Finda a temporada no final de junho, as famílias da aristocracia trocavam Londres por suas propriedades no campo, onde costumavam passar os meses quentes de verão. Lá eles se socializavam convidando amigos e familiares, entretendo-se com vários tipos de atividades que o campo propiciava.
Todos os anos os conde de Lindsey recebiam convidados em Lindsey Hall, na maioria familiares tanto de Richard como os de Meg. Neste ano, Meg pedira a Richard para que aumentassem o número de convidadas do sexo feminino em idade casadoura, devidamente acompanhadas de seus pais como era de rigor, pois ainda estava empenhada em arrumar uma noiva para o primo. Convidou também rapazes solteiros para fazerem par com as jovens, pois fazia parte da etiqueta que houvesse o número certo de casais, os rapazes convidados também serviriam para que as intenções casamenteiras de Meg não ficassem tão evidentes.
Meg aprendera a amar Lindsey Hall como amava Pemberley. E nos meses de verão, além de desfrutar da beleza da ancestral propriedade, ela podia desfrutar da companhia de seus parentes que sempre vinham visitá-la, de todos os seus filhos, inclusive Mark, o filho mais velho de 10 anos, que estudava no colégio interno e vinha para as férias de verão e de Richard, que nesta época tinha mais tempo para se dedicar à esposa e aos filhos.
Os convidados começaram a chegar no início de julho. Lady Patricia não fazia parte do grupo neste ano, acabara desistindo de vir, convencida pelo pai a ser a anfitriã dos convidados dele em Longward Court. Assim a preocupação que Meg e Richard teriam com ela e William juntos na mesma casa foi eliminada para grande alívio dos anfitriões.
Todas as jovens que Meg convidara compareceram, honradas com a oportunidade de passar uma quinzena, numa das propriedades mais requintadas e belas da Inglaterra e todas sabiam que a intenção da anfitriã era arrumar uma noiva para seu primo William Darcy.
Os hóspedes tinham inúmeros divertimentos, desde cavalgarem pela extensa propriedade, passeios a pé pelos jardins e bosques, remarem no lago, jogos ao ar livre e dentro da mansão, leitura na bela e farta biblioteca de Lindsey Hall, e as noites organizavam-se saraus e bailes informais, onde todos dançavam, enfim não faltava lazer para todos para preencherem seu tempo.
Numa tarde, no terceiro dia em que os hóspedes haviam chegado, Meg conversava e tomava chá na sala íntima com sua tia Lizzy.
- Ontem conversei com a Srta. Rutherford, realmente, a jovem é tímida demais, ela mal respondia as perguntas que lhe fiz, mas me pareceu uma jovem muito bem educada. Mas, estou achando muito difícil que William, sendo um rapaz tão reservado, consiga vencer a barreira da timidez da Srta. Emily.
- Tia Lizzy, será que a senhora não assustou a Emily com seu interrogatório de futura sogra? Todas as jovens que convidei são prendadas e de ótimas famílias, vamos deixar agora por conta do acaso, quem sabe se William não se apaixona por uma delas, não precisa ser necessariamente a Srta. Emily. Veja lá, duas carruagens se aproximando, estranho pois todos os nossos hóspedes já chegaram, quem será?
Meg e Lizzy aproximaram-se da janela para verem quem seria o visitante inesperado, não tiveram que esperar muito para enxergarem a insígnia ducal na porta das carruagens.
- Meu Deus, a carruagem é do Duque de Wycliff, mas, ele não viria para cá, tem seus próprios convidados.
A suntuosa carruagem negra parou em frente à porta principal da mansão e Meg viu sua prima Lady Patricia descendo num elegante traje de viagem. A segunda carruagem dirigiu-se aos fundos da mansão para descarregar pela porta de serviços, a enorme bagagem que ela trazia.
- Que estranho, ela me disse ainda em Londres que não viria para cá, que iria ajudar o pai a receber os convidados dele. Ela é uma criatura imprevisível! Minha tia, a senhora não imagina o problema que ela está trazendo. Ela e William não se entendem. William não a suporta e vice-versa, ela vai nos deixar loucos
Neste momento o mordomo entrou, fez a saudação de praxe, anunciando:
- Sra. Condessa, Lady Patricia Davenport acaba de chegar.
Meg pediu licença à tia e foi receber a prima.
- Meg, mudei de idéia e resolvi vir para cá. Os convidados de papai estavam me aborrecendo mortalmente, a maioria de idosos como ele e os poucos jovens eram uns tipos maçantes. Espero que minha chegada repentina não cause transtornos a você.
- Você é sempre bem vinda em Lindsey Hall, Patricia. – Meg respondeu polidamente, mas intimamente desejando que a prima não tivesse vindo.
