Uma nova temporada estava para se iniciar em Londres, bem como a abertura do Parlamento.
O novo Conde de Lindsey deixara sua propriedade em Lincolnshire, onde passara a maior parte do inverno e viera a cidade para tomar posse de sua cadeira na Câmara dos Lordes, uma das obrigações que ele herdara com a morte do pai. A princípio, as responsabilidades do título pesaram sobre ele, acostumado a boa vida, do dia para a noite teve que tomar a frente de todos os negócios e interesses da família, que consistiam em extensas terras e propriedades em várias partes da Inglaterra, Escócia e Gales. Ele havia visitado todas elas, assegurando a seus arrendatários que ele daria continuidade à administração de seu pai, inclusive mostrando a eles que era menos tradicionalista que o pai e estava aberto a reformas que melhorariam a produtividade das terras.
Ele suspirava aliviado toda vez que pensava que o luto pela morte do pai o impedia de participar da temporada, livrando-o dos bailes, festas e eventos sociais. Enfrentar o batalhão de mães de donzelas casadouras que iriam assediá-lo impiedosamente, pois se na temporada passada já era um excelente partido, agora de posse do título tornara-se o melhor que uma jovem poderia aspirar.
Seu noivado desfeito dera o que falar, mas agora após tantos meses passados fora esquecido diante de fatos e escândalos mais recentes. Como homem, ele saíra ileso do escândalo, inclusive enaltecido com os comentários de que era realmente um homem de sorte por ter se livrado de um casamento desfavorável.
Um dos boatos que circularam e o mais forte era de que o velho conde persuadira Margareth Wickham a desistir do casamento, oferecendo-lhe uma grande quantia em dinheiro, pois jamais ela desfaria um compromisso tão vantajoso por vontade própria. Enfim, à Margareth Wickham ficou a fama de moça de conduta reprovável, sirigaita, mercenária e todos os outros nomes poucos edificantes que se podem dar a uma mulher. Ela ficara irremediavelmente marcada por conduta escandalosa.
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Os Darcy partiram de Pemberley para a temporada londrina entristecidos, pois desta vez Meg ficara em casa em companhia dos criados.
- Não fique chateada, tia Lizzy, vou ficar muito bem aqui. A senhora sabe que não gosto mesmo de Londres, mas me escreva toda semana, contando-me as novidades e principalmente o sucesso de Tory, tenho um pressentimento que este ano ela encontrará o príncipe encantado, como ela mesma diz, e estará noiva antes do final da temporada.
- Deus te ouça, Meg, pois meus pobres nervos não suportariam ter que acompanhar Tory a Londres, em mais uma temporada. É muito cansativo. Este ano seu tio já me avisou que vai voltar várias vezes para Pemberley, ele também não tem muito paciência para a sucessão de festas, isto é bom para os jovens. E se Georgiana, se prontificar a acompanhar Tory, eu também poderei vir com Fitzwilliam, algumas vezes.
Era início do mês de maio, a temporada londrina estava no auge quando Lizzy pegou um forte resfriado que se desenvolveu num princípio de pneumonia, Darcy que se preocupava até com simples espirros de sua esposa, escreveu para que Meg viesse a Londres imediatamente para cuidar da tia e fazer-lhe companhia.
Assim, Meg contra todas as suas expectativas chegou à residência dos Darcy em Mayfair, felizmente sua tia embora ainda adoentada já se recuperava bem.
- Tanto que eu insisti com Fiztwilliam que você não precisaria vir, mas sabe como é seu tio.
- Estou feliz por ter vindo, fiquei muito preocupada com a notícia de sua doença, não conseguiria ficar sossegada em Pemberley, sabendo que a senhora está doente aqui. Vou poder lhe fazer companhia, já estava me sentindo um pouco sozinha. E como está Tory, e os pretendentes?
- Como te escrevi na última carta, ela continuava fazendo muito sucesso, após cada baile chegam muitas flores com declarações apaixonadas e até versos, mas Tory não se sente inclinada por nenhum dos rapazes que a assediam, estou ficando preocupada com ela. Não sei o que ela quer, pois há excelentes partidos dentre estes rapazes.
