Citações

Temos em nós mesmos um guia melhor do que qualquer outra pessoa poderia ser, se ouvimos nosso próprio coração. (Jane Austen)

Atração dos opostos - Capítulo 18

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O dia estava clareando quando a carruagem que levava os recém-casados iniciou a última etapa de sua viagem com destino a Leicestershire.

 

A princípio viajaram em silêncio, pois Patricia estava sonolenta durante as primeiras horas da viagem e até cochilou recostada no assento. Mais tarde, quando William percebeu que ela estava bem desperta, resolveu que seria a hora de ter a conversa séria que estava reservando ter com ela há muito tempo.

 

- Patricia, vou aproveitar as longas horas que temos pela frente para conversarmos sobre nosso casamento. Não sei qual é a idéia que você tem de casamento, tendo em vista que você não foi criada convivendo num ambiente com pessoas casadas, pois seu pai não voltou a se casar após a viuvez e seu irmão ainda é solteiro.

 

- O exemplo que tenho de casamento é o de Richard e Meg, admiro a forma como se relacionam.

Eu era uma menina de 10 anos quando eles se casaram e tenho acompanhado de perto a vida deles, nestes 11 anos que estão casados. Sabe, logo que se casaram, eu odiei Meg à primeira vista, não me conformava ver meu primo, por quem eu tinha uma paixonite de menina, casado com uma criatura inexpressiva como Meg, mas no decorrer dos anos com a convivência, fui conhecendo-a melhor, entendi porque Richard a escolheu e passei a amá-la, hoje eu a amo como uma irmã mais velha, pois ela sempre me tratou com consideração e respeito.

 

- Realmente, o casamento deles é exemplar, mas não podemos esquecer que não serve de exemplo para nós, pois eles se casaram por amor. O ponto onde quero chegar é que nosso casamento deve se basear no respeito um pelo outro. Gostaria de lhe pedir que você modificasse sua conduta. Você já deve ter percebido que eu não aprovo seus modos liberais e como minha esposa não quero vê-la se comportando deste modo. Quero que você aja com discrição, como as verdadeiras damas devem agir.

 

- Você está me dizendo que não sou uma dama e você quer que eu modifique minha conduta? Você não está querendo que eu me transforme em quem não sou. Não sou discreta e reservada como sua mãe ou Meg, sou alegre e expansiva, gosto de conversar, de me socializar com as pessoas, será que você está querendo que eu deixe de ser eu mesma.

 

- O que eu quero é que como uma mulher casada, você aja de modo discreto, sem escândalos, e entre outras coisas, deixe este seu costume de flertar.

 

- Desde que ficamos noivos e tivemos uma conversa semelhante a essa eu tenho evitado flertar com meus admiradores.

 

- Irrita-me sobremaneira os olhares sedutores que você costuma lançar sobre os homens, você não poupa nem seu primo Richard de seu assédio, nunca lhe passou pela cabeça como é impróprio flertar com o marido daquela que você considera como uma irmã mais velha?

 

- Mas meu flerte com Richard era apenas para chocar a sociedade, não tenho qualquer sentimento impróprio por ele, considero-o como um irmão, jamais passou pela minha cabeça destruir um lar tão harmonioso como o deles.

 

- Pois não é essa a impressão que seu comportamento passa para os outros. Meg jamais lhe criticaria porque é boa demais para isso e sempre encontra uma desculpa para seu comportamento inadequado e Richard é um verdadeiro cavalheiro, por isso comporta-se como se não percebesse suas atitudes sedutoras. Daqui para frente quero que você ponha um ponto final neste tipo de conduta completamente imprópria para uma mulher casada, estamos entendidos?

 

- Está me parecendo que o senhor esperou nos casarmos para mostrar suas garras. Enquanto estávamos noivos ficou bem calado, agora está ditando as normas de comportamentos que espera de mim.

 

- Se a senhora soubesse se comportar, eu não precisaria estar tocando neste assunto. É muito desagradável para mim como homem ter que tocar num assunto como esse com minha mulher, pois qualquer jovem de nossa sociedade aprende a se portar praticamente quando começa a andar e a falar.

 

- Se o senhor tinha um conceito tão ruim a meu respeito, por que se casou comigo?

 

- Acho que está claro que foi a senhora quem me forçou a este casamento. Sabia perfeitamente o quanto relutei em aceitar este compromisso, mas graças a sua insistência tivemos de levar adiante um compromisso que poderia na ocasião ser contornado. Agora que estamos casados quem ditas as regras sou eu. Exijo que se comporte daqui para frente com a dignidade que se espera de uma dama e principalmente de uma dama casada.

 

- O senhor não mede suas palavras para me ofender. Não acha que está exagerando no papel de marido, desde que começamos a conversar o senhor já proibiu, já exigiu e eu só porque sou sua esposa devo me submeter a todas as suas exigências calada?

