Citações

Acho muito, recordar à tarde todas as tolices que se ouviram de manhã.(Jane Austen)

Outra Vez - Capítulo VI

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Ao chegar em casa Lizzie encontrou uma linda caixa de chocolate em forma de coração em cima da mesa, havia também um buquê de rosas, só aí ela se lembrou que combinara com Hugh de encontrá-lo lá depois da festa. Ela foi até o quarto saber se ele ainda estava no apartamento, mas não o encontrou, deduzindo que ele deveria ter ido embora muito chateado.

 

Elizabeth deitou em sua cama e não conseguiu mais segurar o choro, estava frustrada por ter estragado os planos de Hugh e por ter passado a vergonha de acordar na cama de um homem que ela definitivamente não gostava. E ainda estava irritada com as coisas que ele havia dito a ela na noite anterior.


Quando se acalmou um pouco pegou seu celular para ligar pra Hugh e pedir desculpas, mas viu que ele ligou 15 vezes para ela durante a madrugada, porém o aparelho estava no silencioso e ela não acordou. Ela tentou uma vez e ele não atendeu – “é melhor eu tomar um banho, me acalmar mais e comer alguma coisa, ele deve estar com muita raiva, eu tento de novo depois”.


Cerca de meia hora depois ela tentou de novo, e uma voz fria a atendeu:


- Oi Elizabeth, como passou a noite? – essa simples pergunta fez Lizzie gelar, Hugh não costumava ser sarcástico, mas escolheu uma oportunidade perfeita pra isso, ela não sabia por onde começar.


- Hugh, desculpa por ontem, não foi minha intenção. Eu sei que você está chateado, mas com toda razão. Você pode me perdoar? Eu acabei pegando no sono na casa do tio Fitz e ninguém me acordou.


- Elizabeth, não foi o fato de você ter dormido lá que me deixou chateado, mas não é a primeira vez que você me “esquece”! Já combinamos de sair algumas vezes e eu cheguei a esperar horas por você no cinema. Como você acha que eu me senti mais uma vez sendo abandonado? Eu não sou um objeto, um brinquedo que você usa quando sente vontade e depois joga fora, queria que você pensasse mais em mim, me enxergasse de vez em quando.


Lizzie assentiu que aquilo estava acontecendo mesmo com mais freqüência. Recentemente ela iria a uma consulta médica e ele ficou de acompanhá-la, como sua moto estava na oficina ela ficou de pegá-lo e Lizzie simplesmente esqueceu, na hora marcada ela se arrumou pegou sua bolsa e foi direto para o consultório, nem passou pela sua cabeça que Hugh iria com ela, e só percebeu isso depois que estava lá, quando ele a ligou para saber o porquê dela estar atrasada.


Esse episódio não gerou maiores problemas, entretanto ela percebeu que ele ficou uns dias estranhos. Mais uma vez ela se desculpou pelo erro dessa noite, Hugh ainda não tinha dito se a desculparia, falou apenas que ligava depois.


A tarde passou tranqüila, Lizzie almoçou sozinha e depois colocou o DVD de Orgulho e Preconceito, seu filme predileto e foi assistir mais uma vez. Mas o que ela queria mesmo era ter uma desculpa plausível pra liberar mais uma vez o choro, ela imaginava que devia estar na TPM, pois se sentia muito irritada e com vontade de chorar, nunca passou pela sua cabeça que isso talvez fosse conseqüência da chegada de um certo alguém.


Elizabeth tentara esconder de si mesma por todos esses anos seus sentimentos em relação a William Darcy. Não que fosse apaixonada por ele, mas algo ficara mal resolvido. Ela esperou por algum tempo que ele se desculpasse com ela pelo incidente em Pemberley, e quando cresceu mais entendeu que o que ele tinha feito era normal, ela que era muito infantil na época para entender. Mas já tinha transformado todo amor que sentia em ódio, e achava que se ele nunca tinha procurado por ela de novo era só aquilo que ela devia sentir por ele mesmo.


