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Sentar-se à sombra em um belo dia e olhar para o campo é o descanso perfeito. (Jane Austen)

Atração dos opostos - Capítulo 20

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Chegou o mês de dezembro, com ele o frio, a neve e o Natal.

 

Há vários anos os Darcys se acostumaram a passar o feriado natalino em Lindsey Hall. O costume começara quando as crianças de Meg e Richard eram pequenas, para não obrigá-las a viajar no frio inverno os Darcys preferiam viajarem eles a fim de poupar os pequenos.

 

Este ano não seria uma exceção, e as festividades seriam muito animadas, pois haveria um grande número de convidados. Tory, o marido e a filha, Georgiana, o marido e filhos, Lady Anne, a mãe de Richard. A novidade deste ano seria a presença do duque de Wycliff convidado para que pudesse passar o Natal com sua filha antes da viagem para o Egito e Itália, junto com ele, seu filho e herdeiro o Marquês de Hallthorn, sua noiva a Srta. Jane Lennox, e o irmão desta o Visconde Stanford.

 

Patricia não cabia em si de felicidade, iria passar o Natal com seu pai e irmão, que não via desde seu casamento, numa casa repleta de pessoas queridas. Durante a viagem de Pemberley a Lindsey Hall, o casal Darcy sorria condescendente ao vê-la conversar sem cessar, excitada que estava com a perspectiva dos dias alegres que estavam por vir. William sentado ao lado ia calado e sem participar do alegre bate-papo entre sua mulher e sua mãe e eventualmente até o pai participava.

 

Logo que chegaram a Lindsey Hall, após mudarem os trajes de viagem, reuniram-se na sala de visitas para o chá, todos conversavam animadamente colocando as novidades em dia.

 

O visconde Standford, Lord Michael Lennox, era um amigo de infância do irmão de Patricia e desde que ela se apresentara a sociedade aos 18 anos era um de seus admiradores mais constantes e fervorosos. Tão logo a viu entrar na sala de visitas aproximou-se dela, tomando-lhe ambas as mãos entre as suas levando-as aos lábios num gesto galante e claramente sedutor.

 

- Lady Patricia, linda como sempre, permita-me cumprimentá-la pelo casamento, embora eu tenha me sentido preterido em sua preferência, casando-se durante minha viagem ao exterior.

 

- Ora, o senhor como sempre um galanteador.

 

- Quem não seria diante de sua beleza e seu encanto.

 

O visconde era conhecido como um dos maiores mulherengos e libertinos da sociedade, as mulheres de todas as idades o consideravam um homem bonito e charmoso e disputavam sua atenção. As solteiras sonhavam levá-lo ao altar, pois era um excelente partido, mas ele conseguira com sua lábia ludibriar a todas e permanecer solteiro, apesar de já ter passado da casa dos trinta. Era conhecida a sua preferência pelas mulheres casadas, considerava-as um alvo mais fácil de se atacar e menos comprometedor, pois, além de serem mulheres mais experientes, não faziam as exigências de compromisso que as solteiras requeriam.

 

Patricia ficou durante toda a duração do chá conversando com Lord Michael, como eram amigos de longa data tinham muitas lembranças em comum e nem se deram conta que ficaram conversando por um tempo além do que o recomendado pelas regras da etiqueta. Mas, como era uma reunião familiar ninguém pareceu se importar com este deslize.

 

Naquela noite Patricia estava terminando de se arrumar para o jantar quando William entrou em seu quarto, ele mesmo dispensou a criada de quarto dela que dava os últimos retoques em sua aparência e disse numa voz em que não escondia sua irritação:

 

- Patricia, espero que você não exagere na sua atenção ao Stanford. Agora a tarde percebi que ele a monopolizou durante o chá. Nunca gostei deste sujeito ele tem uma reputação péssima, não sei por que Meg e Richard o convidaram para uma reunião familiar como esta.

 

- Ele veio acompanhando a irmã Srta. Jane Lennox, que ficou recentemente noiva do meu irmão.

 

- Pois esta jovem não poderia ter arrumado um acompanhante mais mal qualificado, ele tem fama de mulherengo e libertino e seu nome já esteve associado a vários escândalos envolvendo mulheres casadas.

 

- Ele é amigo de infância de meu irmão, estudaram juntos em Eton e depois em Oxford. Ele freqüenta nossa casa desde quando eu era menina e não tenho, particularmente, nenhuma queixa contra ele, sempre se portou de forma respeitosa para comigo.

 

- Claro, ele não é louco para faltar com o respeito à filha do duque de Wycliff e depois devia ter interesses sérios em relação a você.

 

- Teve, inclusive pediu minha mão em casamento, mas eu o recusei, pois sempre o considerei apenas um amigo.

 

- Mas ele não te considera apenas uma amiga, percebe-se isto pelo modo galanteador que se comporta com você. Não quero que você dê atenção a ele e principalmente se estenda em conversas com ele. Fui claro?

