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Qualquer ser humano está cercado por uma multidão de espiões involuntários. (Jane Austen)

As irmãs Bennet - Capítulo 9

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Os primeiros emails que Jane e Lizzy receberam de Lydia davam conta de que ela e George Wickham estavam adorando Nova York. Eles estavam se divertindo muito e Lydia estava deslumbrada com tudo que estava vivendo na big apple.

 

 Queridas Jane e Lizzy:

 

 Já estou entrando no 5º mês de gestação e a minha barriga de grávida já está começando a aparecer. Fui ao médico e ele disse que tanto eu, como o bebê, estamos com ótima saúde. Estamos adorando Nova York. O George tem um amigo inglês que imigrou para cá há muitos anos atrás e tem um grupo enoooorme de amigos. Ele nos apresentou a todos eles, são jovens muito animados. Todas as noites temos festas para ir e então vamos a um clube dançar. Nunca me diverti tanto. Beijos da Lydia.”

 

- Jane, faz mais de um mês que Lydia e George chegaram à América e ela só nos fala das festas que têm ido, até hoje ela não nos contou se George arrumou emprego e esteja trabalhando. Eu já perguntei a ela, mas simplesmente não toca no assunto. Devem estar vivendo do dinheiro que William lhes deu, mas dinheiro acaba e aí eles viverão do quê?

 

- Também estou preocupada com isto! – arrematou Jane.

 

- Como me arrependo por termos deixado Lydia ir embora para tão longe com um cara tão irresponsável como George Wickham, devíamos tê-la forçado a ficar conosco, pelo menos até o bebê nascer. Se ela tiver algum problema iríamos ajudá-la.

 

- Lizzy, infelizmente não conseguimos impedir que ela se casasse e fosse embora. Você viu como ela bateu o pé e você sabe tão bem quanto eu o quanto Lydia é teimosa quando quer algo. Se ela ficasse, iria tornar nossa vida um inferno e sabe-se lá que expediente usaria para conseguir o que queria. Agora ela é uma mulher casada com vida própria, nada podemos fazer, vamos esperar e torcer para que George cuide dela como deve.

 

************************

 

O mês de dezembro chegou trazendo o frio e as festas de final de ano.

 

Jane, aparentemente, parecia haver superado sua paixão por Charles Bingley. Em seu trabalho ela não estava diretamente subordinada a ele, por isso o contato que tinham era esporádico. Mas, todas as vezes que se encontravam ela sentia que ficara uma situação mal resolvida e constrangedora entre eles. Charles ficava sempre ruborizado demonstrando-se pouco à vontade e quando trocavam algumas palavras, ele gaguejava muito.

 

Jane conseguia agir com maior naturalidade e procurava considerar Charles um capítulo encerrado em sua vida.

 

Jane e Lizzy já tinham planos para o Natal que estava se aproximando. Lizzy iria assar um peru na véspera e no dia de Natal iriam ao culto religioso na igreja próxima ao apartamento. O restante do dia passariam descansando e assistindo filmes.

 

- Desde que papai e mamãe morreram, esta será a primeira vez que vamos passar o Natal aqui em casa apenas nós duas, será um Natal bem tranquilo. – comentou Jane.

 

- Sempre passamos em Pemberley, mas Pemberley não é mais a mesma desde que o Sr. Darcy faleceu. – comentou Lizzy. - Seria tão bom se Lydia estivesse conosco, nós três juntas, seria um Natal perfeito.

 

- Lizzy, estou procurando não pensar em Lydia, pois começa a me dar desespero pensar que ela não está bem e nós duas impotentes sem poder fazer nada.

 

Jane se referia ao último email que receberam de Lydia.

 

Queridas Jane e Lizzy.

