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Metade do mundo não consegue compreender os prazeres da outra metade.(Jane Austen)

Atração dos opostos - Capítulo 15

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Após alguns dias em Longward Court, os Darcy voltaram para Pemberley alegando afazeres na propriedade. Assim, William se viu livre da presença perturbadora e irritante da noiva. Mas, quando ele pensou que só a veria novamente no dia do casamento, marcado para o início de outubro. Meg chamou-o a razão, dizendo-lhe que ele deveria ir a Londres no mês de setembro, encontrar-se com a noiva, fazer-lhe a corte, serem vistos juntos, freqüentando eventos sociais, como um casal normal de noivos, pois nesta altura os comentários dos hóspedes de Lindsey Hall, sobre o estranho comportamento do noivo em relação à noiva, já teria se espalhado por toda a sociedade, sempre ávida por estórias maldosas.

 

William reconheceu a contragosto o bom senso nas ponderações de Meg e concordou que corrigiria o comportamento inadequado que havia adotado na temporada em casa dos primos, apresentando-se como um noivo se não apaixonado, pelo menos atencioso e cortês.

 

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Os condes de Lindsey partiram para Londres em companhia de Lady Patricia, alguns dias após a partida dos Darcy. Meg havia se prontificado a ajudar a prima no que ela precisasse para os preparativos do casamento, precisavam se apressar, pois o casamento estava próximo e teriam muito trabalho pela frente devido a grandiosidade e suntuosidade da boda.

 

A notícia do noivado era o assunto mais comentado em Londres, naqueles dias. Nas salas de visitas da aristocracia as senhoras tomavam seu chá comentando sobre este noivado insólito, devido às características dos noivos e esta união que seria sem sombra de dúvida o acontecimento social do ano.

 

Nos clubes masculinos faziam-se apostas sobre este casamento, se ele se realizaria ou se a noiva romperia, novamente, à última hora, levada por algum capricho. Alguns grupos mais radicais apostavam quanto tempo o sério William Darcy agüentaria a frívola Lady Patricia como esposa.

 

Enfim, não faltavam especulações em torno das bodas de outubro.

 

Indiferente à agitação que estava causando, Lady Patricia seguia sua rotina na casa do pai em Londres, acordava cedo para fazer sua cavalgada matinal pela Rotten Row(*) e depois passava grande parte do dia com Meg, que estava lhe fazendo às vezes da mãe, saíam às compras do enxoval e cuidavam juntas dos detalhes da cerimônia.

 

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Rotten Row é um largo caminho ao longo do lado sul do Hyde Park em Londres. Nos seus dias de glória no século XVIII e XIX, ela era um lugar da moda para a aristocracia ver e ser vista. Atualmente ela é mantida como um lugar para cavalgar no centro de Londres, mas é pouco usada para este fim.

 

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Numa tarde em que ambas haviam voltado das compras e tomavam chá na sala de visitas da Lindsey House, Meg resolveu tentar novamente ser a mediadora da paz entre os noivos.

 

- Patricia queria lhe pedir para que você se esforce em viver em harmonia com William. Mesmo que não exista amor entre vocês dois, o que não deve faltar é o respeito.  E quem sabe com a convivência vocês venham a gostar um do outro.

 

- Meg, não me preocupa o fato de que William não goste de mim, nunca me passou pela cabeça que um dia eu me casaria por amor. Estou me casando porque acho que encontrei a pessoa certa para mim.

 

- William, a pessoa certa para você?  - exclamou Meg surpresa com a afirmativa da prima.

 

- Sim, porque ele reúne as qualidades que procuro num homem, é sério, de boa família, não está interessado no meu dote, é forte, saudável e bonito.

 

- Então, você sente certa atração física por ele? Ele é realmente um homem muito bonito!

 

- É, concordo com você, ele é um homem bonito. Eu não conseguiria ter intimidades com meu marido se não sentisse atração física por ele. Um dos meus sonhos ao casar é ter muito filhos, como vou poder ter muitos filhos com um homem por quem eu sinta repulsa. Meg, você pensou como será bom eu viver rodeada de crianças. Meus filhos! Poder brincar com eles, amá-los de todo meu coração. Eu adoro crianças, elas são tão puras, tão sinceras.

 

- Patricia, realmente, você é uma pessoa surpreendente. Talvez esta atração física que você diz sentir por William, transforme-se com o tempo em um sentimento mais profundo.

 

- Meg, você não desiste, é uma eterna romântica.

 

- Queria que duas pessoas maravilhosas como vocês dois, pudessem se amar e ser felizes. Mas, pelo menos fico sossegada ao pensar que você será uma excelente mãe, não irá largar seus filhos aos cuidados de babás e preceptoras, esquecendo-se que eles existem.

