William voltou para seu quarto e ficou um longo tempo dando voltas por toda a extensão dele, como um leão enjaulado, pensamentos assassinos passavam por sua cabeça. O que restava a ele fazer? Irromper no quarto de Lord Lennox e pegar os dois amantes em pleno flagrante? Aguardar que a esposa voltasse ao quarto para confrontá-la? Todas as alternativas pareciam impróprias de um cavalheiro. O mal já havia sido feito, sua esposa o traíra e esta realidade não poderia ser desfeita com uma briga.
“Um escândalo deste tamanho deve ser evitado a todo custo. O bom nome de minha família deve ser preservado. Quando chegarmos a Londres e estivermos a sós em nossa casa, vou ter uma conversa definitiva com Patricia. Jamais voltarei a viver maritalmente com ela, ela morreu para mim nesta noite. Vou exigir que ela se comportasse com toda discrição possível, se quiser continuar seu caso com Lord Lennox ou com outro homem, pois isto é algo que não posso impedir. Não quero e não terei filhos com Patricia, caberá a Jonathan providenciar o futuro herdeiro de Pemberley.[/i] – foi esta a amarga conclusão a que William chegou naquela madrugada insone.
Tão logo terminaram as festividades daquele Natal, William e Patricia partiram de Lindsey Hall para Londres, como já estava anteriormente programado. William tinha negócios a resolver na capital e há alguns anos costumava passar os meses de inverno lá.
Alguns dias após a chegada a Londres, Patricia começou a sentir enjôos matinais e como estava com seu ciclo menstrual atrasado logo concluiu que estava grávida. Sentiu uma alegria tão grande que não cabia em si de felicidade, era o seu sonho mais caro que estava se tornando realidade. Pediu ao mordomo que chamasse o médico que a atendia desde criança para examiná-la e confirmar suas suspeitas e prescrever os cuidados que ela deveria tomar durante a gestação.
Naquela mesma tarde, o médico veio examiná-la e confirmou sua gravidez. Quando William chegou a casa, naquele início de noite após ter passado o dia fora resolvendo seus negócios, logo no hall de entrada o criado lhe informou que sua esposa o aguardava na sala de visitas, queria falar com ele tão logo chegasse da rua.
Logo que avistou a esposa sentada no sofá da sala, William notou que ela parecia animada, os olhos brilhantes e um semblante luminoso e feliz como há muito tempo não tinha.
- William, eu sei que nosso relacionamento anda ruim desde as comemorações do Natal em Lindsey Hall, mas eu acho que a novidade que tenho para te contar irá colocar um ponto final em nossas desavenças.
William olhou Patricia longamente com um olhar severo e interrogativo, mas nada disse esperando que ela falasse.
- Eu estou grávida, William. Vamos ter um filho.
Ele continuou fitando-a calado, a Patricia pareceu que o olhar dele havia ficado mais sombrio.
- Você não ficou feliz com a notícia? – ela perguntou desconcertada.
- Ficaria muito feliz se tivesse certeza de que o filho é realmente meu.
- O quê? Você não pode estar falando sério. Certeza de que o filho é realmente seu? E de quem mais poderia ser esta criança?
- Patricia, vamos por as cartas na mesa. Vou te dizer tudo o que sei sobre seu comportamento indecoroso e depois você me dirá se não tenho razão de ter dúvidas quanto à paternidade da criança que você está gerando.
- Comportamento indecoroso? Você enlouqueceu William! Desde que nos casamos tenho me comportado com dignidade.
- Eu vi pela janela da biblioteca de Lindsey Hall quando você e o Standford saíram da estufa juntos e se dirigiram para a casa. Naquela mesma noite fui ao seu quarto tirar satisfações sobre este seu comportamento, já era início da madrugada e você não estava em seu quarto, para mim ficou óbvio que você estava, no quarto de Lord Lennox. Você sabe perfeitamente como estas reuniões com inúmeros convidados são propícias para este tipo de encontros furtivos entre amantes.
Os olhos de Patricia estavam esbugalhados de espanto, ela não estava acreditando nas palavras de William, tinha a impressão de que seu ouvido estava lhe pregando uma peça. O golpe fora tão grande que sentiu seus joelhos fraquejarem e sentou-se no sofá para não cair, ela tremia da cabeça aos pés quando falou.