 

Com a proximidade do Natal estou me sentindo muito sozinha nesta cidade. Saímos daquele hotel em que estávamos hospedados logo que chegamos e viemos morar no apartamento de um amigo do George aqui no Brooklyn, é um apartamento pequeno de apenas um quarto, por isso eu e o George dormimos num sofá cama na sala. É incômodo e não temos privacidade alguma, mas pagamos pouco. Eu gostaria de trabalhar, mas no meu estado tenho a impressão de que ninguém me empregaria. George e o amigo dele saem todas as noites e me deixam sozinha, tenho muito medo porque a vizinhança do prédio é meio perigosa e fico pensando que se eu passar mal não terei quem me socorra. Gostaria de ir com o George só para não ficar sozinha, mas ele diz que devo pensar no bebê e que não devo ficar saindo à noite. Agora que estamos tão longe é que eu sinto o quanto amo vocês e a falta que sinto até de nossas brigas. Com muito amor e saudades. Lydia.

 

*********************

 

- Lizzy, dou um doce a você se adivinhar quem foi que me ligou.  – disse Jane quando Lizzy chegou em casa à noite

 

- Você sabe que sou péssima para estas adivinhações. Quem foi?

 

- Georgiana Darcy.

 

- Ela é um amor. Gosto muito dela. O que ela queria?

 

- Nos convidar para passarmos o Natal em Pemberley.

 

- Espero que você tenha recusado o convite, pois já fizemos nossos planos! Não quero passar o Natal em companhia do William.

 

- Lizzy, você precisa perder esta implicância que tem por ele. Ele foi ótimo conosco no episódio de Lydia e George e muito generoso para com eles.

 

- É verdade, tenho que reconhecer isto, não esperava que ele fosse se incomodar conosco.

 

- Georgiana insistiu demais para que fossemos passar o Natal em Pemberley com ela e William, disse que fazia questão de nossa presença, e que o Natal seria muito triste e solitário sem a gente.

 

- Jane, gosto muito de Georgiana, fosse só por ela, eu aceitaria sem hesitar, pois você sabe que adoro Pemberley. Mas, só de pensar em William perco a vontade de ir, nunca me sinto à vontade na presença dele. Será que William sabe que Georgiana está nos convidando?

 

- Claro que sim, pois Georgiana não nos convidaria sem que o irmão soubesse afinal é o anfitrião.

 

- Vamos dar uma boa desculpa e recusar o convite.

 

- Georgiana não parecia muito disposta a aceitar uma recusa, insistiu demais. Acabei ficando sem jeito e disse a ela que iria consultar você Lizzy, antes de dar uma resposta definitiva a ela. Ela vai voltar a ligar hoje à noite para saber nossa resposta.

 

- Deixe comigo, converso com ela e dou uma boa desculpa. Vamos passar o Natal como combinamos aqui em casa, só nós duas.

 

***********************

 

Lizzy e seu colega de classe e amigo Tom Morrison faziam um trabalho escolar no apartamento de Lizzy. Eles estavam sozinhos, pois naquela noite Jane havia ido ao cinema com algumas colegas de trabalho.

 

- Tom, abra a porta para mim deve ser Jane. – gritou Lizzy da cozinha onde preparava um chá para eles.

 

Ao ouvir o som de outra voz masculina, Lizzy estranhou e apareceu na soleira da porta da cozinha e viu a figura alta, elegante e imponente de William Darcy.

 

- Boa noite Elizabeth, preciso conversar com você e Jane.

 

- Boa noite William. Jane não está.

 

- Você não vai me apresentar seu amigo?

 

- Ah! Sim. Tom Morrison, meu amigo e colega da faculdade. William Darcy, meu tutor.

 

Logo após as apresentações, o colega de Lizzy se apressou em recolher seus livros e cadernos enquanto dizia:

 

- Bem, Lizzy, eu vou andando. O nosso trabalho está praticamente terminado. E você deve ter assuntos sérios a tratar com o teu tutor.

 

- Não vai tomar o chá que preparei?

 

- Não, fica para a próxima vez.

 

Tom pegou seu casaco e saiu apressadamente após dar um beijo no rosto de Lizzy e saudar William com um aceno de cabeça.

 

William aguardou o rapaz se retirar para só então dizer:

 

- Ele é seu namorado?

 

- Namorado? Não é apenas meu colega de faculdade e amigo.

 

- Espero que o que aconteceu com Lydia tenha servido de lição para você e não acabe arrumando um filho antes da hora.