Depois do filme pegou no sono e acordou à tardinha com a campainha tocando.


Levantou ainda meio sonolenta e foi atender. Para o porteiro não anunciar pelo interfone só poderia ser alguém da família ou Hugh, quando ela abiu a porta descobriu que se tratava da segunda opção. Ela sorriu para ele meio sem graça, não sabia o que fazer, entenderia se ele tivesse ali apenas para brigar com ela, pois sabia que merecia. Ele se limitou a abraçá-la e perguntar-lhe sorrindo:


- Ainda sobrou algum chocolate pra mim?


- Hun rum, guardei uns pra você – ela garantiu - mas só entrego se você me desculpar.


- Lizzie, eu amo você, e infelizmente, ou felizmente, essas coisas que você faz não vão me fazer deixar de amá-la. É claro que eu fiquei muito chateado, mas não consigo sentir raiva de você, vamos esquecer esse episódio? Só tenta não fazer mais isso comigo, eu preciso de mais atenção.


Lizzie sentiu uma dor em seu íntimo, tinha certeza que se fosse ela no lugar dele nunca teria aquela atitude compreensiva, talvez nunca mais quisesse nem vê-lo, ele deveria a amar muito realmente pra passar por cima de tudo aquilo.


Conversaram um pouco sobre a festa, logicamente Lizzie omitiu os detalhes referentes à Darcy e da probabilidade de terem dividido a mesma cama, e resolveram passar a noite de sábado em casa vendo filme, desceram até a locadora da esquina onde locaram alguns DVDs, compraram sorvete e pediram uma pizza para comer em casa.


Na casa dos Bennet Jane tentava fugir das investigações de sua mãe sobre Charles Bingley e suas atitudes para com ela na festa, mas estava mais complicado do que ela imaginara.


- Então Jane, o que vocês conversaram?


- Amenidades mamãe, nada demais.


- Nada do que um homem daquele falar é amenidade Jane! Ele pediu seu telefone?


Jane não queria a mãe se metendo mais ainda na sua vida, afinal ela se interessara de verdade por Charles, mas sem ver nenhuma alternativa acabou relatando a verdade à mãe.


- Hum rum.


- Só isso?


- Ele também me convidou pra passar o fim de semana com eles em Pemberley.


- E o que você está fazendo aqui Jane Bennet?


- Mas mamãe, nós fomos convidados por Michelle e tio Fitz e o papai declinou o convite, pensei que não deveríamos ir.


- Jane, Jane, quando irá aprender? Por mim estaríamos lá, mas seu pai disse que era um momento muito familiar, deveríamos deixá-los mais a vontade, faz tempo que William não vai a Pemberley. Mas você deveria ter ido. Minha filha, você tem que garantir o seu futuro, e o Bingley é um ótimo partido.


- Mamãe meu futuro está garantido, tenho meu trabalho, não preciso me casar pra ser feliz.


- Jane o trabalho não lhe dará filhos, nem fará carinho em você, não esquentará a sua cama e muito menos estará ao seu lado nos bons e maus momentos.


- Eu sei mamãe, você tem razão, desculpe. Tenho que falar com o papai agora certo? – ela preferia dar a vitória à mãe a passar o sábado discutindo e entrou na biblioteca.


- Fugindo da sua mãe Jane? – seu pai indagou quando percebeu seu suspiro de alívio ao fechar a porta.


- Acertou! – os dois sorriram – Mais especificamente das intenções casadoiras dela!!


- E então? O tal Bingley tem alguma chance? – Jane exibia um sorriso doce em frente ao pai.


- Talvez.


- Mais uma vítima da estonteante beleza e encanto da minha filha! Daqui a pouco serei acusado de ser o responsável por gerar a causadora de tantos corações destroçados!


- Não fale assim papai, fico sem graça!


