Capítulo 11
Lady Patricia sentia-se uma pária no grupo de convidados da casa, praticamente apenas o casal de anfitriões dispensava-lhe atenção, os rapazes solteiros que a princípio se reuniram a sua volta adulando-a, se afastaram após seu noivado, temerosos de terem que se confrontar com um noivo enfurecido.
O tempo e a convivência, ao invés de diminuir a distância entre ela e os demais hóspedes, só fizera aumentar este distanciamento. O comportamento nada convencional dela considerado escandaloso para uma moça nos padrões da época, seu noivado insólito que os hóspedes não conseguiam entender, o próprio comportamento do noivo que parecia ignorar a noiva, tudo isto contribuíam para aumentar o seu isolamento. Embora ela demonstrasse que não se importava com o tratamento que lhe era dispensado, principalmente pelo noivo, no íntimo ela se sentia ferida e magoada.
Patricia desistira de tomar parte de atividades junto com demais hóspedes, preferia cavalgar sozinha pelos arredores de Lindsey Park. Era uma ótima amazona, pois aprendera a cavalgar quando era uma menina pequena, primeiro em pôneis e depois nas excelentes montarias de seu pai, que possuía um renomado haras. Cavalgar significava estar livre, uma liberdade que ela não tinha naquele mundo cheio de preconceitos que lhe tolhia os movimentos.
Ela também gostava de brincar com os pequenos primos, filhos de Meg e Richard, adorava crianças, a sinceridade e a lealdade dos pequenos a encantava. Interagia com eles como se ela própria fosse uma criança também, por isso eles a adoravam, não havia entre eles aquela barreira normal existente entre adulto e criança, pois brincava com eles sem tentar impor a autoridade de uma adulta. Passava grande parte do tempo brincando com eles, aproveitando os gloriosos dias de verão em brincandeiras ao ar livre ou na nursery(**) quando chovia.
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(**)Nursery = andar ou ala destinada às crianças nas mansões e palácios ingleses, onde as crianças dormiam, brincavam, estudavam e faziam suas refeições e onde também viviam as babás e onde os tutores lhes ensinavam as primeiras letras. Geralmente, ficava num andar superior da casa.
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Um tarde, enquanto a pequena Laura, tirava sua soneca habitual, ela convidou Mark e Daniel para um banho no rio. Os meninos aceitaram o convite, entusiasmados, pois durante todo o verão esta tinha sido a brincadeira preferida deles.
Lady Patricia mandou selar dois cavalos, a égua mansa que o conde dera de presente para Mark, outro cavalo para ela, e o pônei do pequeno Daniel.
Os três seguiram a trilha que margeava o rio até um local onde o rio fazia um remanso e formava um poço profundo. Ali a margem do rio era elevada e inclinada e nesta elevação uma árvore frondosa esparramava seus galhos frondosos, num destes galhos fora amarrada uma corda. A brincadeira consistia em segurar a corda, dar um impulso forte com as pernas e quando o corpo alcançava a altura do meio do poço, se jogar nas águas do rio sempre aos gritos e gargalhadas.
Patricia participava da brincadeira juntamente com os dois meninos, ela tirava seu traje de montaria, ficando apenas com suas roupas íntimas, que consistiam num calção e corpete, e se juntava à brincadeira, divertindo-se tanto quanto os dois meninos.
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William gostava de cavalgar sozinho, muitas vezes deixava praticamente o cavalo seguir ao léu, enquanto pensava em seus problemas, meditava sobre a vida, era a forma que encontrara para relaxar e sentir-se centrado e em paz consigo mesmo, coisa que desde o maldito beijo que dera na agora sua noiva, não conseguia sentir.
O primeiro grito que ouviu que parecia ser de uma criança o despertou de seu devaneio, logo em seguida ouviu um segundo grito que era de uma mulher e depois outro novamente de uma criança, eram distantes, mas perfeitamente audíveis, parecia que alguma tragédia estava ocorrendo. Alerta, ele dirigiu rapidamente a montaria em direção ao local de onde partiram os gritos, à margem do rio. Antes, porém, que alcançasse o local, outros gritos se fizeram ouvir e desta vez misturado com risos, mais intrigado ainda, ele chegou ao ponto exato da gritaria e o que viu o deixou estarrecido, Lady Patricia e seus dois sobrinhos Mark e Daniel Rutherford, estavam no alto de uma elevação à margem do rio e sua noiva, usando apenas roupas íntimas molhadas, segurava uma corda amarrada ao galho de uma árvore, tomou impulso correndo e se jogou no rio, soltando um grito, enquanto os dois meninos riam e batiam palmas.