- William, você não pode me acusar de algo que não fiz. Eu estava na estufa com Meg, nós duas estávamos conversando quando Lord Michael apareceu e se juntou a nós. Então, um criado veio chamar Meg dizendo que Richard queria falar com ela com urgência. Ela nos deixou apressadamente, eu e Lord Michael saímos em seguida, percebendo a inconveniência de permanecermos na estufa a sós, saímos em direção à casa foi quando você nos viu. E naquela noite você encontrou minha cama vazia simplesmente porque eu havia ido apanhar um novo livro na biblioteca, eu havia terminado o que estava lendo e como não estava conseguindo dormir resolvi buscar outro. William não houve nada entre mim e Lord Michael, ele é apenas um amigo, você está imaginando o que não existe deste o início. Por favor, vamos esquecer todo este desentendimento em benefício de nosso filho.
- Você quer dizer em benefício de teu filho. Eu simplesmente não consigo acreditar em tudo isto que você contou.
- Confirme com Meg, ela estava na estufa comigo.
- E o episódio da biblioteca com quem devo confirmar? Com Lord Lennox? – perguntou William num tom sarcástico.
- Basta, William Darcy. Eu tenho minha consciência limpa, estou falando a verdade, agora se você faz questão de não acreditar, sinto muito, nada posso fazer.
Patricia saiu da sala descontrolada, grossas lágrimas corriam por seu rosto, tinha a impressão que todo o seu mundo estava desmoronando e ela se sentia impotente vendo tudo ruir. Voltou ao seu quarto aos prantos, nunca em sua vida de jovem mimada fora tão humilhada e maltratada. Chorou como nunca chorara em sua vida, por ela mesma, por William e principalmente pelo filho deles que estava sendo gerado em seu ventre e no fundo seria a maior vítima deste mal entendido.
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O ambiente sombrio na casa dos Darcy em Londres não melhorou com o passar dos dias. O casal não se falava, William continuava taciturno, passava o dia fora tratando dos negócios e quando tinha um tempo livre ia ao clube, onde ficava lendo os jornais ou se distraía conversando com os amigos que lá encontrava.
Patricia muito deprimida quase não saía de casa, e talvez por causa desta depressão as indisposições matinais pareciam piores, ela havia perdido peso e se sentia péssima. Foram uns dias de muita solidão e angústia para ela.
Passado o choque inicial Patricia começou a pensar o que aconteceria se William não aceitasse o filho deles. Já que ele não queria acreditar na palavra dela, a única forma que existia de provar a paternidade dele seria que a criança nascesse com as características físicas da família Darcy. Mas, Patricia sabia que a genética, às vezes, prega peças, uma criança pode herdar características de avós ou de parentes remotos, não tendo semelhança nem com o pai, nem com a mãe. Se a criança nascesse loira, na certa ele iria achar que ela havia puxado os cabelos loiros de Lord Michael porque tanto ela como William tinham cabelos escuros. Embora houvesse genes para cabelos loiros tanto na família dela, seu irmão era loiro, quanto na família Darcy, a tia de William, Georgiana e Frank o irmão caçula de William, eram ambos muito loiros.
Estes pensamentos e a previsão de um futuro sombrio e triste enlouqueciam Patricia, eles giravam em sua mente como um caleidoscópio e ela não conseguia ter paz. Passados alguns dias não suportando mais aquela situação ela voltou a procurar o marido para tentar fazê-lo ouvir a razão.
- William, eu não estou mais suportando esta situação. O que devo fazer para que você acredite que esta criança que estou gerando é nossa? Que nunca tive relação com outro homem a não ser com você? Diga William, o que devo fazer para provar que esta criança é tão sua como minha!
- Nada. Eu perdi a confiança na senhora e ela está perdida para sempre.
- Já que você se recusa a acreditar que a criança que estou gerando é nosso filho. Eu gostaria que você me dissesse o que pretende fazer em relação ao nosso futuro?
- Não pretendo fazer nada. Sou avesso a escândalos, a senhora terá esta criança, vou dar a ela o nome de minha família, mas estou torcendo que seja uma menina assim não será o meu herdeiro. Vamos continuar vivendo juntos, mantendo as aparências até o fim de nossas vidas, como tantos outros casais de nossa melhor sociedade. Este será o nosso futuro, Lady Patricia.
- Eu não vou suportar viver desta forma com você, William. Se for assim, vou voltar para a casa de meu pai.
- Se a senhora estiver determinada a fazer isto, eu não irei detê-la, mas peço que antes reflita muito bem sobre as conseqüências de sua atitude, pois já percebi que tem a tendência de agir impulsivamente. Uma vez provocado o escândalo, a senhora não terá como voltar atrás e desta vez a senhora não será a única prejudicada, seu filho sofrerá mais que a senhora, porque ele carregará o estigma de bastardo mesmo sendo neto do Duque de Wycliff. Se, entretanto, permanecer ao meu lado, terá a proteção do meu nome, creio que isto será mais conveniente para a senhora e para a criança.
