Citações

Qualquer coisa nutre o amor que já é forte. Mas no caso de uma leve e diáfana inclinação, estou convencida de que um bom soneto irá matá-lo de fome completamente. (Jane Austen)

Outra Vez - Capítulo V

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Trilha sonora: Frisson – Tunai/Sérgio Natureza
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“Meu coração pulou

Você chegou, me deixou assim

Com os pés fora do chão”

 

Quando a família Bennet chegou foram recebidos por Fitzwilliam e Michelle Darcy. Após os cumprimentos Will se aproximou com um rapaz muito bonito e uma ruiva. Fanny cochichou para Jane:
 

- Aquele deve ser o tal Bingley, sorria minha filha, sorria.


- Mamãe, por favor, menos.


Jane tentava não ser desagradável com a mãe, mas não gostava dessa mania dela de jogá-la para cima dos rapazes que ela considerava um bom partido.


William cumprimentou seus padrinhos, e sua madrinha acabou se empolgando mais do que o esperado:


- Oh, como está lindo meu afilhado, tão bem apessoado! Pena que Lizzie ainda não chegou para vê-lo, ela sentiu muito sua falta esses anos todos!


Will não sabia o que responder, na certa sua madrinha não falava da mesma Lizzie que ele conhecia. Algo parecia estar muito errado.


Caroline de cara não gostou das maneiras da mulher, e quem seria aquela tal de Lizzie que tanto sentiu falta de William? Tinha alguma coisa estranha e ela pretendia descobrir o porquê.


Fanny se antecipou e perguntou:


- E seu amigo William? Creio que é o famoso Charles Bingley!


- Famoso eu? – Charles sorria enquanto beijava a mão da mulher e depois falou num inglês com um leve sotaque – É uma honra conhecê-la Sra. Bennet, Will fala muito bem de vocês. – Em seguida estendeu a mão para o Sr. Bennet - Como vai senhor?


- Bem, obrigada! Seja bem vindo a Londres!


- E essa é minha primogênita, Jane. – Fanny indicou a filha – desde já lhe garanto que não vai encontrar nessa festa nenhuma moça tão bela como ela.


Jane corava enquanto se sentia completamente avaliada por Charles que a olhava dos pés a cabeça.


- Não tenho dúvidas disso. – ele afirmou enquanto olhava encantado para a loira – acredito inclusive que não encontrarei alguém tão bela nem se revirar Londres de cabeça para baixo!


- Como vai Sr. Bingley?! – Jane disse educadamente.


- Pode me chamar de Charles. E estou bem melhor agora depois de conhecê-la, digo conhecê-los! – falou atrapalhado - Está é minha irmã Caroline Bingley.


Caroline fez um leve aceno de cabeça para eles, estava mais preocupada em descobrir quem era essa tal de Lizzie e o que ela tinha a ver com Darcy.


O grupo se dispersou a contragosto de Charles, que queria permanecer próximo de Jane. Ele era um admirador de mulheres bonitas, e Jane era um belo exemplar.


Lizzie chegou à casa de Fitzwilliam perto das dez, sua mãe já estava praticamente dando um chilique:


- Oh Anthony, essa menina ainda me mata, ela não tem respeito pelos meus nervos! Como ela ousa? Já são quase dez horas e aquela insolente não chega para receber William, o que ele e Fitz vão pensar dela? Oh, e se ela não vier? Não duvido nada, ela é bem sua filha mesmo!


Nessas horas Jane estava longe, sua paciência já havia sido testada o bastante naquele dia por causa dos nervos da mãe, que a aconselhava o tempo todo a ficar perto do tal Bingley e reclamava da demora da filha mais nova.


Jane tinha personalidade oposta a Lizzie. Era tranqüila, quieta e introspectiva. Possuía uma bondade e uma meiguice incomum num ser humano, e suas feições delicadas e seus cabelos loiros que atualmente exibiam um corte repicado e curto a deixava mais parecida com um anjo.


- Não se aflija meu bem, ela só está fazendo um suspense. Creio que em pouco tempo ela chegará e todos vão parar para olhá-la e valerá à pena a espera. Não sabe como são as mulheres? Querem sempre ser as últimas a chegar para que sua entrada seja triunfal! – ele olhou para o lado e teve a confirmação de suas palavras.


