Collide by Howie Day
Fanny Bennet precisava urgentemente falar com sua filha mais nova, no entanto Elizabeth já não morava com sua família. Há cerca de um ano Lizzy, como era chamada pelos amigos e familiares, estava morando em um apartamento na área central de Londres, ficava, dessa forma, mais perto de seu trabalho e ao mesmo tempo tinha mais privacidade, não dando tanta satisfação da sua vida aos pais, principalmente à mãe.
A mulher queria que a filha mais nova fosse jantar em sua casa naquela noite, mas sabia que ela não atenderia a um pedido daqueles no meio da semana se não houvesse um motivo forte e resolveu apelar para sua primogênita, Jane Bennet.
- Jane meu bem, telefone pra Lizzie, convide-a para jantar conosco hoje e diga a ela que não aceito um não.
- A senhora realmente acha que a Lizzie vem aqui só porque a mãezinha querida dela mandou dizer que não vai aceitar um não? – Jane ironizou.
- Claro que não, você vai acrescentar que tem algo muito importante, um segredo ou coisa assim, para contar a ela, e como sei que minha filha peca pela curiosidade vou aproveitar-me disso.
- Vou subir e ligar do meu quarto. – disse a filha.
- De jeito nenhum, ligue daqui, e da minha frente, sei muito bem sua intenção em ligar do quarto. – A matriarca da família conhecia o suficiente as filhas e suas artimanhas, elas se davam muito bem e eram muito amigas, apesar de estarem morando separadas. Sabia que se Jane ligasse do quarto o recado não chegaria a Elizabeth da forma como ela pretendia, e naquele momento não poderia deixar de intervir, precisava realmente falar com sua Lizzie.
Elizabeth havia saído de casa e ido morar sozinha porque precisava de um pouco mais de liberdade, a superproteção de sua mãe a sufocava, o que fazia com que ela fosse à residência dos seus pais apenas em alguns finais de semana, principalmente para ver Jane e seu pai. Lizzy amava sua mãe, mas eram diferentes demais para conviverem juntas sem atritos. Fanny era uma mulher expansiva e alegre, mas suas maneiras exageradas incomodavam um pouco as filhas.
Sem alternativas Jane acabou agindo de acordo com a vontade de sua mãe, falando com Lizzie e convidando-a para um jantar na casa de seus pais, pois ela tinha algo que precisava conversar com a irmã, que por sua vez não imaginava o que Jane queria em particular, já que ela se negara a adiantar o assunto. Elizabeth então aceitou o convite, garantindo que estaria na residência dos pais entre sete e trinta e oito horas.
Lizzie havia se graduado em Psicologia, estava fazendo Mestrado em Educação e trabalhava numa escola, além disso, era voluntária de um abrigo de idosos fundado por sua mãe Fanny Bennet e sua amiga Anne Darcy. Tinha consciência de que em poucos meses deveria diminuir o ritmo de trabalho e se dedicar outra vez exclusivamente aos estudos, pois precisava entrar no campo de pesquisa e defender sua tese. Para isso estava treinando duas estagiárias para ficar em seu lugar na escola enquanto ela não retornasse.
Elizabeth saiu do trabalho e andou a até a estação de metrô que não ficava muito distante. Cerca de quarenta minutos depois chegou à casa dos pais, que ficava num bairro residencial de classe média alta relativamente distante do centro de Londres.
Chegou pouco antes do horário previsto e entrou em casa fazendo algazarra, ansiosa por encontrar a irmã e indagar sobre o tal assunto que a deixara o dia todo curiosa.
- Oh Lizzie, você não sabe tocar a campainha ou chamar alguém? Já chega com esse alvoroço todo? Parece que não cresceu! – sua mãe reclamou.
- Mãezinha me perdoe! – ela disse carinhosa enquanto abraçava a genitora - Mas eu ainda tenho a chave dessa casa, não preciso tocar a campainha. A não ser que... Huuuumm, a senhora está com os cabelos um tanto assanhados, o que estava aprontando hein?? Cadê o papai? Eu estou atrapalhando alguma coisa?!?!? – provocou.