Quando Patricia saiu do rio respingando água, suas roupas íntimas brancas coladas ao corpo, ela encontrou William Darcy a poucos metros da margem do rio, aguardando-a com um olhar que demonstrava claramente desaprovação e censura. Ele disse numa voz que não escondia sua irritação:
- Lady Patricia será que na sua lista de defeitos ainda terei que acrescentar o da irresponsabilidade. A senhora tem idéia do perigo que esta brincadeira representa, tanto para a senhora como para os meninos. Vocês poderiam se ferir gravemente. Aposto que nem Meg, nem Richard estão sabendo que a senhora os está expondo a esta brincadeira perigosa.
- Sr. Darcy, desde quando era menina venho brincar aqui e nunca me aconteceu nada, eu já trouxe os meninos inúmeras vezes neste verão e nunca nos aconteceu nada de grave, o poço que o rio forma neste ponto é suficientemente profundo para que possamos mergulhar em segurança e nós nos divertimos muito, qual é o problema?
- Tio William, venha mergulhar com a gente, é muito divertido, foi Patricia que nos ensinou esta brincadeira, não existe nada mais divertido. – convidou Mark num tom entusiasmado de cima da elevação e segurando a corda, pronto para seu mergulho radical.
- Meninos, podem se vestir, a brincadeira acabou. Lady Patricia, vou levar ao conhecimento de Richard e Meg a sua irresponsabilidade.
- O senhor é o homem mais odioso que conheço, nunca foi criança? Não gosta de nadar e mergulhar num rio em um dia quente como este?
- Lady Patricia, não vou discutir mais com a senhora, pois estou vendo a inutilidade de chamá-la a razão. Vista-se imediatamente, a senhora tem noção da impropriedade de suas vestes? Elas estão coladas a sua pele e completamente transparentes.
Só então Patricia deu-se conta que além de suas roupas íntimas estarem coladas ao seu corpo, a umidade deixara-as transparentes revelando seus mamilos rosados e os pelos pubianos escuros, ela enrubesceu e correu para trás da moita onde havia deixado suas roupas de montaria. Enxugou-se como pôde e colocou suas roupas apressadamente enquanto os meninos também se vestiam ressabiados com o fim da brincadeira e temendo por aquilo que estava por vir.
Durante a cavalgada de volta à mansão, Patricia emparelhou seu cavalo ao do noivo e colocando o melhor dos sorrisos no rosto, disse num tom sedutor que nunca usara com o noivo até então.
- Sr. Darcy, por favor, eu gostaria que o senhor reconsiderasse sua decisão de contar a Richard sobre nossa brincadeira, ele pode castigar os meninos e os pobrezinhos não tem culpa de nada, fui eu que os convidei e os trouxe para brincarem no rio.
- Tio William, o papai vai ralhar com a gente e nos deixar de castigo se o senhor contar a ele. Por favor, não diga nada a ele. – implorou Mark.
- Mark, eu não vou ser conivente com uma irresponsabilidade dessas, um de vocês poderia ter sofrido um acidente grave numa brincadeira perigosa como esta. E, veja, Daniel é pequeno demais para uma brincadeira dessas.
- Tio William, meu pai sempre me diz que estou crescendo que já não sou uma criancinha como Laura. – retrucou o pequeno Daniel ofendido com as palavras do tio.
- Sr. Darcy, eu estou lhe pedindo pelos meninos, pois a mim nada acontecerá.
- Vejo que a senhora reconhece o perigo em que estava expondo os meninos, pois sabe que Richard irá castigá-los.
Olhando a expressão taciturna de William e sentindo que nada que dissesse iria convencê-lo a mudar de idéia. Lady Patricia calou-se. O resto da cavalgada até a mansão foi feita em silêncio, os meninos antecipando a bronca que levariam do pai e Lady Patricia pensando numa forma de defender os pequenos primos e ruminando o ódio que sentia por William, que não só interrompera a brincadeira tão divertida, como delataria os pequenos, expondo-os a um castigo que não mereciam, pois não haviam feito nada de mal, apenas se divertido.
Logo que o pequeno grupo formado por William, Lady Patricia, Mark e Daniel chegou aos estábulos para devolverem os cavalos, encontraram Richard que conversava com o chefe dos cavalariços.
William, após descer do cavalo e entregá-lo a um cavalariço, dirigiu-se a Richard.
- Encontrei sua prima e seus filhos mergulhando num poço do rio em uma corda pendurada numa árvore, uma brincadeira muito perigosa, pois poderiam escorregar bater a cabeça, quebrar algum osso. Acho que você deve repreender os meninos e proibi-los de andar na companhia de Lady Patricia, pois ela se revelou inadequada para cuidar deles.
