Capítulo 16
Faltava apenas dois dias para o casamento e William Darcy ainda ruminava as mesmas dúvidas a respeito da noiva. Seus pais haviam chegado de Derbyshire juntamente com seus irmãos Jonathan e Frank para a cerimônia. Sua irmã Tory com o marido Lord Alfred Dorsey e a única filha deles, Marjorie, também chegaram de Hertfordshire onde viviam. Apesar de William não se sentir entusiasmado com a boda que se aproximava, a reunião familiar levantou o seu espírito, era muito bom estar cercado de sua amada família.
Os Darcy estavam apreensivos com o casamento, temiam que o filho não fosse feliz ao lado da espevitada Lady Patricia, mas haviam se conformado ante o inevitável. Procuravam manter uma aparência serena para não alarmar ainda mais o filho que sabiam estava se casando a contragosto.
- Quem sabe com a convivência com você, Lizzy, Lady Patricia se torne mais assentada, talvez o que falte a ela seja a orientação materna, de uma mulher mais velha que tenha ascendência sobre ela. Acredito que você será uma excelente influência para ela. – ponderou o Sr. Darcy para sua aflita esposa quando conversavam a sós sobre o casamento do filho.
- Gostaria de acreditar nisso, Fitzwilliam. Aliás, temo que nossa convivência com ela em Pemberley seja desastrosa.
- Se nossa convivência com Lady Patricia se tornar insustentável, pedirei a William que venha viver em Londres com ela. Eu tenho condições de administrar Pemberley sozinho, como fiz a vida inteira.
- Vamos fazer de tudo que estiver ao nosso alcance para nos entendermos, antes de tomarmos uma medida tão radical. Não quero nosso filho separado de nós. Seria um sofrimento para ele viver longe de Pemberley que ele ama tanto. Depois como seu herdeiro o lugar dele é lá.
- Vamos manter a calma, Lizzy. Quem sabe este casamento não seja o desastre que estamos prevendo e tudo acabe se acertando.
Lizzy segurou as mãos do marido entre as suas e as levou aos lábios beijando-as e sorriu para ele, seu coração se enchia de ternura ao pensar que a preocupação de Darcy era principalmente por causa dela.
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Naquela noite, Richard havia alugado um camarote em Vauxhall Gardens(*) para um concerto e toda a família iria para este jardim dos prazeres dos londrinos, situada na margem sul do rio Tâmisa.
Era uma vasta área repleta de árvores com trilhas e passeios iluminados por centenas de luzes coloridas, fontes iluminadas, coreto e camarotes para os mais abastados. Os jardins forneciam o cenário ideal para se ouvir concertos e canções de compositores populares como Hayden, Handel e Hook. Havia noites em que aconteciam bailes e espetáculo da queima de fogos de artifício. Era um lugar de diversões muito em voga que atraía pessoas de níveis sociais diferentes, desde a aristocracia até a classe trabalhadora.
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(*) Vauxhall Gardens: algumas ilustrações antigas pois o Vauxhall não existe mais, ele foi fechado em 1859.
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A noite já estava um pouco fria por ser o princípio do outono, mas os casais pareciam não se incomodar com o tempo, pois caminhavam animadamente pelas alamedas iluminadas, conversando, cumprimentando os conhecidos numa confraternização animada e barulhenta antes do concerto.
O grupo formado por Richard e Meg, Tory e o marido, conversava animadamente, colocando as novidades em dia. Lady Patricia e William vinham logo atrás, de braços dados, quietos cada qual ruminando seus pensamentos.
- William, eu o estou achando particularmente calado esta noite? Está aborrecido com alguma coisa?
- Não, Patricia, talvez seja a proximidade de nosso casamento que está me deixando meio inquieto. Afinal vamos assumir novas responsabilidades, é um pouco assustador.
William, propositadamente, diminuiu o passo deixando uma distância maior entre eles e os dois casais que seguiam na frente. Passando por uma aléia secundária ele guiou a noiva para ela. Era uma trilha estreita e menos iluminada. Patricia estranhou a atitude do noivo, pois não era um comportamento que se pudesse esperar de seu arredio e comedido noivo, mas ela nada disse e continuaram a seguir pela trilha, e quanto mais a adentravam o número de pessoas diminuía até que chegaram numa espécie de clareira onde havia alguns bancos e estava completamente deserta.
A idéia inicial de William ao conduzir a noiva a este local deserto fora a de perguntar a ela francamente sobre suas experiências passadas. Ele queria colocar as cartas na mesa, ser direito, como era seu jeito de ser, pois não conseguia aceitar a idéia de ser enganado, seu orgulho se revoltava com o fato de estar sendo usado para limpar a honra da noiva. Mas, enquanto caminhava William ponderou que seu ato impulsivo de trazer a noiva naquele recanto ermo fora muito infeliz. Ela, certamente, se sentiria muito ofendida com este questionamento e qualquer que fosse a resposta dela, serviria apenas para tumultuar uma relação frágil como a deles nas vésperas da cerimônia de casamento.
- Bem, William...
