Trilha sonora:
Don't Let Me Down by The Beatles
A semana estava passando mais rápido do que Lizzie esperava, e logo a sexta chegaria. Extremamente sem graça ela pensava em ligar para Hugh pra tentar explicar que tinha de ir a uma festa na sexta à noite e não poderia levá-lo. Torcia para que o namorado tivesse show no mesmo horário e não pudesse comparecer.
Hugh e Lizzie namoravam havia um ano, se conheceram através de Charlotte Luccas, amiga de Lizzie que na época estava saindo com um amigo dele. Era seu relacionamento mais longo, Hugh tocava guitarra numa banda de Londres chamada “Garage’s Band”, fazia um som meio underground de rock pesado que não era bem o estilo de Lizzie, e tinham quase nada em comum, mas ela gostava do jeito carinhoso dele, seu olhar de eterno menino carente, sua mania de surpreendê-la, e uma coisa Lizzie não poderia negar, no início do namoro o corpo a corpo entre eles era muito bom, o que não acontecia com freqüência nos últimos tempos mas ela acreditava que era apenas uma fase ruim entre os dois que logo passaria.
Na verdade dificilmente saíam juntos, a não ser para comer ou ir ao cinema já que tinham gostos extremamente diferentes, Lizzie trabalhava o dia todo e Hugh quase todas as noites.
Por muitas vezes Lizzie se sentia sozinha e não via sentido naquela relação, mas gostava muito dele, mais do que todos os outros namorados que tivera. Além disso, os momentos que passavam juntos às vezes compensavam a solidão, e quando pensava em terminar o relacionamento pesava os pontos negativos e positivos e sempre os positivos levavam vantagem.
Depois de ensaiar o que falaria tomou coragem e ligou. Discou direto para seu celular, pois ele dividia um apartamento com amigos e ela preferia falar diretamente com ele. No segundo toque ele atendeu.
- Oi Liz! - falou com uma voz sonolenta.
Ela percebendo que o havia acordado se arrependeu de ter ligado, mas teria que continuar.
- Acordei você?
- Não, apenas tirou-me do pesadelo que é viver ser a sua voz!
- Bobo!
- Não nego, serei um bobo eterno de tanto amor que eu tenho só pra você...
Lizzie sorriu com mais essa declaração, mas respirou fundo e continuou.
- Hugh eu queria saber se você vai trabalhar sexta. Michelle e tio Fitz vão dar uma festa e eu serei obrigada a ir e...
- E você quer que eu te ajude a suportar a noite de tédio da festa familiar? – Hugh interrompeu - Bem, apesar de você saber que eu detesto essas festas engomadinhas eu faço esse pequeno sacrifício se na volta eu puder passar a noite com você no seu apartamento.
Lizzie gelou, no fundo esperava que ele tivesse compromisso ou não quisesse ir. Tinha que consertar aquilo tudo.
- Sabe Hugh, na verdade é uma festa bem familiar mesmo e eu não sei...
- É o que estou pensando? – ela não sabia o que dizer quando ele continuou – você está me convidando para uma festa bem familiar? Isto significa que você cedeu aos meus encantos e resolveu aceitar meu pedido de casamento?
Lizzie achou que um buraco estava se abrindo sob seus pés, “Oh céus, esse papo de casamento de novo?” – pensava já se angustiando.
Muitas vezes Charlotte dissera a Lizzie o quanto sua sinceridade poderia ser perversa. Quando pressionada Lizzie falava todas as verdades que vinham à sua cabeça, doesse a quem doesse, e isso às vezes a colocava em situações desagradáveis, mas ela não conseguia segurar. Pensou que ia explodir quando disse:
- Na verdade, eu estou te ligando pra avisar que irei somente com meus pais e Jane pra festa, mamãe faz questão que eu faça companhia a eles e isso me impediria de te dar atenção.
Depois disso só escutava a respiração de Hugh. “Ele deve estar com ódio de mim, mas eu não tive culpa, ele não esperou eu falar”.
- Tudo bem Lizzie. Sem problemas. Ligue-me quando você quiser realmente me ver.
- Hugh, você está chateado?
