Citações

Qualquer ser humano está cercado por uma multidão de espiões involuntários. (Jane Austen)

Um Presente de Natal - Capítulo Único

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Londres, 22 de Dezembro de 2008:

 


Não adiantava mais ninguém tentar me convencer do contrário, definitivamente eu já tinha tomado a minha decisão. Eu não era uma pessoa sozinha? Então? Nada mais lógico do que passar o Natal de 2008 no meu apartamento, também sozinha.

 
Nada me faria viajar quilômetros para a casa dos meus pais no Hertfordshire. E nem para a casa de Charlotte e Colins, minha melhor amiga e seu marido, e muito menos para a casa de nenhuma das minhas amigas de Londres. O motivo? Óbvio.

 


A primeira opção foi cortada porque eu não queria mais uma vez ser a “solteirona” da festa com todos os parentes ao meu redor, reclamando da minha vida amorosa apática e constrangedora. Além disso, eu não suportaria todo aquele clima de felicidade e confraternização completamente diferente do meu estado de espírito atual.

Por outro lado eu estava realmente com saudades de Charlotte, mas meu humor sarcástico ficaria completamente debilitado se eu fosse obrigada a entrar em contato com meu primo Collins e sua digníssima chefe Catherine de Bourg, com a qual eles ceariam na noite de Natal, logo, a segunda opção era ainda mais opressora.


Minhas amigas do trabalho iam todas passar com suas famílias, ou com as famílias dos maridos ou namorados, e, apesar de ter sido convidada pelas mais íntimas, eu ia me sentir uma intrusa no meio de tanta gente desconhecida.


Sair para alguma festa numa boate qualquer também era patético. Natal é um momento familiar e eu preferia passar sozinha a ficar no meio de estranhos tão abandonados e solitários quanto eu.


Então ali estava eu, Elizabeth Bennet, 27 anos, solteira, independente, profissional bem sucedida do ramo imobiliário, dona da minha própria casa e... Sozinha. Infeliz por não ter um namorado.


 


Londres, 24 de dezembro de 2008, véspera de Natal:


Minha auto-estima estava mais baixa do que sola de sapato, mas eu não ia me entregar tão facilmente. Eu podia estar abandonada, decepcionada com a minha vida amorosa, me sentindo feia e sem graça, mas mesmo assim iria comemorar. Afinal, eu estava viva, não estava? Já não era motivo suficiente para uma comemoração? Tanta gente possuía bem menos do que aquilo, sim, eu precisava fazer alguma coisa.


Na saída do trabalho passei numa rotisseria e comprei meu vinho predileto e comida pronta: uma salada Natalina, de acordo com a vendedora, um prato a base de peru com farofa de bacon e um panetone de chocolate para a sobremesa. Eu poderia estar sozinha, triste e mal amada, mas pelo menos passaria a noite bem alimentada.


Sacudi o corpo e bati os pés no tapete da portaria do prédio pra me livrar da neve e peguei o elevador. Destranquei minha porta de forma desajeitada por causa das sacolas e despejei as compras na mesa da cozinha, voltando à sala logo depois para apanhar os quilos de cartões espalhados pelo chão.


“Nada mal!” – comentei ao juntar os cartões de boas festas, pelo menos não sou tão sozinha assim e algumas pessoas se lembraram da minha ínfima existência. Tirei meu sobretudo e pendurei atrás da porta, dando uma olhada rápida nos remetentes dos cartões. Já estava me arrependendo da decisão de não enviar cartões a ninguém naquele ano quando me aborreci novamente.


“Loja de roupas, loja de sapatos, loja de roupas novamente, seguro, perfumaria, cartão de crédito, lojas e mais lojas, operadora de celular, contador, salão de beleza! Desisto!” – disse depois de jogar todos os cartões em cima do charmoso aparador que enfeitava a minha sala – “Será que não existem mais amizades nesse mundo?” – bufei.


Ah, não! Mas eu não permitiria mesmo que aquilo abalasse ainda mais o meu humor. Eu tinha feito planos maravilhosos comigo mesma para aquela noite e não seriam estúpidos cartões natalinos que estragariam tudo! Como se eu realmente precisasse de mais motivos para pensar que aquilo tudo estava uma droga.


