Meg passou a tarde mergulhada num estado de total desespero. Estava simplesmente perdida, não sabia como agir. A humilhação, o ciúme, a insegurança, o medo, era uma amálgama de sentimentos que a corroíam, fazendo aumentar sua angústia.
Ouvira falar, inúmeras vezes que entre dez nobres, nove mantinham amantes e as esposas da aristocracia ignoravam solenemente a existência dessas mulheres, afinal não era isso que sua sogra fizera a vida inteira? Mas, estava além da natureza de Meg ignorar um fato para ela inaceitável.
A vida inteira idealizara um casamento como de seus tios, onde havia amor, companheirismo e lealdade, embora fosse um casal discreto, Meg vira várias vezes seus tios trocando carinhos quando pensavam que os filhos não estavam por perto. Não podia de forma alguma aceitar a teoria da mulher do parque: "a esposa para lhes dar filhos e a amante para diverti-los."'
O que estava faltando a seu marido para que ele precisasse ter além da esposa, uma amante. Neste curto período em que estava casada, Meg achava que estava satisfazendo o marido no leito conjugal, entretanto, quem era ela para saber a verdade. Uma jovem criada no interior, completamente ingênua e inocente até a bem pouco tempo.
Lembrou-se que certa vez encontrara e lera um livro na biblioteca de Pemberley falando sobre as famosas cortesãs francesas, verdadeiras especialistas na arte do amor, mulheres que sabiam como agradar um homem, fazendo-o sentir prazeres extraordinários. Certamente era este tipo de mulher que seu libertino marido deveria preferir como amante, Rachel West e tantas outras mulheres que circulavam por Londres, amantes dos nobres ricos e poderosos, versadas nas artes de agradar os homens.
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Naquele dia Meg encontrou o marido apenas antes do jantar, procurou agir como se nada houvesse acontecido, mas ele era muito observador para não notar a alteração na fisionomia da esposa.
- Meg, você está muito pálida, não está se sentindo bem?
- Não é nada, apenas uma dor de cabeça.
Durante o jantar, ela sentiu várias vezes o olhar vigilante do marido sobre si, mas evitava o olhar dele, pois tinha medo de revelar no olhar, a angústia que a consumia.
Logo após o jantar quando se reuniram na sala de visitas, Richard a abordou novamente.
- Meg, você está realmente com dor de cabeça, ou aconteceu algo que a deixou aborrecida? Minha mãe disse-lhe alguma coisa que a desagradou? Você não me parece bem, hoje.
- Estou realmente com dor de cabeça e um pouco indisposta. Vou me retirar agora, com licença.
- Meg, eu vou precisar viajar amanhã até uma de nossas propriedades em Hampshire, o administrador me escreveu dizendo que está tendo sérios problemas com uns arrendatários, devo ficar fora uns 5 dias. Pensei até em levá-la comigo, mas iria ser uma viagem cansativa para você, melhor eu ir sozinho, resolver o problema e voltar o mais rápido possível . Devo deixar Londres bem cedo.
- Está bem, Richard.
- Suba que eu irei em seguida, vou avisar minha mãe da viagem.
Despedindo-se da sogra, Meg subiu para seu quarto, aprontou-se para dormir rapidamente e deitou-se, fingindo que dormia profundamente. Abalada com os acontecimentos do dia, ela achou melhor não enfrentar o marido na intimidade do quarto. Tinha esperanças de que quando o marido a visse dormindo, ele iria dormir em seu próprio quarto, deixando-a sozinha. Mas, sentiu um misto de satisfação e angústia ao ouvi-lo entrar no quarto e deitar-se ao seu lado na cama, no espaço que costumava ocupar, ele se acomodou entre as cobertas, abraçando-a como fazia todas as noites.
Meg ficou quieta nos braços de Richard, mas não conseguiu dormir a noite toda, os acontecimentos do dia anterior, misturado com seus pensamentos tumultuados, não a deixaram conciliar o sono.
