A maioria das famílias da aristocracia, que movimentara Londres durante a Season, já havia deixado a cidade para passar os meses de verão nas suas propriedades no campo. Havia uma calmaria típica desta época do ano na cidade, porém, na elegante casa dos Darcys, a movimentação era grande.
O Sr. e a Sra. Fitzwilliam Darcy haviam chegado às pressas de Derbyshire, preocupados com o estado de saúde da nora. Meg, também fizera questão de permanecer em Londres, para ajudar a prima nesta hora de necessidade, passando o dia com Patricia, fazendo-lhe companhia e atendendo as suas necessidades.
O Duque de Wycliff que havia voltado de sua viagem também era uma presença diária na casa em visita à filha.
O Dr. Wright que costumava viajar para sua casa de campo nesta época do ano, permaneceu na cidade a pedido do duque, a fim de atender qualquer imprevisto que pudesse acontecer com sua filha.
Após o susto inicial, Patricia não teve mais problemas. Obedecia à risca as orientações do médico, mas tornou-se calada e melancólica, tendo perdido aquela jovialidade que era tão característica dela, passava a maior parte do tempo em silêncio e com o olhar triste e perdido. Este seu estado de espírito preocupava a todos que se sentiam impotentes em mudá-lo, pois sabiam que a razão dele residia no temor que ela sentia de perder o filho que tanto queria.
Até a pequena Laura foi trazida juntamente com suas bonecas para passar várias tardes com a prima. A menina parecia ser a única que conseguia trazer um sorriso nos lábios de Patricia com sua meiguice e inocência infantil.
Um dia em que estavam a sós, pois Lizzy havia saído com o Sr. Darcy para uma visita, Meg resolveu tentar através de uma conversa levantar o ânimo da prima.
- Patricia, sei que você sempre sonhou ter muitos filhos e uma das causas de sua depressão deve ser porque você pensa que não poderá ter outros filhos. Talvez você fique menos deprimida se souber que cada gravidez é diferente de outra, não é porque você está tendo problemas agora que terá problemas na próxima vez.
- Não haverá uma próxima vez, não haverá outros filhos, Meg, só deste. Eu já lhe disse que vou me separar de William, vou viver em Longward Court, vou voltar à casa de meu pai, com meu filho.
- Você não acha que esta é uma medida radical demais? Não vai dar a William uma segunda oportunidade?
- Ele me pediu desculpas pelo que fez, mas não me convenceu, parecia que estava pedindo desculpas porque havia pisado no meu pé durante uma dança. A ofensa dele foi muito grave, ele me acusou de algo que não fiz, duvidou até que fosse o pai do meu filho.
- Sou a primeira a reconhecer que ele errou, mas você precisa entender que William é uma pessoa que tem dificuldade de expressar seus sentimentos mesmo com seus pais, seus irmãos, pessoas que ele adora, por quem ele daria a vida, ele é seco, não é de ficar agradando, paparicando.
- Eu não quero viver como uma pessoa assim ríspida. Fui criada com muito amor, tanto meu pai como meu irmão são pessoas amorosas, me incomoda ser tratada com frieza e não quero que meu filho tenha este tratamento por parte do pai.
- Você não acha que a separação é uma medida muito radical? Pense em todas as conseqüências deste ato, tanto para você como para seu filho. Sei que o duque irá apoiá-la, seja qual for sua decisão, mas seu filho vai crescer longe do pai e isto não é bom. Vejo pelos meus filhos, como eles amam e se espelham no exemplo do pai, como sentem sua falta quando ele se ausenta.
- Mas como posso continuar a viver com William que parece que não se importa comigo, às vezes, tenho a impressão que ele mal me tolera. Você acha que vou agüentar viver ao lado de um homem assim, o resto de minha vida?
- Patricia, deixe para resolver esta questão tão importante para depois que a criança nascer. Esta conversa esta deixando você nervosa. Desculpe minha insensibilidade em abordar uma questão tão delicada. Vamos conversar sobre assuntos mais amenos.
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Patricia recusou a presença da enfermeira durante a noite em seu quarto, alegando que estava bem e não precisava de uma estranha dormindo com ela no quarto. William preocupado de que algo pudesse ocorrer a ela durante a noite passou a deixar a porta de interligação entre os quartos aberta e Patricia concordou em chamá-lo se houvesse alguma emergência. Uma noite ao ouvir um grito da mulher, William correu para acudi-la, aflito pensando que o pior estava acontecendo.
- Patricia, o que houve? Por que gritou?
- O bebê.... o bebê nasceu morto. – grossas lágrimas corriam do rosto pálido de Patricia e seu corpo todo tremia.
