Meg sentia seu coração apertado por estar de volta a Londres, não gostava da cidade.
A agitação, o barulho da metrópole a incomodavam, sempre preferira o campo, gostava do contato com a natureza, dos amplos espaços abertos, do silêncio quebrado apenas pelos sons do canto dos pássaros, do relinchar de um cavalo ou do latido de um cão.
O velho mordomo de Lindsey House recebeu-os com uma saudação formal e foi logo dizendo:
- Sr. Conde, Lady Anne está de volta.
- Ótimo, irei ter com minha mãe, assim que trocar a roupa de viagem.
Alguns minutos depois, Richard dirigiu-se a sala de visitas de sua mãe onde ela costumava passar as tardes.
A condessa era uma mulher elegante, de aparência jovem e bem cuidada, em seus 46 anos de idade, suas feições ainda mostravam a beldade que havia sido na juventude. Era filha de um duque e trazia em sua postura, a altivez de uma verdadeira aristocrata.
- Boa tarde, minha mãe como tem passado? - disse Richard, inclinando-se para depositar um beijo no rosto da mãe.
- Estou bem. Então você acabou não resistindo aos encantos de Margareth Wickham e fez esta aliança que envergonha nosso nome.
- Margareth Rutherford é uma jovem bem educada que tenho certeza nunca envergonhará nossa família. Não teve culpa alguma de ter o pai que teve.
- Richard, com tantas jovens da nossa melhor sociedade ávidas em se tornar a nova condessa de Lindsey, você tinha que escolher a menos indicada.
- Esta é sua opinião, minha mãe. Escolhi a mulher que me convinha, ela preenche todos os requisitos que sempre procurei para minha esposa, é bem educada, inteligente, sensível, bondosa e bonita.
- Hum!.. Estou atônita ao ouvi-lo enumerar as inúmeras qualidades que ela possui. Estas qualidades serão reais ou produtos de um coração apaixonado? - havia uma profunda ironia na voz da condessa.
- Pode acreditar que suas qualidades são reais. Mas, não vim aqui para discutirmos meu casamento, nem meus sentimentos em relação a minha mulher. Vim saber se a senhora estava bem e pedir que trate Margareth com civilidade, pois ela é agora minha esposa e minha condessa.
- Não há necessidade de me pedir isso, sempre trato a todos com civilidade.
Logo após esta conversa, Richard deixou a sala da mãe, não sabia dizer por que se sentia irritado, naquele dia, com aquela perene frieza e altivez dela, pois ele sempre a conhecera assim.
Uma lembrança da infância guardada no fundo de sua memória o assaltou naquele momento.
[i]Um dia, quando tinha uns 4 anos, seus pais chegaram em Lindsey Hall, ele correra e se atirara nos braços na mãe, feliz por vê-la depois de uma longa ausência, mas ao invés de um abraço caloroso e beijos, recebeu uma recepção fria e uma reprimenda.
- Richard, você está amassando meu vestido. Sra. Barclay, a senhora não está ensinando modos a este menino?
Depois desse dia, nunca mais fora capaz de nenhum gesto espontâneo de carinho pela mãe.[/i]
Meg só encontrou a sogra ao descer para o jantar, foi saudada da mesma forma altiva e formal com que ela a tratara no jantar em que foram apresentadas uma a outra, logo que ficara noiva de Lord Richard.
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No dia seguinte, após o café da manhã, Meg foi visitar os Darcy que moravam no mesmo bairro de Mayfair, a alguns quarterões de distância, foi recebida com entusiasmo e carinho por Tory e Lizzy. O tio estava ausente, havia voltado para Pemberley, para cuidar de seus negócios.
A primeira pergunta de Lizzy foi:
- Você está feliz, Meg?
- Sim, minha tia, estou feliz, um pouco contrariada de estar de volta a Londres, a senhora sabe que não gosto daqui.
- Vai ter que se acostumar, Meg, pois parece que Lord Richard passa grande parte do ano aqui. E ele está tratando-a bem?
Meg corou ligeiramente, sua tia como mulher casada devia conhecer todas as intimidades que aconteciam entre marido e mulher e isto inibia Meg a quem estas intimidades ainda eram novas e por vezes até chocantes.