- Só espero que ele mereça a sorte de ter a sua afeição. É o primeiro que faz seus olhos brilharem assim!


Jane corou, realmente Lizzie tem a quem puxar. Tanto ela como seu pai tinham o poder de ler seus sentimentos através de seus olhos. O pai percebendo a reação da filha completou:


- Não é mérito meu, você que consegue ser transparente como a mais límpida lagoa e calma como uma brisa de fim de tarde.


- Você é maravilhoso papai!


- Não, sou sortudo por ter duas filhas tão maravilhosas, minha brisa e meu furacão!


Os dois ainda estavam sorrindo com a comparação entre Jane e Lizzie quando Fanny entrou na biblioteca esbaforida:


- Está tudo arranjado! Iremos para Netherfield no próximo final de semana! Você fará um churrasco para nosso afilhado, e claro, os convidados dele!


- Tenho opção de escolha? – o Sr. Bennet indagou.


- De maneira nenhuma. – ela respondeu enquanto saía da biblioteca novamente. Deixando pai e filha sozinhos achando graça daquela situação.


**


William e Caroline estavam passando pelo corredor da casa dos Darcy, iam em direção a escada para encontrarem os demais, em breve pegariam a estrada para Pemberley.


- Temos mesmo que ir William? Você sabe que eu detesto mato, bichos barulhentos e todo aquele tédio de cidade pequena.


- Você vai gostar de lá, os únicos bichos que fazem algum barulho são os pássaros. Pegou roupa de banho? Tem uma cachoeira maravilhosa que deve estar em sua mais bonita forma nessa época do ano. – depois se arrependeu do comentário, não sabia se ele teria coragem de voltar naquele lugar especificamente.


- Cachoeira? Enlouqueceu William? Não entro em lugares que eu não consiga ver os azulejos no fundo.


- Por que isso não me surpreende? – disse Georgianna passando por eles na escada e recebendo um olhar reprovativo do irmão – Estão todos esperando, só faltam vocês, tentem não demorar.


Ela estava saindo de seu quarto e ouviu toda a conversa da cunhada, segurara o riso e a vontade de não falar nada, no entanto não conseguiu prender esse último comentário.


Georgianna queria ficar perto do irmão, mas receosa de não agüentar passar tanto tempo perto de Caroline preferiu ir com o pai e a madrasta, enquanto Charles e Caroline os seguiam de perto no outro carro com William.


Darcy imaginou que Lizzie e sua família estariam em Pemberley e quando descobriu que isso não iria acontecer sentiu-se levemente contrariado. Ou seria decepcionado? Fazia tempo que ele não via aquele lugar tão maravilhoso e importante para ele. A casa de campo de sua família ficava cerca de 50 quilômetros de Londres e se ele pudesse passaria o resto da vida lá.


Fitzwilliam percebeu o olhar distante de Caroline e perguntou:


- Então Srta. Bingley, o que achou de nossa Pemberley?


- É tudo muito lindo senhor. Mas pode me chamar apenas de Caroline eu já lhe disse isso, afinal somos quase parentes!


William engasgou com as palavras dela, tentou disfarçar, porém todos, menos ela, perceberam. Georgianna segurava o riso mais uma vez enquanto Michelle apertava suas mãos apreensiva, com medo que a enteada ofendesse a namorada do irmão. Ela também não simpatizou muito com Caroline, mas se William a trouxe não era ela que iria se opor.


- Manias de gente velha Srta. Bingley. – ele repetiu propositalmente. – E os bosques lhe agradaram?


O imóvel era incrustado no meio de um grande bosque, a natureza era exuberante. Para chegar até a casa eles passavam por belíssimas paisagens. Caroline demorou um pouco para responder, afinal não prestara a mínima atenção, sua cabeça estava em Paris, estava imaginando quais festas estava perdendo.


- Muito senhor, são extremamente belos. Estou encantada! – ela não poderia perder a pose mesmo detestando todo aquele verde.


