A casa dos Darcy, no elegante bairro de Mayfair, onde se situavam as mansões da aristocracia, resplandecia de luzes, as carruagens luxuosas faziam fila em frente à porta principal para descer os convidados trajados em roupas de gala. Todos comentavam sem cessar sobre a Srta. Victoria Darcy, que diziam de antemão seria a sensação daquela temporada, pois reunia todos os predicados que uma jovem deveria ter, era jovem, linda e rica. Apesar do baile também ser para a apresentação de Meg pouco se comentava sobre esta sobrinha que Darcy criara, de origem obscura e cujo pai estava envolvido em escândalos. Lizzy não fizera diferença ao comprar os vestidos das meninas, ambas vestiam lindos e luxuosos vestidos brancos, os penteados muito elaborados, destacavam a beleza de ambas.
Meg sentou numa mesa junto com sua tia Jane e Georgiana e outras senhoras que serviam de acompanhantes das jovens, pois era contra as regras da etiqueta da época que uma moça comparecesse a qualquer evento social desacompanhada. Na mesma mesa se encontrava a condessa de Lindsey, quando uma das matronas perguntou por Lord Richard Rutherford.
- Meu filho, prometeu-me que viria esta noite, pois somos muito amigos dos Darcys. Mas, você sabe como são os jovens desta idade, tem seus próprios compromissos.
- Hoje em dia os rapazes são todos assim. Quem sabe nesta temporada ele não encontra uma noiva e se assenta como acontece com a maioria dos rapazes.
- Seria muito bom se isto acontecesse, Gerald e eu andamos muito aborrecidos com os boatos que têm circulado sobre ele.
Meg ouvia atentamente a conversa da condessa, tudo que se relacionasse a Lord Richard era do interesse dela. Ela não seguira o conselho de sua tia Lizzy, não conseguira tirar de de seu coração sua paixão de adolescente. Comparava todos os jovens que conhecia com Lord Richard e nesta comparação todos saíam perdendo. Aguardava ansiosa a vinda anual dele a Pemberley para a temporada de caça, que era a única oportunidade que tinha de vê-lo. Agora durante esta temporada em Londres, certamente o veria em muitas ocasiões, mas a notícia de que ele viria ao baile desta noite, a deixava trêmula e ansiosa.
O baile teve início com o Sr. Darcy dançando com a filha Victoria e Meg dançando com seu tio Charles Bingley, marido de sua tia Jane.
A segunda música Darcy dançou com a sobrinha.
- Pela primeira vez na vida, tive vontade de me desdobrar em dois, pois gostaria de ter dançado com você a primeira música ao mesmo tempo que com Victoria.
- Tio, não precisa se desculpar, eu entendo perfeitamente, Victoria é sua filha e deve ter a primazia nesta hora. Mas, sei que no seu coração há lugar para nós duas da mesma forma.
Darcy sorriu para a sobrinha, a doçura e bondade dela sempre o comoviam.
Após algum tempo, a atmosfera abafada do salão de baile estava dando um início de dor de cabeça em Meg e ela resolveu sair alguns instantes para o terraço, onde poderia respirar um pouco do ar fresco da noite. Ao cruzar uma porta entreaberta para o terraço, ela ouviu seu nome numa conversa de um grupo de rapazes e parou, não resistiu e ouviu a conversa da penumbra onde estava.
- Meg Wickham é uma jovem bonita, mas as origens dela não a recomendam.
- Quem são os pais dela?
- Como ela é aparentada com os Darcy?
- Ela é a filha da irmã mais nova da Sra. Darcy. Minha mãe conta que foi um escândalo na época, a moça que só contava 15 anos, fugiu com George Wickham, um militar de baixo escalão, um sujeito que vivia metido em encrencas, dívidas de jogo, sedução de mulheres e outros escândalos pouco recomendáveis.
- Enfim um crápula, um canalha, a escória da sociedade.
- Muita coragem do Sr. Darcy apresentar a sobrinha juntamente com a filha à sociedade. Victoria Darcy será certamente a sensação desta temporada, mas esta Meg Wickham, não acredito que qualquer homem que tenha um pingo de juízo na cabeça e bom senso queira ter seu nome ligado ao dela.
- Mas, ela é bem bonita, parece ser bem educada e deve ser muito querida pelos Darcys que praticamente a criaram. Parece que o Sr. Darcy estipulou um dote a ela igual ao da própria filha.