- Não, só fico a procura da verdadeira razão pela qual você não quer me levar nessa festa. Eu sei que sua mãe não gosta de mim, mas já freqüentamos outras festas como essa e pensei que ela tivesse superado esse “pequeno problema” – ele alfinetou.
- Mamãe tem os motivos dela Hugh, eu espero que um dia você entenda.
- Eu talvez entenda, se um dia você resolver me explicar. E sei que pode ser difícil pra sua mãe aceitar a princesinha do castelo de cristal dela se casar com um músico, guitarrista de uma bandinha qualquer, sem casa própria, que só possui uma moto velha, sem ambições de fortuna que adora tatuagem, embora seja discreto o suficiente para não parecer um punk e rebelde sem causa, mas se ela soubesse o quanto eu a amo e a faço feliz ela talvez mudasse de idéia, mas acredito que cabe a você explicar.
- Não é nada disso que você está supondo, mas já está mesmo na hora de você saber o motivo da birra da mamãe com você, a gente se vê no fim de semana e conversa sobre isso... Então, depois a gente se fala, ok?
- Lizzie?
- Oi?
- E quanto à segunda parte da proposta?
- Qual parte?
- A de dormir no seu apartamento? – Lizzie considerou que depois de agüentar a presença indesejada de William Darcy e os exageros de sua mãe durante a festa merecia uma festinha particular em casa e aceitou essa parte da proposta!
- Ok, vou deixar a chave na portaria, você me espera em casa pode ser?
- Claro que sim, apesar de tudo você salvou a minha sexta! Amo você!
- Eu também... – ela falou depois de um curto espaço de silêncio e desligou completando para si mesma – ...eu acho.
Nem ela sabia se ele a fazia realmente feliz, não que fosse triste, mas às vezes achava que faltava algo, que ele garantia serem os filhos, nesses momentos ela não discordava, era um assunto delicado e ela preferia não comentar.
Depois da tensa conversa com o namorado ela não queria mais pensar sobre isso, colocou a banheira para encher, derramou os sais, ligou o som e despiu-se, entrando na banheira enquanto achava graça do seu corpo arrepiando devido ao contraste do frio da cidade com a água quente da banheira, fechou os olhos e, embalada pela música que tocava na rádio e tentando esquecer a conversa começou a relembrar de onde toda essa história com William começara.
Fitzwilliam Darcy e sua esposa, membros de uma abastada e tradicional família inglesa, ele por nascimento e ela por matrimônio eram amigos dos Bennet desde a adolescência. Fitzwilliam fizera o ensino fundamental com Fanny, e eram muito amigos, mas acabaram perdendo o contato, anos depois ele dividia um quarto no alojamento universitário com Anthonny quando descobriu que ele estava namorando sua antiga colega de escola, que por sua vez o apresentou a sua melhor amiga, Anne. Algum tempo depois os dois casais contraíram matrimônio e mantinham sua amizade até os anos atuais.
Pouco depois do casamento, na metade do mês de agosto, Anne Darcy deu a luz a um saudável e lindo garoto de olhos de um azul límpido e levou parte do nome do pai, já que Anne sabia que não iria agradar ao filho receber o nome de Fitzwilliam e batizou-o como William Darcy apenas. Os convidados para padrinhos foram seus melhores amigos Anthony e Fanny Bennet.
Após dois anos Fanny deu a luz a uma menina loira dos olhos verdes que foi chamada de Jane, e no ano seguinte o casal Bennet recebeu outra linda garotinha da dona cegonha a quem chamaram de Elizabeth. Seis anos depois, após uma gravidez e um parto muito difícil a Sra. Darcy deu a luz a um bebê loiro com feições angelicais, mas infelizmente pouco tempo depois do parto ela não resistiu e faleceu, porém antes dessa tragédia ela conseguiu trocar breves palavras com o esposo e com os Bennet, que não saíram em nenhum momento do Hospital enquanto não tivessem notícias a respeito da amiga.
Sabendo que não lhe restaria muito tempo de vida a senhora fez com que sua melhor amiga Fanny prometesse olhar por seus filhos William e a recém nascida Georgianna, a quem a mãe pouco conseguiu ver. Fanny foi pega de surpresa, pois sabia que seu compadre e amigo era um pai exemplar, mas não ousou negar um último pedido a aquela a quem tanto amava.
