para a irmã, que pegou em sua mão e desceram juntas.
Na piscina outras pessoas discutiam aquela mesma situação:
- Porque ele aborreceria Lizzie de propósito? – Hugh perguntou a Georgianna.
- É o jeito dele Hugh, não é nem aborrecer, ele gosta de brincar com as pessoas, pelo menos as pessoas que ele gosta.
- Eles se conhecem há muito tempo?
- Praticamente desde que nasceram, eles são muito amigos, ou pelo menos eram. Nossas famílias sempre foram muito unidas. Meu pai disse que a minha mãe era a melhor amiga da mãe da Lizzie.
- Estranho...
- O que é estranho?
- A Lizzie sempre fala de você, mas nunca citou o seu irmão. Pensei até que você fosse filha única.
- Eles ficaram meio distantes depois que ele foi pra França. Acho que é só isso.
Hugh achou aquela história esquisita, sabia que Lizzie tinha vários amigos homens, pois ela sempre falava deles e alguns ele até conhecia, mas Lizzie nunca falou nada sobre esse William Darcy. Mas preferiu deixar assim, ia observar melhor antes de comentar qualquer coisa.
William ficou espantado com a forma com que ela saiu da armadilha que ele havia iniciado. Estava no mesmo lugar, ainda de boca aberta quando pensou melhor no que ela disse, “Além disso me poupa o trabalho de ter que correr do senhor!”, “ela correria de mim?”.
Na piscina Charles se aproximou de William depois que Jane seguiu Elizabeth.
- O que você fez com a garota Darcy? A mesma coisa que fez com Caroline? – ele riu.
- Não fiz nada, Caroline subiu porque não estava gostando daqui, queria voltar e eu disse que só voltaria amanhã. E Elizabeth saiu porque é maluca... Não fiz nada demais.
- Caroline eu entendo, e é bom mesmo que fique lá em cima por muito tempo, melhor do que ficar aqui reclamando. Mas, Elizabeth? Não sei, creio que você tem culpa no cartório. Pra quem a achava intolerante e desagradável ficar puxando papo com ela é meio suspeito.
- Você queria que eu conversasse com quem? Já que você e a Jane não se largam!
- A história da brincadeira do casamento é verdade? Você corria mesmo atrás dela?
- Você estava ouvindo nossa conversa, Charles?
- Eu e Jane ouvimos uma parte apenas, as vozes de vocês se alteraram e deu para escutar. Acho que só Georgianna e Hugh não ouviram, pois estão mais distantes. Sim, mas é verdade ou não?
- É, mas era brincadeira Charles, nada de mais.
- Hum, sei.
Charles achou graça do amigo, mas logo o assunto acabou, pois avistaram as duas irmãs saindo da casa.
- Onde você foi, Lizzie? – Hugh perguntou.
- Beber água.
- E tinha que ser lá dentro? Tem água aqui no cooler.
- Ela aproveitou pra dar uma supervisionada no almoço Hugh. – Jane inventou essa desculpa para que a irmã não ficasse constrangida.
Lizzie deitou-se na cadeira e voltou a tomar sol próximo de onde Hugh e Georgianna conversavam, fazendo algum comentário com eles de vez em quando, estava mais preocupada em entender porque se sentia tão mexida perto de William Darcy.
A senhora Paige veio avisar que a Sra. Bennet pediu que eles fossem se trocar para o almoço. Lizzie e Hugh subiram na frente e ele começou a puxar conversa com a namorada, com humor não muito bom depois do ocorrido na piscina.
- Eu não sabia que a Georgianna tinha um irmão.
- Tem.
- Você nunca fala dele.
- Ele morava na França, não tenho o que falar.
- Mas vocês não são amigos?
- Não.
- Não?
- Não.
- Georgianna disse que vocês são amigos.
- Se a Georgianna te disse por que você está vindo me perguntar? – ela falou aborrecida.
- Para que essa agressividade toda? Só fiz uma pergunta.