- Não disse, olhe para a entrada, parece que sua filha realmente chegou. Mas não esqueça que William chegou acompanhado de uma bela mulher, não vá se iludir com essa história de juntar os dois, Fanny.


- Imagine, aquela ruiva aguada com cara de quem chupou laranja azeda é apenas irmã do Bingley, William não disse que ele tem alguma coisa com ela, além disso, no momento que ele olhar para Lizzie verá que ela é a mulher da vida dele e os dois ficarão juntos e realizarão meu sonho de vê-los casados! Olhe, parece que é ela ali mesmo, e vejo que seguiu meu conselho e se arrumou um pouco.


Realmente Lizzie estava deslumbrante, seu vestido e olhos escuros contrastando com sua pele clara deixavam-na ainda mais radiante, e sua boca rosada dava um ar extremamente sedutor. Lizzie logo viu sua mãe acenando e caminhou até eles, conversaram pouco, pois sua mãe só falava o quanto William havia voltado mais lindo ainda, e se afastou com o pretexto de cumprimentar as pessoas e foi à procura de Jane ou Charlotte, já que os Luccas haviam sido convidados também.


Depois de andar um pouco cumprimentando um ou outro conhecido encontrou Georgianna com um grupo de jovens na pista de dança. Georgie elogiou a beleza de Lizzie, apesar de não estar muito atrás. Seus cabelos loiros e lisos davam um ar luminoso a sua pele branca e seu vestido verde da cor de seus olhos destacava-a. Ela informou que Charlotte estava perto do bar e Lizzie continuou a circular, deixando os jovens à vontade para paquerar e dançar.


Não encontrou Charlotte ou Jane próximo ao bar e continuou a andar a procura da irmã e da amiga, já estava pensando em ligar para o celular de uma das duas pois não as encontrava em nenhum lugar. Baixou a cabeça para procurar o celular na bolsa e acabou esbarrando em algo, na verdade em alguém bem grande.


- Desculpe, você se machucou? – ouviu uma voz dizer em seu ouvido enquanto mãos grandes e seguras a aparavam.


- Não, está tudo bem... - levantou a cabeça para oferecer um sorriso ao educado homem, que logo se desfez quando ela se deu conta de quem se tratava.


Nunca um instante passou tão devagar para Lizzie, ao encarar o desconhecido e sorrir em agradecimento não esperava encontrar aqueles olhos tão azuis, num tom límpido e ao mesmo tempo profundo, ela piscou várias vezes, do contrário se perderia naqueles olhos. O rosto havia ganhado uma aparência madura e máscula diferindo daquela beleza adolescente, os cabelos negros caiam no rosto e ela percebeu a maneira nervosa que ele retirava os fios, ele parecia muito mais alto, mais forte, mais homem, mais bonito, mais tudo...


Ele sabia que a encontraria, e acreditava estar preparado para ignorá-la, contudo não esperava que fosse daquele jeito. Ela estava ainda mais linda, se era possível, seus olhos pretos marcados com a maquiagem lhe davam um ar extremamente sedutor. Os dois ficaram mudos e desconcertados com a situação e agradeceram aos céus quando Jane surgiu do nada e interviu. Ela estava indo até os pais para saber informações sobre Lizzie quando viu os dois se esbarrarem, apressou-se para alcançá-los, pois tinha medo da reação da irmã.


- Creio que você ainda se lembra de Elizabeth, William! Apesar de fazer algum tempo que não a via.


- Oh, claro Jane. Como vai Elizabeth?


Sua voz soou fria e distante. Na sua única viagem a Londres para visitar a família nesses anos todos reencontrou com Jane, mas não viu Elizabeth, que estava viajando com Charlotte.


- Bem Darcy, e você? – ela tentou soar formal. Além de nervosa estava ruborizada, lembrava-se do incidente que fez os dois se afastar e se sentiu uma boba. Como conseguiu ficar tanto tempo sem ele? Desde aquela época havia pensado cada vez menos nele, e evitava todas as conversas de Jane e de sua mãe relacionados a William, mas quando o viu ali sentiu vontade que o tempo parasse e eles voltassem àquela tarde em Pemberley. Mas seu jeito frio a fez rapidamente esquecer essa doce lembrança.


