
Darcy, como de costume, acordava muito cedo, tomava o café da manhã sozinho e depois, ou se fechava em seu escritório, ou percorria suas terras sozinho ou com o administrador. Normalmente, só encontrava a mulher no jantar, conversavam com civilidade, apenas o essencial e ficavam ambos mudos a maior parte do tempo, numa atmosfera constrangedora.
Elizabeth sentia-se a cada dia mais infeliz, a transformação do marido amoroso naquele homem distante e sombrio, que a tratava de "senhora" e ou de "Elizabeth", nunca mais de "Lizzy" ou mesmo "Lizzie", a deixava mortificada. Tinha dúvidas terríveis quanto a forma como agira com ele, pensava se não teria errado ao esconder dele a carta de Caroline e as evidências que colhera sobre a suposta traição do marido, porque agora já começava a ter dúvidas de tudo, se não fora precipitada e agira impulsivamente.
Deveria ter seguido os conselhos de sua sensata irmã Jane, mas agora tudo parecia perdido, como voltar atrás e conversar com Fitzwilliam quando ele mal olhava para ela e parecia evitá-la sempre que podia.
Elizabeth pensou que após a conversa que tiveram em Netherfield, o marido a procuraria para exigir que ela cumprisse suas obrigações de esposa, logo que chegassem a Pemberley.
Na primeira noite, preparou-se para dormir, deitando-se na imensa cama de casal, com o coração aos saltos, esperava que o marido entrasse a qualquer momento pela porta de comunicação dos dois quartos, não imaginava como seria fazer amor com o marido nas atuais circunstâncias, pois a relação anterior deles sempre fora repleta de muito amor e carinho. Mas apesar da longa espera que avançou madrugada adentro, Fitzwilliam não a procurou e a cada noite Elizabeth o esperava e a cada dia ficava mais ansiosa e angustiada.
"Como ele quer que eu lhe dê um herdeiro se ele não me procura? Ele evita minha companhia e quando estamos juntos evita meu olhar e fala apenas o necessário." Apenas conseguia conciliar o sono de madrugada, quando o cansaço a vencia, Elizabeth sonhava constantemente que estava nos braços do marido, se beijavam e faziam amor numa ânsia incontida, ela acordava destes sonhos, suada e trêmula, sentindo o corpo tenso de desejo insatisfeito.
Darcy, por sua vez, sabia que não iria exigir da mulher o cumprimento de seus deveres conjugais, contra sua vontade. Como obrigar uma mulher que já não o amava a ter relações com ele. No calor da discussão que tiveram em Netherfield dissera que ela lhe devia um herdeiro, mas este herdeiro na opinião de Darcy deveria ser concebido num ato de amor verdadeiro, com a participação consentida de ambos. Ele sabia que não queria fazer amor com uma mulher que se entregava a ele por obrigação, sem amor. Afinal, se tinha algo de que ele se orgulhava era o de ser um perfeito cavalheiro.
Assim transcorriam os dias em Pemberley.
Certa manhã, após tomar seu café da manhã sozinha, Elizabeth saiu como era seu costume para dar uma volta, a manhã estava linda, o céu de um azul cristalino, a vegetação de um verde luxuriante, o ar estava frio e ela foi caminhando sem sentir que se distanciara bastante dos limites dos extensos parques de Pemberley, começou a avistar ao longe uma rochas enormes e lembrou que estivera naquele lugar com os tios Gardiner quando vieram a passeio em Derbyshire, sabia que estas pedras ficavam bastante distante das terras de Pemberley, mas não se importou com a distância e foi caminhando até elas, pensou que se caminhasse bastante conseguiria dormir melhor à noite.
O lugar era realmente lindo, com aquelas formações rochosas estranhas, Elizabeth resolveu escalar uma pedra para poder observar melhor o vale que se descortinava abaixo, subiu com cuidado, sentou-se no alto da pedra e ficou um longo tempo observando a paisagem, sentido a brisa em seu rosto, a cada dia se apaixonava mais por aquela região, se pudesse ter ficado em Netherfield, tinha certeza que iria sentir muita falta de Pemberley, de Derbyshire e de Darcy, pois apesar de tudo que acontecera, ainda o amava profundamente e jamais deixaria de amá-lo.
Olhando a posição do sol no céu, Elizabeth concluiu que passava do meio-dia. Era hora de voltar para casa, a Sra. Reynolds deveria estar esperando-a para o almoço. Ela foi descendo a pedra com cuidado, até que seu pé escorregou, ela perdeu o equilíbrio e caiu, torcendo fortemente o pé direito e batendo a cabeça numa pedra. Sentiu uma dor muito forte no pé e na cabeça, e perdeu os sentidos, quando voltou a si, estava caída na terra, a roupa suja de terra, a cabeça e o pé latejavam de dor. Tentou se levantar cuidadosamente, apoiando-se na pedra onde batera a cabeça, mas logo percebeu que não conseguiria ficar em pé, pois o pé direito doía terrivelmente. Apesar da situação, Elizabeth tentou manter a calma, precisava agir, pois sabia que ninguém sabia de seu paradeiro, caminhara para aquele lugar seguindo a vontade do momento, não avisara a ninguém que iria para lá, normalmente seus passeios matinais se resumiam aos limites dos parques e bosques de Pemberley, que eram bem extensos.
Ela rasgou um pedaço de sua anágua e enfaixou o pé com bastante força, tentou levantar novamente, apesar da forte dor que sentiu pelo menos desta vez conseguiu ficar em pé, mas ao tentar andar, não conseguiu colocar o pé contundido no chão. "
"Meu Deus, como vou fazer agora para voltar para casa, mal não consigo ficar em pé, quanto mais caminhar, como vou conseguir ajuda neste lugar tão ermo? O que fui fazer?"
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