- Não, você fez várias perguntas sobre uma pessoa que eu não suporto nem pensar quanto mais falar.
- Você não gosta dele?
- Não Hugh, eu o detesto, ele é a pessoa mais insuportável da face da Terra.
- Por quê?
- Por que o que Hugh?
- Por que você não gosta dele?
- Não sei, só não gosto. Já cansei dessa conversa, vou tomar meu banho.
Ele achou aquilo muito estranho, tinha alguma coisa escondida ali. Mas esperaria mais um pouco. Já estavam na porta do quarto e ele decidiu tentar melhorar o humor da namorada e puxou-a pela cintura, encostou-a na parede e beijou-a, ela não resistiu, contudo cortou o beijo pouco tempo depois dizendo que ia tomar banho.
- Fica um pouquinho comigo, depois você toma banho. – ele propôs.
- Não, Hugh, tenho que ser rápida, não podemos deixar nossos convidados esperando. Teremos tempo pra isso depois, ta? Deu um selinho no namorado rumou para o seu quarto.
Ele não aceitou a resposta dela e a seguiu.
- Lizzie, lembre-se que eles são seus convidados e não nossos, afinal a casa é da sua família e você sabe que por mim viríamos só nós dois.
Ela não gostou daquele tom que ele usou, como se ele achasse que fosse idéia dela convidar aquelas pessoas. Ele não tinha compreendido que havia mexido num vespeiro, afinal ela já estava de cabeça quente por causa de Darcy, só precisava de um empurrãzinho pra explodir. Ela entrou na sala de jogos enquanto ele a seguia, não queria que ninguém visse aquela cena desagradável.
- Se você prefere assim tudo bem, mas, por favor, não aja com essa má vontade com os meus convidados, não quero que eles pensem que não são bem vindos aqui.
- Não foi isso que eu disse Lizzie, e você entendeu muito bem. Só acho estranho o fato de eles parecerem ser mais importantes pra você do que eu. Desde que chegamos você mal me olhou, e ainda fugiu do meu beijo agora a pouco.
- Eu não fugi do seu beijo, só me apressei porque eu quero estar pronta logo, pois tem gente nos esperando lá embaixo. E se não te dei atenção foi porque estava aproveitando o sol, você sabe que eu gosto disso, que venho pra cá por isso, se você não gosta e prefere ficar na sombra eu não posso fazer nada. Você preferiria que eu ficasse parada olhando pra você? Por que você não nunca se esforça e entra um pouco na piscina? Por que eu tenho que deixar de fazer as coisas que eu gosto por você?
- Lizzie eu vou descer, depois nos falamos.
- Você vai fugir mais uma vez de uma discussão?
- Não estou fugindo, Lizzie, apenas não gosto de brigar.
- Nós não estamos brigando, estamos discutindo, é diferente.
- Para mim é a mesma coisa.
Ela respirou fundo e caminhou em direção a ele bem zangada.
- Espere um pouco, Hugh, vou te dizer qual é a diferença pra você. Enquanto você aponta os dedos para os meus defeitos tudo bem. Mas quando eu também aponto os seus você já acha que é briga e foge.
Ele esboçou um sorriso nervoso e replicou:
- Lá vem você e sua Psicologia querendo me analisar. Não é nada disso que você falou.
- Eu não estou te analisando pombas. Eu estou dizendo o que eu penso, sinto e vejo como sua namorada. Se eu não puder fazer isso me avisa que vou evitar até de abrir a boca pra dar bom dia, vai que eu falo e você acha que é briga. – ela falava enquanto virava as costas de novo e apoiava os braços na janela.
- Começou a ironia Elizabeth? Desisto de conversar com você.
- Quem desiste de conversar com você sou eu, vou tomar meu banho, pois já perdi tempo demais.