- Muito bem obrigado.


Os dois não sabiam mais o que falar, ela não queria saber como fora a viagem nem o que ele tinha feito nesses nove anos, só o que Lizzie queria era sair de perto daquele que fizera seus batimentos acelerarem como nunca mais havia acontecido. O silêncio entre os dois foi mais uma vez interrompido por Jane.


- Vamos circular um pouco, acredito que aqui não é o melhor lugar para conversar, você nos acompanha?


- Infelizmente terei que declinar o convite, tenho algumas pessoas importantes para cumprimentar.


- Ok, então, até mais William!


Ele sorriu para Jane e virou-se para Elizabeth, como ela não esboçou nem um leve sorriso ele apenas acenou com a cabeça e saiu.


- Tá louca Jane? Que história é essa de chamar esse estúpido pra ficar com a gente?


- O que tem de mais Lizzie? Eu não ia era passar a noite vendo vocês dois se olhando completamente mudos. E você mal o encontrou e já está xingando o pobre homem, por Deus Lizzie o que ele fez?


- Nós não estávamos nos olhando Jane. E de pobre ele não tem nada, ainda por cima é muito arrogante isso sim. Você não o viu falando: “...tenho algumas pessoas importantes para cumprimentar.” – ela falou num tom de chacota - Como se nós não fôssemos ninguém.


- Elizabeth Bennet, deixe de birra, é uma festa em homenagem a ele, nada mais natural do que ele ter que cumprimentar as pessoas.


- Jane, nós vamos passar a noite falando desse cara? Eu não vim aqui pra isso. Vou procurar a Char, se você quiser vir também me acompanhe.


Jane balançou a cabeça resignada, não adiantava mesmo discutir com a sua irmã. Andaram um pouco e encontraram Charlotte na pista de dança.


- Char, ainda bem que te encontrei!!


- Lizzie, você está divina!! E você também Jane, linda como sempre!


Jane sorriu e agradeceu, mas Lizzie não a permitiu continuar e emendou uma conversa com a amiga:


- Você também não fica atrás!! Estava com saudades Char, há quanto tempo não conversamos?


- A vida anda meio madrasta conosco amiga. É tanto trabalho, são tantas atribulações que nos falta tempo pras melhores coisas: divertimento e prazer! Precisamos mesmo marcar pra colocar o papo em dia. E falando em “prazer”, você está sozinha? Não vai me dizer que Lizzie Bennet está solteira?!


- Ah, não, minha querida mãe me proibiu de trazer o Hugh, disse que era uma afronta ao meu futuro marido acredita nisso?! Só nos sonhos dela mesmo que eu vou casar com aquele, aquele...


- Aquele deus de olhos azuis Lizzie!


- Char!


As três riram bastante com o comentário de Charlotte, mas não deixaram de concordar que William Darcy era realmente lindo! Charlotte já falara com Will antes, pois havia chegado mais cedo juntamente com seus pais.


- Eu falo assim Lizzie, mas você sabe que é só brincadeira. Eu sei que você não se casaria nunca com ele. A não ser claro que vocês estivessem apaixonados.


- Mas esse não é o caso e nem será Char.


- Não era isso que você dizia quando era menor, tanto você quanto William espalhavam aos quatro ventos que iriam casar quando crescessem.


- Coisa de criança Char. Apenas isso.


- Quem sabe Lizzie, quem sabe...                                


As mulheres foram interrompidas pelo garçom que trazia drinks de frutas e depois foram dançar.


William falou com algumas pessoas, mais por educação do que prazer e foi até onde seu pai e sua madrasta estavam conversando com os Bennet.


- Onde está Lizzie, Fanny? Ainda não a vi. – Fitzwilliam Darcy comentava com sua amiga. Tenho certeza de que Will a achará ainda mais linda do que na última vez que se viram.


- Eu não acredito nisso pai. – William, sem pensar, afirmou a contragosto.


Seu pai extremamente envergonhado pelas palavras de Will na frente dos pais de Elizabeth, que também ficaram estupefatos, virou para ele com um olhar interrogador.