Era madrugada, quando Meg sentiu as mãos do marido deslizando por seu corpo, estava até meio acostumada a ser despertada dessa forma, pois não era a primeira vez que isto ocorria. Ela pensou em pedir a Richard que parasse, mas seu corpo traiçoeiro já havia despertado com as carícias de suas mãos hábeis e ela se rendeu sem dizer uma palavra.
Amaram-se apaixonadamente. Meg movida pelo desespero da mulher que quer provar a si mesma que sabe agradar o homem que ama e Richard um tanto quanto surpreso com a mulher ardente em que sua recatada esposa havia se transformado, correspondeu com igual fervor.
O dia já amanhecia quando Richard já vestido para a viagem, debruçou-se sobre a esposa, depositou um beijo em sua testa e murmurou em seu ouvido:
- Meg, volte a dormir. Voltarei logo que puder...vou sentir sua falta
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Meg foi, na manhã seguinte, a casa dos Darcy resolvida a confiar à tia seus problemas, dúvidas e desespero. Ela, como uma mulher experiente e vivida, poderia orientá-la, esclarecer as dúvidas, dar conselhos úteis e sábios, amenizando sua angústia. Porém, ao entrar, encontrou a casa num verdadeiro frenesi.
Sua tia veio a seu encontro sorrindo feliz e ao mesmo tempo num estado de grande agitação.
- Meg, estamos voltando para Pemberley. Recebi carta de seu tio ontem, dizendo que não poderá voltar para Londres e pediu para que fossemos embora tão logo pudéssemos. Conversei com Tory e com Lord Dorsey e resolvemos ir embora amanhã. A temporada está praticamente no final, o único evento importante que ainda resta é o baile dos Westburys, Tory não faz questão de ir. Então, resolvemos antecipar nossa partida. Lord Dorsey irá nos acompanhar e assim ele poderá pedir a mão de Tory para Fiztwilliam, em Pemberley. Estou tão feliz por ir embora, Meg. Desculpe, minha filha, falei tanto e nem perguntei se você está melhor.
- Sim, a dor de cabeça passou. Posso ajudá-las em alguma tarefa?
Meg não conversou com a tia sobre os problemas que a afligiam. Agora que era uma mulher casada, não lhe parecia justo, sacrificar sua tia com seus problemas, iria deixá-la preocupada e conhecendo a tia, sabia que esta acabaria adiando a viagem de volta a Pemberley por sua causa, não queria estragar a alegria da tia ansiosa para voltar ao seu verdadeiro lar.
Meg sentiu um vazio muito grande, quando a tia e a prima partiram. Em Londres, restara apenas sua tia Georgiana, embora a amasse muito, Meg não tinha com ela intimidade suficiente para expor seus problemas conjugais, questões íntimas que envolviam seu marido.
Os dias dela tornaram-se extremamente solitários, continuava encontrando a sogra apenas durante e após o jantar, procuravam preencher o silêncio constrangedor com conversas banais sobre o tempo ou outras amenidades quaisquer.
- Margareth, devo informá-la que decidi partir para Lindsey Hall amanhã. Londres está muito monótona para mim porque não posso frequentar a vida social por causa do luto. Quero providenciar minha mudança para minha nova casa em Lindsey Park.
- Lady Anne, se a senhora quiser continuar morando em Lindsey Hall conosco, não há problema algum.
- Eu prefiro ter minha própria casa, Margareth.
- Se a senhora quer assim...
- Vejo que anda triste com a ausência de Richard. Mas se me permite um conselho, não se apegue demais a ele. Não quero destruir suas ilusões de recém-casada, mas ele puxou ao pai, os Rutherfords são homens belos, carismáticos, mas extremamente volúveis e mulherengos, estão sempre à procura de novas aventuras, de novas emoções. Você terá que aprender a conviver com isso.
Incapaz de se conter, os olhos de Meg se encheram de lágrimas, embora ela lutasse para segurá-las, sabia que sua altiva sogra não veria com bons olhos esta demonstração de sentimentos. Chorar não era o comportamento esperado de uma verdadeira dama e muito menos de uma condessa.
