Capítulo 6
No dia seguinte estava programado um picnic à margem do lago para todos os convidados.
Os hóspedes mais velhos que não queriam ou não conseguiam andar as cerca de duas milhas que separavam a casa, do lago, foram transportados em carruagens e os jovens, porém, preferiram caminhar em grupos animados.
William resolvera esquecer o patético episódio do dia anterior, pois não encontrava uma explicação lógica para sua atitude, nada cavalheiresca e completamente fora de seu habitual comportamento comedido e fleumático. Onde estava com a cabeça para cair na tentação de beijar Lady Patricia? Ele nem sequer gostava dela, é verdade que a achava atraente, não havia como negar que era uma bela mulher, mas daí a ceder à tentação de beijá-la e pior, se tivesse se deixado guiar por seus instintos teria levado aquele beijo até as últimas conseqüências.
O corpo macio de Lady Patricia parecia ter se encaixado perfeitamente em seu abraço e o perfume que dele emanava era uma mistura de lavanda e odor do próprio corpo que parecia um poderoso afrodisíaco, nunca uns lábios femininos lhe pareceram tão sedosos e convidativos. Sentindo que a simples lembrança daquele beijo o deixava excitado. William se amaldiçoou e forçou a mudança de seus pensamentos.
Com o passar dos dias em Lindsey Hall, a Srta. Emily foi perdendo sua habitual timidez e parara de corar cada vez que William lhe dirigia a palavra, os pais dela e principalmente a mãe estava encantada com as atenções que o filho mais velho dos Darcy dispensava à filha, era um ótimo partido, um rapaz sério, de excelente família e muito bem apessoado, enfim o genro dos sonhos para qualquer mãe.
Naquele dia, William resolveu que dali por diante iria dispensar toda a sua atenção a Srta. Emily, queria esquecer definitivamente o incidente do dia anterior, caminhou ao lado dela até o lago, e lá chegando, ficou o tempo todo ao seu lado, levando-a a passear de barco, caminhando com ela em volta do lago e fazendo a refeição ao lado dela. Chegara à conclusão que dificilmente encontraria outra jovem com tantos predicados como a Srta. Emily, portanto estava resolvido, ela seria sua futura esposa e mãe de seus filhos.
Lady Patricia observava o casal e a sua ira só fazia crescer. Depois do que acontecera entre os dois no dia anterior esperava que William mudasse seu comportamento em relação a ela, que a tratasse pelo menos com cordialidade, como tratava as demais hóspedes da casa. Mas, ele nem sequer a cumprimentara pela manhã, passando por ela na sala de refeições, como se ela não existisse e durante todo o dia, continuara adotando esta mesma atitude.
"William Darcy, ontem me beijando daquele modo lascivo e hoje, posando de rapaz sério, correto, o perfeito cavalheiro cortejando Emily Rutherford e me ignorando como se eu não existisse. Quem é ele para me tratar desta maneira. Vou acabar com a alegria dele, vou atrapalhar os seus planos matrimoniais com esta sonsa da Emily Rutherford. Ele logo saberá com quem está lidando, ninguém me faz de boba impunemente."
Após o almoço, alguns homens resolveram disputar uma corrida de barco até a outra margem do lago, enquanto os demais hóspedes torciam entusiasticamente pelos participantes da regata improvisada. Meg, como boa anfitriã, estava sempre atenta a todos os seus convidados e notou que em meio a algazarra formada pelas torcidas dos hóspedes. Lady Patricia permanecia afastada dos grupos, Meg estranhou este comportamento da prima, desde a noite anterior notara que ela perdera a vivacidade e a ebulição que a caracterizava. Passara todo o picnic, sem se socializar com ninguém, o tempo todo ao lado de Meg e de Richard, e dos filhos destes, calada e tristonha, falando apenas quando lhe perguntavam algo.
Logo após a competição de remo, o picnic foi encerrado e todos voltaram para casa para que os hóspedes pudessem descansar um pouco antes do jantar, após um dia inteiro de atividades ao ar livre.
Meg estava sozinha, em sua sala íntima tomando uma xícara de chá quando ouviu batidas na porta, e em seguida Lady Patricia entrou, usando ainda o mesmo traje do picnic.
- Estou precisando conversar com você, Meg.
- Entre e sente-se. Quer uma xícara de chá?
- Não, obrigada. Meg. Tenho algo muito grave para lhe contar.
Meg teve um mau pressentimento no mesmo instante, de que o que iria ouvir era algo muito desagradável e sério.
- O que aconteceu, Patricia?
- Ontem quando todos foram passear no lago, eu não quis ir porque estou farta das jovens que você convidou para esta reunião em sua casa, elas mal olham para mim e vivem falando mal de mim nas minhas costas. Eu pedi para selarem um cavalo e fui cavalgar na trilha do rio, lá encontrei o William Darcy, discutimos e você não vai acreditar, ele me beijou, me comprometendo tremendamente e hoje durante todo o pic-nic, me ignorou e ficou flertando abertamente com a Srta. Emily, como se eu não existisse. Eu quero que você me acompanhe porque vou falar com o seu tio, o Sr. Darcy e contar a ele o comportamento inadequado do filho, e que eu exijo que o filho dele repare o fez comigo.
Meg ouviu a tudo estupefata, pois jamais ouvira tamanha barbaridade.
