Citações

Marienne Dashwood havia nascido para um extraordinário destino. Nascera para descobrir a falsidade de suas opiniões e para contrariar, pela sua conduta, suas máximas favoritas.(Jane Austen)

A estória de Meg Wickham - Capítulo 16

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail

Quando Meg despertou na manhã seguinte, Richard já não se encontrava ao seu lado no leito. As lembranças da noite anterior a assaltaram imediatamente, nunca imaginara que entre um homem e mulher pudesse haver um contato tão íntimo e tão prazeroso. Richard a tratara com uma mistura certa de ternura e agressividade, despertando nela sensações que ela não sabia existirem em seu corpo.

 

Aquela sua primeira experiência em Pemberley, que ela considerava extraordinária, empalidecia diante do que vivera nos braços de seu marido na noite e madrugada passada, ele a despertara duas vezes durante a madrugada para se amarem apaixonadamente, e ela, embora tímida e inexperiente, respondeu ao ardor do marido com entusiasmo.

 

Meg, entretanto, estava mergulhada em dúvidas, ela não sabia se agira como era esperado de uma dama, de uma esposa, já ouvira falar que a mulher honesta deveria permancer impassível enquanto seu marido sentia prazer no corpo dela, que só as mulheres devassas e as rameiras sentiam prazer no sexo. Se isso fosse verdade, Richard deveria estar horrorizado com ela, pois ela não conseguira ficar impassível ante as carícias dele, ela se contorcera, gemera, suspirara, correspondendo a elas, retribuindo-as.

 

Por fim, Meg achou melhor se levantar, pois a manhã já devia ir alta pela luminosidade que invadia o quarto através das persianas. Ela pensou em tocar a sineta, para pedir à criada que lhe trouxesse água quente, mas ao perceber que estava completamente despida, procurou por sua camisola por entre os lençóis, de repente notou no meio da cama uma pequena mancha de sangue, ela tinha certeza de não ter se ferido. O que significaria aquilo? Teria Richard se ferido? Isto também era impossível. Então a verdade veio clara em sua mente, Richard deveria ter se cortado de propósito, provavelmente o dedo, e manchara o lençol para que os criados soubessem que a nova condessa casara-se virgem. Ela ficou comovida com a preocupação do marido de poupá-la dos falatórios da criadagem.

 

Meg desistiu de chamar a criada de quarto, vestiu-se sozinha, como estava acostumada a fazer no seu dia a dia. Quando saiu do quarto, não sabia que direção tomar, pois lembrava-se vagamente do trajeto que a governanta fizera para levá-la ao seu quarto pela primeira vez . E na noite anterior, após o jantar, subira com Richard, mas este a distraíra durante o trajeto beijando-a várias vezes no caminho.

 

Seguindo ao acaso o corredor, ela encontrou uma escadaria, mas não era a bela e larga escadaria de mármore por onde subira no dia anterior, mas resolveu descer por ela, quando encontrou com um criado que imediatamente fez uma reverência e encostou-se a parede para dar-lhe passagem.

 

- Bom dia. - disse Meg com um sorriso - Você poderia me dizer como chego a sala onde é servido o café da manhã, pois estou perdida.

 

- Sim, Sra. Condessa. Por favor, me acompanhe. Esta escada é de serviços, vamos pela social.

 

O criado a conduziu de volta ao corredor aonde viera, até alcançarem outro corredor e chegar à belíssima escadaria de mármore da véspera por onde desceram ao andar inferior, depois de passar por mais corredores, por fim chegaram à sala de refeições.

 

A governanta apareceu rapidamente, tentando esconder sua ansiedade, cumprimentou-a.

 

- Bom dia, Sra. Condessa, estávamos aguardando que tocasse a sineta para que Mary a ajudasse na sua toalete e a se vestir.

 

- Bom dia, Sra. Barclay. Não se preocupe estou acostumada a me arrumar sozinha.

 

- A senhora não gostaria de tomar o café da manhã em seu quarto?

 

- Não, obrigada, prefiro tomá-lo aqui mesmo.

 

Meg pensou que teria que se acostumar a este novo estilo de vida, em que faltava ser carregada no colo pelos criados. Agora podia entender o porquê daquele batalhão de criados, necessários para manter limpa e funcionando esta mansão de dimensões gigantescas e paparicar seus senhores, acostumados a todo tipo de mimos e caprichos.

 

Assim que Meg terminou sua refeição servida por um criado, que ficou o tempo todo em pé num canto da sala e ao menor gesto de Meg, aproximava-se para servi-la. A Sra. Barclay surgiu novamente.