 

- A senhora está achando minhas exigências absurdas? O que teria a dizer a seu favor?

 

- Sr. William Darcy, meu caríssimo esposo, não vou nunca deixar de ser eu mesma, é de minha natureza ser expansiva, alegre, falante e vou continuar sendo, não vejo nenhum mal nisto. O casamento não irá mudar meu modo de ser, a única concessão que farei é a respeito dos flertes, são um capítulo encerrado em minha vida, daqui para frente só flertarei com meu marido.

 

- Comigo você não precisa usar suas artimanhas de sedução. Sou imune a elas.

 

- Será? É o que veremos.

 

*******************************************************

 

A viagem daquele dia pareceu ter levado o dobro das dez horas que realmente levara devido ao clima tenso criado pela discussão entre os dois esposos. Patricia permaneceu a maior parte do tempo todo olhando a paisagem através de sua janela e William tentou várias vezes cochilar, mas sem muito sucesso, pois a tensão da discussão parecia haver ficado no ar.

 

No final da tarde chegaram à propriedade de Holbury Hall, ao atravessarem o portão principal foram saudados pelo velho guarda que conhecia Lady Patricia e fez questão de fazer uma reverência e dizer cordialmente:

 

- Bem vinda a Holbury Hall, Lady Patricia.

 

A carruagem prosseguiu por um extenso parque que pertencia à propriedade até avistarem a majestosa construção da mansão que se erguia numa elevação, havia em frente um belo e bem cuidado jardim e um extenso campo gramado que se estendia ao longe. O duque não faltara com a verdade ao dizer que era uma grande propriedade e certamente deveria ser produtiva. Quando a carruagem parou em frente à porta principal da mansão, uma dezena de criados se perfilava todos uniformizados, aguardando para saudarem os senhores. Três deles se adiantaram, assim que o casal desceu da carruagem, eram o mordomo, a governanta e o administrador da propriedade.

 

Feitas as devidas apresentações, o casal foi conduzido aos seus respectivos quartos separados que eram separados por uma sala íntima.

 

Naquela noite, logo após o jantar que foi feito quase em silêncio, pois William e Patricia trocaram apenas uma meia dúzia de palavras, ainda desgastados pela discussão da manhã na carruagem. Patricia saiu da mesa direta para seu quarto alegando cansaço da viagem, deixando claro a William que não queria ser importunada naquela noite.

 

 

*********************************

 

Uma das paixões de Patricia era cavalgar. Na manhã seguinte logo cedo, refeita do cansaço da viagem nos dias anteriores, ela se dirigiu aos estábulos para cavalgar o seu cavalo preferido, que havia sido enviado de Longward Court dias antes. Aproveitando que não havia hóspedes na casa ela vestiu uma calça de montaria que mandara fazer especialmente para ela poder cavalgar como gostava, montada como os homens.

 

A manhã estava fria, mas Patricia não se incomodou com o vento gelado, pois a sensação de liberdade que sentia compensava qualquer frio que pudesse sentir. Já estava cavalgando a um bom tempo quando avistou um cavaleiro se aproximando e mesmo ao longe reconheceu o marido, ela dirigiu sua montaria para se encontrar com a dele. Embora tivesse ficado com raiva dele no dia anterior com tudo o que ele havia dito sobre seu comportamento inadequado, Patricia não sabia guardar rancores e já havia perdoado as ofensas levando em conta que o marido era do tipo conservador, mas ela tinha certeza de que conseguiria dobrá-lo no decorrer do casamento.

 

- Bom dia, William. Bela manhã para cavalgar, não acha?

 

- Patricia, onde você arrumou estas calças de montaria. Será que tudo o que falei a você a respeito de se comportar com decoro foi inútil?

 

- Os campos aqui são desertos, ninguém verá que estou cavalgando de calças.

 

- E os empregados dos estábulos não viram você trajada deste modo?

 

- Ora, o velho senhor Forbes nem liga está acostumado, pois cavalgo assim desde menina e os demais nem olham de medo de levar uma bronca do Sr. Forbes.

 

- Patricia, eu não quero que você cavalgue vestida deste modo e montada como um homem é muito impróprio. As mulheres devem cavalgar de saia e sentadas de lado.

 

- Olhe, William, estamos começando muito mal nossa vida de casados, tudo o que faço você considera impróprio e eu não estou disposta a renunciar a um prazer tão inocente como cavalgar vestindo calças de homens só porque você não quer. Não vejo nada de mais, pois ninguém vai ver, se houvesse hóspedes na casa eu até concordaria com você.

 

William ponderou que realmente a vasta propriedade oferecia locais completamente ermos

 

- Vou concordar que você cavalgue vestida deste jeito, se sair de casa com a saia de cavalgar por cima destas calças justas e só retirá-la quando estiver longe do olhar dos cavalariços. E quando estivermos cavalgando somente nós dois, estamos combinados?

