Citações

Há pessoas que por mais que se faça por elas, menos fazem por si mesmas. (Jane Austen)

Atração dos opostos - Capítulo 14

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail

No dia seguinte ao baile, a grande maioria dos hóspedes de Lindsey Hall se despediu dos anfitriões com efusivos agradecimentos pela magnífica temporada e partiu. Os poucos remanescentes partiram no dia posterior.

 

Meg e Richard também estavam de partida, aproveitando a companhia de Lady Patricia que voltava para casa, iriam fazer a visita anual ao tio de Richard, o duque de Wycliff.

 

O Sr. Darcy e William haviam decido aproveitar a oportunidade e fazerem a visita formal ao duque e acertar com o pai da noiva os detalhes legais do futuro casamento e marcar da data do evento. Elizabeth, alegando afazeres, foi embora para Pemberley em companhia dos filhos Jonathan e Frank.

 

Quem não gostou deste acerto foi William, pois quando pensou que se livraria da noiva por algumas semanas, eis que teria que continuar a conviver com ela e agora na própria casa dela, juntamente com o pai e o irmão.

 

Longward Court situava-se no condado de Essex, se Pemberley e Lindsey Hall eram residências magníficas, a propriedade rural do duque era grandiosa, situada num imenso parque, o palácio erguia-se suntuoso, numa mistura de estilos mostrando claramente que cada geração dos duques de Wycliff acrescentara alas inteiras ao palácio, a fim de mostrar o seu poderio e riqueza.

 

O duque de Wycliff era um homem altivo, consciente da riqueza e do poder que tinha. Era ainda um belo homem, que aparentava estar por volta dos sessenta anos, alto, os cabelos grisalhos acrescentando encanto a suas feições aristocráticas.

 

Ele recebeu os Darcys com toda fidalguia e de braços abertos, demonstrando claramente que os tinha em alta conta e que fazia realmente muito gosto no casamento de William com sua filha Patricia.

 

Se William Darcy tinha alguma esperança de que um dia ele iria se livrar da ratoeira em que estava preso por artimanhas de Lady Patricia, ao chegar a Longward Court, estas esperanças desvaneceram. A não ser que a própria noiva rompesse o noivado, não havia como ele escapar deste casamento indesejado.

 

William logo percebeu que em Longward Court, Lady Patricia reinava como uma rainha, começando pelo pai, o irmão, o batalhão de criados de todos os escalões, estavam à sua disposição para servi-la e atender aos seus menores desejos.

 

Quando pensava no que seria sua vida futura, como marido dela, um desespero se abatia sobre ele. O que seria coabitar com ela pelo resto de seus dias? Uma criatura que tinha todas as suas vontades satisfeitas no ato, uma criatura ousada que não se envergonhava em quebrar as convenções sociais. William poderia enumerar os seus defeitos infinitamente, a única virtude que encontrava nela era sua beleza física, mas ele era suficientemente lúcido para saber que um casamento não se sustenta apenas com os atributos físicos da parceira.

 

Por outro lado, William vivia agora um conflito de sentimentos em relação à noiva, ao mesmo tempo em que não suportava a sua companhia, a proximidade dela despertava-lhe a luxúria de maneira quase incontrolável. Ele precisava se livrar desta noiva a qualquer custo, pois sentia que ela seria sua perdição.

 

Logo no dia seguinte à chegada dos hóspedes, o duque chamou, logo pela manhã, o Sr. Darcy e William para uma conversa reservada em seu escritório.

 

- Não preciso dizer com que prazer recebi o seu pedido de casamento, meu rapaz. Secretamente, sempre temi que Patricia fizesse a escolha errada, como fez no passado, mas vejo que desta vez ela teve o bom senso de escolher um rapaz sério, que tem o meu inteiro aval, pois, William, você reúne todas as qualidades que um pai deseja num genro.

 

- Vossa Graça (**), eu e meu filho William estamos honrados com a especial deferência que tem demonstrado a ele e a nossa família. – arrematou o Sr. Darcy orgulhoso com os elogios feito pelo duque ao seu filho.