- Patricia, diga-me... foi apenas um... beijo?
- Não, não foi apenas um beijo, foram vários e bem impróprios... íntimos... você sabe como são, não preciso entrar em detalhes. Ele também me apalpou inteira e eu senti... senti que ele estava bem... excitado.
- Meu Deus, Patricia! Nem sei o que dizer... mas você acha que é o caso de levar este fato às últimas conseqüências? Isto é, obrigar William a se casar com você. Pensou bem, pelo que você me contou, não houve nenhuma testemunha do fato, portanto não há escândalo algum que obrigue vocês a se casarem.
- O quê!? Só porque ninguém testemunhou o que aconteceu, você quer que eu deixe tudo por isto mesmo. Você está defendendo seu primo. Acha que eu não sou suficientemente boa para ele? Eu pensei que você gostasse de mim e fosse ficar do meu lado, mas vejo que me enganei. Claro, não sou prendada como a Srta. Emily Rutherford, bem comportada como ela. – Patricia levantou-se da poltrona e fez menção de sair da sala, dizendo raivosa. - Você me decepcionou, Meg. Pode deixar que eu mesma cuide de meus interesses.
- Patricia, por favor, você não está entendendo meu ponto de vista, não estou defendendo William. Reconheço que ele errou, apenas acho terrível vocês se casarem desta forma, obrigar um homem a se casar com você por causa de um beijo por mais ousado que ele tenha sido. Será um casamento sem amor, vocês jamais poderão ser felizes.
- Não importa, eu não quero ser feliz, quero ser miserável e fazer a vida dele miserável também. Ele vai se casar comigo. Ninguém me trata do jeito que ele me tratou ontem e depois finge que nada aconteceu, me senti ultrajada, humilhada, a última das mulheres.
- Patricia, você não quer pensar melhor, se realmente vale a pena levar o que aconteceu às últimas conseqüências. O casamento é um compromisso muito sério para ser tratado com leviandade.
- Meg, eu procurei sua ajuda porque pensei que você fosse minha amiga. Mas estou percebendo que você não está do meu lado. Vou procurar o Sr. Darcy agora mesmo, e resolver tudo sozinha.
- Não, você não está me entendendo, eu quero ajudá-la, se você quer mesmo tratar o episódio desta forma, vamos ter que levar o caso para o conhecimento de Richard.
- Richard não tem nada a ver com isso, Meg. – replicou Patricia indignada.
- Patricia, na ausência de seu pai, ele, como seu parente mais próximo, é o responsável por você.
- Como odeio o fato de nós, mulheres, termos que ter sempre alguém responsável por nós, como se fossemos crianças ou idiotas.
- Concordo com você, é revoltante, mas infelizmente são assim as regras de nossa sociedade.
- Pois, vamos quebrar estas regras. Nós duas podemos perfeitamente resolver esta questão com o seu tio, sem precisarmos envolver Richard nisso. O Sr. Darcy, como homem honrado que é, obrigará o filho a reparar o mal que cometeu.
- Patricia, conheço muito bem meu tio, ele é um homem formal, não verá com bons olhos, nós duas irmos tratar com ele um assunto tão constrangedor, pois teremos que entrar nos detalhes do que aconteceu. Melhor que a conversa seja entre homens. Deixe o Richard se encarregar disso, ele irá resolver tudo para você, ele gosta muito de você e cuidará de seus interesses.
- Está bem, se você que conhece seu tio melhor que eu, acha que é o melhor a ser feito, vamos fazer assim. Embora eu não concorde, queria eu mesma resolver tudo, queria ver a cara do Sr. Darcy quando eu lhe contasse como o “cavalheiro” do filho dele se comportou comigo.
Assim que Patricia saiu de sua sala, Meg pediu a uma criada que fosse chamar seu marido. Quando este chegou alguns minutos depois, assustou-se com a expressão aflita da esposa.
- Meg, o que houve?
- Você não vai acreditar Richard. Por favor, sente-se para que eu possa lhe contar o que aconteceu.
Quando Meg terminou de falar, Richard já estava de pé andando de um lado para outro da sala, bastante agitado.
- Mas onde William estava com a cabeça para se comportar assim com Patricia?
- Você, como homem, deve entender melhor do que eu, o que houve com William.
- Podia esperar uma reação dessas de qualquer um, menos de William.
- William é um homem como outro qualquer, tem suas fraquezas também. Eu não quero estar por perto quando meu tio souber desta estória toda. Ontem mesmo ele estava criticando os modos de Patricia para mim, dizendo que ela não se comportava como uma dama, como a filha de um duque. Imagine quando souber do ocorrido.
- Será que se eu conversasse com Patrica, não conseguiria demovê-la da idéia de se casar com William? Eis um casamento fadado ao fracasso.
- Eu tentei e falhei, por pouco ela não se voltou contra mim, ela acha que eu estou protegendo William, que não sou amiga dela. Acho melhor você nem tentar, ela é capaz de ir falar direto com meu tio e se nada for resolvido falará com o pai dela, e quanto menos o duque souber desta estória, melhor, você sabe melhor do que eu que ele é um homem temperamental e que ela é a queridinha dele.
- Você tem razão e me convenceu, Meg, vou falar com seu tio e com William. Vamos procurar resolver tudo sem fazer alarde, devemos evitar mais um escândalo envolvendo o nome de Patricia.
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