- Se for possível – ele percebeu onde estava e forçando um sorriso emendou – eu a vi e posso garantir que ela está mais bonita ainda!!


Todos sorriram da aparente brincadeira dele e Anthony perguntou:


- Então você já viu minha princesa meu rapaz?


- Sim padrinho, nos encontramos sem querer no salão, e conversamos um pouco. Falando nisso, acredito que sejam suas princesas vindo ali.


Lizzie vinha com Jane e Charlotte para passar um tempo com seus pais, mas ao ver que William estavam com eles ia dar meia volta quando todos viraram em sua direção e ela não podia fazer mais nada senão sorrir e continuar andando ao encontro deles.


- Olá tio Fitz! Como vai Michelle?


- Oh minha querida, vejo que meu filho tem razão, você está ainda mais bela! – respondeu o tio.


Elizabeth surpreendeu-se.


- Tudo bem Lizzie? Está gostando da festa? – foi a vez de Michelle.


- Sempre adoro suas festas Michelle, está tudo perfeito! - ela sorria ainda nervosa com a proximidade a William.


- E quanto a Will? O que achou de reencontrá-lo?


A pergunta de seu tio a deixou completamente envergonhada. Charlotte percebendo o silêncio constrangedor da amiga resolveu ajudá-la.


- Voltou de vez para a Inglaterra William?


- Sim. – ele respondeu lacônico.


- Will voltou para assumir aos poucos meu lugar nos negócios e de preferência casar-se. Meu filho já é um homem feito, já está na idade de me dar netos.


William apenas sorriu sem graça com o comentário do pai e Fanny aproveitou o momento e comentou que os jovens de hoje não dançam mais, tentando estimular Will e Lizzie a dançarem.


William olhou para Lizzie com um olhar investigador, e ela percebendo que ele ia convidá-la para dançar comentou que estava muito cansada, mas antes que ela terminasse sua frase ele a surpreendeu e convidou Jane para dançar, Lizzie de certa forma ficou aliviada, mas no fundo sentia-se um pouco frustrada, afinal ele não disfarçou que não queria dançar com ela. Seu pai aproveitou e convidou-a para dançar com ele, e se dirigiram até o salão.


Dançaram umas duas músicas e Anthony falou a filha:


- Lizzie, minha querida, seu pai já está um velho, estou cansado com apenas essas músicas, acho que vou sentar um pouco.


Ela sorriu com o comentário e se ofereceu para acompanhá-lo, mas ele disse que não precisava, se dirigiu a mesa que estava sua esposa enquanto Elizabeth foi novamente procurar a irmã.


 Andou um pouco e encontrou Jane, William e Charlotte conversando animadamente com um casal de ruivos que pareciam ser irmãos. Não queria estar perto de William mais uma vez, mas não via outra saída e se aproximou do grupo.


- Oh Lizzie, que bom que nos encontrou!


Lizzie sorriu para o casal que não conhecia e Charles tomou sua mão falando num francês sedutor:


- Comment allez-vous, mademoiselle de beaux yeux noirs?* (*- Como vai senhorita de belos olhos negros?)


William aproveitou a deixa para apresentar o amigo e a namorada para Lizzie também.


- Elizabeth este são Charles e Caroline Bingley, amigos muito queridos.


- Muito prazer, Elizabeth! – Lizzie sorria com sinceridade, mas não foi tão bem recebida por Caroline que a olhou dos pés a cabeça de um jeito que não a agradou muito, e apenas acenou com a cabeça enquanto leva suas mãos as mãos de William como se dissesse: “É propriedade minha”.


Lizzie notou esse gesto também, mas preferiu não comentar nada.


Conversaram mais um pouco a contragosto de Elizabeth que queria ficar o mais distante possível daquele homem. Sem suportar mais sua própria apreensão chamou a irmã e a amiga para dar uma volta, Charlotte aceitou prontamente, mas Jane demonstrou certa dúvida, talvez porque aquele francês charmoso não tirasse os olhos dela e lhe dedicasse toda atenção possível. Charles percebeu ser o motivo da indecisão de Jane e perguntou se poderia acompanhá-las onde elas prontamente aceitaram. Mas Caroline pediu que Charles ficasse com William enquanto ela ia ao toalete, depois ele acompanharia as garotas, e assim foi feito.