 

- Eu jamais faria uma crueldade destas.

 

Meg se lembrou da conversa que tivera com William tempos atrás em que ele dissera que pretendia ter apenas um filho, um herdeiro e nunca mais ter intimidades com a esposa. Os planos de Lady Patricia pareciam bem outros. [i]“Quem saíra vencedor?”[/i] – pensou Meg olhando a bela prima e tendo quase certeza de que não seria o primo.

 

*******************************

 

Apenas na segunda quinzena de setembro, William Darcy chegou a Londres para cortejar a noiva. A disposição com que veio, era a mesma a de um condenado à forca em direção ao patíbulo. Mas, ele não queria aumentar os rumores que corriam na sociedade de que desprezava a noiva, que havia algo estranho e misterioso por trás deste noivado. Se estes rumores chegassem aos ouvidos do duque de Wycliff, ele estaria perdido, portanto chegara a hora representar o noivo se não apaixonado, pelo menos atencioso e correto.

 

Meg estava tão preocupada com os boatos que corriam que tratou de alertar William.

 

- Amanhã o duque nos convidou para irmos ao teatro assistir a ópera em seu camarote. Por favor, não perca a oportunidade de se apresentar corretamente ao lado de Patricia e calar os rumores que andam circulando de que vocês dois não se entendem.

 

Na noite do dia seguinte, o grupo formado pelo duque, sua filha, William, Meg e Richard chegaram ao camarote do duque minutos antes do início do espetáculo, na fila da frente sentaram o duque e os noivos e atrás Meg e Richard.

 

Todos os olhares do teatro lotado se voltaram para o camarote ducal, o duque cumprimentava com um altivo aceno de cabeça os conhecidos e sorria orgulhoso para o belo casal de noivos.

 

- William, meu rapaz, tiveram a ousadia de vir me dizer que você tratou minha filha com indiferença e desprezo em Lindsey Hall. O que esta gente invejosa é capaz de inventar? Como se você que é um verdadeiro cavalheiro e está se casando com ela por amor, pudesse tratá-la desta forma? Mas calei na hora a pessoa que veio me contar um absurdo desses!

 

William sentiu um calor nervoso subindo-lhe pelo corpo, agradeceu aos céus o fato do duque ser tão cego em relação à filha que só lhe via qualidades, achando que ninguém poderia destratar a filha querida. Agora como o duque havia concluído que o casamento deles era por amor era um mistério.

 

Patricia que conversava animadamente com os primos, felizmente, não ouviu as palavras do pai.

 

*********************

 

As palavras do duque de Wycliff serviram de advertência a William. Ele realmente estaria perdido se o duque soubesse dos verdadeiros sentimentos que nutria por sua filha. Já que o casamento era inevitável, que ele acontecesse sem levantar a ira do poderoso nobre, que diziam ser um oponente temível. Bastavam os problemas que tinha com a noiva, ele não precisava acrescentar aos seus dissabores a inimizade do futuro sogro.

 

Meg e Richard se encarregaram de acompanhar os noivos a todos os eventos sociais a que os noivos compareciam e William tratou de representar o noivo atencioso, calando os fortes rumores que circulavam até então na sociedade.

 

Algumas tardes, William levava a noiva a passear em um cabriolé pelo Hyde Park, em horário que era considerado da moda, em que a sociedade passeava para ver e ser vista por todos. Como o veículo era aberto os dois noivos podiam ficar sozinhos, não havendo necessidade de uma acompanhante.

 

- Sr. Darcy, estou atônita de ver como o senhor é bem educado quando quer e quando lhe interessa. – comentou um dia Lady Patricia com ironia.

 

- Acho que é inútil lutar contra o inevitável, já que daqui a alguns dias estaremos casados, melhor que tenhamos uma convivência civilizada e amistosa.

 

- Se o senhor continuar a me tratar desta forma corre o perigo de eu me apaixonar pelo senhor.

 

- Lady Patricia, eu lhe agradeceria se poupasse suas observações sarcásticas. Sei perfeitamente que não há a mínima possibilidade deste sentimento brotar em seu coração.

 

- Como pode ter tanta certeza? O Senhor Cupido, às vezes, lança suas flechas nos casais mais improváveis, temos um exemplo nas nossas famílias, com Richard e Meg, não é mesmo? Quem diria que Richard que foi o melhor partido de sua época, que poderia ter escolhido a mulher que quisesse, iria se apaixonar por uma criatura tímida e obscura como Meg. E veja, o que é o amor, são felizes até hoje, após tantos anos de casamento, ainda se amam apaixonadamente, disto tenho certeza porque compartilho da intimidade deles.