Ainda surgem lágrimas aos olhos de Fanny quando ela se lembra das palavras utilizadas pela amiga.
“– Fanny, pode parecer um absurdo, mas acredite em mim, Fitzwilliam talvez não consiga lidar com a minha ausência. Meu Will tem apenas nove anos, ele não está preparado para viver sem uma mãe, temo pela situação dele sem mim. Meu amado marido é o melhor dos homens, mas minha ausência poderá fazer com que ele se torne cada vez mais ausente de casa, e meus filhos sofrerão as conseqüências disso. Eles vão precisar muito de você nesse momento, olhe por meus filhos, ame-os como se fossem seus.”
A Sra. Bennet entendia os argumentos da amiga, mas não sabia o que dizer num momento como aquele.
"– Prometa-me Fanny.”
“– Sim, minha amiga, eu prometo, farei de tudo que estiver ao meu alcance para...”
A Sra. Bennet não conseguiu terminar a frase. Os olhos de Sra. Darcy se fecharam e sua mão que estava segurando as mãos de Fanny afrouxou-se. Fanny não sabia como reagir, estava em choque, dor tão grande como aquela só sentira com a morte de sua mãe, há mais de cinco anos atrás. O Sr. Darcy estava inconsolável, sua expressão dura e fria que todos conheciam muito bem havia voltado a sua face.
Fitzwilliam Darcy era um jovem muito austero e orgulhoso e vinha de uma família muito rica e nobre que foi contra seu casamento, mas seu amor por aquela jovem bela e simples o fez enfrentar a tudo e a todos. Seus pais observando que o casamento deixara o filho muito mais alegre e vivaz aos poucos foram cedendo e no fim também estavam encantados por Anne, apenas sua irmã Catharine continuou sem gostar dela, mas isso não influenciava a vida do novo casal.
A morte tão prematura de sua amada esposa deixou Fitzwilliam sem nenhuma alegria, e nem seus filhos o faziam sentir vontade de viver. Demorou muito para aceitar ver sua filha Georgianna, e não pensou duas vezes quando Fanny se ofereceu para levar as crianças para sua casa e cuidar deles pelo tempo que o pai precisasse, enquanto ele afundava-se no trabalho para tentar esquecer aquela dor.
A madrinha de seu filho mais velho era a típica mãezona, se pudesse mantinha todos ao seu redor e aos seus cuidados, suas filhas não lhe davam tanto trabalho, e, apesar dos acontecimentos sentia prazer em levar Georgianna e William para sua casa, principalmente a menina, sabendo que seu pai ainda não tinha condições de amá-la como ela deveria. William por sua vez ainda era muito pequeno para viver tão sozinho naquela mansão enorme e agora tão vazia sem sua mãe.
Ele e Lizzie sempre se deram muito bem, e agora que viviam na mesma casa a bagunça das brincadeiras só paravam quando os dois estavam na escola ou nos momentos em que a saudade tomava conta de Will, momentos esses que Lizzie não deixava demorar muito, pois logo puxava Will pelas mãos e carregava-o para uma nova brincadeira. Jane tinha idade mais próxima de William e também brincava com os dois às vezes, mas tinha um temperamento mais calmo, preferia ajudar a mãe nos cuidados com Georgianna.
O tempo foi passando e próximo ao Natal Fanny resolveu organizar uma pequena reunião, convidando alguns amigos e vizinhos próximos e Fitzwilliam, que raramente via os filhos.
- Fanny, meu bem, você acha realmente necessário dar uma festa? Há pouco mais de oito meses Anne nos deixou. – falou um preocupado Sr. Bennet.
- Ora Anthony, não podemos fazer nada além de viver diante da partida de Anne. A dor de sua perda sempre vai nos acompanhar, mas ela não nos perdoaria se parássemos nossa vida por causa de sua ausência. Conheci minha amiga o suficiente para saber que a alegraria sobremaneira se ela pudesse nos ver tão felizes! Além do mais já está na hora de Fitzwilliam sair desse isolamento e dessa depressão, amo Georgianna e Will como se fossem meus próprios filhos, e me doerá muito se me forem tirados, mas essa temporada das crianças aqui em casa já dura tempo demais, e é necessária a presença deles para encher novamente de vida a casa e o coração de Fitz.