Depois de andarem um pouco Lizzie percebeu que uma das presilhas que estavam no seu cabelo havia caído e estava voltando para procurar próximo do lugar onde estavam quando escutou o nome de Jane sendo pronunciado por Charles.


- Jane é uma mulher encantadora William, porque você nunca me falou dela? Se eu soubesse teria vindo a Londres há mais tempo!


- Ela é realmente muito bonita Charles, mas creio que suas outras tantas paixões o teriam impedido de vir antes. – disse sorrindo.


- A irmã dela também é muito bonita, apesar de ser completamente diferente de Jane. Caroline deve tomar cuidado, você pareceu olhá-la de uma maneira um pouco diferente.


- Perfeitamente tolerável eu diria, mas seu gênio é insuportável, nunca vi mulher mais arrogante. E eu a olhei como olho pra qualquer outra pessoa, não invente coisas Charles, você está enxergando demais.


Lizzie ficou fumaçando de raiva depois de ouvir isso. Não acreditava que aquele pedante metido a besta tinha dito aquilo dela. Foi até eles e indagou a Charles se ele tinha visto sua presilha, e notou que William ficou desconcertado quando percebeu que ela poderia ter ouvido a conversa, mas ela estava com tanta raiva que nem olhou na direção dele, diante da negativa de Charles já ia virar a costas quando William que estava olhando para o chão envergonhado da situação viu algo brilhoso parecido com a sua presilha e a avisou.


Os dois se abaixaram ao mesmo tempo pra apanhar a presilha e acabaram batendo as cabeças. Lizzie ficou tonta com a pancada e perdeu o equilíbrio, ele também sentiu um pouco de dor, mas nada muito forte, e não teve outra saída senão amparar Lizzie para que ela não caísse no chão.


Tudo que ela não queria era mais algum contato com aquele homem metido, mas não soube explicar o fato de se sentir completamente amparada naqueles braços fortes, fechou os olhos por um momento enquanto o mundo rodava e ela se deliciava com aquela sensação.


Quando ela se recuperou da tontura soltou-se dos braços dele e disse:


- Obrigada por fazer esse sacrifício de impedir a minha queda. E desculpe por tão desagradável companhia.


- Você não é uma companhia desagradável Elizabeth. – ele respondeu sem graça, tudo indicava que ela tinha mesmo ouvido a conversa.


- Ah não? Não foi isso que ouvi há pouco. Engraçado, é incrível como você acha que me conhece. Me vê por menos de 20 minutos e já é capaz de dizer que eu sou arrogante e tenho um péssimo gênio, nossa não sabia que estava diante de um especialista, bastante incompetente por sinal, visto que não foi capaz de analisar minha personalidade de maneira correta. É uma pena, se dependesse desses seus dons você não daria certo na profissão de vidente!


- Eu não tentei analisar você, só falei o que penso, não tenho costume de mentir. Você que foi mal educada ouvindo a conversa dos outros.


Charles já estava incomodado com aquela situação, nunca tinha visto o amigo tão alterado, e nada do que ele falasse tirava os dois daquela troca de acusações, era como se ele nem estivesse lá.


- Eu ouvi sem querer, ao contrário de você que me ofendeu propositalmente. Posso saber então no que você se baseou pra me julgar desta maneira Sr. William Darcy?


- Me baseei no que eu conheço de você, pelo que nós convivemos Srta. Elizabeth Bennet.


- Pois eu sinto lhe informar que você não pode falar do que você não conhece mais. Se você não lembra muitos anos se passaram e a Elizabeth que você conheceu não existe, as pessoas mudam senhor. “Os sentimentos mudam” – ela completou em pensamento.


Disse a última frase e deu as costas aos dois, queria sair de perto daquele homem o mais rápido possível. Como alguém poderia lhe incomodar tanto? Lizzie sentiu alívio ao sair da pequena discussão com William, mas não sabia para onde ir nem o que pensar.