- Foi um pesadelo. Ontem mesmo o Dr. Wright disse que ele estava bem.
- William, eu tenho impressão que vou ficar louca se esta criança não nascer logo. Não consigo pensar em outra coisa que não seja nela, no parto. Tenho tanto medo de perdê-lo.
- Patricia, acalme-se. Você verá que nosso filho irá nascer saudável, ele está se desenvolvendo bem apesar deste problema que você está tendo. O Dr. Wright está muito confiante que tudo irá correr bem.
- William, eu não vou suportar se ele nascer morto.
- Isto não acontecerá.
- O que eu fiz para merecer passar por todo este sofrimento?
- Patricia, tire este tipo de pensamento de sua cabeça, foi uma fatalidade o que aconteceu, precisamos enfrentar esta dificuldade que surgiu em nosso caminho. Você não pode ficar assim, deve evitar se de aborrecer, estes pensamentos negativos fazem mal para você e para o bebê.
- Fico tão angustiada, aqui deitada o tempo todos sem poder fazer nada, só esperar. William fique aqui comigo, preciso ficar acordada um tempo para que a impressão deste pesadelo passe. Sente-se aqui ao meu lado.
William sentou-se de frente a Patricia e ela estendeu a mão para que ele a segurasse com um sorriso melancólico nos lábios.
- Agora falta pouco para o bebê nascer. Você reparou no tamanho de minha barriga? Eu estou parecendo um barril, não é mesmo? Estou horrível!
- Você continua linda como sempre, Patricia.
- Você me acha linda?
- Sempre achei.
- Então porque nunca me disse.
- Por que não sei elogiar e agradar as mulheres como os homens conquistadores sabem fazer tão bem. É o meu jeito de ser, não sei bajular.
- Não precisa se tornar um conquistador, eles são na maioria das vezes hipócritas. Mas, toda mulher gosta de ouvir elogios a sua beleza ou as suas qualidades, principalmente quando são sinceros.
- Vou procurar me lembrar disso.
- Você gostaria que o bebê fosse menino ou menina?
- O sexo dele não tem importância. O importante para nós é que nasça saudável e que tudo corra bem durante o parto com você e com o bebê.
- Você tem razão, mas no fundo eu preferia que fosse uma menina, elas fazem mais companhia para a mãe, veja a Laura vive grudada em Meg.
A partir desta noite, William vinha ao quarto de Patricia todas as noites, sentava ao lado dela na cama e conversavam sobre os acontecimentos do dia. Ela contava a ele sobre as visitas que recebera, sobre o livro que estava lendo e ele por falta de assuntos falava de seus negócios, sobre as notícias dos jornais. Este bate-papo noturno tornou-se o melhor momento do dia para ambos e que eles o aguardavam ansiosamente por ele.
William descobriu através destas conversas que Patricia não era tola e superficial como ele acreditava, ela dava muitas vezes sugestões e palpites sobre seus negócios que demostravam inteligência, sensatez e lucidez. Patricia, por sua vez, descobriu um William responsável, preocupado e amoroso com a família, com os pais, os irmãos, um homem que levava a sério o fato de ser herdeiro dos Darcys, muito consciente de que um dia iria substituir o pai no papel de chefe da família.
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Era uma tarde quente em meados de agosto quando já estava se completando o nono mês de gestação, Patricia começou a sentir as primeiras contrações do parto. Lizzy e Meg estavam com ela no quarto e logo a acalmaram dizendo que este era o sinal de que a criança estava para nascer e que não se apavorasse que aquelas dores eram normais e que viria em intervalos.
O médico e uma parteira foram chamados e Meg permaneceu a cabeceira de Patricia a fim de ajudar no parto, tendo combinado que ela e Lizzy se alternariam nesta tarefa.
As horas que se seguiram foram de pura agonia para William, ele e os pais permaneceram na sala de visitas da casa aguardando o desenrolar dos acontecimentos.
A princípio, o Sr. Darcy tentou conversar amenidades com o filho com o intuito de acalmá-lo e fazer com que o tempo de espera fosse menos agonizante, mas tendo respostas monossilábicas ou grunhidos, vendo que o filho não estava prestando a mínima atenção a sua conversa e lembrando-se de como ele próprio havia se sentido e se comportado nas quatro vezes que sua Lizzy dera a luz, achou por bem ficar calado.