- Muito bem, o senhor me convenceu pelo bem de meu filho vou permanecerei ao seu lado.
Viver na mesma casa com William não estava sendo fácil para Patricia, embora ele passasse a maior parte do dia longe dela, apesar de sua ausência pairava um clima pesado na casa. Aos poucos os enjôos matinais de Patricia melhoraram e ela se sentia novamente disposta. Foi quando ela recebeu uma carta de Meg convidando-a a voltar a Lindsey Hall para passar com ela o mês de fevereiro, pois Richard teria que viajar para algumas propriedades para resolver problemas com os administradores e Meg ficaria sozinha apenas com a pequena Laura, pois os meninos estavam na escola.
Patricia aceitou o convite imediatamente. Primeiro porque gostava muito de Meg, a companhia dela certamente aliviaria sua solidão e sua angústia, pois teria com quem confidenciar seus problemas, confiar suas inseguranças quanto à gravidez e por fim ficaria longe da convivência com o marido cuja frieza e silêncio eram uma influência nefasta para ela e para a criança que estava gerando.
Numa manhã fria no começo de fevereiro, Patricia partiu para Lincolnshire com o coração apertado, o seu futuro parecia mais nebuloso do que o céu cinzento de Londres naquele dia.
William aceitou a decisão da esposa de visitar Meg com alívio. Cada vez que via a mulher, ele se lembrava de tudo o que acontecera entre eles e o que mais o atormentava é que não conseguia tirá-la da cabeça, seus pensamentos eram uma mistura das lembranças dos momentos de paixão que haviam vivido e dos momentos de sofrimento que fora testemunhar a traição dela.
Quando chegou em Lindsey Hall, Patricia esperou que Richard partisse para sua viagem de negócios para contar sobre sua gravidez a Meg. A primeira reação desta foi de encantamento, sem esconder seu entusiasmo comentou:
- Esta foi a melhor notícia que você poderia me dar. William deve estar exultante. Vocês já escreveram para meus tios contando?
Foi, então, que Patrícia contou a Meg todo o drama que estava vivendo, as suspeitas de William em relação a ela e a recusa dele em acreditar que a criança era filho dele.
- Meg, eu preciso que pelo menos você acredite em mim, senão tenho a impressão que vou enlouquecer.
- Mas é claro que acredito. William está sendo muito injusto e cruel com você. Neste momento em que ele deveria estar dando todo o apoio a você, tratá-la desta forma, sinceramente, eu estou indignada. Vou mandá-lo vir aqui e ele irá ouvir poucas e boas de mim.
- Não, Meg, não o chame, por favor. Estou com tanta raiva dele que não quero nem vê-lo, não estou mais me importando com o que ele pensa a respeito de mim e de meu filho. Se fosse só por mim eu voltaria para a casa de meu pai, mas não quero que meu filho seja considerado um bastardo, por isso eu vou continuar casada com William, mas qualquer sentimento que eu podia ter por ele morreu. Se você e Richard não se importarem vou ficar aqui até quando vocês forem embora para Londres no início da Season e da abertura do Parlamento. Já decidi que vou permanecer durante meu confinamento (*) em Londres perto de meu médico e de toda a assistência que a cidade pode me oferecer se eu precisar.
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(*) confinamento= na época havia o costume das mulheres grávidas ficarem confinadas em casa quando a gestação se tornava aparente; elas não compareciam a nenhum evento social, convivendo apenas no círculo familiar.
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- Você está certa, Patricia, em ficar em Londres. Você poderá contar comigo para o que precisar, terá todo o meu apoio e o de Richard também. E tenho certeza o apoio de meus tios também quando eles souberem que você espera mais um neto deles.
- Isto se eles não tomarem o partido de William, pode ser que eles também achem que a criança que espero não é neto deles.
- Tenho certeza que não. Meus tios são pessoas sensatas não estão cegos pelo ciúme como William. Eles aprenderam a te amar e só tinham palavras elogiosas a seu respeito quando estiveram aqui no Natal. Confesso que fiquei até um pouco enciumada porque senti que estava perdendo a preferência de meus tios para você. – brincou Meg.
- William não sente ciúme de mim, Meg. Ele nem sequer gosta de mim, estes meses de casamento foram suficientes para mostrar isto claramente para mim. Ele nunca me perdoou por tê-lo forçado a se casar comigo. No começo de nosso casamento, eu tentei viver em harmonia com ele, mesmo que não houvesse amor entre nós que pelo menos houvesse consideração e respeito um pelo outro, mas ele sempre agiu de forma a me afastar dele. Esta dúvida em relação a paternidade de meu filho foi a gota d’água, ele morreu para mim, Meg.
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