Charles não entendeu nada, mas Caroline logo chegou e ele evitou fazer mais perguntas, apenas se dirigiu até onde Jane e Charlotte estavam. Lizzie logo as encontrou e aos poucos foi se acalmando, ao observar as atenções que o francês dirigia a Jane, Charlotte e Lizzie foram aos poucos se afastando e deixaram os dois a sós. Após o jantar as amigas estavam tentando combinar o melhor dia e horário para darem uma volta pelo shopping quando encontram com seus pais.


- Papai, já estou cansada, trabalhei o dia todo, acho que já vou pra casa. – disse Elizabeth, tentando não pensar que a pequena discussão que tivera com William era o verdadeiro motivo dela querer ir embora.


- Minha filha espere mais um pouco, acompanhamos você até seu apartamento e depois seguimos pra casa. Não considero seguro você dirigir esta hora da noite.


- Não há o que temer papai, mas se você fizer questão e não demorar muito eu posso esperar. Vou até o banheiro, depois nos encontramos. Me acompanha Charlotte?


- Vou esperar Jane, quando você voltar estaremos aqui.


Jane e Charles conversavam animadamente quando Char se aproximou deles e avisou que seus pais já estavam pensando em ir embora, depois foi para junto do Sr e da Sra. Lucas.


Charles não disfarçou seu ar de contrariedade.


- Você não quer ficar mais Jane? Tenho certeza que eu e William poderemos deixar você em casa mais tarde.


- Oh não Charles, é melhor ir com meus pais, não desejo tirar William de sua própria festa.


- Se você pensa assim tudo bem, mas se eu soubesse me localizar em Londres não deixaria você ir embora agora! Nós nos veremos de novo?


- Possivelmente, minha família e o pai de William são muito próximos.


- Mas se eu tivesse o seu telefone esse possivelmente poderia virar uma certeza não? – ele disse sorrindo.


- Talvez – ela respondeu enigmática, enquanto procurava seu cartão na bolsa – fique com o meu cartão, quem sabe podemos combinar alguma coisa?


- Quem sabe? – ele deu um beijo na sua bochecha enquanto segurava de leve em sua cintura.


O banheiro do térreo estava ocupado e havia mais algumas pessoas esperando, Georgianna passou perto de lá e viu que Lizzie queria usar o banheiro.


- Lizzie, suba e use o banheiro de algum dos quartos. Não tem ninguém lá em cima.


- Oh Georgie, obrigada, já não estava mais agüentando, os drinks estão fazendo efeito, preciso de um banheiro com urgência - cochichou sorrindo enquanto subia as escadas deixando Georgie sorrindo sozinha.


Lizzie entrou na primeira porta que encontrou, era um quarto bastante espaçoso e tinha uma porta do lado esquerdo, ela foi até lá e a abriu dando de cara com o banheiro, depois de resolver seu “problema” deu uma olhada no espelho e ficou se admirando um pouco.


“Essa festa já chegou ao fim para mim. Estou exausta e de saco cheio das besteiras que ouvi de William. Minha vida estava tão tranqüila, o que esse cara queria voltando para cá?”


De repente começou a tocar uma música que Lizzie amava, ela saiu do banheiro e olhou pra enorme cama de casal convidativa na sua frente. “Eu acho que esse quarto é de hóspede”, ela pensou depois de perceber que não havia nenhum cosmético ou qualquer indício de sua ocupação no banheiro. “Vou ficar aqui deitada esperando a hora de ir embora ouvindo essa música, melhor do que descer e agüentar a cara daquele metido.”


Deitou na cama e fitou o teto, pensando no que poderia fazer para esquecer o que William havia dito sobre ela.


- Fanny, onde está Lizzie? – Anthony perguntou.


- Não sei meu querido, já faz algum tempo que não a vejo.


- Será que ela já foi?


- Eu acredito que sim, deve ter saído de fininho.


- Mas eu pedi que ela nos esperasse, vamos dar uma última olhada.


Procuraram Lizzie entre as poucas pessoas que ainda se encontravam na festa e como não a encontraram foram para casa a acreditando que ela tinha mesmo ido embora.


Pouco tempo depois a família Darcy despediu-se dos últimos convidados e recolheu-se. Caroline e Charles ficaram cada um em um quarto, mas Caroline estava inconformada, pois queria dormir no quarto de seu namorado.


