Citações

Não diga que o homem esquece mais depressa que a mulher, que o amor dele morre mais cedo. Eu não amei ninguém, se não a ti. (Jane Austen)

Conto: Blind Date - Encontro às escuras

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- Charlotte, você está cansada de saber o que penso destes encontros às cegas, eu simplesmente os abomino. Nunca dão certo, não consigo agir com naturalidade porque fico o tempo todo me sentindo uma verdadeira idiota, fico sem saber como me comportar, o que falar e no final acabam sendo pura perda de tempo.

 

- Lizzy, não será bem “um encontro às cegas” como você está pensando. Richard e Charles resolveram organizar um jantar para comemorar o sexto ano de formatura da turma deles na faculdade, cerca de 40 pessoas já confirmaram presença, mais suas acompanhantes, o que dará um total de mais ou menos 80 pessoas. Você ficaria no nosso grupo, Charles e Jane, Richard e eu. E fiquei encarregada de arranjar um par para William Darcy que disse que irá desacompanhado.

 

- Ele não é o melhor amigo de Charles?

 

- É ele mesmo.

 

- Jane o conhece. Passou um fim de semana na propriedade dele no Derbyshire, ficou encantada com o lugar. Como se chama mesmo?

 

- Pemberley. É realmente um espetáculo!

 

- Estranho ele não ter ninguém para levar... Uma namorada? Uma amiga? Qual o problema dele?

 

- Ele não tem problema algum, muito pelo contrário, é bonitão, rico e solteiro. Um partidão.

 

- E com todas estas qualidades está solteiro e não tem ninguém para levar ao jantar?

 

- Não tem porque não quer. Digamos que William é meio reservado, meio fechado, este deve ser o motivo dele ir desacompanhado ao jantar, daí tivemos a idéia de apresentá-lo a você.

 

- Isto não está me cheirando bem. Se ele disse que irá desacompanhado deve ser porque prefere ficar sozinho, e vocês querem impor minha companhia a ele.

 

- Digamos que eu e o Richard achamos que você e ele combinariam, ele calado, reservado e você falante, espirituosa, dariam um par perfeito e decidimos dar uma força ao destino apresentando um ao outro.

 

- Não, Charlotte, não vou. Este William deve ser um chato.

 

- Ele não é chato, é uma pessoa bastante agradável, seu único problema é ser meio fechado.

 

- E posso saber o porquê fui escolhida por vocês para ser o par desta criatura anti-social?

 

- Olhe, o William não é um ser anti-social, é apenas uma pessoa reservada, principalmente quando não conhece direito as pessoas.

 

- ... E você quer que eu passe um jantar inteiro ao lado deste homem, já estou imaginando a situação: meu acompanhante calado e eu com a tarefa de procurar assunto e ele me respondendo por monossílabos. Vai ser uma noite bastante agradável! Você está querendo me colocar numa tremenda fria.

 

- Lizzy, você está dramatizando demais a situação. William é uma pessoa educada e apesar de reservado quando conversa, tem um papo bastante interessante porque é inteligente e culto.

 

- Agradeço o convite, mas não vou, prefiro ficar em minha casa sossegada.

 

- Pois eu acho que você vai perder a oportunidade de conhecer não só o William, mas outros rapazes interessantes que estarão neste jantar.

 

- ... Que irão acompanhados.

 

- Alguns irão acompanhados de amigas, irmãs... Não necessariamente de namoradas, noivas ou esposas. E se você não gostar de ninguém passará uma noite agradável ao nosso lado.

 

- Vou pensar, Charlotte.

 

- Tudo bem, mas me dê uma resposta o mais tardar até a quinta porque preciso confirmar o convite que reservei para você.

 

Lizzy estava propensa a não ir ao jantar, quando sua irmã Jane se juntou a Charlotte na campanha de convencimento.

 

- Lizzy, você só vai se sentar ao lado de William, mas não necessariamente terá que ficar com ele. E outra: haverá dezenas de homens solteiros e disponíveis para você conhecer. Estou cansada de ver você sozinha, já passou da hora de você arrumar alguém na sua vida.

