
Darcy chegou a Netherfield Park, na tarde do dia seguinte a chegada de Elizabeth. Charles Bingley saudou-o com sua cordialidade habitual, feliz por rever o amigo, fingindo não perceber os gestos nervosos e a raiva controlada no olhar do amigo, perguntou se Darcy fizera boa viagem, como estavam as estradas, sobre o tempo e por fim falou com orgulho do filho que crescia forte e saudável. Não podendo mais se conter, Darcy o interrompeu bruscamente.
- Fico feliz que meu afilhado esteja bem, podemos mais tarde conversar sobre todos estes assuntos. Charles, no momento preciso conversar urgente com minha mulher. - Infelizmente, Lizzy não está aqui...
- Como não está aqui? Passei na casa dos Gardiner em Londres e eles me informaram que ela veio para cá. Será que você, meu amigo, está querendo ocultar minha mulher?
- Darcy, se você me deixar terminar de falar, eu explico. Lizzy, Jane e o Joshua foram visitar os Bennets em Longbourn e creio que estarão de volta daqui a uma hora mais ou menos.
Darcy reprimiu um impropério e começou a andar pela sala, Bingley ficou a observar o amigo que caminhava em círculos pela sala.
- Darcy, quer tomar alguma coisa?
- Não, obrigada. Tem certeza que estarão de volta em uma hora? Não quer mandar um criado avisá-las para voltarem logo?
- Não há necessidade, Jane não se atrasará porque não gosta que Joshua fique muito tempo fora de casa. Darcy, por que você está tão impaciente e nervoso? Nunca o vi neste estado... houve algo entre você e Elizabeth, não é? Estranhei a vinda inesperada dela, mas Jane não quis comentar nada comigo, dizendo que não poderia trair as confidências que a irmã lhe fizera.
Darcy continuou dando círculos pela sala, parando a todo instante na janela para verificar se a carruagem que trazia a esposa despontava no horizonte, o que só veio a acontecer mais ou menos uma hora depois, conforme seu amigo havia dito.
Ele se precipitou pela porta principal do casarão e aguardou no pátio da chegada da carruagem. A primeira a descer foi Jane carregando o filho adormecido nos braços.
- Darcy, que prazer tê-lo de volta em Netherfield.
- Prazer é meu, Jane. Espero que meu afilhado esteja bem de saúde.
- Sim, ele está ótimo.
Assim que desceu da carruagem, Elizabeth sentiu o olhar irado de Darcy sobre ela. Sentiu seu coração disparar e um frio na boca do estômago, nunca vira o marido com aquela expressão tão zangada.
- Bingley, Jane, por favor, nos dêem licença, pois eu e Elizabeth temos que ter uma conversa particular. E antes que alguém dissesse alguma palavra, Darcy segurou o braço direito da mulher e conduziu-a rapidamente para dentro da casa.
- Fitzwilliam, por favor, você está fazendo uma cena na frente de todos.
- Vamos logo para o seu quarto, se não quiser ter esta conversa particular aqui mesmo, onde todos poderão ouvir inclusive os criados.
Elizabeth subiu rapidamente as escadas que conduziam ao seu quarto, seguida por Darcy que não largou o seu braço. Entraram no quarto e após fechar a porta, Darcy voltou-se para a mulher e perguntou nervosamente:
- Agora me explique: o que significa esta fuga de Pemberley?
Elizabeth pensara em seguir os conselhos de Jane e mostrar-lhe a carta de Caroline, mas ela estava tão obcecada pela traição de Darcy que não acreditaria se ele negasse tudo diante das evidências que ela tinha.
- Eu não fugi, apenas não estou mais suportando viver com você. Fitzwilliam, nosso casamento foi um erro, agora que aquele encanto dos primeiros tempos acabou, sinto que Lady Catherine tinha razão, não sou a mulher ideal para ser sua esposa, não sei administrar uma casa enorme como Pemberley, não sei receber seus amigos, me sinto insegura o tempo todo. E... sinto a algum tempo que meu amor por você acabou.
- Não sei se estou meio obtuso, hoje. Mas, a senhora está querendo me dizer que não deseja mais viver comigo? É isto?
- Sim, eu ainda não conversei com Charles e Jane, mas tenho quase certeza de que eles não vão se opor que eu venha a morar com eles, posso ajudar Jane a cuidar de Joshua e dos outros filhos que ela vier a ter. Viverei uma existência pacata aqui, você pode ficar tranquilo porque jamais me envolverei em escândalos, que poderão prejudicar o bom nome de sua família ou envergonhar você perante a sociedade.
Darcy estava atônito, mal acreditava no que ouvira. Teria sua mulher enlouquecido? O que acontecera para que um relacionamento perfeito como o deles tivesse se deteriorado a esse ponto?
- Lizzy, você só pode estar delirando, nosso casamento ia tão bem até um tempo atrás, não consigo entender o que está acontecendo conosco. Acho que podemos perfeitamente, como pessoas adultas e sensatas, conversarmos e acertarmos as nossas diferenças sem ter que apelar para medidas tão extremas. Não existe o menor cabimento nesta sua proposta, uma esposa não vive distante de seu marido sem que haja o maior dos escândalos.
- Eu não me importo com o que os outros vão falar.
- Não tenho nenhuma queixa a fazer quanto a sua administração de nossa casa, a Sra. Reynolds já me disse várias vezes que tudo corre bem lá e que ficou surpreendida com o seu jeito de lidar com os criados, que você é firme e delicada com eles. Todas as vezes que tivemos hóspedes em Pemberley, você os recebeu muito bem, muitos deles até me disseram que você é uma anfitriã perfeita, com exceção de minha tia Lady Catherine, mas ela não conta, porque ela é perita em encontrar defeito em tudo... Não sei o que se passa em seu coração, mas não creio que o seu amor por mim possa ter morrido assim tão cedo e tão subitamente, sem nenhum motivo.
- Fitzwilliam, o que devo fazer para provar que não o amo mais e que não quero mais viver com você? Nada do que me disser irá me convencer do contrário.
Darcy começou a andar pelo quarto de um lado para outro, como fazia sempre que ficava muito nervoso. Olhava para Elizabeth, passava as mãos em seus cabelos desalinhados e continuava a andar, após alguns minutos que para Lizzy pareceram horas, ele parou em frente a ela e disse numa voz arfante entrecortada pela profunda emoção que sentia.
- Não vou aceitar que a senhora viva longe de mim, é minha esposa e seu lugar é ao meu lado.
- Mesmo contrariando minha vontade? Mesmo sabendo que estarei ao seu lado apenas por obrigação?
- Mesmo contra sua vontade, senhora. Não vou servir de zombaria e maledicência da sociedade. Tenho que zelar pelo bom nome da minha família e gostaria também de lembrá-la que a senhora ainda não cumpriu sua obrigação principal em nosso casamento que é a de me dar um herdeiro. Elizabeth sentia suas pernas fraquejarem, apoiou-se a um móvel próximo.
- Amanhã pela manhã partiremos de volta a Pemberley, é a minha decisão final. Mande sua criada deixar sua bagagem preparada, pois sairemos bem cedo. Com licença.
Darcy se retirou e Elizabeth caiu num prato convulsivo, mais tarde alegando indisposição, ela não desceu para o jantar. Em vão, Jane a procurou para conversar com ela, Elizabeth fingiu que dormia quando Jane entrou em seu quarto. Não tinha mais nada a dizer para ela, não queria perturbar a felicidade da irmã com seus problemas e sua infelicidade.
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