- Por que não podemos ficar no mesmo quarto William?


- Eu já te expliquei Caroline, meu pai não ia gostar, não custa nada ficarmos separados uns dias.


- Mas William, você não é um garoto, isso é muita besteira.


- Besteira ou não são as tradições do meu pai, e eu respeito isso, se você não é capaz de entender então não é a mulher certa pra mim.


Caroline disfarçou a contrariedade e se enroscou no pescoço do namorado.


- Não meu amor, eu entendo sim – disse a contra gosto – mas vou sentir sua falta todas as noites.


- Também vou sentir sua falta, mas passaremos o dia juntos ok? Agora vamos deitar, estou bastante cansado. Deixou Caroline no quarto dela e se despediram com um selinho, frio demais na opinião de Caroline.


Darcy entrou no seu quarto e deu de cara com Elizabeth deitada em sua cama. Não sabia o que pensar, mas com certeza pelas atitudes hostis dela com ele não acreditava que ela estava ali de propósito. Imaginou que ela subiu para descansar um pouco e acabou adormecendo. Pensou em acordá-la, mas achou que era tarde para que ela voltasse para casa sozinha, então resolveu deixá-la dormindo lá e ele iria para o quarto de hóspede. Antes disso tirou suas sandálias e a cobriu com o lençol. Fitou seu rosto no quarto em penumbras e viu o quanto ela era linda, pena fosse tão zangada, tão orgulhosa, tão arrogante... Decidiu não pensar mais nisso e seguiu para o quarto ao lado.


Na manhã seguinte Lizzie acordou com o sol batendo em seu rosto, virou-se na cama, abrindo lentamente os olhos, de repente percebendo que não estava no seu quarto. Levantou-se bruscamente.


“Droga, não acredito que peguei no sono!”


De repente a porta do banheiro do quarto se abriu e William apareceu com apenas uma toalha branca presa na cintura. Elizabeth sem entender nada perguntou:


- O que você está fazendo aqui?! E de toalha?


Ele respondeu sorrindo:


- Eu estava tomando banho no banheiro do MEU quarto! Aliás, eu acho que você deveria responder a essa pergunta e não eu. – ele indagou levantando levemente a sobrancelha.


- Esse é o seu quarto? – ela não conseguia imaginar nada pior do que aquilo, estava completamente envergonhada, o rosto completamente amassado, com cara de sono e cabelo assanhado e ele estava ali na frente dela só de toalha. Era muita falta de sorte pra uma pessoa só – Eu, eh, Georgianna me trouxe ontem porque os banheiros do térreo estavam todos ocupados, combinamos de nos encontrar lá em baixo, mas sentei na cama comecei a ouvir música, acabei deitando e peguei no sono. Desculpe Darcy, eu não sabia que este quarto era o seu.


Lizzie olhava para ele como se estivesse hipnotizada, aqueles braços fortes na medida certa, aqueles ombros largos, seus músculos definidos com pequenas gotículas de águas escorrendo do seu cabelo molhado e descendo pelo peito e pela barriga até chegar à toalha era uma visão simplesmente perfeita.


“Meu Deus preciso ir embora, devo estar enlouquecendo” - ela pensou.


Ele a observava enquanto ela olhava para o seu corpo. “Devo estar agradando!”, ele deduziu pelo olhar dela e esboçou um leve sorriso. Tirando-a do devaneio perguntou:


- Passou bem à noite? Espero que eu não a tenha incomodado. Geralmente não tenho o hábito de roncar, mas às vezes, como foi o caso, quando estou muito cansado isso acontece, e se isso aconteceu espero que você um dia possa me desculpar!


- Você dormiu aqui?? – ela perguntou levantando-se de uma vez.


- Onde mais eu dormiria Elizabeth?? Não ficou claro pra você ainda este é o meu quarto.


- William Darcy, eu não acredito que você fez isso. Por que você não me acordou quando veio dormir?


- Ora Elizabeth, cansamos de dormir aqui quando crianças, eu, você, Jane e Georgianna, que mal há? Além do mais você parecia um anjo dormindo, não tive coragem de lhe acordar.