- Por que não diz irresponsável de uma vez? Se eu sou irresponsável, o senhor é um delator.
- Patricia, por favor, basta, vamos resolver a questão com civilidade. - Richard disse com severidade, temeroso de que um novo ataque físico pudesse acontecer entre os noivos.
- Com que prazer o senhor está me delatando, não é? – e voltando-se para o primo ela argumentou - Richard, a única coisa que peço é que não castigue os meninos, eles não têm culpa de nada, fui eu que os convenci a me acompanharem, fui eu que lhes ensinei a brincadeira e se fiz foi porque há muitos anos mergulho naquele poço, é muito divertido e nunca me aconteceu nada, por isso levei seus filhos e lhes ensinei a brincadeira. Você sabe que eu os amo e jamais poria a vida deles em risco.
- Nunca aconteceu nada, mas poderia acontecer. – retrucou William com um ar de censura.
- Claro que poderia, com o senhor agourando deste jeito! Acho até que o senhor gostaria que tivesse acontecido, só para me acusar.
- Patricia, os meninos e principalmente Mark, que está com 10 anos, sabem perfeitamente que eu proibi todo tipo de brincadeira perigosa e você me desculpe, é uma imprudência saltar daquela altura. Eles receberão o castigo que merecem.
- Você vai bater neles?
- Nunca bati em meus filhos, não sou adepto do castigo físico.
- Por favor, Richard, perdoe-os desta vez, a culpa foi toda minha. Se quiser pode aplicar o castigo em mim, cumprirei sem reclamar.
- Ah! Estou vendo que a senhora admite sua culpa.
- Sr. Darcy, alguém já lhe disse que o senhor é um homem impertinente? O senhor já cumpriu seu papel denunciando a brincadeira. Nada mais lhe resta fazer aqui. – retrucou Lady Patricia e voltando-se para o primo continuou seus questionamentos - Richard, você não vai proibi-los de andar em minha companhia, não é? Eu não poderia suportar isto.
- Patricia, vou conversar seriamente com meus filhos, não vou castigá-los desta vez e não vou proibi-los de andar com você, desde que você me prometa que não os levará para mergulhar no rio, novamente ou qualquer outra atividade perigosa.
- Prometo, Richard. Obrigada.
Lady Patricia ao perceber o início de um riso sarcástico no rosto de William ameçou partir para cima dele, mas Richard que estava perto e alerta, pois já havia pressentido que outra briga estava na iminência de acontecer, segurou a prima pelos braços, impedindo-a de partir para o ataque.
- Judas! Delator e traidor!
- Basta, Patricia, já foi tudo resolvido, volte para casa e vá se trocar e se recompor, você está num estado lastimável. – disse Richard de forma enérgica de quem não iria admitir ser desobedecido, aliás, a ascendência que ele tinha sobre a prima se devia ao fato dele sempre saber impor limites, não a deixando dominar a situação.
Lady Patricia dirigiu-se para a casa levando pela mão os dois primos. Encontraram pelo caminho alguns grupos de hóspedes que a olharam horrorizados, pois suas roupas e cabelo úmidos e em desalinho, denunciavam que ela estivera nadando no rio, o que era totalmente impróprio para uma dama. Mas, ela passou por eles, altiva como uma rainha, sabendo que seria o assunto dos comentários para o resto do dia.
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Depois que a noiva se afastou com os sobrinhos, William aproveitou para conversar com Richard e desabafou.
- Richard, não sei como vou suportar viver casado com sua prima. Ela me tira do sério cada vez que nos encontramos, simplesmente não consigo conviver em paz com ela.
- William, reconheço que Patricia não é uma pessoa fácil de lidar, mas eu acho que você precisar pensar em entrar num entendimento com ela, pois senão a vida de vocês dois, depois de casados, será um verdadeiro inferno.
- E como vou entrar em entendimento com uma mulher completamente estragada de mimos, que faz o que lhe dá na cabeça, que não obedece a regras sociais, não dá a mínima importância ao que outros pensam e falam dela. Quando penso que em breve estarei casado com ela, tenho a impressão que vou enlouquecer tal o meu desespero.
- William, calma, vou lhe dizer o que penso desta situação criada por vocês dois. Acho que a sua atitude de indiferença para com Patricia, só tem feito ela ficar determinada a levar este noivado adiante, trate de mudar de atitude, seja cordial e atencioso com ela que talvez ela acabe até por desistir dessa loucura de casamento, como bem ponderou seu pai.
- Vou tentar, Richard, mas você não imagina o quanto é difícil para mim ser cordial e atencioso com ela. Tenho vontade de esganá-la cada vez que a vejo, por isso prefiro adotar uma atitude indiferente para não cair na tentação de fazer uma besteira.
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