- Você sabe, nunca escondi minha oposição ao casamento de vocês, mas agora que ele é um fato consumado, quero viver em termos cordiais com você, Margareth. Dê a Richard, o herdeiro que ele precisa. Não tenha expectativa de que ele seja um marido fiel e devotado exclusivamente a você. Por outro lado, terá suas compensações, como Condessa de Lindsey terá uma vida de privilégios e riqueza.
No dia seguinte, a condessa partiu, deixando a Lindsey House ainda mais vazia, o silêncio parecia sepulcral, apenas os criados se movimentavam silenciosamente pela casa imensa, procurando e conseguindo não fazer ruído algum.
Meg chegara ao fundo de seu desespero, após os conselhos da sogra .
Lady Anne pintara um retrato tão sombrio de seu futuro que Meg achava preferível morrer a ter que viver uma vida semelhante a que a sogra vivera.
Uma vida sem amor, cercada de luxo e riqueza, para muitas mulheres poderia ser o suficiente, mas não para ela, Meg Wickham, ela abriria mão de tudo por uma vida plena de amor, por um homem que a amasse e que a tratasse com carinho e respeito.
Meg resolveu que teria que conversar seriamente com o marido, esclarecer com ele se era sua intenção continuar sua vida de mulherengo e libertino, pois ela não suportaria conviver com este tipo de situação, também não conseguiria fingir que nada sabia, como a maioria das mulheres de seu meio faziam.
No dia em que Richard ficara de voltar, Meg recebeu uma carta dele dizendo que ficaria retido por mais 10 dias em Hampshire, pois não conseguira resolver todos os problemas. Ele lhe pede que vá se encontrar com ele.
Neste mesmo dia, chegou uma carta de sua tia Lizzy, dizendo que Tory ficara noiva de Lord Dorsey, convidando ela e Richard para irem a Pemberley comemorarem o noivado com a família.
Meg ficou dividida entre os dois convites, se a situação entre ela e o marido estivesse bem, ela não teria dúvida em ir ao encontro do marido, entretanto, ela não se sentia preparada para encontrá-lo, pois teria que enfrentá-lo, questionar sobre suas aventuras, sobre como seria a vida de ambos dali para diante.
Por isso, tomou uma decisão covarde, resolveu ir comemorar o noivado da prima, fugir para o regaço acolhedor de sua amada família e adiar o enfrentamento de seus problemas com o marido.
"Richard:
Estou me sentindo muito sozinha aqui em Londres.
Lady Anne já foi embora para Lindsey Hall.
Espero que você não se importe, ao invés de ir para Hampshire como me pediu, estou indo para Pemberley, pois estou muito saudosa de meus familiares e eles estão para comemorar o noivado de Tory com seu primo Lord Dorsey, e eu gostaria de estar presente no jantar de comemoração.
Sua esposa
Margareth"
Richard aguardava ansioso a chegada de Meg em Hampshire, sentira muita falta dela nestes dias em que estiveram separados, era estranho como se acostumara com sua esposa, gostava do jeito como ela o olhava, como falava com sua voz macia e terna, como se aninhava em seus braços quando a abraçava, como o beijava, suspirava e gemia quando faziam amor. Tudo em Meg era especial para ele.
Nunca sentira falta de mulher alguma, porém, agora sentia de Meg, por isso a carta o deixou furioso. Leu e releu-a várias vezes, tentando decifrar algum sentido oculto. Ser preterido pelos parentes de Pemberley encheu-o de ciúmes, como Meg poderia preferir ficar com os tios e primos do que com ele, seu marido, quando ainda era uma recém-casada. E o estilo frio da carta, em que não transparecia nenhum traço de afetividade, era mais uma prova de que ela não sentira falta dele nestes dias em que estiveram separados, enquanto ele sentira todos os dias a agonia da ausência dela.
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