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Muitas vezes me espanta que a história seja tão tediosa, porque grande parte dela deve ser pura invenção. (Jane Austen)

A estória de Meg Wickham - Capítulo 6

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Darcy conversava animadamente em uma roda de amigos num dos salões da mansão Westbury quando  Lord Richard o  encontrou, saudando de forma geral a todos, ele se dirigiu a Darcy, em particular.

 

- Sr. Darcy, estou precisando ter uma conversa em particular com o senhor. Lord Westbury será que poderíamos usar a sua biblioteca?

 

- Claro estejam à vontade, cavalheiros.

 

Ambos pediram licença aos demais e se encaminharam à biblioteca deserta.

 

- Vamos lá, rapaz, o que deseja falar comigo? - perguntou Darcy amigavelmente.

 

- Sr. Darcy, quero pedir a mão de sua sobrinha Srta. Margareth Wickham, pois acabo de comprometê-la irremediavelmente.

 

- O quê? - Darcy empalideceu tinha a sensação de ter levado um soco na boca de seu estômago.

 

- Senhor, peço desculpas, foi algo que nem mesmo sei explicar como aconteceu.

 

- Rapaz, você tem muito que me explicar. E pode começar já.

 

- Acalme-se, senhor, pois vou lhe contar o que aconteceu. A atmosfera saturada do salão de baile estava me incomodando e resolvi dar uma volta no parque, estava caminhando à esmo quando encontrei sua sobrinha num canto afastado do parque. Ela estava sozinha e parecia muito perturbada, como tenho ouvido alguns comentários maldosos a respeito dela, estava certo de que ela deveria ter ouvido algum e resolvi consolá-la. Olhe, Sr. Darcy o senhor é homem e há de me entender, acho sua sobrinha atraente e quando me dei conta ela estava em meus braços e a beijei, foi quando um grupo formado por Lady Olwen apareceu e nos pegou em flagrante. Não posso desfazer o acontecido, mas estou disposto a reparar meu erro.

 

Darcy tinha certeza de que Meg era inocente, faltava a ela a malícia das jovens criadas em sociedade, apesar de seus 20 anos era ingênua e desprovida de malícia.

 

- Pode ter certeza de que por bem ou por mal, o senhor irá reparar o mal que causou a minha sobrinha, apesar da origem obscura de que a acusam, ela é uma menina muito especial. Ela é meiga, bondosa, leal, é  incapaz de pensar ou querer mal a alguém. Lamento ter que conceder a mão dela a alguém com fama de conquistador e libertino como o senhor, que na certa não saberá dar valor ao tesouro de criatura que ela é. Mas, desde já, vou lhe dar um aviso, se você fizer minha sobrinha sofrer terá que responder a mim, pois embora o pai dela esteja vivo, eu tenho a tutela dela.  Estamos entendidos?

 

- Sr. Darcy, acho natural que o senhor esteja furioso. Não nego que errei e como lhe disse estou disposto a reparar meu erro, amanhã irei a sua casa para fazer o pedido formal a Srta. Margareth.

 

- Estarei aguardando.

 

Darcy saiu da biblioteca a passos largos e foi atrás de sua mulher, encontrando-a ainda na sala de descanso juntamente com Meg.

 

- Elizabeth, pelo que estou vendo, você já soube do ocorrido. Vamos embora imediatamente, vou buscar Tory e despedir-me de Lady Westbury por todos nós. Conversaremos em casa.

 

A volta para casa foi feita num silêncio total dentro da carruagem que os transportava. Darcy, de cenho franzino demonstrando claramente o quanto estava furioso. Elizabeth segurando a mão de Meg que ficou o tempo todo de cabeça baixa, evitando o olhar do tio,  enxugando num pequeno lenço as lágrimas teimosas que insistiam em sair. Tory não estava entendendo nada, mas por precaução achou melhor não perguntar nada, pois pressentia que algo muito sério havia acontecido.

 

Ao chegarem a casa, Darcy disse para a filha, um tom autoritário que raramente usava:

 

- Tory, vá para seu quarto. Meg, quero conversar com você no meu escritório. Lizzy, venha você também.

 

Tory desejou boa noite a todos e subiu para seu quarto, iria dormir com a curiosidade aguçada, pois ninguém lhe explicou nada.

 

- Lord Richard me deu a versão dele dos fatos, Meg. Quero que você me conte a sua sem omitir nada.

 

Após, alguns segundos de silêncio, Meg começou a falar, a princípio tão baixo que mal se ouvia sua voz, explicou desta vez para o tio, que a escutava com o cenho franzino, os mesmos fatos que contara para sua tia.

 

- Bem, Lord Richard contou-me a mesma estória. Ele, como um perfeito cavalheiro que é, pediu sua mão em casamento em reparação ao dano causado à sua reputação e eu a aceitei. Amanhã pela manhã, ele virá aqui formalizar o pedido.

 

- Tio Fitzwilliam, eu não quero me casar com ele nestas circunstâncias.

 

- Meg, não há nada que se possa fazer para reparar o dano causado a sua reputação, além do casamento. Não é uma questão de você querer ou não querer casar com ele, mas de precisar se casar com ele para que você não seja vista pela sociedade como uma mulher desonrada.

