Citações

Quando as pessoas se decidem a adotar um tipo de conduta que sabem errada, sentem-se injuriadas quando se espera algo melhor da parte delas.(Jane Austen)

A estória de Meg Wickham - Capítulo 20

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Era uma tarde muito linda de verão, o sol brilhando forte no céu muito azul. Meg lia no seu recanto predileto à beira do rio, sentada num banco de pedra. Ultimamente, ela estava se sentindo oprimida em ambientes fechados e aquele lugar calmo era o local certo para o sua mente irrequieta.

 

A permanência de alguns dias em Pemberley, clareara a mente de Meg, ela sabia que precisava tomar decisões sérias em relação a sua vida. Teria que voltar a Londres e esclarecer com o marido as dúvidas que tinha em relação ao relacionamento dele com Rachel West ou qualquer outra mulher e saber de uma vez por todas se ele pretendia continuar levando a mesma vida de libertino de quando era solteiro.

 

Havia, entretanto, outro motivo pelo qual ela precisava voltar. Há um mês sua mestruação estava atrasada, sentia alterações em seu próprio corpo e a uns três dias começaram os enjôos matinais. Todos os sinais característicos de uma gravidez. Ainda não contara a ninguém sua suspeita, mas tinha certeza intuitiva de que havia um filho dela e de Richard sendo gerado em seu ventre. Ao pensar neste pequeno ser que crescia dentro dela, seu coração se enchia de ternura e amor. Talvez seus sonhos de uma união feliz ruíssem após esta conversa com o marido, mas seu filho seria o fruto abençoado deste casamento.

 

Meg já tinha até um plano montado, se Richard pretendesse continuar sua vida de aventuras, ela pediria a ele que a deixasse morar em Lindsey Hall, pelo menos lá em Lincolnshire, ela não teria que ouvir o diz-que-diz-que da sociedade londrina, nem encontrar uma eventual amante passeando pelo Hyde Park.

 

O barulho da correnteza do rio e os seus pensamentos tumultuados a impediram que ela ouvisse os passos do marido que se aproximou dela e sem cumprimentá-la foi falando de maneira abrupta, demonstrando claramente sua irritação.

 

- Espero que já tenha matado as saudades que sentia de sua família, pois vamos embora para Lindsey Hall amanhã.

 

- Richard!!! Boa tarde...

 

- Por que você não foi para Hampshire como lhe pedi? Qual a urgência de vir correndo para cá?

 

- Richard... eu não achei que você fosse ficar aborrecido com minha vinda para cá... eu queria estar presente na comemoração do noivado de Tory e Lord Dorsey.

 

- O noivado deles foi mais importante para você do que meu pedido para se encontrar comigo em Hampshire.

 

- Richard, eu não achei que você fosse se zangar porque vim para cá. Desculpe-me, Richard não foi minha intenção aborrecê-lo.

 

- Pois me aborreceu muito, porque você parece não se importar comigo, coloca sua família acima de tudo, eles são tudo para você. Você parece que não percebeu ainda o que significa para mim, Meg. Você é tudo o que tenho no mundo, meu amor, minha vida.

 

- Richard...? - Meg atônita mal acreditava no que ouvira, poderia ser que seu sistema auditivo estivesse fazendo uma brincadeira com ela.

 

- É...você é meu amor,  eu te amo, Meg, mas você parece que não se importar com isso.

 

- Mas, é claro que me importo, Richard, é a coisa mais linda que já ouvi, porque eu te amo também.

 

Meg jogou-se nos braços de Richard, o beijo que selou esta declaração arrancada na fúria de Richard, foi longo e entremeados de suspiros. Depois que conseguiram se separar, Richard voltou-se para Meg e perguntou

 

- Não vai me dizer qual a outra razão, além do noivado, que te trouxe para cá?  Mal pus os pés em Pemberley, levei a maior reprimenda de seu tio por sua causa. O Sr. Darcy faltou me agredir fisicamente.

 

- Meu tio...? Ele prometeu não interferir...

 

- Mas continua interferindo, seu tio precisa entender que agora você é uma mulher casada, eu e você temos que acertar nossas diferenças sozinhos e não com ele, tentando te proteger como se você fosse uma menina de cinco anos.

 

- Richard, meu tio age desta forma porque ele é muito protetor com as mulheres da família.

 

- Pois, ele que continue protegendo a esposa e a filha dele, de você cuido eu. Vamos conte-me tudo o que você ouviu no Hyde Park sobre mim para que eu possa me defender.

