Na manhã do dia seguinte, Lady Patricia vestiu-se com maior apuro que o normal, pois decidira por em prática a conquista do noivo, queria testar o seu poder de sedução, que nunca falhara em outras ocasiões com outros homens. E nada a animava mais que um desafio. Não o vendo na sala onde era servido o café da manhã perguntou pelo noivo ao mordomo, recebendo deste a informação de que o mesmo estava na biblioteca. Resoluta ela se dirigiu para lá, encontrando-o sozinho lendo o jornal.
- Bom dia, Sr. Darcy. Poderia ter um minuto de sua atenção, tenho algo a lhe dizer?
William viu a noiva se aproximar num belo vestido matinal, mas em sua mente a figura no vestido de musselina verde imediatamente foi substituída por um corpete e calções molhados e transparentes, deixando a mostra um corpo perfeito e sedutor. Uma onda de luxúria tomou conta do corpo de Darcy. Ele imediatamente tentou disfarçá-la colocando o jornal que lia na altura de sua cintura para esconder seu evidente “desconforto”.
- Bom dia, Lady Patricia. Estou a seu dispor.
- Tenho um assunto muito sério a tratar com o senhor. Gostaria de lhe propor uma trégua em nossos... desentendimentos. Eu estive conversando com Meg e ela me convenceu de que agora que estamos noivos seria melhor que fizéssemos as pazes e procurássemos nos entender.
William mal ouviu o que Patricia lhe dizia, agora a lembrança de uns lábios quentes e macios que o fizera perder a cabeça à margem do rio se intrometia em seus pensamentos. O que acontece comigo esta manhã? – pensou ele aborrecido com seu descontrole físico.
- Sr. Darcy, o senhor está bem? Parece perturbado, aconteceu alguma coisa?
- Estou perfeitamente bem, desculpe-me, a senhora estava dizendo em propor uma trégua entre nós?
- É isto mesmo, Sr. Darcy. Vim oferecer a bandeira branca da paz, gostaria de viver em bons termos com o senhor.
- Lady Patricia, qual é a sua intenção por trás desta oferta de paz?
- Intenção!? Não há intenção nenhuma, apenas Meg teve uma conversa comigo sobre nós dois, da necessidade de pararmos de brigar, pois em breve estaremos casados e resolvi seguir os conselhos de minha prima.
- Este estranho pedido de armistício não se deve ao seu medo de que eu não cumpra o compromisso assumido? Que eu não honre a palavra empenhada e desmanche nosso noivado? Se for este o caso, pode ficar tranquila, um Darcy nunca foge ao seu dever por mais difícil que ele seja.
- Sr. Darcy, eu não preciso ter medo de que o senhor não honre o compromisso que assumiu comigo. O senhor irá honrá-lo, quer queira quer não, já que vivemos numa sociedade onde os homens ditam as cartas, felizmente tenho um pai, um irmão e até meu primo Richard que fariam o senhor honrar tal compromisso. E saiba que daqui para frente este dever que o senhor qualificou de difícil, vai se tornar dificílimo. Tenha um bom dia.
Lady Patricia saiu da biblioteca furiosa. Os planos que ela traçara para aquela manhã haviam falhado. Ela imaginara que William aceitaria a trégua que ela lhe propunha e que a partir daí a conquista do noivo seria muito fácil, pois ela utilizaria todas as artimanhas de sedução que conhecia para conquistá-lo, mas o irredutível noivo não cedera um milímetro em sua posição antagônica a ela.
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Os condes de Lindsey tinham por tradição encerrar a temporada de seus hóspedes no verão com um baile. Além dos hóspedes, muitos habitantes das áreas vizinhas também eram convidados, o que tornava o baile muito concorrido e animado. Era o acontecimento social do ano na região, aguardado por todos com muita ansiedade.
O imenso salão de baile espelhado era aberto nesta ocasião e decorado com uma profusão de flores e samambaias, centenas de velas iluminavam o salão festivo, uma orquestra era contratada e os convidados se esmeravam em seus trajes de gala para aumentar o brilho da festa.
Lady Patricia, apesar de não estar com espírito para bailes depois do fracasso de sua primeira tentativa de conquistar o noivo, tinha esperanças de que o baile seria o ambiente ideal para continuar por em prática seu plano maquiavélico. Ela se esmerou no traje, usando um belíssimo vestido de seda azul que realçava a beleza de seus olhos também azuis, sua criada de quarto aplicara pequenas flores brancas de tecido em sua cabeça, realçando seus cabelos escuros. Quando ela se olhou no imenso espelho de seu quarto, aprovou a imagem que viu refletida, murmurando para si mesma com um sorriso irônico em seus lábios: ]“Ele quer guerra, pois ela a terá. Só que ele desconhece o poder de fogo de seu inimigo.”
William teve que dançar o primeiro conjunto de danças com sua noiva, como era de praxe, mas jurara a si mesmo que não a tiraria para dançar uma segunda vez naquela noite. Embora não admitisse nem a si mesmo, a proximidade dela mesmo numa inocente dança de salão, na presença de dezena de pessoas, tinha o poder de perturbá-lo e ele não gostava nem um pouco das sensações físicas provocadas por esta proximidade, uma excitação física que nenhuma mulher conseguira provocar nele até então e totalmente imprópria num salão de baile lotado de gente.