- Tudo bem minha querida, você me convenceu.
- Agora pegue este telefone e ligue para Fitzwilliam confirmando sua vinda, e lembre-se de dizer a ele que se ele não vier por suas próprias pernas não me responsabilizo por meus atos!!!
- Ele a conhece o suficiente para acreditar em cada ameaça sua Fanny! Não se preocupe, vou telefonar neste instante! – ele sorriu.
Fitzwilliam não ficou propriamente feliz com o convite, mas entendia as razões de Fanny para realizar este evento. Seria doloroso para ele enfrentar o primeiro Natal sem Anne depois de dez anos de casamento, mas faria isso por seus filhos, principalmente Will, já que Georgianna sequer conhecera a mãe. Além disso, conhecia Fanny bem demais para saber que ela era capaz de atravessar a cidade com todo o frio característico da época levando os comes e bebes e as crianças para seu escritório e realizar a ceia de natal lá, só para obrigá-lo a participar! Nesse momento ao visualizar a cena da amiga invadindo seu escritório riu sinceramente pela primeira vez em oito meses. Fazendo-o pensar que talvez nesse momento estivesse ficando menos difícil superar a perda de Anne.
A ceia fora marcada para as nove horas, por causa das crianças, Fanny queria que eles participassem e para evitar que dormissem antes da ceia antecipou o jantar que antes se realizaria a meia-noite como o costume.
Fitzwilliam Darcy e sua irmã Catharine herdaram várias propriedades e duas empresas de sua família, ele atuava pessoalmente apenas na Darcy TR, uma sólida empresa do ramo de Engenharia de Transportes, e uma outra de construção civil sua irmã Catharine e seu esposo Bill Collins dirigiam com muita eficiência.
Fitz trabalhava com prazer, foi educado pelos pais para dar continuidade ao patrimônio e às empresas familiares, principalmente essa do ramo de transportes. Formou-se em engenharia e sempre soube que era essa empresa específica que lhe agradava mais. Ao casar com Anne diminuiu um pouco o ritmo de trabalho para dar mais atenção a sua esposa, percebeu também que estar com Anne lhe dava mais prazer do que trabalhar.
Um ano após o nascimento de William, Anne e Fanny criaram uma instituição para cuidar de idosos. Não era gratuita, pois se assim fosse teriam muitos a cuidar e poucas pessoas dispostas ao voluntariado, mas cobravam uma quantia simbólica das famílias que pudessem arcar com as despesas de seus idosos. A maioria dos velhinhos era mantida por um auxílio enviado pelo governo, outros não tinham ninguém que os amparasse financeiramente, mas as amigas tratavam deles sem nenhum custo. As despesas eram em sua maioria financiadas pelas empresas de seus esposos, que admiravam o trabalho tão desprendido de Fanny e Anne, por pessoas desconhecidas e sem nenhum vínculo familiar.
Após a morte de Anne, Fanny deu continuidade ao trabalho, mas se afastou um pouco por causa das crianças, que agora eram quatro, mas os idosos ficavam nas mãos de profissionais muito preparados e competentes.
Fitz trabalhava com afinco em seu escritório e só percebeu quando o céu da fria Londres escureceu, quando sua secretária bateu levemente na sala e entrou.
- Sr. Darcy, ainda vai precisar de mim hoje?
- Que horas são, por favor, Srta. Atkins?
- Oito horas senhor.
- Já? Não reparei o tempo passar. Pode ir senhorita, já lhe prendi tempo demais nessa empresa em plena véspera de Natal. Por Deus! Não comprei nada para os meninos, não posso chegar à casa de Antony de mãos abanando.
- Senhor, a *Hamley´s fica aqui perto, e ainda está aberta devido ao intenso movimento de Natal.