 

Meg contou ao marido a conversa ouvida no Hyde Park procurando se manter calma. Richard ouviu-a olhando-a com olhos sombrios, a fisionomia carregada. Logo que ela terminou, ele disse bruscamente:

 

- Terminei meu relacionamento com Rachel West no ano passado, logo após a morte de meu pai. Já dei minha palavra de cavalheiro a seu tio sobre isto e se você quiser Dorsey poderá confirmar.

 

- E existe alguma outra... mulher?

 

- A única mulher que tenho é você.

 

- E mais tarde quando eu não lhe parecer tão atraente, você pretende arrumar amantes, como a maioria dos nobres fazem?

 

Meg torcia suas mãos, uma contra a outra, num gesto nervoso, enquanto formulou a pergunta e aguardava a resposta do marido, olhando fixamente em seus olhos, sentia-se aliviada por ter conseguido fazer a pergunta que estava atravessada em sua garganta, mas temia a resposta.

 

- Não vou negar que tive minha fase de libertino, mulherengo, como todo rapaz solteiro, nada tão exagerado como comentam por aí, mas agora esta fase terminou. Pretendo cumprir os votos que fiz na cerimônia de nosso casamento, casei-me com a firme intenção de ser fiel a você, Meg.

 

- Sua mãe me disse que os Rutherford são volúveis e mulherengos, que eu jamais poderia esperar fidelidade de sua parte.

 

- Quem é minha mãe para falar a meu respeito? Ela mal me conhece, nunca se preocupou comigo, os criados mais velhos de Lindsey Hall me conhecem melhor que minha mãe.

 

Meg estava chocada com este repente do marido, nunca imaginara que a frieza com que Richard tratava a mãe escondesse um ressentimento tão grande contra ela. 

 

- Vou lhe contar algo que nunca disse a ninguém, sempre me revoltou a forma como meus pais viviam, aliás como grande maioria dos aristocratas vivem. Meu pai, passeando abertamente com suas amantes pelas ruas de Londres. Minha mãe, por sua vez, no alto de seu orgulho, fazendo de conta que não sabia de nada e que tudo estava bem no casamento falido deles. Creio que por ser fruto deste casamento e por ser fisicamente parecido com meu pai, ela nunca me amou.

 

- Richard, toda mãe ama seu filho, talvez ela não saiba expressar esse amor como as demais mães.

 

- Você se engana, Meg, minha mãe nunca deu a mínima importância a mim. Logo que nasci, assim que pôde viajar foi embora para Bath para descansar da gravidez e do parto, eu fiquei entregue aos cuidados da ama de leite e de minha babá. Cresci aos cuidados da Sra. Barclay, dela recebi o amor e o carinho que era obrigação de minha mãe me dar. Ela sempre pôs os interesses fúteis dela em primeiro lugar, não me lembro dela compartilhando comigo, nem os momentos alegres ou tristes de minha infância. Estava sempre muito ocupada para me dar atenção. Ela só veio a me tratar com consideração quando eu já era um homem feito, quando eu não daria mais nenhum tipo de aborrecimento a ela e podia me apresentar orgulhosa para suas amigas.

 

Richard nunca parecera tão jovem, carente e vulnerável como naquele instante. Meg tinha vontade de carregá-lo em seu colo e niná-lo. Onde estava aquele cavalheiro invencível, seguro de si, forte, que cavalgava pelos jardins de Pemberley, que arrancava suspiros da adolescente Meg?

 

- Espero que você acredite na sinceridade de minhas palavras e propósitos quando lhe disse que serei um marido fiel.

 

- Acredito sim, Richard.

 

Ficaram nos braços um do outro, trocando beijos e juras de amor, esquecidos de tudo e de todos.

 

- Richard, quero que você seja a primeira pessoa a saber, eu acho que estou grávida. Minha menstruação está atrasada há um mês e comecei a sentir enjôos há três dias.

 

- Você mandou chamar o médico para verificar se é realmente gravidez?

 

- Não, ainda não.

 

- Meg, vamos chamar o médico de Lambton agora, você pode estar doente e está pensando que é gravidez.

 

- Tenho certeza que estou grávida, é uma intuição que tenho. Não é maravilhoso termos nosso primeiro filho, Richard. Como vou amá-lo! Estou muito feliz!

 

- Espero que sobre um espaço em seu coração para continuar me amando também.

 

- Seu tolo, não precisa ficar com ciúmes, pois seu lugar está reservado há muito tempo.

 

O médico foi chamado, ainda naquela tarde, e quando ele confirmou a notícia, houve uma alegria geral em Pemberley.

 

Naquela noite durante o jantar, o Sr. Darcy fez questão de levantar um brinde:

 

- Ao meu primeiro neto ou neta!!!

 

 

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