 

- Meus Deus, quantas exigências! E você cavalgaria comigo todos os dias?

 

- Sim, desde que seja cedo, como hoje, pois durante o dia pretendo verificar com o administrador a situação da propriedade que agora está sob minha responsabilidade, visitar os arrendatários, conferir a contabilidade, tenho muito trabalho aqui.

 

- William, você é maravilhoso. Vai cavalgar comigo todos os dias! Se estivéssemos no chão, eu lhe daria um beijo de agradecimento.

 

- Não há necessidade de tanta euforia. – e para disfarçar o constrangimento que sentiu ante a euforia e o discurso espontâneo de Patricia, William propôs num impulso. - Vamos apostar uma corrida até o pé daquele morro.

 

- Vamos! Apostando o quê? Quem ganhar tem direito de pedir ao outro qualquer coisa. Lá vamos nós, um... dois...três... já.

 

O entusiasmo quase infantil de Patricia ante a brincadeira proposta deixou William atônito, havia se casado com uma verdadeira moleca. Partiram a galope, mas como a montaria dela era superior a dele e ela realmente era uma hábil amazona venceu a corrida com facilidade.

 

- Eu venci! Ganhei a aposta! Vou querer que você me leve a passear junto com você na garupa de seu cavalo, como Richard costuma levar a Meg.

 

- Mas isto não tem cabimento, Richard leva Meg na garupa com ele porque ela não sabe e tem medo de cavalgar.  Não faz o menor sentido eu te levar comigo na garupa quando você é uma excelente amazona, acredito até que cavalgue melhor do que eu.

 

- William Darcy, você perdeu a nossa aposta e não tem que discutir, tem que pagar a aposta. Eu quero passear com você na garupa do cavalo e ponto final.

 

Resignado William disse:

 

- Está bem, então vamos passear no seu cavalo que é melhor que o meu. Vou deixar o meu amarrado por aqui, enquanto passeamos.

 

Patricia sempre achara romântico Richard levar a esposa Meg na garupa do cavalo junto com ele, e ela assistira inúmeras vezes ambos trocando carícias e se beijando, aumentando ainda mais o seu desejo de que alguém um dia que fizesse o mesmo com ela.

 

William, entretanto, diferente de Richard, parecia pouco à vontade com a esposa sentada na sua frente, não estava acostumado com esta proximidade tão íntima com uma mulher num espaço aberto e sobre um cavalo. Patricia, por sua vez, não se fez de rogada, se acomodou confortavelmente em frente a William, sentada de lado, passou o braço direito em volta da cintura dele, encostou-se em seu peito, aninhando-se a ele.

 

- Bem, você que conhece a propriedade diga-me por onde podemos fazer nosso passeio.

 

- Podemos seguir por aquela trilha do lado direito, ela margeia o rio e há recantos lindos, com o rio fazendo remansos, podemos ir até uma velha cabana de caça a umas 3 milhas adiante.

 

O outono já começava a tingir as folhas das árvores em vários tons de vermelho, alaranjado, amarelo e folhas mortas caídas forravam o chão formando um tapete macio.

 

- William, você não acha romântico nós dois juntos no cavalo passeando por esta paisagem de outono tão linda? Sabe, eu sempre tive inveja de Meg quando a via passeando com Richard e pensava que eu também gostaria de um dia ter alguém que me levasse a passear assim. E agora estou tendo esta oportunidade. É maravilhoso!

 

William sentia-se constrangido com a maneira sem acanhamento e autocensura de Patricia falar.

Ela era muito avoada para o gosto dele, expressava seus sentimentos sem o menor pudor, como se o casamento deles fosse por amor e eles nutrissem um sentimento profundo um pelo outro.

 

Finalmente quando chegaram a cabana de caça, Patricia lançou um olhar orgulhoso a sua volta e disse:

 

- Não é linda esta propriedade? Se não tivéssemos que morar em Pemberley gostaria de morar aqui. Mas podemos passar uma parte do ano aqui, não é William?

 

- Sim, podemos.

 

- Obrigada, William. Quando você não está criticando meus modos, é um marido encantador.

 

- Pois, então, se comporte de modo a que eu não precise criticá-la.

 

E antes que William pudesse contê-la, a impulsiva Patricia jogou-se nos braços dele, passando seus braços em volta de seu pescoço e dando pequenos beijos em seu dele, disse numa voz carregada de sensualidade:
 

– Vou me comportar, só para que você seja sempre encantador comigo. - William soube naquele momento que perdera mais uma batalha, sua esposa tinha o poder de fazê-lo esquecer todas as restrições que tinha contra ela quando estava em seus braços, aquele corpo macio e perfumado que se esmagava contra o seu derrubava qualquer resistência que ele pudesse ter.

 

 

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