 

- William, você não tem o direito de dizer com quem posso e não posso conversar. Você está extrapolando seus direitos de marido. Não é razoável o que você está me pedindo, quando você me pediu que eu deixasse de flertar e de cavalgar em calças de montaria, eu concordei porque achei seu pedido razoável, reconheço que não fica bem para uma mulher casada se expor dessa forma, mas deixar de conversar e dar atenção para um amigo da família numa reunião como esta. É um absurdo o que você está pedindo!

 

- Eu não vou tolerar ver você dando atenções a este sujeito. Se é assim vamos embora para Pemberley amanhã cedo e passar o Natal lá, apenas nós dois.

 

- Você deve ter enlouquecido, William. Não vou embora daqui nem amarrada, deixar de passar o Natal com meu pai e com todas as pessoas que amo e que estão reunidas aqui por causa de seus ciúmes ridículos.

 

- Ciúmes? Quem está com ciúmes?

 

- Você! Que outra razão teria para fazer esta cena.

 

- Você é muito presunçosa se acha que estou com ciúmes de você. Apenas não quero ver o nome de minha mulher na lista de conquistas deste canalha e ainda ser comentado como um marido traído.

 

- Se você não sente ciúmes não tem por que se importar se converso ou dou atenção a ele, pois para mim ele é apenas mais um convidado desta reunião de Natal.

 

O jovem casal Darcy desceu para o jantar sem haver entrado num acordo. William conservou uma expressão sombria e permaneceu a maior parte do tempo calado. Patricia mostrou-se alegre e simpática com todos, disfarçando muito bem o fato de estar aborrecida com a discussão iniciada pelo marido.

 

 

***************************************

 

Após o animado jantar, o grupo de hóspedes se reuniu na sala de visitas de Lindsey Hall, enquanto os mais velhos formaram grupos e se entretinham com jogos de cartas, os mais jovens tocavam piano e cantavam, Lord Lennox permaneceu ao lado de Patricia e esta apesar dos olhares furiosos que William lhe lançava, continuou conversando amavelmente com ele, ignorando completamente a conversa que tiveram antes do jantar.

 

Naquela noite, Patricia esperou em vão seu marido vir ao seu quarto, como, habitualmente, fazia todas as noites desde que se casaram. Ouviu quando ele entrou no quarto que ocupava vizinho ao seu, ouviu o ruído dele se trocando e por fim dispensando o criado de quarto.

 

Patricia ficou um longo tempo acordada, olhando para os contornos fantasmagóricos que os móveis faziam na semi-escuridão de seu quarto e relembrando a discussão que tivera com William, à medida que o tempo passava, conseguia entender cada vez menos o estranho comportamento dele.

 

****************************************

 

Patricia fiel a sua palavra continuava dando atenção e conversando com Lord Lennox, embora não houvesse da parte dela nenhuma intenção de flerte, mas William enfurecido com tal atitude mal lhe dirigia a palavra e desde que chegaram a Lindsey Hall, eles dormiam cada qual em seu quarto.

 

O Sr. Darcy vendo o semblante fechado do filho, numa tarde que estavam a sós perguntou:

 

- William, o que está havendo entre você e Patricia?

 

- Por que está perguntando, meu pai?

 

- O relacionamento de vocês parece que piora a cada dia, agora nem se falam mais. William, você deve esquecer as circunstâncias que motivaram o casamento de vocês e tratar de viver bem com ela. Patricia já provou ser uma boa moça.

 

- Meu pai, o senhor tem reparado como ela está sempre conversando com o Standford desde que chegamos?

 

- Vejo-a conversando com ele, como conversa com todos os demais hóspedes, não a vejo flertando com ele, o comportamento dela tem sido exemplar. Acho que ela está se comportando como uma mulher casada que respeita seu marido.

 

- Vejo que ela conquistou a sua simpatia também, ela é muito ardilosa, soube conquistar o senhor e minha mãe para que ficassem do lado dela.

 

- Você está exagerando, filho. Se você a tratasse desde o início do casamento com atenção e carinho aposto que estaria evitando todos estes problemas de insegurança que está sentindo. Ela é uma excelente moça, eu também a achava caprichosa, mimada e superficial, mas resolvi ouvir o que sua mãe dizia a respeito dela e agora reconheço que é uma jovem generosa, sensata e inteligente.

 

- Desisto de conversar com minha mãe e com o senhor sobre minha mulher, vocês se colocam sempre a favor dela e eu é que sou o errado.

 

***********************************************

 

Patricia estava adorando desfrutar da companhia do pai e de todos os familiares reunidos. O feriado de Natal seria perfeito não fosse por William, ele estava insuportável desde o dia da chegada a Lindsey Hall. Ela não achava justo atender a exigência do marido de ignorar um velho amigo do seu irmão e da família, que se comportava como um cavalheiro com educação e respeito, apesar de suas galanterias, que ela considerava inofensivas e até agradáveis, pois, ultimamente, com o comportamento rude que William dispensava a ela, vinha se sentindo menosprezada.