- Como ousa Lizzie?!? Menina insolente!!! – Lizzie gargalhava vendo a mãe corar!! - Eu estava dando algumas orientações na cozinha sobre o jantar e ainda não tive tempo de me arrumar.
- Hum, me desculpe mais uma vez minha donzela! Onde está papai, e Jane? Acho que preciso conversar com ela.
- Seu pai está no escritório e sua irmã está no banho. Vamos sentar um pouco na sala, na verdade sou eu que quero falar com você.
Elizabeth suspirou desconfiada. Algo lhe dizia que aquele chamado inesperado talvez não fosse boa coisa. Falava com Jane quase todos os dias pelo telefone e ela nunca se referiu a nada em particular que necessitasse sua presença em casa, e agora, culpada por ter ignorado sexto sentido descobriu que se tratava de mais um “plano” de sua mãe.
- Bem que eu desconfiei que havia algo estranho no ar quando Jane ligou pra avisar desse jantar em plena quarta-feira. – resmungou enquanto se jogava no sofá.
- Lizzie, é sério. – Fanny falou com a face severa.
- O que houve mãe, por acaso tem alguém doente?
- Não Lizzie, não tem ninguém doente, na verdade é uma comemoração. – Lizzie não entendeu, e estava tão curiosa que preferiu não perguntar nada e ouvir de uma vez tudo que sua mãe queria dizer.
- Seu tio Fitzwilliam ligou para cá no início da semana para avisar que William chegará da França na sexta feira e nos espera para uma festa em sua homenagem.
Ela não teve tempo de pensar nas conseqüências daquela frase e reagiu impulsivamente como sempre fazia quando não queria demonstrar que estava nervosa.
- Então o filho pródigo está de volta? – zombou, tentando parecer tranqüila frente aquela informação.
- Não é só o “filho pródigo” que está de volta Lizzie, é William Darcy que está de volta. – sua mãe enfatizou.
Sem perceber Lizzie focou um ponto qualquer na parede e por alguns segundos uma enxurrada de lembranças lhe veio à consciência, toda a história que ela várias vezes escutara e mais vezes ainda sonhara, quando era uma adolescente romântica e sonhadora: ela e William, nascidos um para o outro, casando-se numa linda cerimônia em Pemberley, a propriedade dos Darcy, e sendo felizes para sempre. Mas há muito tempo não via William, ele deveria ter se tornado mais antipático e desagradável do que já era quando fora embora para a França anos atrás, e ainda por cima ela era uma adulta que deixara de acreditar em idéias românticas e contos de fada, e não via sentido num casamento planejado por duas crianças.
- Como assim, “É William Darcy que está de volta”? – ela perguntou depois do que pareceu um curto período de tempo.
- Ora minha filha – Fanny falava como se dissesse algo óbvio – você nunca deixou de gostar dele, isso é evidente. É a oportunidade perfeita para vocês dois reatarem o compromisso de antigamente.
- Mãe, eu acreditei que o tempo faria com que vocês tivessem esquecido essa história! – ela falou tentando parecer tranqüila - Eu não gosto e nunca gostei do seu afilhado, não éramos nada além de amigos, e hoje nem isso nós somos, eu nem lembro a última vez que falei com ele. – mentiu – E nunca existiu compromisso nenhum, éramos apenas duas crianças sem noção do que falávamos.
Neste momento o Sr. Bennet entrou na sala ouvindo parte da conversa.
- Lizzie, meu bem, pelas suas últimas palavras que inadvertidamente escutei percebo que sua mãe já a colocou a par das últimas novidades.
- Oh papai! Que saudade! – Enquanto levantava-se para abraçá-lo esperava um olhar acolhedor do pai, que se limitou a franzir a testa. – Faça com que mamãe seja sensata pelo menos uma vez na vida e enxergue as coisas absurdas que ela acaba de proferir!