 

 - Neste caso é mérito pessoal de Meg, ela sempre foi uma criatura excepcional, merece ser amada, venerada.

 

- Sem dúvida, eu a amo muito, ela é para mim como uma irmã mais velha. E está me ajudando como uma mãe nos preparativos do casamento. Mas não vamos fugir de nosso assunto. Como o senhor reagiria se eu me apaixonasse loucamente pelo senhor?

 

- Lady Patricia, não estou entendendo a intenção oculta desta sua questão.

 

- Será que agora que estamos às vésperas de nosso casamento, não poderíamos nos tratar mais informalmente, de Patricia e William.

 

- Como quiser.

 

- Não há intenção oculta alguma, aliás, você é o homem mais desconfiado que conheço, está sempre vendo intenções ocultas em tudo o que falo. Estou apenas conversando com meu querido noivo, arrumando assuntos para evitar que façamos este nosso passeio em silêncio absoluto e constrangedor.

 

- Pois se quer conversar por que não escolhe um tópico menos controverso?

 

- Como o tempo, por exemplo? Se está calor ou está frio?

 

- Pode ser. – respondeu William secamente.

 

Os noivos terminaram seu passeio em silêncio, mas William esforçou-se em demonstrar um semblante sereno de quem estava apreciando o passeio ao lado da bela noiva para que os freqüentadores do parque não tivessem o que comentar sobre o casal mais visado do momento.

 

William Darcy considerava uma verdadeira tortura ficar a sós com a noiva. Uma onda de sensualidade o assaltava sempre que estava ao lado dela, sentir próximo o calor morno e o suave perfume de lavanda que recendia de seu corpo, despertava nele um desejo selvagem de beijá-la, de acariciá-la. Não era próprio de sua natureza fleumática sentir este desejo tão exacerbado, mesmo quando era bem jovem e tinha um alto nível de testosterona fluindo em seu sangue, ele fora um rapaz controlado que sabia lidar com a libido própria da idade.

 

Lady Patricia parecia ter conhecimento do desejo que provocava no noivo e sentir um prazer maldoso em provocá-lo, lançando-lhe discretamente olhares com um brilho malicioso. E, várias vezes William notara que ela roçava o corpo propositalmente ao dele , quando estavam próximos. Atitudes que uma verdadeira dama jamais teria, mas há muito tempo ele chegara à conclusão que Lady Patricia era dama apenas no nome.

 

Estes pequenos gestos e atitudes insinuantes que alimentavam ainda mais a luxúria de William, levantaram nele uma terrível suspeita que o estava corroendo por dentro há alguns dias.

 

[i]”Seria Lady Patricia ainda virgem? Alguns comportamentos dela eram os de uma mulher experiente. Não teria ela se entregado anteriormente a algum de seus admiradores? Ela tinha sido  noiva anteriormente, teria ela permitido ao  então noivo certas liberdades? William, lembrou-se também que ela havia tentado fugir com um pretendente, sendo impedida pelo pai e pelo irmão, havia sido um escândalo terrível na época. Contavam-se tantas estórias dela, sendo difícil separar a verdade dos boatos maldosos. O comportamento rebelde, voluntarioso, completamente fora dos padrões rígidos da época deixava margem a muitas dúvidas. Não estaria ele sendo o noivo que iria limpar a honra perdida da noiva? Seria esta a razão do fabuloso dote de casamento, não estaria ele sendo comprado por este dote?”[/i]

 

William não tinha a quem confiar suas dúvidas e questionamentos, a pessoa com quem gostaria de conversar sobre este assunto tão delicado seria Meg, mas estava completamente fora de questão abordar este assunto de natureza tão delicada com ela, mesmo sendo ela sua melhor amiga e irmã.

 

Conversar com Richard, também não parecia apropriado, ele, certamente, lhe daria conselhos sensatos, mas era primo irmão de Patricia. Como William poderia expor estas dúvidas para alguém que também zelava pelos interesses da noiva? Ele colocaria Richard numa posição difícil e constrangedora.

 

Poderia confidenciar com seu pai, mas ele estava em Pemberley e só viria a Londres às vésperas do casamento, mas como ele iria confessar ao pai uma dúvida desta natureza. O que poderia o Sr. Darcy, dizer ou fazer? Só iria preocupar e aborrecer o pai.

 

O casamento estava marcado, todos os convites já haviam sido expedidos. Toda a aristocracia inclusive a família real se preparava para as bodas que seria o acontecimento social do ano. Não havia nada que William Darcy pudesse fazer para impedir o andamento deste casamento. A dúvida, que o estava corroendo por dentro, somente poderia ser esclarecida pela própria noiva ou com maior certeza por ele mesmo na noite de núpcias quando exercesse seus direitos maritais.

 

 

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