O alívio que William sentiu com a partida de Patricia foi breve. Passados os primeiros dias, ele começou a sentir falta da presença dela. As lembranças que tinha dela, porém eram todas de Pemberley, a sonoridade de seu riso pela casa, a maneira animada e alegre que ela contava suas estórias que faziam todos rir, o sutil perfume de lavanda que emanava de seu corpo e as noites de amor que haviam partilhado e que agora faziam seu corpo arder de desejo insatisfeito.
Uma quinzena após a partida da esposa, William recebeu uma carta de sua prima Meg que mostrava claramente que a prima havia tomado o partido de sua esposa:
Meu caro primo William:
Não preciso lhe dizer sobre o que quero tratar nesta carta e o quanto estou indignada com suas suspeitas sobre Patricia e a forma como a tratou.
Suas conclusões a respeito dela foram precipitadas e totalmente falsas. Ela tem um temperamento extrovertido, é alegre e comunicativa, mas não é leviana. Talvez ela até tenha sido leviana, ou melhor, inconseqüente quando era solteira, mas após o casamento tem tido um comportamento exemplar, seus próprios pais me atestaram isso quando estiveram aqui na época do Natal e eu mesma fui testemunha de como ela se comportou com dignidade.
Ela me contou que você fez uma série de exigências com vistas a modificar o comportamento dela, antes e após o casamento, e que ela foi aceitando todas elas porque as achava justas e para poder viver em paz com você, até você proibi-la de conversar com Lord Lennox, acho que aí você ultrapassou a fronteira do bom senso.
Você a acusa de havê-lo traído sem provas cabais, baseado apenas em aparências. Raciocine comigo, ela teria que ser louca para traí-lo na presença de toda a nossa família e a dela reunidas.
Você devia estar cego de ciúmes para interpretar como traição o que presenciou.
Peço, encarecidamente, que você reflita sobre minhas ponderações, eu seria a primeira pessoa a não aceitar a traição de Patricia a você, que considero como meu irmão.
[i]Querido William, repense em sua atitude, sempre é tempo de pedir perdão e recomeçar. Tenho certeza que o coração generoso de sua mulher irá perdoá-lo e vocês poderão aguardar esta criança que está por vir juntos e em paz.
Devo alertá-lo que Patricia está muito magoada e ferida por suas atitudes e palavras. Mas dou razão a ela por estar assim, caberá a você ganhar o seu perdão e o esquecimento das ofensas recebidas.
Ela chegou em Lindsey Hall parecendo um farrapo humano, mas, felizmente, agora ela está mais disposta e animada. Voltou a se alimentar bem e o ar do campo está lhe fazendo bem, porém, percebo que no fundo há uma melancolia em seus olhos, uma mágoa que só você poderá apagar.
A companhia de Laura tem feito muito bem a ela, as duas passam horas brincando com bonecas. Patricia tem um jeito para crianças como eu nunca vi, será uma excelente mãe.
Não jogue sua chance de felicidade fora, saiba que Deus por seus caminhos tortuosos colocou a mulher perfeita para você em seu caminho. Não a perca.
Com amor.
Meg"
William leu e releu a carta várias vezes. As opiniões e a palavra de Meg sempre tiveram um peso muito grande para ele, pois, além do amor fraternal que sentia por ela, sempre a considerara uma criatura sensata e amadurecida.
Os Darcys souberam da gravidez de Patricia através de carta que esta escreveu a eles, mas Patricia decidiu não relatar nada sobre o ocorrido, nem sobre a atual situação do relacionamento entre ela e William. Na opinião de Patricia, cabia a William contar aos pais a realidade do casamento deles.
No início de março, Richard voltou de sua viagem e Meg o pôs a par de tudo que estava ocorrendo entre os primos. Richard ficou tão indignado com a atitude de William que queria ir a Londres ter uma conversa com ele. Mas foi impedido por Meg que disse que ela já havia escrito uma carta ao primo e que era melhor deixá-lo resolver o problema por si. A interferência de parentes, mesmo bem intencionados, poderia muitas vezes ser desastrosa para um relacionamento abalado como o dos primos, ponderou Meg sabiamente.