 

- Os senhores são merecedores de todo meu apreço. Os Darcys são conhecidos por sua integridade moral. Bem, eu os chamei aqui, hoje, porque quero resolver logo, as questões legais relacionadas ao casamento, para que tudo fique logo acertado, sem qualquer dúvida. Estipulei o dote(***) de minha filha em cem mil libras, mais a propriedade de Holbury Hall, em Leicestershire, com suas respectivas terras, é uma propriedade muito vasta e altamente produtiva. Gostaria de esclarecer que esta propriedade será de minha filha até sua morte e será herdada por seus filhos, sejam eles homens ou mulheres. No caso dela não ter filhos, Holbury Hall voltará a pertencer a minha família.  Se os senhores não tiverem nenhuma objeção a esta cláusula, mandarei meus advogados em Londres, lavrarem os termos do contrato pré-nupcial para que tudo esteja devidamente legalizado.

 

William e o Sr. Darcy consideraram justa a cláusula referente à propriedade de Leicestershire e não tinham nenhuma objeção a fazer, muito pelo contrário, estavam, isto sim, estupefatos com o montante do dote que a noiva traria com o casamento, era voz corrente na sociedade que o dote de Lady Patricia era muito rico, mas nunca imaginaram que teria este valor astronômico.

 

- Tudo que peço, William, é que faça minha querida filha feliz. Como vocês devem saber minha esposa faleceu logo após o nascimento dela, por isso fiz tudo que estava ao meu alcance para diminuir a ausência da mãe para a pobrezinha. Reconheço que ela é um pouco mimada, às vezes, ela é meio rebelde, voluntariosa, mas nada que um marido sério e de pulso firme, como você, não consiga controlar. Ela é uma filha maravilhosa, muito amorosa comigo e com o irmão. Tem um coração de ouro, tanto que os nossos criados e arrendatários a tem em alta estima. Ela o fará muito feliz e espero que o matrimônio de vocês me presenteie com lindos netos.

 

William e o Sr. Darcy ouviam incrédulos as palavras do duque, parecia que ele falava de outra pessoa e não de Lady Patricia. O brilho no olhar do velho duque ao falar na filha revelava o amor profundo que sentia por ela. William sentiu-se como se o cerco a sua volta estivesse acabado de se fechar completamente. Não havia jeito dele sair dessa armadilha.

 

- Patricia, disse-me que vocês pretendem se casar no próximo mês de outubro. Eu não tenho objeção alguma, estou plenamente de acordo com o que vocês decidirem.

 

- Vossa Graça, outubro é um mês em que estou muito ocupado. Não poderíamos realizar este casamento no ano que vem. – retrucou William numa última tentativa de adiar o inevitável.

 

- Pensei que você e Patricia já haviam decidido esta questão. Converse com ela, meu rapaz, se você não pode em outubro, antecipem para setembro. Estou com viagem marcada para o início do ano que vem, vou passar o inverno no Egito e depois alguns meses na Itália, ficarei ausente da Inglaterra por uns seis meses. É melhor que casem logo, noivados longos sempre geram muitos falatórios.

 

William sentiu o desânimo tomar conta dele.  Longward Court era o campo do inimigo, aqui ele estava sendo derrotado de todas as formas.

 

- Quero que o casamento se realize em Londres, faço questão que Patricia tenha um casamento digno de uma princesa, inclusive com a presença da família real e toda nossa melhor sociedade como convidada.

 

William que era avesso à pompa, considerando-a ostentação desnecessária. Ouvia o duque estarrecido, lamentando o dia em que resolvera se casar. Sempre quisera uma noiva discreta e um casamento simples com a presença apenas dos familiares e amigos íntimos, mas tudo estava saindo ao contrário de seus planos.

 

Ao saírem do escritório do duque, o Sr. Darcy percebeu claramente o desânimo do filho, encaminharam-se à saleta privativa, vizinha ao quarto de dormir do Sr. Darcy, a fim de poderem ter uma conversa reservada.

 

- William, infelizmente, não creio que Lady Patricia irá desistir de seus planos de se casar com você.

 

- Meu pai, ela está me manipulando como um boneco de marionete. Esta idéia de casar em outubro foi dela e já percebi que ela faz o que bem entende e todo mundo diz amém, principalmente o pai que é completamente cego de amores pela filha. Ah! Mas isto irá mudar no momento em que nos casarmos, como seu marido não vou permitir ser manipulado por ela.

