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Como é difícil, às vezes fazer com que os outros acreditem em nós! E como é impossível, às vezes, para os outros, acreditar! (Jane Austen)

Atração dos opostos - Capítulo 2

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alt   Capítulo 2


Lady Patricia Davenport era filha do poderoso duque de Wycliff.

 

O duque era o irmão mais velho de Lady Anne Rutherford, mãe de Richard, portanto Lady Patricia era prima do conde de Lindsey pelo lado materno.

 

Lady Patricia tinha cabelos castanhos escuros quase negros e olhos tão azuis que, por vezes, pareciam até negros, suas feições eram perfeitas, boca, nariz, uma pele branca sem manchas, era alta, elegante, de porte altivo e gestos graciosos.

 

Ela perdeu a mãe quando ainda era um bebê e para compensar-lhe a falta materna, o pai e o irmão mais velho mimaram-na em demasia, satisfazendo todos os seus caprichos e vontades. Ela cresceu com todas as regalias concedidas por sua fortuna e título, acreditando que o mundo todo existia apenas para servi-la.

 

Quando há três anos, ela debutou na temporada, aos 18 anos,  os pretendentes choveram aos seus pés,  pois além de lindíssima, ela era herdeira de uma fortuna imensa e filha de um dos homens mais poderosos do reino. Naquele ano, ela aceitou o pedido de casamento do duque de Finch, um homem 20 anos mais velho que ela, viúvo e sem filhos. Mas alguns meses depois, o noivado foi desfeito pela própria Lady Patricia, quando esta soube que o noivo tinha uma amante e com ele dois filhos bastardos e uma fama de homem violento que castigava corporalmente seus criados.

 

Na temporada do ano seguinte, Lady Patricia envolveu-se em outro escândalo, planejara fugir para casar em Gretna Green(**) na Escócia, cidade na fronteira com a Inglaterra, onde os casais fujões iam se casar porque os casamentos lá eram realizados sem maiores formalidades. O noivo era o belo filho de um barão empobrecido nas mesas de jogo. Seu pai e seu irmão descobriram a tempo o plano de fuga do casal e conseguiram impedi-los, mas o escândalo se espalhou na sociedade como rastilho de pólvora.


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(**) Gretna Green - Na Regência Inglesa  era uma cidade escocêsa conhecida pela facilidade com que realizava os casamentos sem nenhuma burocracia, lá era permitido o casamento de jovens de 16 a 18 anos, o que na Inglaterra só era permitido com a autorização dos pais.
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Portanto, este era a terceira temporada de Lady Patricia e a sociedade comentava a boca pequena qual seria o próximo escândalo em que a bela filha do duque se envolveria. Se o primeiro escândalo, o do noivado desfeito seria suficiente para arruinar a reputação de uma jovem, o segundo o da fuga teria acabado com a pretensão de qualquer jovem se casar um dia, mas Lady Patricia Davenport continuava impávida e de cabeça erguida,  frequentando a sociedade como se nada houvesse acontecido, sendo aceita na casa das melhores famílias da aristocracia porque ninguém ousava fechar as portas para a filha do poderoso duque de Wycliff.

 

Ela era coquete, flertava abertamente com os rapazes com quem simpatizava, tinha atitudes ousadas que fugiam do convencional para uma jovem solteira da época. Enfim, Lady Patricia Davenport era a sensação e o escândalo da sociedade, aonde chegasse sua presença não passava despercebida, o séquito de admiradores rodeando-a como abelhas em volta da colméia, as jovens olhando-a com despeito, inveja e ao mesmo tempo com admiração, pois não havia como não admirar sua beleza, elegância,  desenvoltura,  e  graça e por fim as mamães das jovens que a fuzilavam com os olhos e a odiavam, pois sabiam que ela representava um perigo potencial para as pretensões casamenteiras de suas próprias filhas.

 

*********************

 

Naquela noite, os condes de Lindsey ofereciam um jantar para vários convidados dentre eles, o duque de Wycliff que se fazia acompanhar pela filha.

 

Meg tinha um sentimento ambíguo em relação à prima do marido, ao mesmo tempo em que tinha pena dela por ter sido criada sem a orientação e o carinho maternos, que nitidamente lhe faziam falta. A maneira escandalosa e espalhafatosa que se conduzia em sociedade fazia com que a discreta Meg tivesse certas reservas com ela. Quanto às atitudes insinuantes que tinha para com Richard, elas não a incomodavam, ela se acostumara nestes 11 anos de casamento ao assédio feminino que a beleza, o charme e o poder de Richard atraíam. Ele, entretanto, provara à esposa no decorrer destes anos que o amor que sentia por ela era profundo e sincero, que a fidelidade que prometera estava resistindo a qualquer prova.

 

No decorrer do jantar formal, enquanto uma sucessão de pratos eram servidos, muitas vezes só se ouvia a voz e os risos de Lady Patricia conversando e flertando desinibidamente com os dois cavalheiros sentados ao seu lado.

 

Como era de praxe, terminado o jantar, as senhoras se retiraram para a sala de visitas para tomarem chá e conversarem, deixando os cavalheiros tomarem seu vinho do Porto, fumarem seus charutos e conversarem sobre política e negócios. Logo que chegaram à sala, Lady Patricia dirigiu-se a Meg, fazendo um comentário que constrangeu todas as senhoras presentes, deixando a anfitriã numa situação embaraçosa.