- Muito bem, vou seguir a sua sugestão senhorita. - Enquanto guardava seus pertences e pegava seu sobretudo e sua pasta pensou alto – É a primeira vez que faço as compras de Natal, sempre comprava uma jóia para minha esposa, mas o presente de Will e dos amigos era sempre Anne quem escolhia.
- Sr. Darcy, eu posso ajudá-lo com as compras.
Fitzwilliam pensou em aceitar, mas lembrou que sua secretária deveria ter uma família para passar essa noite, não seria justo com ela atrasá-la para companhia dos seus mais ainda.
- Não é preciso senhorita, vá aproveitar essa noite com sua família, e tenha um Feliz Natal! – dizendo isso se encaminhou para a porta.
Ela acatou sua decisão e os dois se encaminharam para o elevador que pelo adiantado da hora estava vazio. Para cortar o silêncio que visivelmente o estava incomodando, Fitzwilliam perguntou para Michelle Atkins onde ela iria comemorar a noite.
- Em casa senhor, moro sozinha, minha família mora no interior, neste ano não passarei o feriado com eles. Vou aproveitar para descansar um pouco e arrumar meu apartamento.
Esta resposta deixou Darcy pensativo, Michelle se parecia um pouco com ele em sua solidão. Fanny estava tirando-o dessa situação por uma noite, porque ele não poderia fazer o mesmo por ela?
O elevador chegou ao térreo e ela despediu-se:
- Boa noite Sr. Darcy, um Feliz Natal!
- Espere Srta. Atkins. Irei comprar os presentes e depois vou à ceia na casa de alguns amigos, não gostaria de ir? Talvez se sentisse melhor.
Ela estava sonhando ou seu patrão a estava convidando para sair? Não, isso nunca aconteceria, ele só estava com pena de sua situação. Afinal um homem como aquele nunca olharia para alguém como ela. Ela sabia que a ceia seria na casa dos Bennet, por ordem de seu patrão enviava todos os meses compras de supermercado para lá, Sr. Darcy sabia que os amigos não precisavam daquilo, mas era uma forma de agradecer pelos cuidados com seus filhos.
- Eu, hum, eu realmente não sei senhor. Não quero atrapalhar.
- Isso não acontecerá, não garanto diversão, afinal todos estão ainda muito abalados pela perda de Anne, mas acredito que será melhor do que passar o Natal sozinha não acha? E dessa forma acaba sendo uma troca de favores, eu aceito sua companhia para fazer as compras e você ganha um jantar e ótima companhias para passar a noite. – E esboçou um leve sorriso a fim de convencer Michelle, que imaginou se iria agüentar aquele homem tão próximo de si durante parte da noite.
Ninguém sabia, mas ela guardava há tempos uma paixão platônica por seu chefe e nunca ousou sequer imaginar que um dia fossem estar tão próximos. Resolveu não pensar muito e aceitar sua proposta, afinal se nunca teria o seu amor poderia ao menos ter o prazer oculto de observá-lo e quem sabe ter sua amizade.
- Pois bem senhor, será um prazer acompanhá-lo a essa ceia.
- Ótimo! - ele disse e seguiram caminhando rumo a Hamley´s.
Escolheram rapidamente em virtude da hora. Para Will levaram um caminhão de bombeiros enorme, para Georgianna um urso cor-de-rosa em grandes proporções, para Jane um estojo de maquiagem infantil e para Lizzie uma maleta de equipamentos médicos de brinquedo.
Em virtude das filas no caixa e do trânsito lento, e, para desespero de Fanny, chegaram à residência dos Bennet pouco depois das nove, quando as pessoas já se encaminhavam para a mesa.
Ao chegarem Fitzwilliam apresentou Michelle aos anfitriões, aos Lucas, aos Gardiner e aos Phil, que também haviam sido convidados e não percebeu o olhar discreto que Fanny lançara para seu esposo.
Anthony convidou a todos para cear e Lizzie que estava entretida com Charlotte, filha dos Lucas que também foram convidados esqueceu-se por um momento de Will. Ao se dar conta disso avisou a mãe e partiu rapidamente a sua procura, não o encontrando em nenhum dos cômodos com convidados. Resolveu procurá-lo no quarto que ele dividia com sua irmã. Bateu levemente na porta enquanto falava baixinho:
- Will? Você está aqui?