Lady Patricia havia sido requisitada a dançar todas as músicas até aquele momento, mas o baile não estava sendo um divertimento para ela, estava cansada daquela temporada na casa dos primos, onde não conseguira se entrosar com os demais hóspedes e a atitude fria e seca do noivo durante as danças de abertura acabaram por desanimá-la. Mas a gota d’água foi quando ouviu o comentário de duas mulheres que ignorando sua presença próxima, conversavam:
- Amélia, eu não consegui entender este noivado entre William Darcy e Lady Patricia.
- Nem eu e nem ninguém, parece que ele não a suporta, percebe-se claramente que a evita, mas então por que ficou noivo dela?
- Este é um mistério, os Darcys têm uma sólida fortuna, não precisam do dote de Lady Patricia, são uma família respeitada, de tradição, não precisam da influência do Duque de Wycliff. Realmente não dá para entender a razão deste noivado. E fica claro que não existe nenhum sentimento amoroso entre os dois.
- Pelo contrário, ele parece até que a despreza.
Lady Patricia afastou-se para não ter mais que ouvir mais daqueles comentários dolorosos, porém verdadeiros. Ela buscou refúgio ao lado de Meg, dispensou um rapaz que viera pedir-lhe uma dança, alegando cansaço e ficou sentada observando a movimentação do salão de baile. Localizou William dançando e sorrindo para uma mulher loira e bonita, que não era hóspede da casa.
- Meg, quem é aquela loira com quem William está dançando?
- Ela é a viúva de um barão que mora na vizinhança, é a Sra. Walton.
Terminada a dança, William e a jovem viúva continuaram a conversar encostados em um canto do salão e Lady Patricia pôde verificar que a mulher flertava abertamente com William e este sorria e conversava animadamente com ela.
Lady Patricia assistiu a tudo sentindo o seu sangue ferver de ódio em suas veias. Até que ambos saíram pelas portas francesas para o terraço. Ela não se conteve mais, sem a menor hesitação, pediu licença a Meg levantou-se e seguiu atrás do par.
A noite quente de verão levara muitas pessoas a fazerem passeios nos belos jardins iluminados com tochas, mas nos recantos mais escuros podia-se ver que a lua cheia derramava sua luz prateada sobre a escuridão da noite.
Logo ao chegar ao terraço, Lady Patricia localizou o noivo e a viúva Walton passeando e conversando pela parte iluminada do jardim, William oferecera o braço à mulher e ambos caminhavam e conversam animadamente. Ela apressou o passo até alcançar o casal e disse abruptamente:
- William, tenho um assunto urgente a tratar com você. – e dirigindo-se à mulher disse num tom decidido - Por favor, a senhora pode nos dar licença, preciso ter uma conversa particular com meu noivo.
William estava atônito vendo Lady Patricia aparecer repentinamente e sem a menor cerimônia interromper sua conversa com a Sra. Walton. Esta, imediatamente, pediu licença, fez uma mesura para ambos e se afastou em direção ao salão de baile.
- Lady Patricia...
- Se não quer que todas as pessoas que passeiam pelo jardim, ouçam o que tenho a dizer, será melhor procurarmos um lugar mais reservado. – ela disse entre dentes e sorriu para um casal de hóspedes que naquele instante passava por eles, seus olhares curiosos espreitando um escândalo.
Ela tomou o braço de William e ambos em silêncio se dirigiram a um local mais afastado, onde naquele momento não havia ninguém.
- Posso saber o que a senhora tem a me dizer de tão urgente que não poderia esperar por outra ocasião e precisou interromper meu passeio com a Sra. Walton.
- Lamento se o privei de companhia mais agradável que a minha, mas o que tenho a lhe dizer não pode esperar. O senhor deve estar lembrado da conversa que teve comigo no dia seguinte ao anúncio de nosso noivado, em que me pediu que eu comportasse como uma mulher comprometida com decoro, pois o senhor considerava inconcebível que uma mulher comprometida flerte com outros homens. Pois o mesmo se aplica ao homem comprometido, não acha? Ou o senhor é daquela velha escola que prega que o homem pode tudo. Já vou lhe avisando que não concordo com isso, para mim o que vale para a mulher, vale para o homem.
- Lady Patricia, a senhora está equivocada quanto à natureza de minha conversa com a Sra. Walton, não havia flerte algum, ocorre que o falecido marido daquela senhora foi meu contemporâneo em Cambridge, fazíamos parte da mesma equipe de remo e então, estávamos rememorando nossas lembranças do falecido John Walton.
- E o senhor quer que eu acredite nisso, quando vi perfeitamente os modos coquetes da Sra. Walton enquanto conversavam.
- Chegou minha vez de lhe fazer a mesma pergunta que a senhora já me fez naquela ocasião, estaria a senhora com ciúmes de mim, pois, incomoda-a tanto ver que outra mulher esteja flertando comigo?