 

- Está bem, eu vou a este jantar, mais pela companhia de vocês do que por causa deste William Darcy. Não estou pondo nenhuma fé neste encontro que vocês estão querendo arranjar.

 

- Ótimo! Não importa o motivo, o importante é que você vá com a gente.

 

 

***********************

 

Logo que Lizzy chegou ao clube onde se realizaria o jantar foi apresentada àquele que seria seu acompanhante, William Darcy, ainda no salão, onde estavam sendo servidos os coquetéis e as pessoas se confraternizavam.

 

Lizzy sentiu um impacto ao se deparar com o amigo e ex-colega de Charles e Richard. Sabia que Darcy era um homem bonito, por descrição feita por Jane quando o conhecera. Mas não estava preparada para ver um homem de beleza tão impressionante. Alto, feições harmoniosas num rosto másculo e uns lindos olhos azuis profundos.

 

Charles fez as apresentações. William cumprimentou Lizzy com um aperto de mão, mas tudo indicava que ela não lhe causara nenhuma impressão mais forte, pois continuou conversando com Richard e Charles, simplesmente ignorando-a enquanto ela conversava com Jane e Charlotte.

 

Durante o jantar, Lizzy e William sentaram-se lado a lado. E aconteceu o esperado por ela, ele permaneceu calado e as tentativas de aproximação eram respondidas por monossílabos.

 

Após a terceira tentativa, Lizzy se calou e passou a ignorar Darcy, se juntando à conversa geral dos companheiros de mesa.

 

Lizzy, entretanto, sentia o olhar de William fixo nela quase o tempo todo e aquilo a estava incomodando.

 

“Ele não tira os olhos de mim. Deve estar analisando meus defeitos. É o sujeito mais orgulhoso e arrogante que já conheci. Charlotte e Jane hão de se ver comigo por me colocarem nesta fria, eu podia muito bem ter ficado em casa assistindo a um filme e comendo pipoca, com certeza teria lucrado mais!

 

A companhia alegre e simpática dos demais companheiros de mesa foi o que salvou o jantar, pois Darcy permanecia a maior parte do tempo calado, só abrindo a boca para responder quando a pergunta era dirigida diretamente a ele. O seu silêncio, porém, não impediu que o grupo deles fosse um dos mais animados.

 

Ao final do longo jantar, entremeado de vários discursos dos integrantes da turma de formandos, o DJ contratado convidou a todos para dançarem.

 

A animação foi geral e num instante a pista de dança estava repleta. Lizzy simplesmente ignorou William e partiu para dançar sozinha, não demorando em estar rodeada de conhecidos que dançavam ao seu lado.

 

- A pedidos, vou tocar um clássico da canção romântica para os casais dançarem aos pares como nos velhos tempos. – interrompeu o DJ pelo microfone.

 

Houve uma gritaria geral e assobios de aprovação de alguns e de protestos de outros.

 

Lizzy decidiu sentar-se, seria bom dar um descanso aos seus pés doloridos pela dança e pelos saltos altos que não estava acostumada a usar, mas antes que ela alcançasse sua mesa se viu diante de William Darcy que vinha em sua direção, obstruindo sua passagem.

 

- Aceita dançar comigo, Elizabeth?

 

Lizzy ficou tentada a dizer “não”, primeiro por causa dos pés doloridos e segundo porque estava zangada com o tratamento que recebera dele durante suas tentativas de aproximação. Porém, Lizzy não teve coragem de recusar o convite, seria muita grosseria sua.

 

- Sim. Tudo bem. – respondeu, voltando com ele para a pista de dança, mas furiosa consigo mesma por ter aceitado o convite.

 

“Não estou confiando nas habilidades de dançarino deste homem, se ele pisar no meu pé que já está doendo, juro que vou gritar.”


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Embalados pela música romântica, Darcy guiou Lizzy pelo salão. Ele, fiel ao seu jeito calado, não procurou entabular conversa, apenas a enlaçou em seus braços e rodopiaram pelo salão ao som da canção clássica.