Decidi abrir meu vinho. Eu não estava esperando ninguém mesmo, não fazia nenhum mal começar a beber mais cedo. Levei a garrafa junto com uma taça para o banheiro enquanto tomava um relaxante banho quente. Depois me arrumei como se eu realmente fosse sair: coloquei meu vestido predileto, calcei as minhas botas mais bonitas e confortáveis, sequei meu cabelo, fiz uma maquiagem leve ressaltando meus pontos fortes e voltei para a sala. Tudo isso deu um “up” na minha auto-estima e eu me senti novamente bonita. Baseada nisso fiz a minha primeira promessa de Ano Novo: em 2009 eu ia me arrumar mais, para me sentir bonita, mesmo não tendo um gato ao meu lado para me admirar. Parecia dica de livro barato de auto-ajuda, mas tinha sentido. Se eu não me achasse linda, quem me acharia?


Liguei o rádio, mas as músicas natalinas me deprimiram, então apertei o botão do player e um cd que já estava lá começou a tocar. Reconheci os acordes de uma das minhas cantoras prediletas e lembrei que eu havia gravado aquele cd poucos meses antes com as músicas de que eu mais gostava. Aumentei o som, já que eu não acreditava que ninguém além de mim estaria naquele prédio, e relaxei um pouco. Eu já tinha esvaziado meia garrafa de vinho e me sentia meio anestesiada.


Ainda não estava faminta, então decidi esperar a fome chegar. Uma música animada começou a tocar, e acredito que, por efeito do vinho tive vontade de dançar, como não tinha nada a perder levantei e me rendi às batidas da canção. Comecei tímida e devagar, mas aos poucos me animei e logo estava aos pulos, com meus cabelos balançando enquanto acompanhava a música gritando alto. Dancei até cansar, mas uma musica do James Blunt começou a tocar e eu diminuí o ritmo. Fechei os olhos, imaginando um namorado imaginário nos meus braços.


Que patética e deprimente eu estava! Mudei de faixa e sentei no sofá. Olhei para a minha árvore de natal e fixei o lindo e gordo Papai Noel pendurado, uma idéia boba passando pela minha cabeça. Eu nunca acreditara em superstições, nem quando criança. Minha mãe ficava louca com minhas explicações lógicas sobre a inexistência de seres fantásticos como Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Fadas, Duendes, Bruxas, etc., o que deixava minhas irmãs decepcionadas.


Mas se o bom velhinho realmente existisse? Se ele nos premiasse de acordo com o nosso comportamento? Eu fui uma boa garota durante o ano, ou não?


Fiz uma retrospectiva:



Paguei todas as minhas contas em dias;


Não inventei nenhuma mentira para faltar ao trabalho; não, isso era mentira. Corrigindo: Inventei apenas duas ou três mentiras para não ir trabalhar;


Atendi quase todas as ligações da minha mãe. Deixei-a conversar com a secretária eletrônica apenas quando eu estava na TPM;


Escutei com um sorriso no rosto todas as vezes que uma amiga me contava eufórica que estava de namorado novo ou noivando, mesmo quando o sorriso não era tão sincero e eu estava me rasgando de inveja por dentro;


Emprestei meu ombro sempre que uma delas terminava um relacionamento ou brigava com o namorado;


E ajudava mensalmente uma instituição que abrigava órfãos, inclusive dedicando pessoalmente algumas horas aos pequenos.


Então sim, eu fui uma boa menina; eu merecia um bom presente de Natal. Peguei o bloco de anotações que eu usava para escrever a lista de compras da semana e esbocei uma cartinha.


 “Querido Papai Noel,

 Eu sei que pode parecer meio estranho uma mulher de 27 anos te escrever assim tão em cima da hora, mas já que eu nunca fiz isso antes tenho crédito com o senhor, não tenho? Meu pedido também não é dos mais simples, mas acho que também tenho saldo suficiente para pedir algo assim.


Enfim, eu sou uma boa pessoa, respeito os mais velhos, sou educada, não dou trabalho aos meus pais, sou uma irmã carinhosa, uma profissional ética e uma colega de trabalho honesta. Aí você me pergunta: Então, o que te falta? Eu respondo: eu sinto falta de um amor, alguém de quem eu sinta saudades quando estou trabalhando, que me faça ter pressa de voltar para casa, que me faça sentir a mulher mais amada do mundo. Alguém para quem eu possa me arrumar nas noites de sexta-feira, que me beije como se o mundo fosse acabar amanhã. Alguém com quem eu queira dividir a minha vida, que segure minha mão quando eu estiver com medo, que durma e acorde ao meu lado, que me faça sentir arrepios de prazer. Alguém que eu ame com todas as minhas forças.