- Sim, tia Lizzy, ele é um marido atencioso e gentil. - Meg voltou-se para sua prima a fim de mudar o foco da conversa que a deixava encabulada.
- Tory, conte-me como vai a temporada, como vão os pretendentes? Encontrou algum do seu agrado?
- Sim, ele é o homem mais maravilhoso da face da Terra, Meg. Advinhe quem é? Você o conhece!
- Não me diga que é Lord Dorsey!
- Sim, ele mesmo, Meg. Ele está esperando papai voltar de Pemberley para pedir minha mão. Seremos duplamente primas, Meg. Não é maravilhoso?
- Meu Deus, que surpresa agradável! Bem que eu notei que houve uma simpatia recíproca quando ele veio aqui pela primeira vez com Richard. Ele me parece uma excelente pessoa!
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Os Condes de Lindsey não estavam frequentando as festas e reuniões da sociedade, nesta temporada, porque guardavam luto pela morte do conde, ocorrida a menos de um ano, mas recebiam alguns amigos íntimos e parentes para jantares informais, que para Meg nada tinham de informais, pois sua sogra fazia questão de manter uma etiqueta rígida e toda pompa e circunstância neles.
Assim, Meg foi apresentada a grande parte da família de Richard, sendo sempre tratada com consideração e respeito devidos a nova Condessa de Lindsey.
A vida do casal entrou na rotina.
Ela e a sogra praticamente, só se encontravam na hora do jantar, pois as demais refeições Lady Anne fazia em sua sala privativa. Cada uma levava sua própria vida, havendo pouca interação entre elas, tinham seus próprios compromissos e Meg achava isto ótimo, porque sentia que não havia nada em comum entre ela e a sogra.
Como na mansão do campo, aqui na cidade, o mordomo e a governanta cuidavam do andamento perfeito da casa, pouco restando para Meg ou para a sogra fazerem, a única tarefa diária era a aprovação do cardápio do dia, que continuara sendo uma tarefa de Lady Anne.
Richard saia para seus afazeres, tanto na Câmara dos Lordes como os particulares, e muitas vezes voltava para casa apenas para o jantar.
Meg sentia saudades dos dias da lua de mel em que ambos estavam praticamente 24 horas juntos, mas entendia que aquele havia sido um período excepcional da vida de ambos, que infelizmente terminara.
Meg ia, diariamente, a casa dos Darcy e passava a manhã com a tia e a prima, acompanhando-as aonde quer que elas fossem. Faziam passeios pelo Hyde Park, iam às compras, principalmente por causa de Tory que sempre queria estrear uma peça nova de vestuário. Nos dias chuvosos ficavam as três em casa conversando e bordando.
Meg notou imediatamente a mudança de tratamento que o casamento lhe trouxera, onde quer que fosse era tratada com deferência especial, quando entravam nas lojas sofisticadas da Bond Street, o próprio gerente vinha saudá-la, cheio de mesuras e gentilezas.
As damas da sociedade que antes, mal a cumprimentava e a olhavam com desprezo, agora faziam questão de vir cumprimentá-la pelo casamento, convidavam-na para tomar chá em suas casas, agindo como se ela fosse uma amiga querida.
Meg via esta hipocrisia das pessoas com muita tristeza e amargura, pois ela continuava a mesma pessoa, apesar do título pomposo que ganhara com o casamento e se entristecia ao ver como as pessoas eram hipócritas e não se importavam em se humilhar diante dela para obter favores e estar de bem com a esposa de um nobre poderoso.
Às tardes, Meg gostava de passá-las em sua casa, lendo e, às vezes, Richard chegava mais cedo e a convidava para fazerem um passeio de cabriolé pelo Hyde Park. Então, ele conduzia o veículo até os lugares mais remotos do parque pela Rotten Row, era sempre agradável ficar a sós com o marido, longe da atmosfera por vezes opressiva da Lindsey House. Conversavam como velhos amigos e muitas vezes, quando não havia ninguém por perto, ele a beijava ardorosamente, deixando-a arfante e cada vez mais apaixonada por ele.