- Pensei que você não gostasse de mato! – Georgianna comentou jocosa recebendo um olhar de repreensão da madrasta e vendo o pai se segurar para não rir ante as feições de Caroline. Ela tentava esconder a raiva de Georgianna com uma meiguice forçada extremamente incoerente com a personalidade dela.


- Você se enganou querida! – e antes que a enteada tivesse tempo de fazer mais algum comentário Michelle pediu que Caroline a acompanhasse, ela ia lhe mostrar o quarto que ela poderia ficar.


Os homens foram caminhar um pouco pela propriedade, Charles elogiava tudo embevecido, estava encantado com aquele lugar e Fitzwilliam e seu filho iam explicando os mínimos detalhes.


Depois de acomodar a Srta. Bingley Michelle foi até o quarto de Georgianna que ao perceber as intenções da madrasta fez uma carinha de criança pidona!


- Muito bem mocinha, – Michelle tentava ficar séria – posso saber quais as suas intenções em tratar a namorada do seu irmão assim?


- Ela é insuportável Mi, eu a ouvi dizer para o Will que ela não queria vir porque detestava mato!! Detesto essa pose de estátua de praça dela, parece que quer passar o dia sendo admirada!


Michelle não agüentou mais e as duas desataram a sorrir.


- E na hora do café da manhã, ela perguntando se o suco era de laranja da Pérsia, do contrário não tomaria? – Michelle disse fazendo Georgianna gargalhar. A cena se passou pela manhã quando eles estavam tomando café por volta de 10 horas já que todos acordaram tarde por causa da festa na noite anterior.


"- Sabe “querida”, você deveria seguir este conselho do meu nutricionista também, você sabia que as laranjas comuns ao contrário das persas causam envelhecimento precoce? Além de terem mais açúcar e menos flavonóides.”


Quando percebeu que Michelle olhava pra ela como se estivesse vendo um extraterrestre ela emendou:


“Não que você esteja velha, não me entenda mal, é apenas prevenção.”


Depois de controlarem as risadas Michelle pediu que Georgianna contivesse em seus “ataques” a mulher. De qualquer forma ela iria embora logo, só precisariam ser um pouco pacientes.


- Não é melhor garantir que ela não volte? – A menina perguntou sorrindo?


- Chega de brincadeira, agora vamos descer, não é de bom tom deixar a moça tanto tempo sozinha. – ela deu um beijo na cabeça da enteada e partiram a procura dos outros.


William e Georgianna conversaram um pouco enquanto Michelle tentava ser educada e agradar um pouco a difícil Srta Bingley. Falaram de suas vidas, dos anos que passaram longe, ele falou da faculdade, das viagens, ela ouvia tudo extasiada e fez com que seu irmão prometesse que a levaria da próxima vez que ele fosse para algum destino exótico.


Ela aproveitou e o indagou sobre o fato de Lizzie ter dormido no quarto dele, disse-o que ela estava muito nervosa quando desceu as escadas rumo à saída da casa. Ele achou graça na situação mais uma vez e garantiu a ela que os dois não dormiram na mesma cama, que ele só havia falado aquilo para irritá-la, e pelo visto havia conseguido. Ela repreendeu o irmão, mas não deixou de achar graça, e ele a fez prometer que não contaria nada para ela.


- Will, e em relação a esse namoro com Caroline? Eu percebo que você não a ama. Mas ela não desgruda de você, espero que você tenha percebido que as intenções delas com você são mais sérias.


- Georgie, eu sinceramente sei que não amo Caroline, mas as circunstâncias nos levaram a ficar juntos. Ela é agradável, elegante, e indiscutivelmente bonita, não vejo mal nenhum em estar com ela. Mas não desejo realmente passar o resto da minha vida ao seu lado. Um dia isso se resolve.


- Agradável?


- Ta, confesso que ela é um pouco difícil, sempre foi muito mimada, mas tenta relevar.