Para evitar o desespero, Lizzie estava procurando achar graça na história toda. Pensava que o tempo apagaria a impressão que os dois adolescentes deixaram em suas famílias, nunca passou pela sua cabeça que alguém ainda levaria a sério um compromisso formado entre duas crianças inocentes. Dessa maneira decidiu não discutir com sua mãe, afinal de nada adiantaria, era melhor esperar até que ela verificasse com os próprios olhos que aquilo não passava de uma brincadeira infantil que ficara no passado.
- Lizzie, eu não estou brincando. Quero você esplêndida nessa festa, se precisar use o cartão de crédito do seu pai, mas quero você a mulher mais bonita da noite.
- Muito bem, mãe, vamos aguardar a chegada do príncipe encantado em seu cavalo branco vindo sei lá de onde com um enorme anel de brilhantes e veremos onde isso vai dar tudo bem? – ela tinha certeza que nunca mais seria nem colega de William e esperava que as pessoas enxergassem isso - Quanto à roupa não se preocupe, não pretendo envergonhá-la, mas não posso ir mais bonita que os anfitriões, não é? E vamos jantar, pois estou morrendo de fome!
Naquele momento Lizzie preferiu fazer-se de vencida para não bater de frente com a mãe, mas sabia que nem ela e principalmente o homem que chegaria dentro em breve faziam nenhuma questão de terem o mínimo contato, muito menos ter qualquer tipo de relacionamento amoroso.
Encaminharam-se para mesa e encontraram Jane no meio do caminho, descendo às escadas. As irmãs se abraçaram afetuosamente e Jane percebeu só de olhar que algo acontecera e deixara a irmã pensativa.
As novidades haviam deixado uma forte impressão em Elizabeth. Querendo ou não ela ia ficar martelando esse assunto na cabeça por vários dias, até que o embate entre ela e William finalmente acontecesse.
Na mesa elegantemente posta além Filé a Parmeggiana que Lizzie tanto gostava sua mãe também havia providenciado suflê de maracujá, sua sobremesa predileta. Talvez uma forma inconsciente de adoçar e amansar a filha mais nova.
Após o jantar Lizzie escapou para a biblioteca atrás do pai depois que sua mãe foi até a cozinha.
- Papai, aquela história é só coisa da cabeça fértil da mamãe não é? – Lizzie sorria para o pai disfarçando o nervosismo.
- Minha filha, embora eu me lembre muito bem das brincadeiras da infância de vocês, é claro que eu sei que eram apenas coisas de criança, hoje vocês dois são adultos, e o passado já passou, como o próprio nome diz. Mas vamos aguardar a chegada de William, ele também é um dos interessados nisso, talvez ele possa fazer você mudar de idéia.
- Papai! O que é isso? Não nos vemos há, o que, cerca de oito ou nove anos, é muito tempo. Ele nem deve lembrar-se de mim, o que dirá da nossa infância.
- Vamos aguardar Lizzie. E que eu me lembre quando ele veio passar o Natal aqui há uns cinco anos e você estava na Suíça de férias, sua mãe, e confesso que até eu o achei um rapaz bem garboso e galante. E ouso dizer que tenho um pressentimento que vocês vão se dar muito bem.
- Tudo bem pai, não farei nada, por enquanto, mas sei que não vou mudar de idéia, minha vida está muito boa, não pretendo mudá-la. – despediu-se do pai com um beijo e rumou para a sala para se despedir de Jane e Fanny. Já na saída sua mãe lembrou-lhe:
- Lizzie, as nove em ponto na casa de seu tio Fitz sexta-feira mocinha, e nada de acompanhantes ouviu?
- Mãe Hugh não é meu acompanhante, é meu namorado há um ano!
- Não quero saber Lizzie, você não vai levar um homem à festa do seu futuro noivo.
Lizzie segurou um grito de insatisfação, sua mãe não tinha noção do mundo às vezes. Quem em sã consciência casava-se com um namoradinho de infância que não via há nove anos e não tinha nenhum contato? Decidida a não pensar mais nisso ligou o som do MP3 assim que entrou no táxi pedido por seu pai e seguiu para casa.
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