 

- Pode ficar tranqüilo, sei como me proteger de gravidez indesejada. E se eu arrumar um filho será um problema exclusivamente meu. Pode ficar certo que irei arcar com minhas responsabilidades sem precisar recorrer a sua ajuda e te trazer aborrecimentos.

 

- Assim espero. Mas não foi este o assunto que me trouxe aqui. Onde está Jane?

 

- Ela saiu, foi ao cinema com umas amigas.

 

- Vai demorar?

 

- Não sei, mas acho que já deve estar voltando.

 

- Vou aguardar por meia hora, pois gostaria de conversar com vocês duas.

 

William sentou-se no sofá enquanto Lizzy recolheu o material escolar que estava espalhado sobre a pequena mesa de jantar onde ela e Tom estavam estudando.

 

A presença de William tinha o poder de perturbá-la, aquela postura séria e o olhar analítico sempre a deixavam pouco à vontade, mas ela não seria Lizzy Bennet se se deixasse intimidar por ele. Ao invés de ficar na sala fazendo companhia ao tutor e ter que agüentar os silêncios constrangedores que se formavam entre eles, ela foi para a cozinha lavar algumas louças quando para seu alívio ouviu o ruído da porta de entrada e Jane entrar.

 

Após os cumprimentos iniciais, William disse:

 

- Recebi hoje um email de George Wickham dizendo que Lydia está tendo problemas de saúde na gravidez e me pedindo dinheiro para que ela possa se tratar. Quero saber se vocês estão sabendo que ela não está bem de saúde?

 

- Problemas de saúde? Ela nos escreve quase que diariamente e sempre diz que tanto ela como o bebê vão indo bem. Ela está fazendo acompanhamento pré-natal num hospital público.

 

- Bem que desconfiei que Wickham usou este expediente como forma de conseguir dinheiro comigo. Vocês estão sabendo se ele está trabalhando?

 

- Não, inclusive Lydia tem se queixado disto, diz que George não trabalha e passa o dia na companhia de uns amigos que arrumou. – respondeu Lizzy.

 

- Bem, não vou mandar o dinheiro que Wickham me pede, vou forçá-lo a arranjar trabalho.

 

- Sentimos muito William que Lydia ainda esteja te dando trabalho, afinal você já não é mais responsável por ela. – comentou Jane.

 

- Não se preocupem, sei lidar muito bem com tipos como George Wickham. Bem, o outro assunto que me trouxe aqui é que Georgiana me contou que vocês recusaram o convite dela para passarem o Natal conosco em Pemberley.

 

- Foi muito gentil da parte dela nos convidar. Mas, Lizzy e eu já nos programamos para passar o Natal aqui em Londres, este ano. – disse Jane sentindo-se meio constrangida.

 

- Vim aqui para renovar o convite de Georgiana. Ficaria muito feliz se vocês viessem passar o Natal conosco. Afinal vocês sempre passaram o Natal em Pemberley, não vejo por que teria que ser diferente este ano. Georgiana ficou muito triste quando vocês disseram que não iriam. Se já não se comprometeram com outras pessoas, peço que aceitem nosso convite. Será um favor que farão para mim, pois sinto que minha irmã fica meio depressiva nesta época de Natal, ela sente a falta de nossos pais e a presença de vocês tem o poder de alegrá-la.

 

- Se é assim, eu e Lizzy iremos, não é Lizzy? Gostamos muito de Georgiana e não queremos vê-la deprimida.

 

Poucas vezes na vida Lizzy teve vontade de matar Jane e esta foi uma delas. Ela não teve outro jeito a não ser concordar com a afirmativa da irmã, a forma como ela colocara a questão não deixara a Lizzy saída para uma negativa.

 

****************************

 

Jane e Lizzy chegaram a Pemberley na tarde do dia 23 de dezembro no pequeno carro que Jane havia adquirido há pouco tempo. Ambas sentiam prazer em estar retornando à mansão que traziam tantas lembranças gratas do Sr. Darcy e de momentos felizes que haviam vivido ali. Para Lizzy, o único senão seria a convivência com William, mas ela estava determinada a evitar sua presença, o que seria uma tarefa fácil numa mansão das proporções de Pemberley, só teria que conviver com ele durante as refeições, almoço e jantar, pois o café da manhã cada um tomava no horário que acordava, ela faria o seu não coincidir com o de William.  

