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Quando uma opinião é geral, normalmente é a correta (Jane Austen)

A estória de Meg Wickham - Capítulo 11

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Na manhã seguinte, ao se despedir do noivo, Meg procurou manter uma aparência de normalidade, embora estivesse muito constrangida com os acontecimentos da noite anterior e sentia-se deprimida, pois vista sob a ótica da luz do dia, ela não deveria ter se entregado ao noivo antes de estar legalmente casada com ele.

 

Richard despediu-se de todos com cordialidade, agradecendo aos anfitriões a hospitalidade desfrutada, por último aproximou-se de Meg e beijou-lhe as mãos, olhando-a fundos nos olhos,  disse num tom sedutor e galante:

 

- Margareth estarei aguardando ansioso o dia de nosso casamento. Até breve.

 

Ela corou violentamente, pois tinha a impressão que aquela atitude do noivo revelava aos tios que estavam ao lado dela, o que acontecera entre eles na noite anterior. Chegou a ver seu tio Darcy lançar um olhar irônico de quem não estava acreditando nas palavras de Richard.

 

No dia seguinte, foi a vez dos Bingleys e Samuel Woods deixarem Pemberley. Mas, alguns dias depois, os Darcy receberam novos hóspedes, Georgiana chegou de Londres, acompanhada do marido e seus dois filhos adolescentes.

 

Numa tarde, alguns dias após a chegada de Georgiana, Lizzy chamou Meg na sua sala particular para conversar com ela.

 

- Meg, por favor, sente-se preciso ter uma conversa com você.

 

Meg não gostou do rosto sério da tia, pressentindo más notícias na conversa que teriam.

 

- Tenho algo muito desagradável para comentar com você, Meg. Pensei muito se deveria contar a você ou não e cheguei a conclusão que se eu estivesse em seu lugar gostaria que me contassem para eu estar preparada.

 

 - Minha tia, a senhora está me assustando.

 

- Georgiana trouxe notícias de Londres que me aborreceram tremendamente, parece que os condes de Lindsey não estão vendo com bons olhos o casamento do filho com você. Seu tio James frequenta o mesmo clube que o conde e ficou sabendo que ele andou comentando o quanto este casamento do filho o está contrariando, pois acha que você é inadequada para ele. E parece que a condessa também, andou fazendo o mesmo tipo de comentário para suas amigas. Georgiana disse que não se comenta outro assunto nos salões de Londres.

 

- Isto não é nenhuma grande novidade para nós, tia Lizzy. A senhora não se lembra daquele jantar na casa deles? Como foram frios, principalmente comigo.

 

- Quando me casei com seu tio também enfrentei este tipo de problema, a oposição da tia dele, Lady Catherine de Bourgh, mas felizmente meu problema foi bastante amenizado porque seu tio sempre me deu total apoio e nunca deixou que ela interferisse em nossa vida e também, graças a Deus, nunca vivemos na mesma casa. Você, no entanto, irá viver na mesma casa com seus sogros, tanto em Londres como no campo. A minha dúvida é se Lord Richard ficará ao seu lado neste estranhamento de seus pais em relação a você. O que você acha Meg?

 

- Não sei, minha tia. Conheço-o tão pouco que não posso afirmar com certeza se ele tomaria meu partido.

 

- E ainda existe algo pior. Georgiana viu, na véspera de sua partida para cá,  Lord Richard passeando no Hyde Park com aquela atriz de teatro que comentam é sua amante a algum tempo. Meg, parece ser cruel de minha parte estar lhe contando estas coisas, mas quero que você entre neste casamento sabendo o que a espera.

 

- Tia, a senhora está fazendo muito bem em me contar estas coisas. Eu... eu pensei que ele tivesse desmanchado este relacionamento com esta mulher,  depois de nosso noivado, afinal ele agora é um homem comprometido.

 

- Meg, você está sendo muito ingênua, no meio destes aristocratas é comum eles terem amantes. Veja o pai dele, todos sabem da existência da amante dele, inclusive sua esposa e todos fazem de conta que nada existe.

 

- Mas, eu não quero me casar e viver desta forma. Eu quero que em meu casamento haja respeito e lealdade, mesmo que não haja amor da parte dele.