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Os condes de Lindsey e Lady Patricia partiram no princípio de abril para Londres. Patricia já entrava no início do quinto mês de gestação e Meg achou prudente que eles fizessem a longa viagem logo, a fim de evitarem algum tipo de problema com a gestação da prima.
Nestes dois meses em que estivera na companhia dos primos, ela voltou a se alimentar bem, o ar saudável do campo deu cor e viço a sua pele ajudada pela paz de espírito que ela encontrou num ambiente havia onde havia paz e amor.
Patricia, apesar dos protestos de Meg, fez questão de que a carruagem dos primos a deixasse na casa dos Darcy em Grosvenor Square.
- A esta hora certamente William não está em casa, Patricia. Vamos para a Lindsey House e à noite, Richard e eu levaremos você para sua casa e conversamos com William para ver se colocamos um pouco de bom senso naquela cabeça teimosa.
- Não, vou ficar na minha casa e quando William voltar eu mesma converso com ele. Eu devo resolver meus problemas sozinha. Não tenho palavras para agradecer o apoio que me deram neste momento tão difícil de minha vida. Minha gratidão a vocês será eterna.
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O mordomo informou William que sua esposa havia voltado.
- Milady encontra-se em seus aposentos descansando. – declarou o solene mordomo.
William não se sentiu à vontade para ir encontrar Patricia em seu quarto. Achou que seria melhor que se encontrasse num ambiente menos íntimo que o quarto de dormir para este primeiro encontro, quando ele iria tentar uma reconciliação.
Ele tivera tempo suficiente para acalmar suas emoções e pensar com racionalidade, releu várias vezes a carta de Meg e por fim chegou à conclusão que estava realmente errado. Analisando melhor suas emoções reconheceu que se excedera em suas acusações à esposa. Estava disposto a viver em paz com ela e aceitar que a criança que ela esperava era realmente seu filho.
A princípio William pensou em ir a Lindsey Hall fazer as pazes com Patricia e trazê-la de volta a Londres para junto dele, mas os negócios estavam requerendo a presença constante dele, pois decisões envolvendo milhares de libras não podiam ser abandonadas nas mãos de empregados. O tempo foi passando sem que pudesse se ausentar.
William e Patricia só foram se encontrar na manhã seguinte, pois ela mandou um recado pela criada que não desceria para o jantar alegando cansaço pela viagem.
Na manhã seguinte, ela tomava o café da manhã quando o mordomo a informou que o Sr. Darcy deseja conversar com ela em seu escritório, tão logo ela terminasse a refeição.
Havia uma tensão palpável no ar quando os dois esposos se viram face a face, após terem se separado em meio a uma briga e de dois meses de distanciamento.
- Como está Patricia?
- Estou bem, obrigada.
- Eu queria lhe pedir desculpas pela forma como a tratei. Eu refleti sobre os acontecimentos que motivaram a nossa briga, li e reli a carta que Meg me escreveu e reconheço que eu fui injusto com você, que me deixei levar pelas aparências e estava completamente errado em minhas conclusões a seu respeito e Lord Lennox.
- Pois eu também refleti durante estes dois meses em que estive em Lindsey Hall e cheguei à conclusão que sua atitude para comigo foi imperdoável. Mas, reconheço que da minha parte também cometi um grande erro, que foi o de insistir em me casar com o senhor.
- Patricia, o que você está querendo dizer com “imperdoável”.
- Isto mesmo que o senhor entendeu, eu não o perdôo. O senhor não mostrou o mínimo respeito e consideração a minha pessoa e ao meu estado. Ninguém me magoou mais do que o senhor quando duvidou de minha honra, acusando-me de uma traição que não cometi, sem ter provas concretas, apenas baseadas em suposições.