O trabalho de parto durou a noite toda e um novo dia já estava amanhecendo quando o Dr. Wright entrou na sala com um sorriso discreto nos lábios, dirigiu-se a William dizendo:
- Parabéns, Sr. Darcy, o senhor é pai de uma linda menina! Felizmente, correu tudo bem. Lady Patricia está bem e a menina é forte e saudável. Agora ela entra no período de recuperação, o pior já passou. Pode subir para ver sua esposa e conhecer sua filha. Deixei todas as instruções sobre os cuidados a serem tomados, tanto pela mãe como pela criança com Lady Margareth.
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William entrou no quarto da esposa, viu que a parteira, a enfermeira e algumas criadas terminavam de por ordem no quarto.
Patricia estava deitada em seu leito, muito pálida, de olhos fechados ela parecia dormir. William ficou fitando-a por longo tempo, pensando na bravura de sua mulher, como ela enfrentara corajosa e pacientemente, sem uma única reclamação, aqueles longos e tediosos quarenta dias em que teve de ficar praticamente imóvel na cama.
Como Patricia parecia estar dormindo, William resolveu não despertá-la. Ele, então, se aproximou do pequeno berço colocado ao lado da cama e viu pela primeira vez a filha. Aquele pequeno ser cor de rosa, de feições ainda indefinidas. Sua filha! Uma emoção nunca antes sentida tomou conta de William.
- Não quer pegá-la no colo, William? - perguntou Meg aproximando-se do primo.
Embora tivesse quatro sobrinhos, William tinha pouca familiaridade em carregar crianças recém-nascidas, elas pareciam tão frágeis que iriam se partir ao menor toque.
Meg inclinou-se sobre o berço, pegou cuidadosamente o bebê e entregou-a a William, este desajeitadamente e com grande cuidado, pegou a filha que dormia profundamente.
- Ela é linda, William. Meus parabéns! – cumprimentou Meg com um sorriso.
Sentir o corpo cálido da filha junto ao seu, só fez aumentar sua emoção, parecia incrível que aquele pequeno ser fosse uma parte dele e de Patricia, que seria sua responsabilidade cuidar, amparar e guiá-la no mundo. Ele nunca imaginara que a paternidade pudesse ser um sentimento tão doce e profundo que chegava a ser doloroso.
Ele estava tão absorto olhando a filha que pareceu surpreso ao ouvir a voz da esposa.
- Ela é linda, não é?
- Sim, é linda. Obrigado pela nossa filha. Você já pensou no nome que daremos a ela?
- Quero dar a ela o nome de minha mãe, Florence e de sua mãe Elizabeth. Florence Elizabeth Darcy.
- Então será Florence Elizabeth Darcy.
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O corpo jovem e saudável de Patricia se recuperou rapidamente do parto e sua filha também crescia saudável. Era loirinha com os olhos azuis profundos da mãe, mas as feições delicadas e suaves lembravam a cada dia que passava, a avó paterna de quem herdara o segundo nome, Elizabeth.
Um dia Meg que se preocupava muito com a felicidade dos primos resolveu tocar novamente no assunto da separação entre eles.
- Patricia, sobre aquela sua idéia de se separar de William depois do nascimento de sua filha. Você mudou de idéia, não é?
- Mudei por causa de Florence, só por causa dela vou continuar com William. Ele tem se mostrado um pai afetuoso e preocupado com ela. A primeira coisa que ele faz quando chega em casa é ir a nursery ver a Florence. Um dia eu o vi com ela nos braços, conversando com ela, dizendo um monte de bobagens e a beijando, quando ele me viu ficou muito sem jeito e procurou disfarçar. Acho que estou começando a entender o William, ele tem dificuldade de mostrar suas emoções, seus sentimentos e a Florence está conseguindo fazer ele se libertar, soltar estes sentimentos que estão enrustidos nele. Ele ama nossa filha tanto quanto eu a amo e está sendo um excelente pai e por causa dela vou continuar a viver com ele.
- Que alívio ouvir isto! Você ainda não aprendeu a amá-lo?
- Não. Eu não o amo. Ele é muito severo e formal para meu gosto.
- Talvez seja esta característica dele que tenha te atraído nele. A gente sempre se sente atraída pelas pessoas que são o oposto da gente, parece que desta forma a gente se completa. Forma um todo melhor, mais completo.
- Não me casei com ele porque ele me atraiu, mas porque ele me comprometeu. Meg, pare de querer ver romance onde não existe.
- Está bem, não precisa ficar zangada. Fico muito aliviada em saber que você não vai levar adiante aquela sua idéia de se separar dele. Logo o Dr. Wright irá lhe dar alta do resguardo e aí vocês poderão levar a vida normal de um casal. E se vocês querem ter uma porção de filhos não podem ficar perdendo tempo. – arrematou Meg com um sorriso, os olhos brilhando de malícia.
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