 

- Lady Margareth, o Sr.Conde pediu para avisá-la que a aguarda em seu escritório. Permita-me conduzi-la até lá. Ele mesmo vai mostrar-lhe Lindsey Hall.

 

Richard lia alguns documentos sentado à ampla mesa de seu escritório, quando viu Meg entrar levantou-se imediatamente e foi ao seu encontro. Ela ao vê-lo se aproximar, corou violentamente, lembrando-se das intimidades que haviam compartilhado no leito na noite anterior.

 

- Bom dia, Meg. Dormiu bem? - ele tomou sua mão direita e a beijou, olhando fixamente o rosto corado de vergonha, então puxou-a em seus braços e beijou seus lábios demoradamente, ao se separarem disse com um brilho malicioso nos olhos azuis.

 

- Se eu não parar de beijá-la agora, vamos ter que voltar ao nosso quarto e passar o dia lá. Vamos, quero lhe mostrar a casa.

 

Richard se revelou um excelente cicerone na visita que fizeram aos principais aposentos da casa, mostrando-lhe os móveis, quadros, objetos de arte, mais notáveis ou valiosos, contando a História de seus antepassados pelos aposentos por onde passavam. Contou, também, muitas passagens de sua infância, onde ficavam seus esconderijos favoritos e as travessuras que praticara, principalmente com os criados. Mostrara-lhe paredes falsas que davam passagens a outros cômodos.

 

- Deve ter sido uma infância solitária ter crescido sem outras crianças para brincar.

 

- Sim, me sentia muito sozinho, sempre quis ter tido irmãos.

 

- Eu fui privilegiada neste aspecto, éramos cinco lá em Pemberley, deixávamos nossos tios quase loucos com nossas brincadeiras.  

 

- Vocês sempre me pareceram muito unidos, uma família feliz....

 

- Richard... sobre a mancha de sangue nos lençois...

 

- Fiz aquilo para se evitar falatórios. Se a notícia de que você não se casou virgem começasse a circular entre os criados, não tardaria a chegar aos salões de Londres. Chega de escândalos envolvendo nosso nome. Desta forma, o assunto fica encerrado.

 

 

*****************************

 

Richard acompanhou Meg em passeios por todo Lindsey Park, a imensa propriedade que ele conhecia como a palma de sua mão, os jardins, as estufas, o labirinto, gazebos, pavilhão de caça, os lagos e riachos próximos, na maioria das vezes caminhavam, pois ambos eram bons andarilhos, mas quando a distância era muito grande iam num cabriolé.

 

- Meg, hoje, gostaria de lhe mostrar os campos nos arredores de Lindsey Park, mas teremos que ir a cavalo, a distância que vamos percorrer é muito longa para irmos a pé e não há estradas para o cabriolé.

 

- Eu já lhe disse que não sei montar, Richard. Tenho muito medo de altura, por isso nunca consegui aprender a montar, apesar da insistência de meu tio para que eu aprendesse.

 

- Acho que chegou a hora de você perder este medo. Uma de minhas paixões é cavalgar, quero que você me acompanhe em meus passeios. Tenho excelentes cavalos, algumas éguas muito mansas que levarão você sem susto.

 

- Eu não suporto a altura. Fiquei verdadeiramente apavorada, nas poucas vezes que montei um cavalo, por favor, não insista.

 

- Venha, acho que sei como fazê-la perder este medo aos poucos.

 

Richard conduziu uma relutante Meg para os estábulos. Pediu a um dos cavalariços que selasse seu cavalo favorito, um garanhão puro sangue, quando este ficou pronto montou-o e apesar dos protestos de Meg, puxou-a sobre a montaria, pela cintura, com a ajuda do cavalariço, fazendo-a sentar-se de lado, bem junto ao corpo dele.

 

- Muito bem, passe seu braço esquerdo em minha cintura e encoste-se em meu peito, vamos cavalgar juntos, assim você perderá o medo da altura e irá se acostumar a cavalgar. Não tenha medo, não vou deixá-la cair.

 

A princípio, Meg estava tão tensa que não conseguiu apreciar o passeio, mas aos poucos conseguiu relaxar, procurando não olhar diretamente para o chão, amparada no círculo protetor dos braços do marido, o medo dela foi diminuindo.

 

Após, um longo passeio por belos campos floridos e paisagens bucólicas, Meg soltou um suspiro de puro contentamento.

 

- Está cansada, Meg? Quer voltar para casa?

 

Não, ela não estava cansada, pensou que iria até o inferno nos braços daquele homem.

 

- Não, não estou, mas deve ser aborrecido para você cavalgar comigo, estou atrapalhando sua cavalgada.