Ele detestava esse jeito dela de culpá-lo pelas falhas e dificuldades do relacionamento, assim como essa mania de querer conversar e resolver tudo, pra ele isso era brigar, ele preferia se afastar uns minutos e esquecer tudo aquilo que o tivessem magoado. Ele não queria perder Elizabeth, e achava que essa era a melhor maneira de não dar motivos para que ela terminasse com ele.
Ela por sua vez detestava essa mania que ele tinha de engolir tudo e fingir que não tinha acontecido nada. Ela precisava falar, precisava ouvir, discutiriam e brigariam sim se fosse preciso. Para ela esse era um momento necessário na relação, às vezes era preciso falar tudo o que estavam sentindo para que as coisas fossem esclarecidas e resolvidas, e isso faria com que as coisas melhorassem e evoluíssem, isso não seria necessariamente o fim, mas todas as vezes que ela tentava conversar sobre problemas ele evitava com medo de que fosse o fim da relação.
- Ele não sabe, mas o fato dele não querer brigar é que está matando aos poucos o nosso namoro. – pensou alto enquanto descia as escadas depois de ter se arrumado para o almoço.
- Falando sozinha Lizzie?!
- Oh, oi Charles!! Pensei alto apenas!
Darcy estava no banho e Charles estava indo até o quarto de Caroline avisá-la que o almoço logo seria servido quando escutou sem querer algumas vozes alteradas e o nome de Elizabeth sendo dito. Com medo de alguém perceber sua presença e imaginar que ele estava fazendo aquilo de propósito voltou para o quarto. Darcy havia acabado de sair do banheiro e ele foi tomar o seu banho.
- Sua irmã já desceu? – Lizzie perguntou.
- Já, ela desceu com William há pouco.
Os dois se encaminharam para a mesa que havia sido montada num anexo da casa ladeado por um lindo jardim, esse alpendre geralmente era utilizado quando muitas pessoas estavam na residência. Era coberto, mas ficava aberto nas laterais, tornando a refeição ao ar livre bastante agradável.
O farto almoço foi servido num clima relativamente aprazível, Hugh e Lizzie estavam visivelmente estranhos um com um outro, mas ela disfarçava melhor, afinal não queria que os convidados percebessem nada. Caroline por enquanto se mantinha calada, William prometeu que se ela se mantivesse quieta eles sairiam no domingo à noite quando estivessem em Londres novamente.
Conversavam algumas amenidades enquanto comiam até que William lembrou-se de elogiar o padrinho pela reforma da casa, como havia comentado antes com Elizabeth.
- Padrinho, essa reforma que o senhor fez aqui deu uma nova cara a Netherfield! Ficou muito bom.
- Que bom que apreciaste William, mas parabenize Elizabeth, é mérito dela. Não tenho muito paciência com obras, é muito complicado acompanhar tudo.
- Todos já sabem meu marido que você vive com a cabeça nos livros! – A Sra. Bennet afirmou fazendo com que a maioria sorrisse. – Lizzie planejou os detalhes, contratou os funcionários e ainda acompanhou as obras! Daria uma ótima arquiteta se tivesse feito essa opção!
William não fazia idéia que ela tivesse esse lado concreto também, ele comentara sobre a reforma antes e ela não dissera nada sobre ter sido a responsável. Charles aproveitou para perguntar que mudanças Lizzie tinha feito, afinal não conhecia a casa antes.
- Na verdade Charles eu sempre achei o espaço da casa mal aproveitado, e gosto daqui sempre assim com muita gente, então pensei em colocar mais um andar, deixando os quartos bem amplos e transformei os quartos do térreo em uma sala de estar espaçosa, e numa pequena biblioteca, já que tirando a mamãe todos da família apreciam uma boa leitura.
- Lizzie! Eu também leio, só não vivo com um livro na cara.
- Livro de receitas não vale!
- Oh Anthony! Não venha com invencionices!
Mais uma vez o divertido casal animou o almoço com suas brincadeiras. Lizzie continuou:
- Em cima ficaram os quartos e uma salinha de jogos. Esse alpendre foi construído depois, adoro refeições ao ar livre quando o tempo está agradável como hoje. Mas não fiz tudo sozinha, a decoração ficou a cargo de Jane, nesse ponto não sou tão boa.