Eu não estou pedindo muito, estou? Não diga que sim! Pense bem, eu nem fiz exigências quanto à aparência, mas, só para constar, eu prefiro os morenos, altos, fortes e inteligentes. Não precisa ter um senso de humor aguçado, nem gostar de tudo que eu gosto. Não precisa saber dançar, pode até gostar de futebol. Eu juro que não reclamo se de vez em quando ele quiser ver um jogo na TV e prometo acompanhá-lo ao estádio uma vez por ano. Ok, duas vezes por ano, acho que vale o sacrifício. Se ele tiver um bom emprego melhor ainda, afinal se eu quisesse sustentar alguém eu procuraria um menor abandonado para adotar.


Ops, desculpe, prometo segurar a minha língua. Basta ele ter um emprego, qualquer um.


Ele pode ser separado, ter filhos com outra mulher; eu não me importo com o passado, contando que quando ele estiver comigo ele esteja apenas comigo.

Então, Papai Noel, eu tenho chances de ganhar o meu presente? Eu espero sinceramente que sim!

Com amor,

Lizzie.”


Arranquei a folhinha e dobrei em forma de envelope, escrevendo o destinatário. E agora? O que eu faria com aquilo? Na pior das hipóteses eu deveria jogar pela janela, caso o Papai Noel não existisse mesmo talvez algum cara encontrasse e viesse me procurar. Mas eu não ia colocar o meu endereço. E se aparecesse um ladrão? Ou um tarado? Não, eu tinha que arrumar um jeito. Enchi a minha taça novamente e coloquei a carta numa das meias que enfeitavam a minha lareira. Não dizem que ele desce pela chaminé? Então ali era o local ideal. Voltei ao meu confortável sofá e deixei a minha mente vagar, imagens confusas surgindo e meus olhos se fechando. Acomodei-me melhor e peguei no sono.


Não sei quanto tempo cochilei, mas acordei com insistentes batidas na minha porta. Levantei meio atordoada e estremeci, o vento abrira minha janela e havia um pouco de neve no chão, nas proximidades da parede, e alguns cartões espalhados pela sala.


Fechei a janela antes que pegasse um resfriado e fui para a porta, querendo descobrir quem estava prestes a derrubá-la. Ao abrir, dei de cara um com homem lindo, moreno, alto e carrancudo. Abri um sorriso enorme e espontâneo.


“Papai Noel atendeu os meus pedidos!” – falei sorrindo enquanto ele me olhava entre surpreso, zangado e curioso.


“A senhora está me confundindo com aquele velho gordo?” – ele perguntou.


“Senhorita!” – corrigi – “E não, não estou te confundindo. Você "É" o meu presente!”


"O quê? Já não é hora de deixar de acreditar nessas coisas?” – ele respondeu irritado, como se eu estivesse tentando fazê-lo de bobo.


“Muito pelo contrário, eu tenho cada vez mais motivos para acreditar!” – respondi sorrindo, ignorando o tom dele.


“A senhorita escolhe. No entanto, o que me trouxe aqui foi outro assunto”.


“Tipo?” – indaguei curiosa.


“Ouça, eu acabei de chegar de uma viagem de trabalho, estou bastante cansado, queria muito relaxar e ter uma boa noite de sono, mas essa música não está me deixando dormir.”


“Ah...” – respondi decepcionada. - “Só isso?”


“Só isso.”


"Tudo bem, eu vou abaixar o som. Eu estava ouvindo música e acabei dormindo, não pensei que tivesse alguém no prédio além de mim.”


“Agora tem.”


“Ok. Desculpe!”


“Obrigado.” - Ele disse e deu as costas, mas antes que ele desse dois passos eu falei novamente.


“Você está mesmo sozinho?” – perguntei curiosa.


“A não ser que as renas do seu Papai Noel tenham invadido o meu apartamento, eu estou.”


“Você não quer entrar? Eu comprei alguma comida e um vinho. Vizinhos podem passar o Natal juntos, não podem?”


“Você também está sozinha?” – ele perguntou como se fosse estranho alguém passar o Natal sozinho. E realmente era, mas eu tinha feito aquela opção.


Balancei a cabeça afirmativamente e mordi os lábios, com medo da resposta dele.


“Olhe, senhorita...”


"Elizabeth, só Elizabeth.”