 

- Eu não me incomodo com o que a sociedade vai falar de mim. Sei que nunca vou ser aceita por essa gente por causa de meu pai. Não me importo com esta gente hipócrita.  Não gosto mesmo de frequentar a sociedade, gosto de viver em Pemberley, não preciso nunca mais vir a Londres. Lá em Derbyshire ninguém vai ficar sabendo o que aconteceu aqui, lá ninguém se importa com minha origem.

 

- Meg, parece que você ainda não entendeu a extensão do escândalo, se você não aceitar a oferta de Lord Richard, além de manchar o seu nome, manchará também o nome dos Darcys e consequentemente prejudicará Victoria, impedindo-a de fazer um bom casamento mais tarde.

 

- Oh! não, isto não. Eu jamais prejudicaria vocês ou a Tory.

 

O desespero de Meg era tão grande que Elizabeth resolveu intervir na conversa, tentando acalmar Darcy.

 

- Fitzwilliam, o que aconteceu foi uma fatalidade. E estamos todos muito abalados. Meg não tem a mínima condição de pensar racionalmente no estado em que se encontra. Vou levá-la para o quarto, tentar acalmá-la e amanhã acredito que resolveremos tudo da melhor maneira.

 

Darcy reconheceu que a esposa estava certa e acenou sua concordância.

 

- Meg, minha querida, venha.

 

Elizabeth conduziu Meg ao seu quarto, ajudou-a a tirar o vestido de baile, colocar a camisola, desfez o cabelo dela e o escovou como se ela fosse ainda fosse uma meninha de 6 anos.

 

- Deite-se, Meg. Vou ficar com aqui até você pegar no sono.

 

- Acho que não vou conseguir dormir, tia Lizzy. Estou tão triste por ter magoado o tio Fitzwilliam, nunca o vi tão bravo comigo, ele mal olhava para mim enquanto falava.

 

- Deixe o seu tio por minha conta, ele está assim porque é muito protetor com todos nós, está abalado com a notícia, mas amanhã estará mais calmo e no final, tudo se ajeitará... Meg, você ainda ama Lord Richard, não é?

 

Após um longo silêncio, grossas lágrimas rolaram pelo rosto muito pálido de Meg.

 

- Sim, minha tia.

 

- Conte-me o que sentiu quando ele a beijou.

 

- Pensei que ia morrer de felicidade. Ele não me forçou a nada, eu consenti que ele me beijasse, e enquanto ele me beijava tudo parecia tão certo. Tia, será que sou uma pessoa devassa como meu pai?

 

- Não, meu amor, claro que não é, nunca pense num absurdo destes. É que tudo parece certo quando é com a pessoa que se ama. Meg, minha filha, você sabe que eu te considero minha filha tanto quanto a Tory, e como mãe vou te dar um conselho, aceite este pedido de casamento de Lord Richard, não para salvar o nome dos Darcys ou para não prejudicar Victoria. Aceite por você mesma, lute por este amor tão profundo que você sente por ele. O amor é uma dádiva de Deus e quando ele brota no nosso coração deve ser cultivado como a mais rara das flores.

 

- Mas, tia, ele não me ama e ele vai me propor casamento movido pelo comportamento de cavalheiro que se espera dele. E tenho medo que com o tempo ele venha a me odiar por tê-lo arrastado a um casamento indesejado, podando-lhe a possibilidade de se casar com alguém de sua escolha e envergonhando a ele e sua família, por causa de meu pai.

 

Lizzy olhou Meg surpresa, só agora se dava conta de como sua sobrinha havia amadurecido, se transformando de adolescente naquela mulher que analisava a situação que estava vivendo com clareza e discernimento surpreendentes para sua pouca idade.

 

- Mas, você não pensou na possibilidade dele vir a amá-la? Meg, você tem todas as qualidades para fazer um homem se apaixonar perdidamente por você.

 

- Tia, fiquei sabendo nesta temporada que  Lord Richard é um mulherengo, que existe um batalhão de mulheres atrás dele, desde as debutantes casadouras até mulheres maduras, viúvas, atrizes de teatro e algumas até casadas. Você acha que tenho alguma chance de conquistá-lo, tendo que competir com as mulheres belas, experientes, sofisticadas que o assediam?

 

- Talvez, Meg, a gente nunca sabe os caminhos do amor. Eu sou um exemplo vivo disso, quando eu poderia imaginar que seu tio iria se apaixonar por mim e, no entanto aconteceu.

 

- Porque meu tio é um homem muito especial e ele não era um mulherengo como Lord Richard.

 

- Parece que você não tem nenhuma esperança de ganhar o coração dele.

 

- Se eu tiver que me casar com ele, como meu tio disse. Vou para este casamento sem ilusão alguma.

 

Lizzy ficou tão perturbada com a afirmativa da sobrinha, feita num tom firme, que mostrava a determinação que se escondia atrás da meiguice de Meg. Era melhor deixar este assunto para outra ocasião.

 

- Meg, meu amor. Vamos dormir, amanhã voltaremos a conversar, quem sabe a gente consiga ver tudo sob uma perspectiva mais otimista à luz do dia.

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