 

- Não estou nem um pouco aborrecido, aliás, acho que você nem precisa aprender a cavalgar, você pode cavalgar junto comigo, em meus braços, adoro sentir seu corpo junto ao meu, o cheiro de seus cabelos, de seu corpo. Sabe que a cada dia que passa tenho certeza de ter feito a escolha certa ao me casar com você, Lady Margareth Rutherford.

 

Meg que estava com o rosto apoiado no peito do marido, sentiu a emoção tomar conta dela ao ouvir estas palavras, estaria Richard começando a amá-la, sentir por ela o mesmo sentimento intenso que ela sentia por ele há muito tempo e que só fazia aumentar com as atenções que ele lhe dispensava.

 

Deveria haver algum sentimento maior que a simples amizade na forma carinhosa, atenciosa e gentil com que ele a tratava em todos os momentos do dia e no ardor com que a amava à noite. Meg pensara que passada a noite de núpcias, ele iria dormir em seu próprio quarto, como ela sabia ser costume entre os aristocratas, mas eles tinham dormido juntos todas as noites, Richard só deixava o quarto dela pela manhã, para ir se vestir em seu próprio quarto.

 

 

*****************************

 

Quase no final de sua estada em Lindsey Hall, numa tarde em que Richard saíra com o administrador, a governanta se encarregou de mostrar a Meg as dependências de serviço da mansão, explicando a ela como tudo funcionava, toda a parte de serviços, cozinha, lavanderia e limpeza da casa, quando a Sra. Barclay terminou Meg estava admirada ao ver como todos os criados eram bem treinados e os serviços funcionavam com precisão, comandados pela governanta e pelo mordomo.

 

- Sra. Condessa, permita-me a liberdade de dizer que estou muito satisfeita que Lord Richard tenha se casado com a senhora. Nunca o vi tão feliz na vida.

 

- A senhora o conhece há muito tempo?

 

- Desde quando ele nasceu, eu fui a babá dele até a idade de 7 anos, depois ele teve um tutor que lhe ensinou as primeiras letras até  ser mandado para o colégio interno em Eton. E eu passei a ajudar a antiga governanta a quem mais tarde substitui. Conheço-o a vida toda, sempre foi um menino solitário, vagando por Lindsey Hall, é verdade que às vezes fazia algumas peraltices própria de meninos, mas todos nós, os empregados mais antigos, o amamos muito. Sempre foi bondoso para conosco. O pobrezinho foi criado praticamente por empregados, pois os pais levavam uma vida social intensa, passavam a maior parte do tempo em Londres e mal viam o menino. Por favor, Lady Margareth, não pense que sou dada a mexericos, mas é que Lord Richard para mim é como um filho e quero que ele seja feliz. Estou contando sobre a infância dele, para que a senhora o compreenda melhor e ajude a suprir esta fome de afeto que sei que ele tem.

 

Meg sentia seu coração dilacerado ante a imagem deste Richard criança, nascido no privilégio, cercado de luxo e riqueza, mas crescendo sem o amparo do amor dos pais, sem o calor de uma família verdadeira. Agora, entendia melhor as palavras do marido no dia do casamento:  " ... não posso prometer que vou amá-la, não sei como seja este sentimento, talvez porque não nasci de pais que se amavam... Meus pais nunca sentiram nada um pelo outro, a não ser indiferença, sempre foram frios e formais um com o outro, nunca presenciei nenhuma demonstração de afeto entre eles. Por isso não sei o que seja o amor conjugal."

 

Ela sabia o que era o amor e sabia amar porque sempre tivera uma família amorosa, crescera assistindo os tios, que eram um exemplo de casal que se amava profundamente, que amavam seus filhos e que estenderam esse amor até a sobrinha abandonada.

 

Passados 10 dias, a lua de mel terminou. Richard avisou Meg de que precisava voltar a Londres, pois sua presença se fazia necessária numa reunião do Parlamento. Meg sentiu um aperto no coração, pois pensava que ele iria embora e ela ficaria sozinha em Lindsey Hall.

 

- Vou sentir sua falta. Você irá voltar logo?

 

- Mas, nós vamos embora juntos, você irá comigo. Ou está pensando que iria deixá-la sozinha aqui.

 

- Pensei que eu fosse ficar aqui.

 

- Não sei de onde tirou esta idéia, mas pensou errado, onde eu for você irá comigo, Meg.

 

LAST_UPDATED2

 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje54
Neste mês948
Desde Março de 200976127
Brazil flag 63%Brazil (41263)
United States flag 6%United States (4098)
Portugal flag 5%Portugal (3215)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1337)
Ukraine flag <1%Ukraine (395)
France flag <1%France (297)
Netherlands flag <1%Netherlands (291)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (274)
Germany flag <1%Germany (269)
Latvia flag <1%Latvia (149)