Lord Richard chegou a Lindsey House, residência londrina dos Condes de Lindsey, situada na Grosvenor Square, uma mansão imponente e luxuosa que se destacava naquela região rica onde a nata da nobreza inglesa tinha suas casas. Desde que terminara seus estudos universitários em Oxford, ele não morava mais com os pais, tinha sua própria casa, onde podia desfrutar de maior privacidade para sua vida de solteiro.
O velho e pomposo mordomo o recebeu, recolhendo sua capa e chapéu:
- O senhor conde o aguarda em seu escritório, meu senhor.
O conde de Lindsey sentado à mesa em seu escritório levantou o olhar severo à entrada do filho. Era um homem alto, elegante, guardando ainda nos traços finos a beleza da juventude.
- Bom dia, meu pai. Aqui estou atendendo ao seu pedido.
- Sente-se, filho. Precisamos conversar. Richard, você está com 27 anos, na idade de constituir família, eu e sua mãe gostaríamos que durante esta temporada, você escolhesse a jovem que será sua esposa.
- Meu pai, não sinto a menor vontade de me casar. Acho a vida de casado muito aborrecida e não me sinto inclinado por nenhuma das jovens que conheço.
- Você sabe que como meu herdeiro terá que dar continuidade a linhagem de nossa família.
- Terei muito tempo para isso, não é preciso me apressar.
- Quero também que você deixe esta vida de orgia e depravação que tem levado e cujos rumores não param de chegar aos meus ouvidos.
- Meu pai não dê atenção a eles, você sabe como as pessoas gostam de falar dos outros e de mim em particular. Tudo que faço e o que não faço também são motivos para falatórios. Não sou nenhum depravado, apenas levo uma vida normal de solteiro, como todos os demais rapazes.
- Quero vê-lo casado, quero, também que comece a tomar frente nos negócios de nossa família. Estou cansado e gostaria de diminuir minhas responsabilidades passando-as a você.
- Ora, papai. O senhor ainda é bastante jovem.
- Eu fico impressionado como você tem resposta para tudo. Não tente fugir do assunto, como já fez inúmeras vezes. Há excelentes jovens que estão se apresentando na sociedade este ano. Eu e sua mãe pensamos em Victoria Darcy, além de ser filha de uma família amiga da nossa, ela é linda, agradável e inteligente, enfim ela tem todos os predicados para se tornar a futura condessa de Lindsey.
- Acho que Victoria Darcy tem todos os predicados que mencionou, mas gostaria de eu mesmo escolher a mulher com quem vou me casar.
- Estamos no início da temporada, você tem toda uma gama de jovens que se apresentam este ano para escolher e tenho certeza de que com sua boa aparência, fortuna e título, nenhuma jovem o rejeitará.
- Vou pensar no assunto, meu pai. - disse ele mais à guisa de encerrar o assunto e se livrar daquela conversa incômoda.
Richard deixou o escritório do pai em direção a sala privativa da mãe. Queria vê-la e conversar um pouco com ela.
O panorama sombrio do casamento dos pais o fazia rejeitar a idéia de se casar. O casamento deles havia sido por conveniência, a união de duas famílias nobres e poderosas. Mas, nunca houvera a mínima afinidade ou qualquer sentimento profundo entre eles. Durante a infância, ele se lembrava da mãe vagando sempre solitária pelos parques da imensa propriedade de Lindsey Park, em Lincolnshire, residencia ancestral dos condes, enquanto o pai membro atuante da Câmara dos Lordes, permanecia em Londres, onde tinha seus próprios divertimentos, inclusive uma amante, cuja existência era do conhecimento de toda a sociedade.
Ele jamais vira os pais trocarem uma palavra de carinho, um com o outro, comportavam-se polida e reservadamente, parecendo dois estranhos, evitando-se sempre que podiam. Ele pensava, ironicamente, que era um milagre a sua própria existência, tendo pais tão distantes e indiferentes um com o outro, não era de se estranhar que ele fosse filho único.
A vida de casado, vista da ótica do casamento de seus pais, não lhe parecia nada agradável. Richard preferia sua alegre e descompromissada vida de solteiro, praticava esportes, tinha um círculo enorme de amigos, frequentava festas e tinha também uma amante, bonita, disponível, para que precisaria de uma esposa. As jovens da sociedade lhe pareciam todas muito tolas, interessando-se apenas por festas, vestidos, chapéus e toda espécie de futilidades, incapazes de manter uma conversa interessante sobre qualquer assunto sério.
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No dia seguinte ao baile, a sala de visita da casa dos Darcy estava atulhada de flores que os inúmeros admiradores de Victoria haviam enviado. Meg, embora não houvesse recebido nenhuma flor, era incapaz de sentir inveja e estava feliz com o sucesso da prima, comentando com a tia a beleza das flores e dos arranjos florais quando o mordomo entrou com três buquês de rosas, dois brancos, que entregou um para Victoria, e outro para Meg e um terceiro cor de rosa para Elizabeth, o remetente era o mesmo Lord Richard Rutherford.