- Devo lhe dizer que seu comportamento anterior ao nosso casamento, pesou em minhas suposições. Você sempre se portou de maneira leviana, inconseqüente e muitas vezes até escandalosa. Esta impressão ficou em mim e daí a fazer um mau juízo de você foi apenas um passo.
- Isto não justifica o abuso que sofri. Desde que nos casamos mudei meu comportamento atendendo às suas exigências, mas de nada adiantou, pois o senhor nunca considerou o esforço que fiz para agradá-lo e viver segundo seus preceitos.
- Mais uma vez peço desculpas, sinto muito e prometo que isto não voltará a se repetir.
- Infelizmente, não consigo acreditar no senhor.
- Se é assim, como ficará nosso futuro?
- Não existe um futuro em comum para nós dois, Sr. Darcy. Com sua crueldade o senhor destruiu qualquer possibilidade de entendimento entre nós. Vou ter meu filho. O senhor vai lhe dar seu nome, pois nada é mais justo visto ele ser um Darcy. Vamos continuar vivendo junto, como o senhor mesmo já disse para mim há tempos atrás, mantendo as aparências até o fim de nossas vidas, como tantos outros casais de nossa melhor sociedade.
- Mas...
- Antes que eu me esqueça, eu o liberto dos nossos votos de fidelidade, o senhor está livre para ter quantas amantes quiser, desde que seja de forma discreta para não me humilhar publicamente. Dizem que os homens têm uma natureza libidinosa que os impedem de permanecer longo tempo em castidade. Quanto a mim, pode estar certo que me comportarei de forma a não envergonhar o senhor, nossas famílias, mas principalmente meu filho ou minha filha. Acho que não temos mais a dizer um ao outro. Tenha um bom dia, Sr. Darcy.
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Lady Patricia passou os meses da “Season”, de abril a junho, em confinamento, as festas, bailes e garden parties glamurosos, as óperas e peças de teatro eram coisas do passado para ela, porém não lamentava nada disso, a alegria de se tornar mãe suplantava qualquer outro prazer mundano que pudesse ter.
Ela saía todos os dias de manhã bem cedo para um passeio a pé pelo Hyde Park, obedecendo à recomendação de seu médico e tendo sempre a companhia de Meg nestes passeios. À tarde, as duas íam às compras na Bond Street, mas, normalmente, ficavam na casa de Meg, conversando, bordando o enxoval do bebê ou brincando com Laura.
- Meg, andei pensando sobre o sexo de meu bebê e cheguei a conclusão de que gostaria que fosse uma menina. Ela me faria mais companhia quando crescesse do que um menino. Os meninos, além de serem extremamente peraltas, quando crescem passam a maior parte do ano no colégio interno enquanto a menina fica em casa ao lado da mãe.
- Eu acho que neste ponto você tem razão, mas o William vai preferir que seja um menino, afinal ele quer um herdeiro.
- Não me interessa o que William prefere. Este bebê que estou gerando é só meu. Depois que ele nascer, estou pensando em viver separada de William, eu e meu bebê.
- O William sabe destes seus planos? – perguntou Meg assustada.
- Não, mas saberá quando eu sair de casa.
- Patricia, sei que ele foi cruel com você, mas será que não é o caso de perdoá-lo e vocês tentarem refazer suas vidas pelo bem da criança.
- É pelo bem da criança que não quero viver mais com ele. Você acha que depois de todo abuso verbal que sofri um simples pedido de perdão irá resolver tudo? Ele deveria ter pensado antes de me agredir daquela forma, não será um simples pedido de perdão não basta para eu perdoá-lo.
- Então o que William deverá fazer para merecer o seu perdão, Patricia?
- Nem pensei muito nisto, mas acho que só o perdoaria se viesse que realmente ele mudou, se eu sentisse que ele se importa comigo, que confia em mim e que comprove através de ações que realmente se arrependeu do que me falou.