Charles sorriu pra Jane, dizendo silenciosamente o quanto havia gostado da decoração do ambiente, Jane limitou-se a sorrir e baixou o olhar para o prato.
- É notável a harmonia arquitetônica da construção, pela minha experiência dificilmente se mexe assim numa construção tão antiga e se consegue manter os traços mais clássicos. Surpreendo-me que você tenha tido sucesso nisso sem nenhum aprofundamento teórico. – William empreendeu um elogio um tanto formal demais a Lizzie, ela agradeceu sem dirigir seu olhar a ele e continuou seu almoço.
Fanny aproveitou-se da deixa mais uma vez:
- Lizzie após o almoço mostre todas as mudanças a William querida. Garanto que vocês terão muito a conversar, tendo em vista seu gosto pela arquitetura e a experiência dele como engenheiro.
Elizabeth olhou assustada para a mãe que aparentava ter dito a coisa mais natural do mundo.
- Mas limitem-se a casa, não cheguem perto dos animais, principalmente das galinhas!
Michelle e Fitzwilliam sorriram lembrando-se do que aqueles dois tinham aprontado com os pequenos animais quando eram menores. Fitz se dirigiu a Charles que mais uma vez não entendia muito do que estava sendo dito, assim como Hugh e Caroline.
- William chegou a comentar com você sobre as traquinagens que ele aprontou aqui quando menor Charles?
- Ele nunca disse nada, mas eu adoraria saber se alguém pudesse contar agora. – ele falou provocando o amigo que olhava com uma face de súplica para o pai.
- Você não tem do que se envergonhar filho, apesar de ter causado preocupação na época tenho certeza que isso hoje provocará belas risadas! William e Lizzie durante a infância aprontaram pelos quatro, enquanto Jane e Georgianna eram doces e quietas esses dois faltavam colocar o mundo de cabeça pra baixo!
- Eu nunca poderia imaginar esse meu amigo tão ordeiro aprontando dessa forma!
- Pois agora você poderá imaginar. Esses dois certa vez assistiram a um filme de índios e caubóis e ficaram impressionados, construíram umas fantasias com penas e folhas e levaram o filho da Sra. Paige que tinha a idade próxima a deles para o bosque, amarraram o menino numa árvore e ficaram dançando ao redor dele. O problema foi que começou a chover e os “índios” saíram correndo esquecendo o pobre rapaz amarrado na árvore, só perceberam quando chegaram aqui e a Sra. Paige perguntou pelo filho, e o esposo dela foi buscar o menino. A criança já tinha levado tanta chuva que passou a semana resfriado e esses dois ficaram de castigo e perderam uns dias das férias por causa desse “lapso de memória”!
Todos estavam as gargalhadas com a estória contada por Fitzwilliam, até Caroline já tinha desfeito a cara emburrada. Encaminharam-se para a sala de estar e a Sra. Paige que estava servindo o café lembrou ao Sr. Bennet da galinha bêbada!
- Bem lembrado Sra. Paige, escutem essa – Anthony deu continuidade - eu estava relaxando num entardecer tomando um pouco de uísque e acabei pegando no sono no sofá, esses dois apareceram, apanharam o copo que tinha cerca de 3 dedos de bebida, pegaram um funil na cozinha e levaram para o galinheiro, fizeram uma pobre galinha engolir grande parte da bebida e eu acordei com as gargalhadas estridentes dos dois achando graça da galinha que mal conseguia se sustentar em pé, coitada, e ainda se batia contra as paredes do galinheiro o tempo todo!
A risada era geral! William e Lizzie se olharam rapidamente, será que ainda restava algo daquela cumplicidade? Ou tudo tinha virado mágoa e decepção? Não puderam passar muito tempo pensando nisso, pois logo Jane lembrou-se de outra danação.