 

- É filho, não queria estar na sua pele apesar de todo o dinheiro que sua noiva trará com o casamento. – comentou o Sr. Darcy olhando penalizado para o filho.

 

- Meu Deus, vou ter que aturá-la pelo resto de meus dias!

 

- William, talvez esteja na hora de mudar de estratégia, quem sabe se você a conquistar ela se tornará mansa e dócil. E vocês poderão viver em harmonia. Nestes anos de casado aprendi que com as mulheres é mais fácil conseguir o que se quer delas pelo amor do que pela força. Pense nisto?

 

- Conquistar uma cobra, como se isso fosse possível, na primeira oportunidade ela me dará um bote mortal.

 

- Talvez, você esteja precisando aprender a arte de conquistar uma mulher com Richard, se bem que ele deve estar fora de forma depois de 11 anos de casamento, ou melhor, com Jonathan que está mais do que atualizado.

 

- Meu pai, não brinque com uma questão tão séria quanto esta.

 

- Sinto muito, filho, que os acontecimentos tenham tomado este rumo. Mas, vou lhe dar um conselho trate de fazer Lady Patricia feliz, o pai dela tem a fama de ser um amigo muito leal e um inimigo implacável. Deus te livre de ter este homem como inimigo.

 

- Vou ter que me deitar no chão e deixá-la passar por cima de mim para fazê-la feliz. Criatura insuportável cheia de caprichos e vontades!

 

*************************

 

William era uma pessoa obstinada e simplesmente não iria aceitar passivamente as manipulações da noiva, por isso naquela mesma tarde foi atrás dela quando esta saiu com um cavalariço que sempre a acompanhava nos seus passeios a cavalo. Quando estavam a uma boa distância do palácio, ele se aproximou dela e disse:

 

- Lady Patricia, estava a sua procura porque preciso ter uma conversa muito séria com a senhora. É de cunho confidencial, por isso peço que dispense o cavalariço que a acompanha.

 

Ela, imediatamente, aproximou seu cavalo ao do cavalariço, ordenando que o mesmo fosse embora.  Neste ínterim, William havia desmontado e amarrado seu cavalo a uma árvore. Patricia, também, desmontou e dirigiu-se ao noivo.

 

- Bem, sou toda ouvidos, Sr. Darcy.

 

- Lady Patricia, hoje pela manhã seu pai conversou conosco, com meu pai e comigo, sobre nosso casamento. Porém, antes de dar prosseguimento a esta loucura, queria conversar com a senhora, chamá-la à razão. Raciocine comigo, será a maior loucura que nós dois cometeremos, somos totalmente incompatíveis, não temos nada em comum, não temos sequer um sentimento de simpatia um pelo outro, como poderemos viver juntos com um mínimo de harmonia para que possamos nos tolerar pelo resto de nossas vidas.

 

- Resumindo, o senhor quer que eu o desobrigue da palavra empenhada, é isto?

 

- Sim.

 

- Este seria meu segundo noivado desfeito, o senhor pensou que minha reputação, que não é lá essas coisas, ficaria irremediavelmente manchada. Eu quero me casar e aos 21 anos, estou na idade certa para realizar este sonho.

 

- A senhora tem um dote e o poder da influência de seu pai que limpam qualquer mancha em sua honra. É uma mulher bonita não encontrará dificuldade alguma em arrumar outro noivo certamente mais adequado do que eu.

 

- Ocorre que não quero me casar com um homem que está interessado apenas em meu dote e no poder de influência de meu pai.

 

- E quem lhe garante que também não estou interessado em ambos?

 

- Sr. Darcy, não subestime minha inteligência, o senhor é a pessoa mais desinteressada tanto no meu dote como no poder de meu pai que eu já conheci. Por isso eu escolhi me casar com o senhor.

 

- Mesmo correndo o risco de que nosso casamento seja um verdadeiro desastre.

 

- Não acredito em casamentos felizes, o único que conheço é o de Richard e Meg, mas acho que aí o mérito é todo de Meg, ela é uma santa, conseguiria viver em harmonia até com o demônio em pessoa.

 

- Meus pais estão casados há mais de 30 anos e são muito felizes.