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O relacionamento de William e Patricia era o mais formal possível, pouco se viam durante o dia, pois ele mal parava em casa, ocupado com os negócios. E durante a única refeição que compartilhavam, o jantar, trocavam palavras polidas como dois perfeitos estranhos.
Era uma noite do começo de julho, Patricia estava dormindo quando foi despertada por fortes dores em seu ventre e não demorou a sentir uma umidade escorrendo de suas partes intimas em direção a suas coxas. Como ela tinha por costume deixar sempre uma vela acesa no criado-mudo à cabeceira de sua cama, ela se sentou na cama e ao puxar o lençol viu uma mancha vermelha de sangue no lençol na região de sua coxa, instintivamente ela soltou um grito de pavor. Não demorou para a porta de comunicação de seu quarto com o de William se abrir e ele entrar no quarto assustado.
- O que houve, Patricia? Por que gritou? Foi algum pesadelo?
- William, o bebê! Acho que estou perdendo o meu bebê. Eu estou sangrando e sinto dores no abdômen.
- Fique calma, Patricia. Vou mandar chamar o Dr. Wright imediatamente.
William puxou a sineta para chamar um criado e voltou ao lado do leito de Patricia dizendo:
- Acalme-se, Patricia. Fique quieta, tudo irá se resolver.
Não demorou muito para que o mordomo sonolento se apresentasse e em poucos minutos a casa estava em polvorosa.
Patricia chorava em silêncio e William debruçado sobre ela passava as mãos pelo rosto e cabelos dela, numa tentativa de consolá-la e acalmá-la.
- Patricia, não chore, o Dr. Wright vai chegar logo e você verá que tudo irá se resolver.
- Vou perder o meu bebê.... vou perder o meu bebê...
- Patricia, fique calma. O Dr. Wright já deve estar chegando.
O médico de Patricia, um eminente professor da Escola de Medicina de Londres, foi conduzido imediatamente ao quarto dela, tão logo chegou à casa dos Darcys. Após um exame demorado e uma série de perguntas, ele deu seu parecer dirigindo-se tanto a Patricia como a William que permanecera no quarto durante o exame.
- Lady Patricia, a senhora teve um princípio de aborto, mas por enquanto o feto não está correndo perigo de vida, auscultei o seu coração e ele bate forte e constante. A senhora deverá permanecer em repouso absoluto de agora em diante até o nascimento da criança. Não deve se levantar desta cama para nada, tomar sem falta os remédios que vou prescrever e deve evitar qualquer tipo de aborrecimento ou contrariedade porque isto também poderá afetar seu estado geral. Virei vê-la amanhã, fique calma, pois existe grande chance de que a criança sobreviva.
As criadas trocaram com grande cuidado as roupas de cama de Patricia, que embora houvesse parado de chorar tinha o olhar triste e perdido. William sentou-se ao seu lado e disse:
- Patricia, por favor, não fique assim, tão desconsolada. O Dr. Wright é um médico muito competente, nosso filho nascerá bem, é só você ter paciência, guardar repouso e seguir à risca o que ele prescreveu.
- Eu ficaria o resto de meus dias deitada se fosse preciso, se isto fizesse com que meu filho nascesse saudável.
- Patricia, você precisa permancer calma. Vou pedir a minha mãe que venha ficar com você, e você ainda terá a companhia de Meg. Elas serão, sem dúvida, o melhor apoio que você poderia ter neste momento. Você verá que estes 40 dias que faltam para o bebê nascer passarão sem problemas. Agora você deve dormir, o descanso só lhe fará bem.
- William, por favor, não me deixe sozinha.
- Não vou deixá-la sozinha, nós vamos enfrentar este problema juntos. Agora feche os olhos e durma.
William passou o resto daquela madrugada, sentado à beira da cama, segurando a mão direita de Patricia entre as suas. Ele não conseguia desviar o olhar do rosto pálido como cera de sua mulher, enquanto ela dormia um sono agitado murmurando palavras ininteligíveis.
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