- Casar com ela, só se for pelo dote, dizem que não é uma quantia desprezível.
Todos riram e a conversa mudou para outro assunto mundano.
Meg sentia como se todo o sangue drenasse de seu corpo, era horrível ouvir falar dela em termos tão pejorativos. Era duro ouvir verdades que ela conhecia a fundo serem anunciadas por pessoas completamente estranhas a ela. Agora ela entendia porque enquanto Victoria dançava todas as músicas, ela apenas dançara com seu tio Fitzwilliam, seu tio Charles e seu tio James, marido de tia Georgiana.
Por que ela se deixara convencer por seus tios a ser apresentada à sociedade, esta sociedade que a considerava uma pária e que camufladamente a desprezava?
- Srta. Wickham, a senhorita está passando mal? Está terrivelmente pálida?
Meg abriu os olhos para ver diante de si a última pessoa do mundo que queria ver naquele instante, Lord Richard Rutherford, muito belo em seu traje de gala. Ela tentou se recompor rapidamente, dizendo numa voz trêmula:
- Obrigada, Lord Richard, estou apenas com dor de cabeça. Não se preocupe, logo estarei bem.
- Se quiser posso lhe pegar um copo de água ou mesmo chamar sua tia?
- Não, obrigada, não se preocupe.
Lord Richard percebeu que Meg queria ficar sozinha, fez uma saudação breve e se dirigiu ao salão de baile.
Quando Meg conseguiu se recompor e voltar ao salão de baile, a festa estava em seu auge, todos pareciam estar se divertindo muito, ela aproximou-se da mesa onde sua tia Lizzy conversava.
- Meg, meu bem, onde andou?
- Estava com um pouco de dor de cabeça e fui até o terraço tomar um pouco de ar.
- A dor de cabeça passou?
- Sim, estou bem.
Neste instante iniciava-se uma nova música e Meg que passeava seus olhos pelo salão a procura da figura de Lord Richard viu-o dançando com Victoria. Formavam um lindo par, ambos altos, elegantes, jovens e belos.
- Ouvi dizer Elizabeth, que Lord Richard está pensando em se casar, deixar de lado a sua boa vida de rapaz solteiro. Se isto for verdade será considerado o melhor partido da temporada. Sua filha Victoria tem muitas chances de conquistá-lo, pois tem todas as qualidades necessárias.
Lizzy sorriu para a matrona que fizera o comentário, lembrou-se de sua mãe a Sra. Bennet, agora ela conseguia entender um pouco o desespero da mãe em querer casar as cinco filhas. Não que ela, Elizabeth, estivesse desesperada para casar a filha, tinha certeza de que para Victoria não faltariam bons partidos, já neste primeiro baile, ela estava cercada de admiradores e certamente poderia fazer com calma a sua escolha. Sua preocupação era com Meg, tinha consciência das limitações dela, devido a sua origem, apesar de ser sobrinha de Darcy e estar sob a tutela dele.
O baile seguia animado, Meg passara o tempo sentada ao lado das tias Jane e Georgiana, conversando com elas. Estava distraída assistindo os casais evoluindo na pista de dança, quando Lord Richard Rutherford se aproximou e fazendo uma elegante mesura disse:
- Srta. Margareth, quer me dar o prazer de dançar comigo a próxima música?
Ela mal conseguia acreditar no que ouvira, mas conseguiu responder timidamente.
- Sim, o prazer será meu.
Dançar com Lord Richard era a melhor coisa que podia lhe acontecer naquela noite, mesmo sabendo que ele o fazia por educação, e em deferência aos Darcys, era maravilhoso poder durante a dança olhar fundo naqueles olhos azuis, naquele rosto másculo e belo, segurar nas mãos dele, ter a atenção dele voltada para ela pelo breve espaço da música.
- Sua dor de cabeça melhorou?
- Sim, obrigada, estou melhor.
- Está muito bonito o seu baile de apresentação à sociedade.
- A festa é mais para Victoria que para mim.
- Acho que está enganada, a festa é para ambas.
Meg sorriu, como não amá-lo desesperadamente, além de lindo, ele era educado, gentil e a tratava com tanta cordialidade, tão diferente dos outros rapazes que menosprezavam sua origem, que não a tiravam para dançar, talvez com medo de ver seu nome associado ao dela.
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