 

A maior supresa da noite!

 

Darcy dançava muito bem, guiando-a com passos leves e ágeis. Seus braços lhe envolvendo a cintura transmitiam uma sensação de segurança, era muito acolhedor sentir-se envolvida por sua aura de masculinidade.

 

Foi com tristeza que Lizzy viu a música chegar ao final. Apesar dos protestos de muitos, o DJ voltou a tocar músicas modernas e William a levou de volta à mesa.

 

Lizzy não retornou à pista de dança para continuar dançando sozinha.

 

- Onde aprendeu a dançar tão bem, William?

 

- Com minha mãe, ela me ensinou quando eu ainda era um garoto.

 

Quando o jantar finalmente terminou. William surpreendeu a todos dizendo:

 

- Charles, se Elizabeth concordar, eu a levo para casa.

 

Diante da questão colocada desta forma, Lizzy não teve alternativa a não ser aceitar.

 

Charles não fez objeção alguma. Jane e Charlotte trocaram um sorriso malicioso à vista de todos, que deixou Lizzy bastante constrangida.

 

Por que este homem vai se dar ao trabalho de me levar para casa quando Charles terá que fazer o mesmo caminho para levar Jane?”

 

William dirigiu em silêncio pelas ruas quase desertas de Londres àquela hora da madrugada, apenas Lizzy indicava o caminho até sua casa.  Ela não procurou nenhum outro tópico de conversação porque estava cansada e sabia que ficaria irritada com as respostas monossilábicas de Darcy.

 

Quando chegaram à frente da casa vitoriana em que Lizzy morava, William desligou o carro e se voltou para ela:

 

- Elizabeth, foi um prazer conhecer você. Estou surpreso por conhecê-la apenas agora, sendo você irmã de Jane e melhor amiga de Charlotte. - Lizzy se surpreendeu com o longo discurso, o maior que ela o ouvira pronunciar durante toda a noite.

 

- Não costumo mesmo sair com eles. Não gosto de atrapalhar casais apaixonados que preferem ter sua privacidade.

 

William sorriu diante da observação de Lizzy, mostrando uma carreira de dentes brancos e perfeitos na semi-escuridão do interior do carro, porém nada comentou.

 

Lizzy estava se acostumando aos seus silêncios descobrindo que ele não era a criatura anti-social que ela imaginara, muito menos orgulhosa ou arrogante, talvez fosse tímido ou do tipo calado. Estava começando a se sentir à vontade com seus silêncios.

 

- Bem, William, agradeço a carona.

 

- Foi um prazer... Eu sei que costumo causar uma péssima impressão nas pessoas quando as conheço porque não tenho facilidade para conversar com estranhos.

 

- Eu entendo, você é do tipo reservado, mas mesmo assim gostei de tê-lo conhecido e dançado com você. Foi uma noite agradável. Boa noite.

 

Antes que Lizzy saísse do carro, William se apressou em dizer:

 

- Será que podemos nos encontrar outras vezes? Sair para jantar uma noite destas?

 

- Charles e Jane, Richard e Charlotte costumam sair juntos com freqüência, podemos ir com eles.

 

- Prefiro sair apenas com você, apenas nós dois. Não gosto de sair em grupos.

 

Lizzy mal estava acreditando no que William lhe dizia.

 

- Tudo bem. Anote meu telefone e me ligue quando quiser.

 

- Você está livre na próxima terça?

 

- Sim, tudo bem. – Ele é do tipo decidido, que não perde tempo pensou Lizzy.

 

- Então venho buscá-la aqui às 8 horas. Pode ser?

 

- Sim.

 

Decididamente Lizzy tivera uma impressão errada de William Darcy durante o jantar. Ele não era nem orgulhoso, nem tampouco arrogante e aqueles olhares que a incomodaram tanto durante o jantar só poderiam ter sido de admiração.

 

Entrou em casa com um sorriso nos lábios.  Iria dar uma chance a William e a si mesma, quem sabe um encontro que começara tão mal não poderia resultar um final feliz.

 

 

 

 

 

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