 “Então, Elizabeth, eu acho que prefiro ir para casa.”


“Tudo bem. Feliz Natal.” – falei triste.


“Feliz Natal.” – ele respondeu e entrou no apartamento ao lado.


Eu fechei a porta e fui limpar a neve que derretia no meu assoalho. Passei um pano rápido e fui à cozinha lavar as mãos e esquentar a minha ceia de natal que já estava gelada. Quando eu estava prestes a abrir o pacote, o telefone tocou. Era minha irmã mais velha, Jane, ela estava com meu cunhado, Charles, na casa de campo dos pais dele. Conversamos alguns minutos. Ela, sempre preocupada, queria me convencer a passar o Réveillon com eles, contudo eu neguei veementemente. Eu ainda não tinha planos, mas não ia para lugar nenhum onde eu fosse sobrar. Nem que eu tivesse que viajar sozinha para um país ensolarado qualquer. Talvez em outras paragens eu tivesse alguma sorte.


Desliguei o telefone e ouvi batidas tímidas na porta.


“O que foi que eu fiz agora?” – resmunguei caminhando com passos duros em direção à porta. Que burra eu tinha sido acreditando em Papai Noel, e ainda paguei um baita King Kong com meu vizinho lindo. Há quanto tempo ele devia morar ali? Por que eu nunca reparei na existência daquele semideus tão perto de mim? Se bem que não adiantava nada, se ele nem tinha reparado em mim naquela noite, imagine nos dias comuns.

Abri a porta sem o meu bom humor anterior e encontrei meu vizinho de novo. Mas dessa vez ele parecia meio decepcionado.


“Oi?” – cumprimentei meio triste.


“Eu pensei melhor e resolvi ficar um pouco... Quer dizer, eu achei que você quisesse que eu ficasse com você, para passar o Natal, eu digo...” – ele falava confuso e eu resolvi interromper antes que passássemos a noite toda ali em pé.


“Você mudou de idéia?”


“Sim, mas se você preferir eu posso voltar ao meu apartamento.”


“De jeito nenhum! Entre!”

Ele entrou e me entregou um vinho que estava escondido às suas costas.


“Eu não tinha nada além disso. Nenhuma comida, nenhum presente, então trouxe esse vinho para nós dois.”


Adorei o modo como ele falou “nós dois”, mas não deixei transparecer. Agradeci pelo vinho e convidei-o para ir até a cozinha comigo. Coloquei a garrafa no balcão e entreguei o abridor para ele, já que meu vinho estava praticamente no fim, e peguei duas taças limpas.


Ele derramou o conteúdo da garrafa nas taças e me entregou uma delas, tocando com a dele de leve na minha.


“Feliz Natal!” – ele disse sorrindo pela primeira vez.


“Feliz Natal!” – respondi, observando-o enquanto ele bebia.


“Vou esquentar o jantar, ok?”


"Não precisa.”


“Mesmo?”


“Você nunca achou a ceia gelada no dia seguinte mais gostosa?”


“Já, mas ainda não é o dia seguinte.”


“Mas já está fria, vamos comer assim mesmo!”


"Tudo bem.”


Coloquei os pratos e o jantar em cima da mesa e ficamos comendo e conversando. Inicialmente ele apenas respondia as minhas perguntas, mas aos poucos foi se soltando. Eu descobri que já fazia quatro meses que éramos vizinhos. Ele, no entanto, passava pouco tempo em casa, pois era engenheiro e nos últimos dois meses viajara muito devido a uma obra que acompanhava numa cidade do interior. Seus pais já haviam morrido e sua irmã estudava fora do país. Ele chegara naquela noite e preferira ficar em casa sozinho a enfrentar a estrada de novo para passar o Natal com um amigo e sua família. Eu falei que ganhava a vida vendendo imóveis e que minha família morava no interior, com exceção da minha irmã mais velha, que foi passar os feriados de fim de ano com a família do marido.


Após o jantar, pedi um minuto e deixei-o na sala. Fui até o quarto escovar os dentes com medo de ter ficado algum resto de comida na minha boca. Eu estava com um gatão na sala, talvez não tivesse sido o Papai Noel que me mandara, mas se eu desse sorte e ele quisesse “se dar” de Natal para mim eu não ia recusar!


Quando eu voltei, ele estava lendo um papel e sorrindo. Aproximei-me e descobri ser a minha carta para o Papai Noel. Fiquei completamente sem palavras e ele me olhou sorridente.