- Obrigada, Meg, como estou feliz de estar aqui. Esta é para mim uma das propriedades mais lindas da Inglaterra e você e Richard são anfitriões perfeitos, sempre me sinto à vontade quando estou aqui.
*******************************
William Darcy soube da chegada de Lady Patricia naquela tarde, ouvindo o comentário dos outros hóspedes, mas só foi encontrá-la apenas antes do jantar, pois esta permanecera em seu quarto descansando. Enquanto se vestia para o jantar, ele fez o firme propósito a si mesmo, de que não daria atenção às provocações dela, simplesmente iria ignorar sua presença, suas observações sarcásticas e a irritação que a simples presença dela lhe causava. Afinal, era um convidado na casa dos primos e tinha que se comportar e agir como um cavalheiro, mesmo que Lady Patricia, apesar do título, não agisse como uma dama.
Aquela noite ao jantar, a presença de Lady Patricia causou agitação entre os rapazes solteiros e alguns deles imediatamente se aglomeraram a sua volta, adulando-a. Este comportamento causou a inveja e o ciúme nas jovens solteiras que começaram a olhar e a tratar a jovem Lady com um desprezo camuflado, pois não podiam demonstrar abertamente a insatisfação que a presença dela provocava.
Meg solucionou o problema da falta de um par para Lady Patricia colocando seu filho Mark Rutherford de 10 anos de idade ao lado dela no jantar. Mark era um belo menino de cabelos escuros e olhos azuis, muito parecido com o pai, que só aceitara participar do jantar formal dos adultos depois que sua querida mãe lhe implorou que fizesse tal sacrifício.
Lady Patricia com seu jeito exuberante, ficou encantada com seu par, abraçou-o e beijou-o efusivamente, constrangendo o pobre Mark diante da demonstração pública de afeto.
- Mark, como você cresceu, está um homenzinho! Já sei, vou esperar você se tornar um adulto e vou me casar com você!
O pobre menino estava mortificado com o comentário dito em alto e bom som para todos ouvirem, estava arrependido até o último fio de seus cabelos por ter cedido aos apelos maternos e participar do aborrecido jantar de adultos quando poderia estar brincando em companhia dos irmãos.
Não tardou para a inteligente Lady Patricia perceber que sua presença destoava do grupo de convidados, divididos em dois grupos, o dos casais casados e mais velhos e o dos jovens, moças e rapazes solteiros. Logo, também, ela percebeu que a intenção de Meg ao convidar várias jovens solteiras e o mesmo número de rapazes era com a intenção de que William Darcy escolhesse dentre as jovens, a futura esposa. Ela não sabia bem o porquê, mas este propósito irritou-a profundamente e pensou: [i]"Só mesmo um homem incompetente para precisar da ajuda da prima para arrumar uma noiva. Não tem capacidade nem para isto. Um completo idiota.”[/i]
Lady Patricia sentia que sua presença causava desconforto entre as jovens solteiras que temiam a concorrência que ela representava. Ela sempre se sentira magoada por ser excluída dos grupos de moças de sua idade, gostaria de fazer amizade com elas, ter amigas, mas elas evitavam-na e sempre formaram um bloco unido contra ela.
Uma tarde, os hóspedes se dividiram em dois grupos, os mais velhos foram visitar algumas pequenas vilas em torno de Lindsey Park e os jovens foram caminhar pelos bosques até um lago que ficava a cerca de 2 milhas de distância. Lady Patricia pretextando uma ligeira indisposição ficou em seus aposentos quando percebeu que todos haviam saído, foi até os estábulos e pediu para os cavalariços selarem um cavalo para ela.
Ela conhecia muito bem as trilhas e caminhos de Lindsey Park, pois durante toda sua vida viera passar algumas semanas do ano com seus tios nesta propriedade.
Ela cavalgou, seguindo uma trilha que margeava o rio, estava bem distante de Lindsey Hall, quando avistou um cavalo amarrado a uma árvore, aproximou-se e viu que William Darcy estava sentado em uma pedra na margem do rio. Ela saltou do cavalo, prendeu-o e dirigiu-se ao local onde ele estava sentado.
- Sr. Darcy pensei que estivesse no grupo que foi caminhando até o lago. Está perdendo a oportunidade de cortejar as lindas jovens que Meg convidou para o seu deleite e escolha. – disse Patrícia em tom sarcástico.
- Lady Patricia, gostaria de reiterar o favor que lhe pedi no baile de Lady Norton. Deixe-me em paz! – vociferou William levantando-se.