Lizzie se lembrou de algumas vezes ter dormido na casa do tio. Ela, William, Jane e Georgie brincavam até a exaustão e acabavam dormindo na mesma cama. Mas isso era há muito tempo atrás e aquela era uma situação completamente diferente. Ela não lembrava que o quarto era aquele, pois ele estava completamente mudado, não havia nenhum resquício da infância. O quarto era o primeiro do longo corredor da casa dos Darcy. Da porta de entrada era possível ver duas portas de vidro que ao se abrirem ofereciam uma varanda e uma linda visão da piscina e da área de lazer. No meio do quarto estava a enorme cama de casal com dois criados mudos com um abajur em cada, um de cada lado da cama. Do lado esquerdo ficava o closet com prateleiras de madeira bem clássica nas cores branco e tabaco.


Havia ainda uma porta que antigamente era o quarto de brinquedos, e agora dava lugar a um escritório. Em frente à cama havia um rack ocupado com um aparelho de som moderno, mas não muito grande na parte de baixo e uma enorme TV de LCD em cima, além do aparelho de DVD.


Porém o que irritava mais a Lizzie era o fato dele tratar essa situação como normal, ela não podia acreditar que aquilo estava acontecendo.


- William, nós somos dois adultos e você sabe muito bem disso. Eu não posso acreditar que você tenha dormido aqui mesmo. Há mais de 10 anos não dividimos a mesma cama, nem mesmo a mesma casa e você há de convir que eram circunstâncias distintas. E me desculpe mais uma vez pela intromissão, não tive a intenção de dormir no seu quarto.


Ela já nem sabia se deveria pedir desculpas, claro que ela dormira ali sem querer, mas o fato dele não a ter acordado e ter dormido na mesma cama que ela a aborrecia profundamente. E depois de ter calçado suas sandálias despediu-se mal humorada enquanto se dirigia para a porta. Ele imaginou se deveria convidá-la para tomar café para irritá-la ainda mais, mas preferiu não fazê-lo. O fato dela acreditar que eles dormiram na mesma cama já bastava pra deixá-la com muita raiva e ele, lógico, achava muita graça naquilo.


Lizzie desceu as escadas rezando para não encontrar seu tio Fitz ou Michelle, e principalmente Caroline, mas Georgianna estava na sala e a viu passar.


- Lizzie? – ela chamou a amiga, surpreendendo-se com sua presença em sua casa naquela manhã com a roupa da festa.


- Oi Georgie! Você não acredita no que aconteceu. – Lizzie estava prestes a chorar de tanta raiva que sentia dela mesma por ter dormido na cama de William, e pior, com William – depois que você me levou lá em cima acabei pegando no sono, acabei de acordar e dei de cara com seu irmão de toalha, e ele disse que dormimos na mesma cama.


Georgianna achou graça do desespero da amiga, mas não acreditava que William tivesse realmente dormido na cama dele com ela.


- Lizzie, digamos que acordar com uma visão dessas não é tão ruim hein? Modéstia a parte meu irmão é lindo! – falou sorrindo – mas não acredito que ele tenha dormido com você, ele deve ter dito isso só pra te irritar. Conheço meu irmão, ele adora curtir com a cara de todo mundo!


- Será Georgie? – Lizzie se perguntava se ele seria capaz disso só para aborrecê-la, fazia tempo que não o via, e ele realmente aprontava muito com elas quando crianças, mas agora parecia tão sisudo e compenetrado. Talvez ela tivesse se enganado.  – Bem, mas agora não importa, tenho que ir para casa.


- Venha comer alguma coisa antes Lizzie, não quero que você saia de barriga vazia.


- Obrigada Georgie, mas não vejo a hora de chegar em casa. Beijo, a gente se vê!


- Lizzie, só mais uma coisa, depois do almoço vamos para Pemberley, ficaremos lá até amanhã, você não gostaria de ir?


Elizabeth não suportaria mais tanto tempo na presença de William Darcy, e mesmo adorando Pemberley resolveu inventar uma desculpa para a amiga.


- Não dá meu bem, tenho umas coisas do trabalho para ler, deixa pra próxima tudo bem?


Dito isso deu um abraço na amiga e se dirigiu ao seu carro.

 

Continua....

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