- Cuidado meu irmão. Relacionamentos são mais complicados do que isso. Talvez ela não queira abrir mão de você tão fácil. Imagine se você vier a se apaixonar por alguém, acredita mesmo que ela aceitará facilmente o fim do namoro de vocês?


- Estou achando você muito experiente com esse assunto, o que está havendo? A senhorita anda namorando escondido? Você é muito nova pra isso! – ele provocava a irmã achando graça por ela ter ficado corada com a pergunta dele.


- Lógico que não William, ainda não encontrei a pessoa certa. Mas as mulheres entendem mais disso que os homens.


- Bem, eu não tenho intenção nenhuma de me apaixonar por ninguém. “A experiência ruim que passei já foi o bastante pra toda uma vida”. – ele pensou.


- Will, a gente se apaixona quando menos quer, e eu sinto que é isso que vai acontecer com você.


- Não é hora de discutir esse assunto Georgie, viemos pra cá para nos divertir. E agora vamos cavalgar um pouco, quero passar por cada canto desse chão, rever tudo desse lugar que tanto amo!!


- Will?!


- Oi Georgie?


- Eu senti muito sua falta!


William não esperava aquela reação da irmã. Sabia que ela o amava imensamente, mas ela falou de um jeito tão especial, tão sincero que ele agora pensaria duas vezes antes de viajar de novo! Não queria mais ficar longe das pessoas que ele amava tanto.


- Também senti sua falta sua pestinha! – disse puxando-a pra perto e dando-lhe um gostoso abraço.


Caroline e Charles que estavam nas cadeiras próximas à piscina conversando com o casal Darcy foram convidados a acompanhar os irmãos numa cavalgada e aceitaram prontamente.


Cavalgaram por algum tempo sem direção, e estavam próximo a cachoeira, Georgianna comentou o fato e Charles perguntou se poderiam parar pra descansar lá, sem outra alternativa William se viu novamente naquele cenário que trazia sentimentos tão dolorosos. Sentou na sombra da mesma árvore em que anos atrás estivera abraçado a sua primeira e única paixão. No dia em que tudo aconteceu, o começo e o fim de um amor. Não queria pensar mais nisso, no entanto tudo o levava a relembrar aqueles momentos.


Conheceu inúmeras mulheres e teve vários relacionamentos, mas nenhuma o fez sentir metade do que aquela garotinha petulante havia feito. Seu corpo nunca reagiu daquela maneira incontrolável por nenhuma outra mulher, e ele mais uma vez se sentiu um bobo. Ela nunca dera valor ao que ele sentia, apenas brincou com a cara dele, se divertiu as suas custas. Ele não teria coragem de perguntar o motivo pelo qual ela não respondeu a carta, mas acharia uma maneira de se vingar do que passou. Elizabeth precisava sofrer o que ele havia sofrido durante tanto tempo longe dela, ela pagaria por ter troçado dos sentimentos dele. Decidiu isso ali, onde nove anos antes se sentiu o jovem mais feliz do mundo.


- William querido, no que está pensando? – a voz melosa de Caroline tirou William daqueles devaneios.


- Nada de mais Carol, vamos voltar?


- Eu adoraria, já estou cansada desse sol, você sabe que o campo não me agrada muito, só vim aqui mesmo por você. – falou sem perceber a contradição.


“Agora ela assume, dissimulada.” – pensou Georgianna.


- Já eu estou adorando Darcy – Charles disse ao amigo – só não está perfeito porque Jane não veio. Mas assim que voltarmos ligarei para ela, quero muito vê-la de novo.


- Ela é mesmo muito agradável – Caroline concordava com o irmão – mas aquela irmã dela francamente, é extremamente irritante.


- Acho que você a conhece muito pouco Caroline – Georgianna defendeu a amiga, pois gostava dela como se realmente fossem irmãs – Lizzie é muito espontânea e simpática, além de ser super simples!


- Simples? Então você considera isso uma qualidade? Você ainda é muito novinha pra entender querida.