 

- Margareth, permita-me dizer-lhe que seu marido parece um bom vinho, a cada ano que passa fica melhor. Uma verdadeira pena que seja casado e bem mais velho do que eu. Aliás, se eu encontrasse algum rapaz que fosse parecido com ele, me casaria sem hesitar um minuto.

 

Meg titubeou por alguns instantes, sem encontrar resposta para a ousadia de Lady Patricia, mas conseguiu se recompor e respondeu num tom amigável e calmo.

 

- Agradeço o elogio em nome de Richard. Mas, creio que existem excelentes rapazes solteiros na nossa sociedade e qualquer um deles ficaria feliz se você o escolhesse.

 

Uma das senhoras presentes habilmente levou a conversa para outro tópico e o mal estar foi contornado.

 

Mais tarde, quando os cavalheiros se juntaram às damas na sala de visitas, Lord Richard entrou conversando com William Darcy, pararam de pé num canto continuando a conversa, Lady Patricia levantou-se de sua poltrona, aproximou-se dos dois cavalheiros, dirigindo-se ao primo.

 

- Richard, soube por Margareth que vocês irão amanhã ao baile de Lady Norton, queria reservar um das valsas para você, pode ser?

 

- Claro, Patricia, será um prazer. - respondeu ele educadamente.

 

- Sr. Darcy, por que me olha com esse ar de censura ? Será tão impróprio convidar meu primo para dançar comigo?

 

O que William considerava impróprio era o olhar sedutor que Lady Patricia lançara ao primo juntamente com o convite. Entretanto, retrucou com ar sério.

 

- A senhora está equivocada Lady Patricia, quem sou eu para censurá-la?

 

- Pois, acho que o senhor censura todos os meus atos, desde que nos conhecemos a nem sei quantos anos atrás. Não gosta de mim, Sr. Darcy?

 

- Patricia, esta sua pergunta tão direta não é nada própria e bastante constrangedora. - interveio Richard.

 

Lady Patricia ignorou o aparte do primo e insistiu:

 

- O senhor não respondeu a minha pergunta: não gosta de mim, Sr. Darcy?

 

- Não creio que a resposta a esta pergunta tenha algum importância para a senhora.

 

 - E se eu lhe disser que tem importância, Sr. Darcy?

 

- A senhora estaria faltando com a verdade, pois sei que não tem a mínima importância.

 

- Está me chamando de mentirosa?

 

- Por favor, vamos parar com esta discussão tola e completamente fora de propósito.  - interveio novamente Lord Richard, desta vez de forma mais contundente, usando sua autoridade de anfitrião.

 

- Você tem razão, Richard, desculpe-me. Com sua licença, Lady Patricia. - William Darcy inclinou a cabeça a guisa de cumprimento e se retirou em direção a outro grupo, mas ainda chegou aos seus ouvidos a jovem dizendo ao primo:

 

- Você viu como ele está fugindo, é um covar.....

 

William Darcy tinha impressão que soltava fumaça pelas ventas tal a raiva que sentia, não suportava Lady Patricia Davenport, considerava-a a criatura mais mal educada, prepotente, mimada que existia na face da terra.

 

Ela ainda era uma adolescente de uns 16 anos quando se conheceram durante uma temporada no campo, em que foram hóspedes de Lindsey Hall. Embora o contato tivesse sido pequeno na época, William ficara horrorizado com o comportamento nada convencional da filha do duque, que andava a cavalo usando calças masculinas e montando em sela masculina, quando às mulheres era permitido apenas montar em selas femininas, sentadas de lado.

 

Desde aquela época, não suportava aquela jovem fútil e mimada, que tagarelava sem parar e queria que suas vontades fossem satisfeitas na hora.

 

O jantar daquela noite terminou sem outros incidentes. William e Lady Patricia permanceram em grupos separados, mas o olhar vigilante de Lord Richard os seguia, pois como anfitrião estava temeroso de que uma nova discussão se acendesse se ficassem novamente juntos, arruinando a noite.

 

Mais tarde, quando todos os convidados haviam se retirado, Meg perguntou ao marido:

 

- Richard o que houve entre Patricia e William?

 

- Outra vez discutiram por uma bobagem. - Richard resumiu a discussão para a esposa.

 

- Que petulância de Patricia fazer uma pergunta dessas.

 

- Meu tio Anthony, não soube educar a filha, estragou Patricia de mimos para compensar a falta da mãe e o resultado aí está, ela faz o que quer, fala o que bem entende e quando contrariada torna-se insuportável.

 

- Já percebi que Patricia não é uma pessoa má, mas o excesso de mimos estragou-a...Uma pena, pois não existe na sociedade uma jovem tão linda quanto ela.

 

- Ela pode ser linda, mas um jovem sensato jamais a escolheria para esposa, tenho pena do infeliz que se casar com ela. Terá que satisfazer todas as suas vontades se quiser viver em harmonia com ela. Bem, felizmente isto não é problema meu.

 

Richard passou o braço em torno dos ombros da esposa, dizendo - Vamos dormir, meu amor. Estou morto de cansado. -  Ambos se encaminharam para a ampla escadaria que levava para o quarto que ocupavam no andar superior.

 

 

 

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