- Parece que o senhor está irritado hoje. Meg não foi muito feliz na seleção das jovens que convidou para o senhor escolher, pude verificar que todas sem exceção, são como eu, fúteis, frívolas e tolas, mulheres que não o atraem, por isso procurou refúgio neste recanto solitário?
- Lady Patricia, vamos parar com esta conversa sem propósito. Com sua licença, vou me retirar, pois seria altamente comprometedor se nos encontrassem sozinhos aqui.
- Ah! O senhor está com medo de ser encontrado comigo neste recanto ermo. Segundo os códigos de honra vigentes, o senhor teria que me propor casamento e eu para salvar minha reputação, teria que aceitar ser sua esposa e eis, nós dois unidos pelos sagrados laços do matrimônio! Sabe que a idéia me é tentadora, pois eu transformaria sua vida num verdadeiro inferno, se antes disso o senhor não me matasse de tédio.
William fez menção de se retirar, quando Lady Patricia aproximou-se dele, bloqueando-lhe a passagem, segurou-o pelos braços, levantou seus olhos azuis e olhando-o nos olhos, disse sorrindo provocadoramente:
- Eu o apavorei com a perspectiva de nosso casamento, não é? Seria muita ironia, o senhor que procura a noiva ideal, perfeita, prendada, bem comportada, casar-se comigo, a noiva totalmente ao avesso dos padrões elevados que o senhor estabeleceu. Mas, sossegue, pois eu não aceitaria me casar com o senhor por nada neste mundo. O senhor seria o marido mais tedioso que uma mulher poderia arrumar.
Nem William soube explicar mais tarde, qual o impulso que o levou a agarrar Lady Patricia pelos ombros e abraçá-la firmemente, descendo seus lábios até encontrar os dela e beijá-la com fúria. Uma vez iniciado o beijo, ele acendeu o desejo em seu corpo, ele deslizava suas mãos pelo corpo de Lady Patricia, puxando-a para perto de si, colando o corpo dela junto ao seu, os lábios perderam a rigidez e se moldaram aos dela ávidos do desejo que o consumia.
Ela pega de surpresa, a princípio permaneceu inerte em seus braços, depois tentou se separar, mas o seu esforço foi inútil ante a força masculina que a segurava firmemente, por fim o beijo foi acendendo dentro dela um desejo que estivera adormecido até então e ela passou a corresponder às carícias daqueles lábios ardentes e sedutores.
O tempo parecia haver parado para os dois, o murmúrio das águas do rio, os trinados dos passarinhos soavam distantes enquanto ambos estavam perdidos no desejo que os consumia, num mundo aparte que só os amantes conhecem.
Por fim, um pouco de lucidez pareceu vir à cabeça de William que interrompeu o beijo abruptamente como iniciara, soltou o corpo de Patricia, que oscilou ligeramente até encontrar equilíbrio por si, os dois ainda se encararam arfantes e incrédulos com o que acabara de acontecer entre eles. William foi o primeiro a reagir, com passos largos foi em direção ao seu cavalo, desamarrou-o, montou-o, partindo a galope, fugindo como se mil demônios o perseguissem.
Patricia permaneceu longo tempo no mesmo local, olhando a água do rio correndo incessantemente, perdida num turbilhão de pensamentos desencontrados, desde que frequentava a sociedade fora beijada inúmeras vezes por vários de seus admiradores, por seu ex-noivo e pelo namorado com quem iria fugir, mas nunca um beijo a abalara tanto, deixando-a completamente fora de controle. Ela teve consciência que teria se entregado a William ali mesmo, na beira do rio, se ele assim quisesse, se ele não tivesse dominado seu desejo e fugido.
Seus sentimentos em relação a William eram uma incógnita para ela mesma, não entendia porque ele a irritava tanto, aquele ar de censura e superioridade permanente com que ele a olhava, seu comportamento extremamente formal de um verdadeiro cavalheiro inglês, tudo nele a incomodava. E o pior de tudo, ela tinha consciência de que ele não gostava dela, desaprovava seus modos, criticava seu comportamento e saber que dentre todas as jovens presentes, ela jamais seria a escolhida por ele, a enchia de raiva e humilhação.
William e Patricia só vieram a se encontrar novamente a hora do jantar. Como fazia desde que ela chegara em Lindsey Hall, ele a ignorou e ela também procurou manter um ar de indiferença, embora seu coração parecia se acelerar toda vez que o olhava e que inevitáveis lembranças do encontro à beira do rio vinham a sua mente.
- Patricia, você não melhorou de sua indisposição? Está tão calada. - indagou Meg solicita.
- Ainda não estou totalmente bem, amanhã estarei melhor, estou precisando de uma boa noite de sono. Desculpe-me, mas vou me retirar cedo, Meg.
LAST_UPDATED2