“Agora eu entendi a sua reação quando eu bati na porta pela primeira vez!”


Droga! O que ele ia pensar de mim? No mínimo que eu era uma solteirona encalhada e desesperada.


“Foi apenas uma brincadeira” - disse sem graça e andei rápido até ele tentando tomar a carta de suas mãos, mas ele levantou o braço e eu não consegui alcançar.


“Bem, eu sou moreno.” – ele disse se aproximando de mim enquanto passava as mãos pelos cabelos negros – “1,92m é alto o suficiente para você?”


“S-sim.” - gaguejei. – “Mas agora me dá isso!”


“Ainda não.” – ele deu um passo para frente e eu inconscientemente me afastei. - “Eu também me considero forte” – falou olhando o próprio corpo – “Sei que sou inteligente, e as pessoas não me consideram bem humorado. Eu não costumo dançar, mas eu sei, e tenho um ótimo emprego.”


A esta altura ele estava a um passo de mim, que estava encostada no aparador.


Eu estava realmente nervosa, aquilo só podia ser uma brincadeira. Ele estava levando a sério a minha carta? Eu não sabia o que responder.


“Onde você encontrou isso?”


“Estava no chão. Quer dançar?”


Afirmei com a cabeça e ele pegou minha mão enquanto aproximava nossos corpos, aquela proximidade me deixando ainda mais nervosa. O cheiro bom que ele emanava inebriando os meus sentidos e minhas costas ardendo no local onde ele encostava o braço no meu vestido.



"Você está realmente disposta a ir ao estádio?” – ele perguntou mostrando os dentes perfeitos e os cantos de seus olhos extremamente azuis apertando-se de leve em conseqüência do sorriso.


Eu apenas sorri sem graça e ele continuou.


“Bom, eu vou deduzir que sim, e cobrar essa promessa também. Ah! E eu sou solteiro e não tenho filhos.” – ele disse antes de alcançar o meu pescoço com suas mãos grandes e me puxar para um beijo. Por alguns minutos eu não consegui raciocinar. Aquele homem simplesmente me fascinou. Sua boca quente tocando a minha me fez sentir uma sensação indescritível, e meu corpo todo estremeceu quando sua língua invadiu a minha boca. Mil borboletas faziam festa no meu estômago e meu coração pulava que nem folião de carnaval brasileiro.


Eu não queria pensar, não queria saber o motivo de ele ter feito isso, só queria aproveitar aquele momento. Tirei minhas mãos dos ombros dele e enlacei-o pelo pescoço, agarrando aqueles cabelos sedosos com meus dedos.


Sem deixar de me beijar, ele me empurrou e me prendeu contra a parede, nossos corpos completamente colados, nossas respirações cada vez mais rápidas e nossas mãos buscando o corpo um do outro.


25 de dezembro de 2008, manhã de Natal:


Quando acordei na minha cama e levantei o edredom, descobri-me sem roupas e as lembranças da noite anterior invadiram a minha mente. Meu vizinho lindo tornara tudo tão perfeito e especial que mais parecia um sonho, mas meu corpo dolorido pelo esforço me provava o contrário. Aquela era uma data para não ser esquecida, mas nem que eu quisesse conseguiria apagar as lembranças da minha cabeça.


Rememorar o modo gentil e decidido com que ele me amara na sala me causava arrepios. Ter dormido abraçada a ele naquela mesma cama, aconchegada em seu corpo grande e forte, permitia que eu me sentisse amparada e protegida. Ser acordada com beijos e carinhos no meio da noite também não havia sido nada mal, e fechar tudo com chave de ouro, amando-nos mais uma vez, fora o ápice da perfeição.


Olhei para o lado sorridente e vi um bilhete no meu criado mudo, embaixo do Papai Noel da minha árvore de natal:

 

“Papai Noel,

 

 

Obrigado pelo melhor Natal dos últimos anos. Eu precisei dar uma saída. Mas eu gostaria de saber se uma certa vizinha tem planos para o Ano Novo!

 

 

A propósito, eu me chamo William Darcy.

 

 

P.s: Eu queria retribuir o jantar da noite passada com um café da manhã. Se ela estiver interessada é só bater aqui do lado.

 

 

Beijos

 

 

Will.”

 

Eu não preciso dizer que tomei um banho rápido e corri para a casa do meu vizinho aproveitar o Meu presente de Natal, preciso?


 

Fim



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