Georgianna não queria acreditar que aquela ruiva nojenta a estava chamando de criança e ainda por cima falando mal de Elizabeth que ela mal conhecia. Decidiu sair logo dali antes que perdesse a cabeça e começasse a discutir com a namorada do irmão e não queria estragar aquele dia.


Na segunda feira Jane estava em seu escritório na livraria despachando alguns documentos. Seu pai tinha uma editora e seu gosto pelos livros havia contagiado as duas filhas, ao contrário de Lizzie que se contentava apenas em ser uma ávida leitora, Jane havia se formado em letras e com a ajuda do pai abriu sua própria livraria.


Com a simpatia e a meiguice de Jane somada ao tino administrativo que descobriu ter com a prática de gerir um negócio, o que antes era uma pequena e aconchegante loja de livros tornou-se uma das mais procuradas livrarias de Londres, com mais duas filiais além da matriz.


Jane adorava lidar com os clientes, organizar noites de autógrafos e saraus, mas era preciso ficar de olho nos procedimentos burocráticos também. Havia pedido aos funcionários para não repassarem nenhuma ligação pra ela, a não ser que fosse grave, pois estava bastante ocupada, mas perto das cinco da tarde uma funcionária bateu na sua porta exibindo um sorriso sem graça:


- Jane, tem um senhor que passou a tarde ligando pra você, já nem sei mais que desculpa dar.


- Ele deixou o nome?


- Não, mas disse que continuaria ligando até conseguir falar com você.


- Ok, na próxima vez que ele ligar pergunte o nome ta?


- Sim, ah Jane, acho que é ligação interurbana.


- Por que você diz isso?


- Ele tem um forte sotaque francês.


- “Charles...” - Jane murmurou sorrindo.


- O quê?


- Não nada, pensei alto, da próxima vez que ele ligar repasse a ligação pra minha sala ok?


- Ok.


Jane parou tudo que estava fazendo, não conseguia mais se concentrar. “Ele me ligou e mais de uma vez, nossa já descobri que pelo menos insistente ele é, mas agora tenho que terminar isso pra ir pra casa hoje”


Alguns minutos depois a moça bateu na porta de Jane mais uma vez e entrou em sua sala.


- Jane, ele está aqui.


- Ele quem Lana?


- O homem do telefone.


- Charles está aqui? Ai meu Deus, minha bolsa, rápido, me dá minha bolsa.


Lana pegou a bolsa de Jane da estante e entregou pra ela sorrindo.


- Estou bem? Estou com cara de cansada? Eu passo um batom? Não, se eu passar ele vai pensar que estou me arrumando pra ele.


- Você está linda Jane, como sempre, passe apenas um gloss.


- Isso.


Jane passou rapidamente a escova nos cabelos e um gloss transparente nos lábios.


- Diga pra ele entrar Lana, ah não, eu vou até lá fora.


As duas saíram da sala e Lana voltou para o setor de atendimento deixando os dois mais a vontade.


- Charles, que surpresa!


- Se Maomé não vai a montanha a montanha vem a Maomé. Não é assim que se diz? – falou enquanto puxava Jane para um beijo no rosto.


- Isso! O que o traz aqui?


- Você, quem mais poderia?


Ela corou e sorriu.


- E a que devo a honra dessa visita?


- Bem, tentei te ligar várias vezes, na sua casa disseram que você estava no trabalho, aqui disseram que você estava ocupada e não poderia atender, vim me certificar, pois comecei a pensar que você estava fugindo de mim.


- Imagine Charles, tive apenas que resolver uns problemas burocráticos e precisava de concentração, se eu soubesse que era você teria atendido!


- E que horas terminam esses problemas burocráticos?


- Hum, posso saber por que a pergunta?


- Porque eu queria saber se você está disposta a ser seqüestrada!


- Ah, posso saber onde é o cativeiro?