Embora Lizzy já estivesse praticamente recuperada, por cautela estava evitando acompanhar a filha ao frenesi de atividades sociais. Georgiana se incumbira de acompanhar Tory a todos eventos sociais.
Meg, por vontade própria e para evitar falatórios, ficava reclusa em casa, não saía para nada, mas o sedentarismo estava lhe fazendo mal, acostumada que estava a fazer longas caminhadas pelos parques de Pemberley.
Uma manhã bem cedo, cansada da reclusão, ela resolveu dar uma volta pelo Hyde Park que ficava próximo a casa dos Darcy. Ela pediu a uma criada que a acompanhasse, calculou que a esta hora da manhã o parque estaria praticamente deserto, pois as pessoas que frequentavam a sociedade estariam dormindo profundamente, após as festas da noite anterior.
Meg caminhou pelo parque sem destino, era bom sentir a brisa da manhã no rosto, ouvir o cantar dos pássaros e ver os diferentes tons de verdes da vegetação, parecia que a agitação da cidade desaparecera na imensidão daquele parque, situado no centro de Londres. Havia raros pedestres, a maioria dos freqüentadores do parque, nas primeiras horas da manhã, eram os que vinham praticar equitação, na grande maioria homens, em seus belos cavalos e elegantes trajes de montaria.
Ela caminhava absorta em seus pensamentos quando dois cavaleiros que vinham em sentido contrário ao seu, pararam suas montarias e um deles a cumprimentou. Ela levantou os olhos e reconheceu imediatamente de quem se tratava.
- Bom dia. Como está, Srta. Margareth?
Ao deparar-se com Lord Richard, ela teve a impressão que seu coração parara no peito para em seguida começar a bater desenfreadamente. Precisou reunir todo o seu autocontrole para responder a saudação com uma ligeira e elegante mesura, teve medo que seu joelho não a sustentasse e ela caísse ao chão, mas ela conseguiu se manter firme.
- Bom dia, Lord Richard. Estou bem, obrigada.
- Pensei que estivesse em Pemberley.
O jovem que cavalgava ao lado de Lord Richard tirou o chapéu e a cumprimentou, ela se apressou em devolver o cumprimento com uma mesura, era um estranho para ela, não se lembrava de tê-lo visto alguma vez.
- Tenham um bom dia, senhores. - Meg se apressou em dizer a guisa de despedida, pois não tinham assunto algum a tratar com o ex-noivo e saiu do parque o mais depressa que pôde se pudesse correr ela teria corrido, mas isto não era próprio de uma dama.
O encanto do passeio terminara, ela não tinha mais condições de permanecer no parque, tivera o azar de encontrar a última pessoa sobre a face da Terra que queria encontrar. Relembrando o encontro ela ficou furiosa porque parecia que vislumbrara um sorriso malicioso no rosto de Lord Richard ao cumprimentá-la e o amigo que o acompanhava olhara-a com interesse fora do normal, levando-a a pensar que Lord Richard deveria ter comentado a respeito dela com aquele desconhecido.
Meg chegou à casa dos Darcys num estado de completa agitação, embora tentasse disfarçar não tardou para que sua tia perguntasse, enquanto bordavam:
- Meg, o que você têm? Está muito agitada hoje, já derrubou três vêzes o dedal.
- Tia Lizzy, encontrei Lord Richard no passeio que dei hoje de manhã no Hyde Park.
- E então?
- Só nos cumprimentamos rapidamente, ele estava em companhia de um amigo e estavam a cavalo.
- Meg, quando você vai tirar este homem de seu coração? Às vezes penso se não teria sido melhor se você tivesse se casado com ele, eu tinha um palpite que ele iria acabar amando você, porque não existe ninguém no mundo que te conheça e não te ame, Meg.
À tarde, quando Meg estava refeita da agitação da manhã, e lia tranquila em seu quarto, uma criada veio chamá-la dizendo que havia uma visita para ela, que sua tia a chamava na sala de visitas.
Havia o costume das famílias receberem visitas em suas casas à tarde, sem que houvesse necessidade das mesmas serem marcadas com antecedência. Os visitantes entregavam seu cartão ou diziam seu nome ao mordomo e este anunciava o visitante que era recebido sem maiores formalidades.