William decidiu que a única saída para a noiva não pensar que ele havia enlouquecido para trazê-la naquele local ermo sem motivo algum, seria beijá-la, afinal o que os noivos mais gostavam de fazer quando havia oportunidade de fugir ao rígido controle exercido sobre eles era se beijarem. Vauxhall Gardens era conhecido como um local onde os namorados tinham um pouco mais de liberdade fugindo da vigilância das acompanhantes e do código de conduta rígido da época. Era um paraíso dos amantes, onde promessas eram trocadas, beijos eram roubados e retribuídos, onde o amor podia expressar-se um pouco mais livremente naquela sociedade repressora.
William segurou o rosto da noiva com ambas às mãos e colou seus lábios aos dela, afinal não era nenhum sacrifício beijar aqueles belos lábios sedutores. Patricia, por sua vez, não se fez de rogada correspondeu à carícia inesperada com igual entusiasmo. Nas poucas vezes em que William a beijara despertara nela uma ânsia incontida. A proximidade física dele transmitia-lhe uma sensação de segurança, proteção, amparo como nunca ela sentira com nenhum de seus outros admiradores que a haviam beijado.
Envoltos como num casulo na semi-escuridão fornecida pelas altas árvores que os rodeava, William pensou, a princípio, dar apenas um beijo na noiva para disfarçar a intenção abortada de questioná-la sobre sua virgindade, retornando, logo em seguida ao passeio pela aléia principal.
Entretanto, um beijo levou a outro, tornando-se cada vez mais ardentes e famintos. Os braços de William, como duas tenazes, seguravam firmemente o corpo de Patricia junto ao dele. O que acontecia com ele que quando ela estava em seus braços sua mente apagava todas as objeções que tinha contra ela? Parecia tão certo tê-la em seus braços e trocar carícias apaixonadas com ela.
Os passos de um casal de estranhos que se aproximou tiraram Patricia e William de seu enleio particular, eles se afastaram um do outro, tentando se recompor e em silêncio voltaram à trilha que os levaria de volta ao local dos camarotes e do concerto.
O caminho de volta foi feito em absoluto silêncio pelos noivos. O coração de Patricia dava saltos em seu peito, pela primeira vez William a levara a um local com o propósito específico de beijá-la, este pensamento encheu-a de alegria.
William, por sua vez, estava calado porque o desejo insatisfeito deixara uma sensação desconfortável em seu corpo. Ele se recriminava por sua falta de controle, o que deveria ser apenas um beijo transformara-se numa avalanche de carícias e se não tivessem sido interrompidos, não sabia para onde os levaria a paixão que incendiava seus corpos.
Quando, por fim, o casal de noivos chegou ao camarote, o concerto já havia se iniciado, ambos procuraram se sentar em silêncio nas cadeiras vagas da parte de trás do camarote, evitando chamar a atenção sobre eles, mas não puderam evitar que os olhares de pessoas dos camarotes vizinhos recaíssem sobre eles curiosos e repletos de censura por parte das matronas.
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No dia seguinte, véspera do casamento, Meg continuando seu papel de mãe da noiva, tinha a difícil tarefa de conversar com Patricia sobre a noite de núpcias e os deveres de esposa, como era de praxe na época.
- Patricia, primeiramente, não preciso dizer que foi impróprio, você e William terem se afastado de nós ontem, em Vauxhall. Quando voltamos ao nosso camarote, Lady Canfield que estava no camarote ao lado fez questão de me perguntar com um ar de censura onde estavam você e William que não estavam conosco? Fiquei sem saber o que dizer, foi muito constrangedor.
- É uma velha bisbilhoteira, esta Lady Canfield.
- Ainda bem que vocês se casam amanhã, senão seria mais um motivo para falatórios. Tenho certeza que hoje, este passeio prolongado de vocês, deve ter sido o assunto nas salas de visitas.
- Esta gente não tem o que fazer, a não ser se ocupar da vida alheia. Deixe que falem não me importo com o falatório desta gente maldosa.
- Bem, você deve saber qual o assunto de nossa conversa, hoje. Como estou fazendo às vezes de sua mãe preciso orientá-la sobre a noite de núpcias e seus deveres de esposa. Você não é uma jovem totalmente ignorante sobre o assunto, por isso eu preferiria que você me fizesse perguntas sobre o que não sabe e gostaria de saber, assim fica mais fácil para eu te orientar.
- Meg, não precisa se preocupar sobre isso. Eu sei, perfeitamente, como tudo funciona, encontrei há anos atrás um livro de Medicina ilustrado em Longward Court, que mostrava e descrevia em detalhes todo o funcionamento da anatomia humana na cópula. E quanto aos meus deveres de esposa, sei muito bem quais são e pode ficar tranqüila que os cumprirei à risca.
Meg procurou conter seu espanto, a prima era, sem dúvida, uma jovem muito avançada para a época. Mas, respirou aliviada por não precisar discorrer sobre uma questão tão íntima e delicada que a deixava extremamente constrangida. Esperava que a próxima vez que tivesse que falar sobre este assunto fosse dali a muitos anos quando sua filha Laura estivesse para casar.
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