- Mamãe, lembra-se do dia que eles perderam a Georgie?
- Me perderam? Dessa eu não lembro! – comentou Georgianna.
- Ah, essa foi em Pemberley. Jane estava junto, eles estavam brincando de se esconder e Georgianna chorava porque queria participar e eles não deixavam porque ela era muito pequena. Michelle disse que eles só brincariam se a levassem também, o que acabaram fazendo a contra gosto. Lizzie escondeu Georgianna dentro de um guarda roupa de um dos quartos e correu pra se esconder em outro lugar. Depois William encontrou as duas meninas e não achava Georgianna em lugar nenhum. Decidiram encerrar a brincadeira e Lizzie não lembrava mais em qual dos quartos tinha deixado a menina, procuramos por ela pela casa toda, até que a encontramos dormindo em cima dos lençóis no guarda roupas. Ela devia estar tão cansadinha que pegou no sono, por isso não ouvia ninguém chamando por ela!
- As histórias dariam um livro Charles, lembro-me de uma época que Fanny quase tem um ataque! – Fitzwilliam voltou a falar – William ensinou Lizzie a jogar futebol, e essa menina não queria mais saber de outra coisa. Fez o pai comprar uniforme e chuteira e jogava todos os dias, dizia que quando crescesse ia ser jogadora de futebol!
- Meus pobres nervos quase não agüentaram, ver minha filhinha daquele jeito, ela parecia um menino jogando, eu quase cheguei a proibir que ela brincasse com William nessa época! Mas logo passou, ela voltou a se empolgar com o balé de novo e só jogava de vez em quando.
- Deus me livre, futebol é coisa de homem, credo! – Caroline comentou.
- Não acho Caroline, eu jogava pra me divertir como qualquer criança, era legal jogar, além disso, eu era pequena e rápida e ver os meninos sendo passados pra trás por uma menina era bem engraçado!
- Engraçado até o dia que você quase apanhou de um menino do time que perdeu para o time de vocês. Ainda bem que William estava jogando no dia, senão nem sei o que poderia ter acontecido! – Fanny disse.
- Você lembra disso, William? – perguntou Michelle.
- Lembro, o garoto passou o jogo me provocando, quando ele ameaçou Elizabeth eu aproveitei a oportunidade e parti pra cima dele.
- O que ele dizia querido? É muita petulância provocar você! – Caroline se colocou na conversa mais uma vez.
William olhou para Elizabeth sem graça, mas se deixasse de responder todos iam perceber.
- Apenas bobagens... - tentou falar, mas sua voz não queria sair.
- Que tipo de bobagens? Vamos William fale, estou muito curiosa! – Disse Charlotte que estava vermelha de tanto rir.
- Ele dizia que a minha namoradinha jogava melhor do que eu e que eu só estava no time por causa dela.
- Não era uma gracinha?! – Dizia Fanny apertando as bochechas da filha que tentava se afastar da mãe, sem graça.
Caroline se arrependeu da pergunta e fechou a cara novamente. Hugh que já tinha desconfiado de Lizzie nunca ter dito nada sobre William juntou as histórias e deduziu que eles deveriam ter sido namorados de infância. Ficou com um pouco de ciúmes, mas decidiu não se importar, afinal era com ele que ela estava agora.
Foi para o lado da namorada e a abraçou:
- Quer dizer que a senhorita jogava futebol? Eu não sabia disso! Agora eu sei de onde vem essa cicatriz no seu pé.
- A cicatriz do pé dela não foi de um jogo. - William lembrou.
- Como Will?
- Ãnh? – ele não ouviu o que Georgianna tinha dito.
- O que você falou sobre a cicatriz no pé da Lizzie? – a menina agora estava com a mão na cintura e um olhar interrogador.
- Eu não disse nada! – ele estava apavorado com a idéia de ter pensado alto.
- Disse sim, você falou algo sobre a cicatriz da Lizzie.
