A família Darcy, com exceção dos três meninos que estudavam no colégio interno em Eton, estavam em Londres para a "Season", a temporada de festas, bailes, teatros, concertos, óperas, que se estendia pela primavera londrina, dos meses de abril até fins de junho. Além dos programas noturnos, havia durante o dia, os passeios pelo Hyde Park pela manhã, e à tarde as mulheres saiam às compras, visitavam umas às outras para o chá das cinco, era uma vida social intensa.
Victoria Darcy completara 18 anos e estava na idade de ser apresentada à sociedade, como era costume da época. O objetivo final desta apresentação à sociedade para as jovens, era o casamento. Esta sucessão de eventos sociais durante a temporada era a oportunidade perfeita para as jovens conhecerem os bons partidos disponíveis e dependendo da fortuna, título da família e do dote que possuíam encontrar um marido.
Meg, que já contava 20 anos, recusara-se a ser apresentada aos 18 anos, dizendo aos tios que preferia ser apresentada juntamente com a prima, quando esta fizesse 18 anos, embora contrariados os tios aceitaram a resolução da sobrinha, pois tinham consciência de que ela teria pouca oportunidade de encontrar um marido entre os jovens da aristocracia, tendo em vista a sua origem humilde e a reputação do pai.
O que a salvaria com certeza seria o dote que Darcy estipulara para a sobrinha. Eles tinham esperança que ela conseguisse atrair algum jovem filho de comerciantes ou algum profissional liberal, que não estivesse preocupado com a origem pouco aristocrática dela.
Victoria, entretanto, era outro caso, os Darcy tinham grandes esperanças de que ela fizesse um excelente casamento, na mais alta esfera social, pois ela preenchia todos os requisitos desejáveis, era jovem, linda, rica e bem nascida. Fisicamente ela lembrava Elizabeth, os cabelos e olhos castanhos, mas era mais alta que a mãe e como a mãe era espirituosa e cativante.
Era véspera do baile em que os Darcys apresentariam à sociedade sua sobrinha e filha, todos os preparativos estavam prontos e Elizabeth aguardava ansiosa que tudo corresse bem no dia seguinte. As três mulheres reunidas na sala de visitas tomavam chá, bordavam e conversavam.
- Tia Lizy, conte-nos de novo a estória do baile onde conheceu o meu tio.
- Foi no salão de reunião de Meryton, uma cidade próxima a Longbourn, onde nasci. Eram bailes muito simples, em que iam só as pessoas da região, tudo era muito simples e provinciano.
- E como o papai foi parar lá?
- Seu tio Charles havia alugado uma casa chamada Netherfield Park, que ficava próxima a Meryton e Longbourn e ele foi convidado para o baile e levou suas irmãs, o cunhado e o seu pai.
- Foi lá que ele fez pouco caso da senhora, minha tia?
- Conte de novo esta estória, é muito hilariante, mamãe.
- Conte tia, adoro ouvir este episódio de sua vida.
- Estes bailes eram a única distração que tínhamos, era o único meio para conhecermos novos rapazes ou encontrarmos os que já conhecíamos. Quando soubemos que seu tio Charles iria comparecer ao baile de Meryton foi uma sensação, diziam que ele era rico e muito bonito, sua avó já fazia planos de casar uma das filhas com ele. Ele chegou ao baile acompanhado das duas irmãs, do cunhado e de Fitzwilliam. Sua avó Bennet arrumou logo um jeito dele ser apresentado para nós. Charles sempre muito simpático foi logo convidando Jane para dançar, e não parou de dançar, dançou todas as músicas convidando várias moças, inclusive eu.
- E o papai?
- Ficou pelos cantos, olhando a todos com seu olhar crítico, muito antipático, achando tudo muito provinciano. Aí, uma hora Charles falou com ele para dançar comigo, que eu era muito bonita. Ele disse num tom altivo: "Charles, você está dançando com a única moça bonita do salão." Aí, seu tio Charles falou que eu também era muito bonita, ao que ele retrucou com o maior desprezo: "Ela é apenas tolerável e não estou inclinado a dar atenção a moças que foram desprezadas por outros rapazes." Eu não estava dançando não porque havia sido desprezada, mas é que havia mais moças que rapazes no baile.
As moças caíram na gargalhada e não pararam de rir nem quando Darcy entrou na sala fingindo-se zangado.
- Lizzy, não acredito que você está contando esta estória do baile de Meryton, outra vez! - disse Darcy entrando na sala e sentando ao lado da esposa, após beijá-la na testa.
- Nós que pedimos para ela nos contar, tio. Esta estória é muito divertida!
- Papai, quando mamãe passou de tolerável para a mulher mais linda do mundo!
- Aos poucos, na segunda vez que a encontrei achei que ela tinha olhos bonitos e assim, ela foi ganhando meu coração, nem eu mesmo sei dizer quando me apaixonei totalmente por ela.
- Que lindo!
- Que romântico!
As jovens suspiraram com a estória do baile que já haviam ouvido dezena de vezes, mas que para elas tinha sempre um encanto renovado por causa do romantismo, pois elas eram testemunhas do grande amor que nascera da indiferença e que durava quase 20 anos sempre renovado.
Fitzwilliam e Elizabeth eram o exemplo no qual se espelhavam para sonhar com suas próprias estórias de amor.
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