 

Uma tarde Meg e Patricia cansadas de ficarem reclusas na casa o dia inteiro por causa do mau tempo resolveram dar um passeio na estufa. As estufas nas grandes mansões inglesas, conhecidas como orangerie(*) eram estruturas enormes, normalmente envidraçadas para permitir a passagem da luz, onde os jardinheiros  plantavam mudas de plantas exóticas de climas tropicais como a laranja, daí o nome que vem de  orange, orquídeas, palmeiras, etc.

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As duas mulheres caminhavam e conversavam há algum tempo quando Lord Lennox entrou com o mesmo intuito de dar um passeio e se juntou às duas mulheres, estavam a algum tempo caminhando quando um criado veio chamar Meg:

 

- Sra. Condessa, com sua licença, o senhor conde a chama com urgência em seu escritório.

 

Meg pediu licença e saiu apressadamente em direção à casa deixando Patricia e Lord Lennox a sós na estufa, imediatamente ambos se dirigiram à saída do edifício, pois seria muito impróprio e comprometedor  permanecerem naquele local agora deserto, sozinhos.

 

Estavam ambos dirigindo-se à casa quando William os avistou da janela da biblioteca onde se encontrava. Ele sentiu que ficara lívido, o sangue drenara de seu rosto. Um ódio avassalador tomou conta dele, um sentimento que o assaltava constantemente nestes dias toda vez que via a esposa conversando com Lord Lennox, concluiu logo que eles deviam ter se encontrado na estufa e após terem tido seu interlúdio amoroso, não se deram ao trabalho de disfarçar e voltavam juntos conversando como se nada houvesse acontecido.

 

William sentia desejos primitivos de assassinar os dois amantes, desmascará-los em frente a todos, fazer um verdadeiro escândalo. Respirou fundo e procurou se acalmar, era contra sua natureza se deixar levar pelos instintos e como cavalheiro sabia que era regra básica da boa educação, não dar escândalos na casa alheia estragando a confraternização do Natal.
 

 
No jantar daquela noite, Patricia sentiu que William estava mais arredio que nunca, estava calado pelos cantos, apenas respondendo quando era perguntado, sem a mínima preocupação de se socializar com os demais. Ela estava preocupada com a palidez dele e disposta a tentar quebrar o gelo aproximou-se dele sorrindo e disse:

 

- William, eu...

 

- Se quer conversar com alguém, procure o seu amigo, Lord Lennox. Ele está sempre disposto para um bom bate-papo. – dizendo isto ele virou-lhe as costas e saiu da sala deixando-a mortificada pela forma rude com que fora rechaçada por ele.

 

*****************************************************

 

Patricia sentia a ausência do marido no leito, saudades do ato do amor e de dormir envolvida em seus braços fortes. Era uma dificuldade conciliar o sono, quando conseguia dormir já era de madrugada e sempre tinha sonhos perturbadores e confusos, acordando agitada e aí começava novamente a tortura de conciliar o sono, ficava se revirando na cama pensando numa forma de vencer esta muralha que William havia erguido entre eles e que parecia intransponível.

 

Todas as noites ela ficava lendo até tarde até ser vencida pelo sono, naquela noite o romance que lia estava tão interessante que ela terminou de lê-lo e como estava sem sono resolveu ir até à biblioteca buscar um  outro livro e continuar a leitura. Já era tarde da noite, todos na casa estavam recolhidos, reinava um silêncio absoluto, ela vestiu um penhoar sobre sua camisola e pegando uma vela, ela saiu resoluta em direção da biblioteca atrás do livro que iria ajudá-la a passar mais uma noite insone.

 

William também estava tendo insônia, pois não conseguia parar de visualizar Patricia e Lord Lennox juntos pelo jardim em direção à casa vindos da estufa, pensou e repensou até que num impulso decidiu: “Se ela pensa que isto foi ficar assim, está muito enganada, vou agora tirar isto a limpo. Vamos ver que explicação esdrúxula ela irá me dar, como irá se defender de seu comportamento indigno.

 

Ele levantou-se abruptamente da cama e resoluto dirigiu-se ao quarto da esposa, abriu a porta de interligação entre os dois quartos e para sua total surpresa encontrou o leito dela vazio. William nunca pensou que pudesse viver um pesadelo destes, onde sua esposa poderia estar a não ser no quarto e nos braços de seu amante Lord Michael Lennox. Afinal todos sabiam que este tipo de arranjo ocorria com freqüência na aristocracia, onde os casamentos por conveniência eram a regra, não havia o menor pudor entre os cônjuges terem seus amantes desde que fosse de forma discreta e camuflada.

 

 

 

 

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