 

- Realmente duas exceções, a maioria dos casais apenas se tolera. Mas, mesmo assim quero me casar, não pretendo me tornar uma solteirona e ter que viver com meu irmão o resto de meus dias. Quero tomar posse da propriedade de Holbury Hall, que só se tornará minha quando eu me casar. Quero ter meus filhos, pois adoro crianças. E o senhor será o instrumento para eu conseguir estes meus objetivos. O senhor já provou de todas as maneiras que não é um interesseiro, é um homem forte, saudável e bonito, garantia de que terei filhos igualmente fortes, saudáveis e bonitos.

 

- A senhora está me fazendo sentir como um animal reprodutor, um garanhão ou um touro, que irá garantir a boa linhagem de sua prole.

 

- Interprete como quiser. Se o senhor quiser se livrar de nosso compromisso, a decisão terá que partir do senhor, e naturalmente, terá que arcar com as conseqüências de seu ato. Mas, antes de tomar uma decisão tão drástica, consulte seu pai, aposto que o Sr. Darcy não irá aprovar de forma alguma o rompimento de nosso noivado pelo senhor.

 

- Muito bem, Lady Patricia, a senhora acaba de me colocar em xeque-mate. Espero que nossos filhos puxem a sua inteligência e sagacidade. Já que não me resta nada a fazer senão levar este casamento adiante, concordo que ele se realize em outubro como a senhora quer, mas será que não podemos ter uma cerimônia de casamento mais simples, seu pai falou-nos na cerimônia em Londres, inclusive com a presença da família real e toda a sociedade. Não podemos nos casar numa cerimônia mais simples, aqui ou em Pemberley, apenas com a presença de nossos familiares e amigos mais chegados?

 

- Eu, particularmente, não dou a mínima importância ao local onde casaremos, mas meu pai sempre sonhou fazer de meu casamento um grande acontecimento social. Vamos fazer-lhe a vontade, não nos irá custar nada e faremos a felicidade dele.

 

- Muito bem, Lady Patricia, a senhora está tendo todas as suas vontades satisfeitas, a data, o tipo de cerimônia, mas quero deixar claro que iremos morar em Pemberley, pois como herdeiro de meu pai lá é meu lugar.

 

- Sem problema algum, viveremos em Pemberley.

 

- Acho que não temos mais nada a tratar. Tenha uma boa tarde, Lady Patricia. – William fez uma mesura e ia se retirar quando a noiva o chamou.

 

- Sr. Darcy, o senhor se esqueceu que pediu para que eu dispensasse o cavalariço? Cabe agora ao meu querido noivo me acompanhar. Meu pai não gosta que eu cavalgue desacompanhada por estes campos.

 

William precisou engolir uma maldição que viera espontaneamente a sua boca, ajudou a noiva a montar e a acompanhou de volta à casa, em absoluto silêncio. O duque viu satisfeito o casal se aproximar do terraço onde ele se encontrava e disse quando estavam perto:

 

- Vocês formam um casal perfeito e lindo. Minha filha, você não imagina como estou satisfeito com sua escolha! 

 

 William que já estava de costas para o futuro sogro, levantou os olhos para o céu, pedindo que Deus lhe desse muita paciência, pois iria precisar muito dela.

 


(*) Para ajudar a imaginação de vocês estou postando alguns palácios e mansões da aristocracia inglesa, neste ambiente é que vivam os personagens de nossa fic.

http://www.picturesofengland.com/England/tour/Stately_Homes_in_England/pictures/thumbnails

 

(**)Vossa Graça: procurei no dicionário português o pronome de tratamento dispensado a um duque e não o encontrei, por esta razão traduzi do inglês Your Grace. Se alguma de vocês souber qual é o tratamento correto, por favor me informem.

 

(***)dote = Era visto como um pagamento antecipado da herança que a mulher receberia, portanto apenas as filhas que não tinham recebido dote tinham direito a herdar a propriedade dos pais quando estes faleciam e se o casal morria sem filhos, o dote revertia para a família do noivo.

 

 

LAST_UPDATED2

 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje49
Neste mês943
Desde Março de 200976122
Brazil flag 63%Brazil (41260)
United States flag 6%United States (4098)
Portugal flag 5%Portugal (3215)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1337)
Ukraine flag <1%Ukraine (395)
France flag <1%France (297)
Netherlands flag <1%Netherlands (291)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (274)
Germany flag <1%Germany (269)
Latvia flag <1%Latvia (149)