Era o primeiro buquê de flores que Meg recebia na vida, e ele ganhava um significado todo especial por causa de seu remetente, ela olhava para os botões de rosas brancas extasiada e para o cartão escrito numa letra elegante "Desejando sucesso nesta temporada. Sinceramente. Richard Rutherford." O cartão de Victoria continha os mesmos dizeres e o de Elizabeth dizia:"Parabéns pelo bonito baile de apresentação à sociedade de suas filha e sobrinha. Respeitosamente. Richard Rutherford."
- Lord Richard é um verdadeiro cavalheiro. Imagine lembrou-se até de mim. - suspirou Elizabeth encantada.
- Quem lembrou de você, meu amor? Espero que não seja nenhum cavalheiro, pois neste caso serei obrigado a desafiá-lo para um duelo. - disse Darcy num tom brincalhão, entrando na sala.
- Mamãe está encantada com Lord Richard Rutherford, imagine que ele mandou flores para mim, para Meg e para a mamãe também, cumprimentando-nos pelo baile de ontem. Ele é encantador!
- Agora estou entendendo porque todas as mulheres da sociedade, jovens ou maduras são caídas por ele. O rapaz sabe como conquistar as mulheres, faz jus à fama de conquistador que tem.
- Ora, Fitzwilliam, os rapazes tem a sua fase de conquistadores, mas, com a idade acabam se assentando. É o que certamente irá acontecer com Lord Richard. Até parece que você nunca foi jovem, meu amor.
- Fui jovem, mas nunca fui mulherengo.
- Também do jeito que era sisudo, antipático e orgulhoso, que mulher ousaria se aproximar de você?
- Pois, saiba que tive várias admiradoras quando jovem.
- Papai!!! Conte-nos quem eram. Eram bonitas como a mamãe?
- Todas muito lindas e prendadas. - respondeu Darcy sorrindo provocativamente para Lizzy.
- Então por que não se casou com uma delas? - perguntou Lizzy fingindo-se de despeitada.
- Por que encontrei a mais linda e a mais prendada de todas, que é você, meu amor.
Darcy abraçou Lizzy, e deu um leve beijo nos lábios dela, rindo muito.
As meninas também riram junto, adoravam assistir estas declarações de amor tão explícitas de Darcy para sua adorada Lizzy.
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Meg levou seu buquê para o quarto, cuidou dele para que durasse o maior tempo possível, não cansava de olhar, cheirar e acariciar as rosas, seu remetente, entretanto, nem desconfiava que seu gesto cavalheiresco tivera um significado tão especial para Meg.
A temporada londrina seguiu seu curso normal, além dos eventos noturnos como festas, bailes, jantares, concertos, saraus, havia os chás da tarde, as compras nas lojas da moda e os passeios pelas manhãs no Hyde Park, para ver e ser visto pela sociedade.
Victoria Darcy, como era esperado, brilhou em todos os eventos que compareceu, uma dezena de admiradores lhe faziam a corte, mas ela não parecia inclinada a dar preferência a nenhum em particular.
Meg comparecia aos eventos para agradar os tios, pois para ela depois dos comentários que ouvira no seu primeiro baile, toda a graça da temporada havia terminado. Nos bailes procurava ficar nas mesas junto com sua tia e outras senhoras, às vezes algum cavalheiro mais destemido a tirava para dançar, ela aceitava por cortesia, mas não sentia prazer algum na dança. Só quando Lord Richard comparecia a algum dos bailes, ela se animava, pois ele sempre a tirava para dançar uma música. Meg tinha consciência que ele não tinha qualquer interesse especial por ela, às vezes chegava a pensar que ele o fazia movido pela compaixão, mas sem se importar com a razão, esta pequena deferência tinha o poder de deixá-la feliz pelo resto da noite.
- Tory, você acha que Lord Richard irá escolher a noiva nesta temporada, como se comenta por aí?
- Não sei, acho que não, Meg. Dizem que ele é terrível, andou tendo um caso muito comentado com uma atriz de teatro, ouvi tia Georgiana comentando com mamãe. Ele tem fama de ser muito mulherengo. Você acha que ele vai trocar a vida que tem pela vida de casado? Você reparou o desespero com que as mães empurram suas filhas em direção a ele. Felizmente, minha mãe não é assim, eu acho que morreria de vergonha, se ela o fizesse.
- Tia Lizzy sempre comenta que nossa avó Bennet era assim. Mas também com 5 filhas para casar, qualquer mãe ficaria desesperada, não acha? Então, você acha que Lord Richard não vai casar este ano?
- Meg, posso te fazer uma pergunta? Jura que vai ser sincera na resposta?
- O que você quer saber?
- Você está apaixonada pelo Lord Richard?
- N...não, claro que não estou.
- Pois, estou desconfiada de que você está, Meg.
- Olhe, sei que parece ridículo, eu, Meg Wickham amar alguém tão importante como Lord Richard, mas não consigo deixar de amá-lo, desde quando ele foi pela primeira vez a Pemberley, a 5 anos atrás.
- Oh! Meg, nem sei o que lhe dizer.
- Não diga nada, Tory. Sei muito bem que é um amor impossível, espero que um dia este amor morra dentro de mim, da mesma forma como nasceu de repente. Que eu acorde uma manhã e sinta que não o amo mais.
Tory abraçou Meg tentando consolá-la, enquanto esta derramava lágrimas silenciosas e doloridas no ombro da prima.
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