Todos os olhares se dirigiram a ele. “Por que eu não fiquei calado? Eu e minha boca” ele pensava arrependido.
- Vamos Will fala! – Georgianna insistia.
Sem ter outra saída ele falou meio sem graça:
- Eu só acho que a cicatriz do pé dela foi por causa de outra coisa e não de jogo.
Lizzie olhava pra ele sem acreditar no que ouvira. Ele tinha falado de uma maneira tão diferente, sem nenhuma tentativa de ofender ou irritar, pelo contrário, tinha até um tom de timidez na voz. “Será que ele lembra mesmo?”.
- Mais uma aventura? Estou curioso! – Hugh falou olhando para William que pelo visto teria que continuar o que tinha começado.
Além da vergonha de ter que falar sobre a infância dos dois não estava mais agüentando aquele cara sendo tão simpático com ele. “Se ele pelo menos fosse chato, grosso e mal educado seria mais fácil odiá-lo.” Mais uma vez se deu conta do que estava pensando e sobrepujou essas idéias. “Pra que mesmo que eu teria que odiá-lo? Por que ele me irrita tanto? Ele não fez nada com você William, tente suportá-lo pelo menos.”
- Na verdade acho que foi quando nós estávamos perseguindo as ovelhas no pasto, Elizabeth teimou que queria montar numa ovelha, pois aqui não tinha cavalos, então nós fomos tentar agarrar alguma e elas não paravam quietas, ela estava descalça e pisou numa pedra pontuda enquanto corria e acabou com um corte profundo no pé.
- Eu lembro que ela chegou aqui aos berros por causa desse corte! – Jane disse, ela só tinha uns cinco anos, a mamãe desmaiou na hora que viu o pé dela coberto de sangue e o papai não sabia se cuidava dela ou da mamãe!
- Sorte que Anne estava aqui e foi cuidar do corte enquanto o Anthony reanimava Fanny. – Fitzwilliam comentou com o olhar distante. – Ela tinha muito jeito com crianças e logo Lizzie estava rindo de novo.
Georgianna pulou no colo do pai, não queria que aquelas lembranças o deixasse triste e Fanny resolveu parar aquela conversa por ali.
- Vamos lá jovens, hora de curtir o dia novamente, pelo visto a piscina não é uma boa opção, o tempo começou a esfriar. Que tal subirem para o salão de jogos?
Os mais jovens estavam se dirigindo ao andar de cima quando Fanny falou novamente:
- Você não, Lizzie, vá mostrar a casa a Will como combinado.
Vendo que não tinha outra opção Lizzie retornou. Ela começou o tour pelo andar de baixo.
- O alpendre e a sala de estar você já conhece, a cozinha só mudou a decoração então eu acho que podemos pular. Vamos até a biblioteca. – ele a acompanhou calado.
- A biblioteca é mais um cantinho de lazer, só deixamos aqui nossos livros preferidos. Ela ocupa o espaço que antes abrigava dois quartos.
A biblioteca não era muito grande, mas também não era apertada, passava uma sensação de calma e aconchego. As estantes ficavam encostadas nas paredes deixando um vasto espaço no centro ocupado por um tapete. Outro tapete felpudo repleto de almofadas estava estendido no canto direito do cômodo, e no outro canto havia uma poltrona. No lado esquerdo havia um divã e mais almofadas e perto dele uma mesinha com um pequeno aparelho de som e um estojo com alguns CDs.
- Esse divã é seu?
- É sim, mas não é para o que você está pensando! - Ela sorriu mais para si, adiantando os pensamentos dele – Prefiro ler deitada, por isso o divã e o absurdo de almofadas! – ela parou observando os títulos de uma das estantes.
- E o som?
- Meu também, fico ouvindo música enquanto leio. – respondeu sem olhar pra ele.
- Essas características de vocês mulheres me impressionam! Enquanto os homens só fazem uma coisa de cada vez vocês falam ao telefone, escutam música, escrevem...