- Sim, eu Georgianna, Caroline e William vamos dar uma volta, ele vai nos levar para conhecer a noite londrina e eu queria saber se você poderia me dar a honra da sua companhia.


- Nesse caso os problemas podem ficar pra amanhã! Você espera eu pegar minha bolsa?


- Claro.


Jane entrou novamente no escritório, retocou de leve a maquiagem e saiu com Charles, foi até Lana e avisou que já estava indo, desejou boa noite e os dois seguiram para o carro.


Ela cumprimentou o casal e Georgianna que estavam no carro e conversaram animadamente enquanto discutiam aonde ir.


Acabaram se decidindo por um pub famoso pelo Happy Hour, como era segunda feira ele não estaria tão cheio, seria melhor para conversarem.


Foram recebidos pela garçonete que os encaminhou a uma mesa, depois dos pedidos Caroline falou a Jane:


- Seu chefe não se importou que você saísse mais cedo Jane?


Jane sorria, sem saber direito o que responder, achando graça da situação.


- Na verdade não, Caroline.


- Aqui em Londres as coisas são muito soltas, isso nunca aconteceria em Paris, uma funcionária sair mais cedo quando bem entende.


Jane não gostou do tom que Caroline usou, sabia que se Lizzie estivesse ali ela receberia uma resposta atravessada, mas por mais que ela quisesse dizer algo não queria magoar Charles sendo grosseira com sua irmã.


- Jane não é uma simples funcionária Caroline – Georgianna respondeu em seu lugar – ela é a própria chefe. As três lojas da Austen’s Books, que por sinal é a melhor livraria de Londres foram totalmente planejadas por Jane, e é administrada apenas por ela.


- Oh, não sabia. – Caroline respondeu, sua face estava rubra como seus cabelos.


Charles apenas sorria. Jane mais uma vez o surpreendia. Aquela mulher parecia ser tão frágil, tão dependente, e era dona da melhor livraria londrina. Ele sentia cada vez mais vontade de conhecê-la.


Permaneceram uma três horas no pub, Charles e Jane passaram a maior parte do tempo conversando entre si, enquanto Caroline tentava de todas as maneiras se enturmar com Georgianna, mas as duas sempre discordavam de tudo.


- Charles, eu preciso ir, amanhã trabalho cedo.


- A chefe não pode chegar mais tarde?


- Pelo contrário, tenho que ser a primeira a chegar para dar exemplo aos funcionários.


- Ok, você me convenceu!


- Até que foi fácil!


- Posso te levar em casa?


- Você não prefere ficar?                                      


- Não se você não está aqui! – ele sorria galante – Pegamos um táxi, eu te deixo em casa depois você explica ao motorista como chegar à casa dos Darcy pode ser?


- Tudo bem.


Os dois se despediram dos outros pagaram sua parte e pegaram um táxi.


Conversaram de mãos dadas por todo o caminho enquanto Jane ia falando um pouco sobre os lugares que ia passando.


Chegaram à casa dos Bennet e Jane indicou o endereço dos Darcy ao taxista. Charles pediu que ele esperasse e levou-a até a porta.


- Adorei a noite Charles!


- E eu adorei a sua companhia! A gente pode se ver amanhã de novo?


- Acho que sim!


- Almoçamos juntos então?


- Hun rum.


- Te encontro na loja?


- Se você preferir.


- Charles se aproximou de Jane e tocou sua boca com a ponta dos dedos.


- Jane, eu...


Ela não deixou que ele continuasse, levou seus lábios aos dele e Charles não precisou de mais nada, enlaçou a cintura dela e se beijaram calmamente, como se só eles dois existissem.


Ela foi se afastando devagar enquanto dizia:


- Até amanhã...


Soltou suas mãos das mãos dele e entrou em casa, deixando um Charles boquiaberto na porta. Ele entrou no táxi ainda sem acreditar. Definitivamente aquela mulher ainda lhe surpreenderia e muito!



Continua.....

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