 

- Vai ser muito difícil isto acontecer. Penso, se não seria o caso de você romper este noivado, a pior coisa que  existe é um casamento infeliz, pode acreditar Meg, é preferível ficar solteira. Você precisa pensar seriamente se quer se casar com Lord Richard e enfrentar todos os problemas que a esperam. Sei que rejeitando este casamento, dificilmente você receberá outra proposta, provavelmente estará condenada a se tornar uma solteirona, mas será que isto não é preferível a uma vida de sofrimento ao lado de um homem que não a ama, que te será infiel e de uma família que a despreza por suas origens?

 

Meg agradeceu ao fato de estar sentada porque se estivesse de pé, certamente suas pernas não conseguiriam sustentar seu corpo.

 

"Minha tia, não sabe que não posso romper o noivado com ele, pois posso estar grávida de um filho dele, neste caso terei que me casar com ele, mesmo que não queira, para não ter um filho bastardo."

 

- Minha tia, agradeço a sua preocupação com minha felicidade, vou pensar no assunto.

 

Lizzy estranhou a reação de Meg, aliás ultimamente estava notando que a sobrinha vinha se comportando de modo estranho, estava mais calada, retraída, mas Lizzy achou que este comportamento se devia à partida do noivo e à proximidade do casamento.

 

*******************

 

O relacionamento entre Meg e seus pais, ou melhor com sua mãe, se limitava a cartas esporádicas que Lydia escrevia e que Meg respondia prontamente e algumas esparsas visitas que Lydia fizera para ela em Pemberley durante aqueles anos todos.

 

Meg tinha conhecimento da vida do pai através da mãe, só o vira quando era um bebê e não se lembrava dele. Tinha um sentimento ambíguo em relação a ele, ao mesmo tempo que queria amá-lo, não conseguia, pois sabia ser ele a razão dos sofrimentos e pobreza em que a mãe vivia, bem como sabia através de sua tia Lizzy o porquê seu tio Darcy não gostava de seu pai.

 

Fazia algum tempo que Meg não recebia carta de sua mãe, mas estava esperando uma resposta à carta que escrevera comunicando que iria se casar.

 

Ela recebeu, então, a seguinte carta:

 

"Querida Meg:

 

Espero que esteja bem, assim como Lizzy e todos aí.

Fiquei feliz com a notícia de seu casamento, pensei até que você iria se tornar uma solteirona, pois vive reclusa em Pemberley.

Tenho uma péssima notícia para lhe dar, seu pai encontra-se gravemente enfermo e o médico que o está assistindo disse que ele terá poucos meses de vida.

Embora ele não tenha sido um modelo de pai, ele a ama a seu modo e ultimamente só fala que gostaria que você viesse vê-lo.

Sei que você está com o casamento marcado para o início de setembro e deve estar ocupada com os preparativos, mas faça um pequeno sacrifício e venha até Newcastle ver seu velho pai, você não pode imaginar que grande alegria dará a ele, pois ele não a vê desde quando você era praticamente um bebê.

Confio que o seu coração bondoso não irá negar esta última vontade de seu pai.

Beijo com amor.

Sua mãe

Lydia Wickham"

 

Meg mostrou imediatamente a carta da mãe para sua tia. Esta comentou sem esconder o tom sarcástico:

 

- Meg, ele nunca se importou com você. Agora que está velho e gravemente doente quer vê-la, que amor repentino é esse?

 

- Tia Lizzy, sei que ele foi um pai totalmente omisso, mas eu gostaria de ir vê-lo, ficaria em paz com minha consciência.

 

- Vou falar com seu tio, mas acho difícil ele te dar o consentimento.

 

Quando Lizzy foi falar com o marido, Darcy leu a carta de Lydia e retrucou furioso:

 

- É um canalha! Nunca se importou com a filha e agora que está às portas da morte quer vê-la.

 

- Meg me disse que gostaria de ir vê-lo. Fiztwilliam, sabe que não gosto dele também, mas pensando bem, ele é o pai dela e praticamente ela nem o conhece. Vamos deixá-la ir, ela ficará poucos dias, apenas o tempo de fazer a visita e voltar. Se ele vier a falecer como o médico diz, não ficaremos com peso na consciência por termos impedido a ida dela.

 

- Eu não sentirei nenhum peso na consciência por aquele canalha. E quem irá com ela? Só a deixarei ir se for acompanhada de alguém responsável. E nem pense em ir porque preciso de você aqui em Pemberley para os preparativos do casamento.

 

- Não, não estou pensando em ir, pensei na senhora Perkins, ela já não é tão jovem, mas acredito que aguentaria a viagem até Newcastle e tomaria conta de Meg, afinal ela foi babá dela e de nossos filhos e sempre se mostrou uma pessoa responsável e sensata.