Para sua surpresa Will respondeu-a com um grito:
- Saia daqui, não quero falar com ninguém.
Ele não poderia acreditar que suas palavras iriam surtir efeito oposto ao esperado, Lizzie entrou correndo desabalada no quarto, aos prantos pela atitude tão grosseira de Will, e mesmo magoada abraçou-o.
Ele amargamente arrependido pela ofensa desproposital passou a mão em seus cabelos castanhos e pediu perdão a ela.
Ela levantou o rosto e olhou para Will vendo uma lágrima escorrer em seu rosto.
- Will, “tá” chorando também? Não precisa chorar, já parei olha! – ela tentou se desculpar, secando suas próprias lágrimas com as costas de suas mãozinhas.
- Não estou chorando por sua causa pequena... - Além de Lizzie ele a chamava de pequena devido ao seu tamanho e porte franzino, onde seus grandes olhos negros se destacavam. – Estou zangado porque meu pai não veio, ele abandonou a mim e a Georgie depois que a mamãe [...] você sabe. E sinto saudades da minha mãe, da minha casa.
- Você não gosta de morar aqui Will? Não gosta de mim?
- Gosto sim pequena, mas aqui não é minha casa, deixa pra lá, você é muito pequena pra entender. - sorriu do significado de “pequena” que usou dessa vez.
- Hum. – Sem saber muito o que dizer Lizzie limitou-se a falar o que tinha ouvido de sua mãe. – Will, você tem que entender que o papai do céu precisa de anjos pra cuidar das pessoas, tia Anne está cuidando de um montão de gente, que nem ela fazia com os velhinhos aqui. Não fique triste, eu, er, eu amo você!! – disse isso e saiu correndo bastante corada e gritando – Ah! Tio Fitz chegou e trouxe quatro embrulhos enooooooormes! Aposto que todos são pra mim!!
- Não mesmo! – garantiu Will, levantando-se da cama e saindo correndo corredor afora!
- Papai!! - Gritou da escada ao visualizar seu pai na sala próximo a árvore de Natal.
Fitzwilliam abraçou o filho como há tempos não fazia, e sentiu que já era hora de reocupar seu papel de pai.
As crianças ficaram encantadas com a quantidade de presentes que receberam e o jantar transcorreu mais alegre do que a própria Fanny esperava, logo, ela evitava qualquer assunto triste e inventava uma história qualquer bem alegre e animada, o que para ela não era difícil, já que uma de suas principais características era sua disposição para a conversa. Depois da tradicional troca de presentes e a Srta. Atkins ajudou Fanny a colocar as crianças na cama, os adultos conversaram amenidades e aos poucos cada um se dirigiu a sua casa sobrando apenas Michelle e Fitzwilliam com os anfitriões.
Michelle pediu que Fanny chamasse um táxi, mas ela disse que não a deixaria sair sozinha àquela hora, garantindo que Fitzwilliam a levaria em casa. Ele estranhou afinal eram pouco mais de uma hora da manhã e a Srta. Atkins devia ser acostumada a sair sozinha, mas não custaria nada, até porque ele a convidou.
Ela ainda protestou, disse que não havia necessidade, mas ele insistiu e se foram, restando apenas o casal Bennet acordados em casa.
Após esse encontro o Sr. Darcy voltou a ser um pai presente, e aos poucos foi levando os filhos para casa. No princípio Elizabeth estranhou a casa tão vazia, sem Will para lhe puxar os cabelos, esconder suas bonecas e jogar futebol com ela, e Georgie para lhe animar as noites. Achava muita graça quando sua mãe permitia que desse a sopa para ela, Lizzie levava a colher a boca de Georgianna e essa cuspia a comida, fazendo Lizzie gargalhar, essa atitude da maior só encorajava Georgie a repetir o feito e ficavam as duas achando graça até que Fanny reclamava e prometia mais uma vez que Lizzie jamais ficaria novamente responsável por dar o jantar a Georgie.
*Hamley's - Famosa loja Londrina.
[http://www.hamleys.com/]
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