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A manhã de junho estava quente e agradável, Tory convidou Meg para um passeio a pé no Hyde Park, no caminho para o parque, Tory disse a Meg que havia marcado um encontro com Lord Dorsey no parque, porque tinham um assunto particular a conversar com ele.
- Meg, você se importaria de nos deixar a sós, é um assunto de extrema importância que tenho para falar com ele.
- Tory, tudo bem. Mas, prometa-me que caminharão apenas pelas aléias mais movimentadas, pois tia Lizzy ficaria muito aborrecida comigo se soubesse que a deixei desacompanhada na companhia de Lord Dorsey. Deus nos livre de você ser pega numa situação comprometedora, já basta o que aconteceu comigo.
- Prometo, Meg, fique tranquila. Você é a melhor prima e amiga do mundo!
- Espero por vocês sentada num dos bancos, no local que você marcou com Lord Dorsey, está bem?
Logo ao chegarem ao parque, avistaram Lord Dorsey que as esperava no local combinado. Ele as saudou com sua simpatia habitual, conversou rapidamente com Meg e logo, em seguida, ele e Tory sairam para seu passeio a sós. Meg sorriu ao vê-los se distanciar, formavam um lindo par e pareciam tão apaixonados um pelo outro.
Meg sentou-se num banco, à sombra de um frondoso carvalho, ao lado de duas mulheres de meia-idade.
Era a hora do passeio matinal da elite londrina, as duas mulheres que deviam ser muito amigas, comentavam sobre os passantes, sobre os vestidos e os chapéus das mulheres, ora elogiando, ora criticando. Meg não as conhecia e nem elas deram mostra de conhecê-la, mas isto não era nada extraordinário, pois no ano passado quando ela frequentara a temporada passara anônima pelos salões, ofuscada por debutantes mais belas e de famílias ilustres. Quando o escândalo que culminou com o noivado estorou, a temporada já havia terminado, poucos se lembravam de Margareth Wickham.
- Olhe lá quem vem vindo, a Rachel West, a atriz, anda pelo parque como se fosse uma rainha.
- Ela ainda é amante do Conde de Lindsey?
- Claro, você acha que ela iria largar um homem daqueles, rico, jovem e bonito!
- Mas, ele casou-se recentemente.
- E daí, estes homens tem a esposa para lhes dar filhos e a amante para diverti-los.
A mulher que passava era belíssima, alta, os cabelos escuros presos num pequeno chapéu de penas de aves, a elegância de seu traje de passeio, a sofisticação e desenvoltura com que caminhava pelas aléias do parque, chamavam a atenção de todos os presentes.
Meg, agradeceu aos céus, o fato de estar sentada, pois com o choque da notícia ficara trêmula da cabeça aos pés, procurou respirar profundamente até sentir que parara de tremer e sua respiração voltara ao normal. As duas mulheres continuaram tagarelando por um tempo até que se levantaram e partiram.
"Como fui tola pensando que ele havia mudado, que havia deixado de ser o mulherengo que sempre foi, que o casamento iria modificá-lo, que estava começando a me amar... Meus Deus! que mulher mais linda, tudo nela é perfeito. Agora o que vou fazer? Como ele pode ter duas mulheres ao mesmo tempo? Como pode ser tão falso? Mas, ele foi claro comigo, dizendo que seríamos apenas amigos, companheiros..."
A cabeça de Meg era um redemoinho de pensamentos desencontrados e ela lutava bravamente para não chorar, estava tão perdida em seu desespero que se assustou ao ver a prima e Lord Dorsey de volta de seu passeio.
Voltaram para a casa dos Darcys acompanhadas de Lord Dorsey, mas o casal de pombinhos só tinham olhos um para o outro e nem não notaram o estado aflitivo de Meg.
Logo que Elizabeth as viu, voltou-se preocupada para a sobrinha.
- Meg, você está tão pálida. Não está se sentindo bem?
- Não é nada, minha tia, apenas um pouco de dor de cabeça. Não vou ficar para o almoço, vou para casa me deitar um pouco.
Elizabeth ordenou que preparassem a carruagem e apesar dos protestos de Meg acompanhou-a até Lindsey House, deixando-a na porta com muitas recomendações sobre os cuidados que ela deveria tomar.
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