 

- Se a Sra. Perkins concordar em acompanhar Meg, ela poderá ir, mas quero que ela faça uma rápida visita e volte logo.

 

*********************

 

A viagem a Newcastle era longa, pois cidade fica a nordeste da Inglaterra quase na fronteira com a Escócia. Meg foi acompanhada da Sra. Perkins, uma mulher vigorosa, já na casa dos 50, que tinha uma afeição especial por Meg, pois ajudara Lizzy a criá-la,  desde que ela chegara um bebê em Pemberley. Recebera recomendações especiais de Lizzy e principalmente do Sr. Darcy que tomasse conta da sobrinha e levava sua tarefa muito a sério.

 

Ao chegarem a Newcastle, as duas mulheres se instalaram no melhor hotel da cidade, conforme instruções do Sr. Darcy e Meg quis ir em seguida a casa de seus pais.

 

George e Lydia Wickham moravam numa casa modesta numa vizinhança também modesta. Quem atendeu a porta foi uma senhora obesa que foi logo dizendo:

 

- A Sra. Wickham não está em casa, ela está trabalhando, só volta pelas 6 horas da tarde, toma conta da Sra. Morrison que está acamada há muito meses.

 

- E o Sr. Wickham está? - perguntou Meg.

 

- Sim, este não tem como sair, está jogado na cama, está muito doente e não tem quem cuide dele. Sou a vizinha aqui do lado, venho algumas vezes ao dia para ver se ele precisa de algo.

 

- Eu sou a filha deles, Margareth.

 

- Ah!  Então você é a tal filha que foi criada pelos tios ricos. Sorte sua, menina! Pois aqui estes dois estão passando muita necessidade.

 

A Sra. Perkins foi se irritando com a conversa da mulher e falou abruptamente:

 

- Podemos entrar para ver o Sr. Wickham?

 

- Sim, claro. Desculpe, até me esqueci de fazê-las entrar.

 

A casa era escassamente mobiliada e mesmo estas poucas mobílias davam sinais de maltratadas pelo tempo e pela falta de cuidado.

 

George Wickham estava deitado na cama e levantou ligeiramente a cabeça ao ver as três mulheres entrarem em seu quarto. A aparência dele era de um velho, os cabelos brancos ralos, o rosto enrugado, o corpo envelhecido e magro, Meg sabia que ele tinha mais ou menos a mesma idade de seu tio Darcy, mas a diferença na aparência era gritante. Seu pai estava com cerca de 50 anos, mas aparentava ter uns 70, enquanto seu tio aparentava uns 40 e poucos anos, era ainda um belo homem com suas temporas grisalhas e algumas rugas ao redor dos olhos que lhe davam um charme especial.

 

- Sr. Wickham, a sua filha Margareth está aqui para visitá-lo.

 

- Meg, você veio me ver, aproxime-se, não enxergo de longe.

 

Meg aproximou-se do leito e sentou-se numa cadeira que estava próxima a cabeceira da cama. Seu coração encheu-se de piedade por aquele homem que lhe gerara a vida e que se encontrava prostrado no leito.

 

- Ficou uma moça muito bonita, Meg. Sua mãe disse que você ficou noiva de um aristocrata. Eu sabia que vivendo com os Darcys, você iria sair deste círculo de pobreza em que vivemos. Não pensei que você viesse ver seu velho pai, estou muito feliz que tenha vindo agora posso morrer em paz.

 

- Não diga isso, meu pai. O senhor ainda é moço e poderá recuperar sua saúde.

 

- Não tenho esperanças, meu corpo está muito debilitado. O médico já me desenganou.

 

Quando Lydia chegou do serviço à tarde, ainda encontrou Meg ao lado do pai. Ficou feliz ao rever a filha que havia atendido os apelos de sua carta. Meg também achou que a mãe estava bem envelhecida, pois ela tinha apenas 36 anos.  A infelicidade no casamento e a pobreza apagaram-lhe o viço e a beleza da juventude, era uma mulher triste e amarga, muito diferente da descrição que sua tia Lizzy fazia dela, como sendo alegre e espevitada, sempre louca para flertar e dançar nos bailes.

 

Naquela noite ao chegarem de volta ao hotel onde estavam hospedadas, Meg descobriu com grande alívio que seu ciclo menstrual chegara, agora ela se sentia livre para decidir o seu futuro e uma idéia do que faria começava a se delinear claramente em sua cabeça.

 

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