- Em absoluto, Sr. Darcy, não sinto ciúmes do senhor. Apenas não quero servir de chacota aos outros, é muito desagradável ver o próprio noivo flertando com outra mulher na minha frente e na frente de toda a sociedade.
- Talvez tenha sido bom o que aconteceu, assim a senhora provou de seu próprio veneno e viu o quanto ele é amargo.
- Tenho me comportado com decoro como o senhor pediu, mas quero em contrapartida que o senhor também se comporte do mesmo modo.
- Lady Patricia, a senhora sabe que vivemos numa sociedade que privilegia os homens, com certeza não vai querer ter os mesmos privilégios que nós homens temos.
- Não o estou entendendo direito, por favor, seja mais claro.
- A senhora não vai querer ter os mesmos privilégios e regalias que nós homens temos na nossa sociedade. Por exemplo, é do conhecimento geral que a maioria dos homens casados da sociedade tem amante. Numa suposição de que eu também queira ter uma, a senhora também arrumaria um amante por achar que tem direitos iguais aos meus?
- Sr. William, não sei se estou meio obtusa hoje porque não estou entendendo aonde o senhor quer chegar com esta conversa. Mas, quero avisá-lo de antemão que só serei fiel ao senhor se houver reciprocidade nesta fidelidade. Fui clara?
Enquanto conversavam, o casal de noivos se afastou lentamente para um recanto menos freqüentado e iluminado do jardim, o luar batia em cheio sobre a figura altiva e bela de Lady Patricia, William teve que admitir mesmo a contragosto que a noiva era uma mulher atraente, a este pensamento, novamente a imagem da noiva em roupas íntimas ensopadas e transparentes veio-lhe a mente e uma onda de luxúria correu-lhe às veias. Nunca uma mulher lhe parecera mais desejável do que Lady Patricia naquele dia. As formas do corpo perfeito dela, revelando-se sob a roupa molhada, as pernas longas e bem torneadas, os pelos pubianos escuros destacando-se sob o calção branco, os seios cheios e perfeitos se revelando através do tecido molhado do corpete, os cabelos escuros e escorridos pelo peso da água caindo-lhe pelos ombros, tudo nela era tentação. Apenas a presença de seus sobrinhos impediu que ele perdesse completamente o controle e cometesse uma loucura.
William não conseguiu ocultar o brilho do desejo em seus olhos e Patricia que observava atentamente as reações dele, aproveitou-se desta fraqueza para aproximar seus lábios aos dele e beijá-lo suavemente, a carícia que se iniciou como um roçar leve de seus lábios, como uma borboleta pousando sobre uma flor, acendeu uma combustão em William. Ele, incapaz de se conter, segurou o rosto da noiva com ambas as mãos e capturou os lábios dela num beijo ardente, como um homem sedento que encontrou a fonte de água que iria matar a sua sede.
Patricia correspondeu ao beijo com o mesmo ardor de William, não havia a menor dúvida que quando não estava bancando o orgulhoso e arrogante, ele era um homem bastante atraente, era alto, tinha um corpo elegante, um rosto de beleza máscula, dentes perfeitos, e as carícias dele provocavam nela um arrepio por seu corpo e um desejo interno por algo que não conseguia definir. Aliás, desde o dia em ele a beijara pela primeira vez, ela não era mais a mesma, não conseguira apagar de sua cabeça a lembrança daquele beijo, das sensações que ele acendera nela, ela sentia como se tivesse desabrochado como mulher, só não conseguia entender como um homem que ela odiava e desprezava podia despertar tais sentimentos nela.
O beijo apaixonado dos noivos durou alguns minutos, esquecidos de tudo, transportados para um mundo só deles, esquecidos das demais pessoas que passeavam pelo parque, dos ruídos e da música distante que chegava até eles. Quando, por fim, se separaram Patricia agarrou a lapela do paletó de William com ambas as mãos e disse numa voz ainda arfante.
- Diga-me, William, que você estava apenas me provocando, diga que não irá arrumar nenhuma amante, eu não poderia tolerar isto!
- Agora a senhora me deixou curioso, gostaria de saber se este seu lado possessivo se deve a um sentimento mais profundo que está nutrindo por mim, ou será apenas mais um capricho de menina mimada que, egoisticamente, quer tudo para si? – havia um sorriso mordaz no rosto de William, mas antes que Patricia tivesse tempo de retrucar uma resposta, os lábios do noivo capturaram os seus novamente, os braços dele se fecharam como duas tenazes em volta do corpo dela num abraço tão apertado que ela sentiu seus seios esmagados contra o peito forte de William, mas tudo parecia tão correto, tão perfeito quando estava nos braços dele.
O beijo terminou por iniciativa de William que antes de soltar Patricia disse-lhe ainda quando os lábios dos dois estavam bem próximos:
- Não precisa responder a minha pergunta. Eu mesmo irei descobrir a resposta, Lady Patricia. –
- William Darcy, você é o homem mais presunçoso, pretencioso e odioso que conheço. – gritou Patricia enquanto o noivo com um sorriso jocoso nos lábios se afastava a passos largos em direção ao salão de baile.
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