- E ainda batem um bolo! – ela completou sorrindo e virou-se, só percebeu que ele estava atrás dela quando seus corpos ficaram bem próximos. Ela abaixou a cabeça e se afastou rapidamente, insegura com as sensações que ele despertava – Vamos?
- Esse canto parece ser bem seu. – ele disse pra quebrar o silêncio constrangedor que havia se formado.
- Pode-se dizer que sim, sou a maior freqüentadora dele, papai e Jane já vivem cercados por livros diariamente, quando eles estão aqui ocupam o tempo com outras coisas.
Subiram as escadas e ela foi mostrando os quartos.
- São quatro quartos de casal e três de solteiro, o que você está ocupando com Charles, o que as meninas estão e o meu e de Jane. Só dois quartos de casal são ocupados, um por meus pais e um de hóspede, os outros dois a mamãe disse que serão meu e de Jane quando nos casarmos.
- Você pretende ocupá-lo logo? – ela se assustou com a pergunta.
- Ainda não pensei sobre isso, são planos da mamãe e não meus.
Ele percebeu que ela não fez questão nenhuma de comentar sobre um possível casamento com Hugh, e de certa forma isso o favorecia, depois disso permaneceu calado.
- E enfim a sala de jogos – ela entrou na sala ocupada por uma Caroline entediada, Charles e Jane sentados num sofá alheios ao mundo e Georgianna e Charlotte unidas para derrotar Hugh numa partida de sinuca.
William logo foi cercado por Caroline e Lizzie se aproximou da mesa de sinuca, sendo recebida carinhosamente pelo namorado deixando Georgianna sem graça.
A temperatura cada vez diminuía mais, à noite Fanny mandou servir uma sopa quente para o jantar e se recolheu cedo com o esposo. Michelle e Fitz seguiram o exemplo dos anfitriões e foram dormir, deixando os jovens à vontade.
- O que se faz aqui à noite além de ouvir os barulhos dos grilos? – Caroline perguntou a Jane que achou graça do jeito afetado da outra.
- Depende do que você gosta de fazer, ver televisão, ler, ouvir música, andar por aí, jogar alguma coisa.
Na opinião de Caroline nenhuma daquelas opções fazia sentido.
Lizzie e Charlotte se entreolharam sorrindo de forma extremamente cúmplice.
- Parece que tivemos a mesma idéia, Char! – Lizzie sorria para a amiga.
Jane e Georgianna olhavam para as duas curiosas, Caroline tentou se manter impassível mas também queria saber que idéia era aquela.
- Então meninas, que grande idéia foi essa? – Jane perguntou.
As duas responderam juntas:
- Vinho, violão, fogueira e nós! – e caíram na gargalhada!
Como o restante ficou sem entender muita coisa Lizzie resolveu explicar:
- Que tal aproveitarmos esse friozinho lá fora, fazer uma fogueira, tomar um bom vinho tocando e cantando umas músicas?
- Um luau?!?! Amei a idéia de vocês, eu topo! – disse Georgianna animada – quem vai tocar?
- Você lógico – disse Elizabeth – também posso tocar uma ou duas músicas, ou o Hugh. Então, alguém tem uma idéia melhor? – ninguém se manifestou contra e Lizzie continuou. – então está tudo combinado.
Nesse momento Charles, que havia saído para ir ao banheiro e só escutou a última frase de Elizabeth, se aproximou e abraçou Jane por trás:
- Posso saber o que está combinado?
- Nossa diversão essa noite! – respondeu Jane.
- E o que seria mais divertido do que ficar com você?
- Ficar comigo lá fora tomando vinho e ouvindo música!
- Ok, você já me convenceu! – e deu um beijo na loira.
Os outros rapazes gostaram da escolha e ficou tudo acertado. Elizabeth foi ter com os caseiros pra pedir que eles acendessem a fogueira e colocassem uns colchonetes ao redor pra eles sentarem. Escolheu os vinhos deixando-os separados e subiu pra buscar uns agasalhos e o violão.
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