Meg desceu as escadas em direção à sala de visitas, de onde ouvia várias vozes, ao entrar deparou-se com o ex-noivo e o amigo deste que ela vira no parque pela manhã. Ambos se levantaram a entrada dela, após a saudação inicial, Lord Richard apresentou o amigo:
- Srta. Margareth, gostaria de lhe apresentar, meu primo Lord Alfred Dorsey, Visconde de Howells, que a senhorita encontrou no parque esta manhã em minha companhia.
- Prazer em conhecê-lo, milord.
- O prazer é todo meu, estava ansioso para conhecê-la, bem como à Srta. Darcy. Meu primo falou muito das senhoritas e não poupou elogios a ambas.
Lord Alfred Dorsey era loiro, de olhos claros, de feições regulares, não chegava a ser um homem bonito mas tinha um aspecto físico agradável aos olhos, era extremamente simpático e afavél, tinha uma conversa cativante que logo encantou Lizzy, Tory e Meg discorrendo sobre as aventuras de suas viagens pela Grécia, Itália e Egito, de onde acabava de voltar, após permanecer um ano viajando.
Na hora de se despedirem, Lord Richard aproveitou que Meg se distanciara um pouco do grupo e disse-lhe em voz baixa para que os demais, que estavam à pequena distância, não ouvissem.
- Preciso conversar a sós com você, Margareth. Podemos nos encontrar amanhã no parque, no mesmo local onde nos encontramos esta manhã, às 8 horas.
Meg não teve tempo de responder, pois sua tia se aproximou.
Logo que os rapazes saíram, Meg voltou para seu quarto, completamente abalada com a ousadia de Lord Richard de visitá-la e ainda por cima, ter a coragem de marcar um encontro secreto com ela no Hyde Park.
"Ele é muito atrevido. Certamente ele está pensando em me propor algo indecente, pois ele teve todo o cuidado para que ninguém percebesse que estava marcando um encontro comigo. Será que ele está pensando que vou consentir me entregar a ele novamente? Talvez ele queira que eu me torne mais uma de suas amantes. Pois, ele que encontre um banco bem confortável no Hyde Park porque vai esperar muito por mim."
A entrada de Tory em seu quarto a tirou de seus pensamentos raivosos. Aliás, Meg não gostava de pensar mal de ninguém, sempre procurando ver o lado bom das pessoas, mas em relação a Lord Richard acontecia o inverso, só estava conseguindo ver maldade e segundas intenções nas atitudes dele.
- Lord Alfred me disse que vai ao baile de amanhã e pediu-me para reservar a primeira dança para ele. O que você achou dele, Meg? Eu o achei muito simpático e agradável.
Meg que nunca vira Tory tão entusiasmada por algum rapaz, retrucou imediatamente.
- Olhe, Tory, acho bom você ficar alerta com Lord Dorsey, sendo amigo e primo de Lord Richard, ele deve ser do mesmo jeito que ele.
- Como assim, Meg, não entendi?
- Tory, mulherengo e canalha!
- Meg, Lord Richard pode ser mulherengo, mas canalha ele não é, você se esqueceu que foi você quem desmanchou o noivado com ele. Hoje, estaria casada com ele se você não tivesse desistido do noivado.
- Está bem, retiro o canalha, mas abra o olho, Tory. Lembre-se do velho ditado "Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és". E além do mais são parentes, corre o mesmo sangue na veia deles.
- Pois, eu achei Lord Dorsey bem diferente do primo. Não vejo a hora do baile de amanhã chegar. Outra coisa, eu e mamãe achamos tão estranho Lord Richard aparecer aqui em casa, depois do que aconteceu entre vocês dois. Será que ele não está querendo reatar o noivado? Ele chegou e foi logo perguntando de você para a mamãe, dizendo que gostaria de apresentar o primo para nós todas, inclusive você, depois disto, mamãe não teve outro jeito senão te mandar chamar.
- Tory, não vou querer reatar noivado algum. Aliás, estou pensando que está na hora de eu voltar para Pemberley.
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