 

A Sra. Reynolds, a governanta, recebeu as irmãs com a alegria e a cordialidade de sempre.

 

- Quando Georgiana me contou que vocês viriam fiquei muito contente, o Natal não seria o mesmo sem as presenças de vocês.

 

Era sempre um grande prazer voltar a Pemberley, mesmo nesta época do ano, quando as atividades ao ar livre ficavam bastante limitadas devido à neve e ao frio intenso, mas o conforto e a beleza da mansão compensavam esta restrição e para Lizzy sempre havia a oportunidade de um pequeno passeio para curtir a paisagem de inverno quando não estivesse nevando.

 

Georgiana não escondia sua alegria e entusiasmo diante da chegada das irmãs Bennet. Aos 17 anos, era uma garota alegre e tranquila, com pouca experiência de vida porque fora criada pelo pai e pelo irmão em uma redoma de vidro com todos os privilégios dos bem nascidos.

 

Enquanto eram crianças, Georgiana Darcy e Lydia Bennet haviam sido companheiras de brincadeiras, tornando-se amigas, mas esta amizade se devia mais ao fato da pequena diferença de idade entre ambas do que propriamente porque tivessem afinidades. Elas eram diferentes como a água e o vinho em termos de temperamento e personalidade.

 

A ausência de Lydia, aproximou Georgiana de Jane e Lizzy. Agora que todas estavam mais velhas, a diferença de idade entre elas parecia menos significativa e Georgiana estava descobrindo que em realidade tinha mais afinidades com Jane e Lizzy do que com a estouvada Lydia.

 

Uma grande surpresa aguardava as irmãs, principalmente Jane logo que chegaram a Pemberley: Charles Bingley era um dos hóspedes dos Darcys.

 

Charles estava acompanhado de suas duas irmãs e o cunhado. A irmã mais velha de Bingley, Louise, casada e seu marido, John Hurst, um sujeito calado, cuja única preocupação se resumia em comer e dormir.

 

A outra irmã Caroline era solteira, uma bela mulher, alta, magra, loira de olhos azuis frios. Era muito elegante e sofisticada, aparentava ter por volta dos 25 anos. Ela não disfarçava o interesse que tinha por William, em suas atitudes e na voz adocicada que usava todas as vezes que se dirigia a ele.

 

Logo que foram apresentadas, Caroline lançou um olhar desconfiado às irmãs, espreitando possíveis rivais, mas de início descartou Lizzy, pois a considerou uma jovem comum, mal vestida e sem maiores atrativos, mas pressentiu em Jane Bennet, o perigo iminente, a beleza, juventude, e classe dela poderiam facilmente atrair William.

 

************************

 

- Lizzy, estou contando os dias que faltam para terminar meus estudos no internato suíço e voltar a viver em Londres com William. Não vejo a hora, aí poderemos nos ver sempre, sairmos juntas. Considero vocês como minhas irmãs.

 

- Obrigada, Georgiana, nós também amamos muito você.

 

- Lizzy, sei que não deveria dizer isto, porque afinal sou a anfitriã da casa, mas preciso desabafar com alguém. Eu não gosto de Caroline Bingley, acho que ela é falsa. E já percebi que ela está louca para conquistar o William. Seria uma desgraça se ele se apaixonasse por ela e eles se casassem.

 

- Eu também já percebi que Caroline joga seu charme para conquistar William, mas não parece que ela está obtendo sucesso, seu irmão não incentiva os avanços dela.

 

- Eu também acho, mas confesso que tenho medo porque os homens são imprevisíveis. Eu gostaria que William se casasse com alguém que eu também gostasse. Alguém que eu pudesse considerar uma irmã. Seria maravilhoso se ele se apaixonasse pela Jane. Eu iria adorar.

 

- Jane!? – Lizzy não conseguiu evitar uma exclamação assustada e de contrariedade.

 

Era o que faltava este chato casado com Jane. Seria uma verdadeiro pesadelo para mim, ao invés de ganhar um irmão iria perder minha irmã. E como meu cunhado ele se acharia no direito de continuar dando palpites na minha vida e mandando em mim pelo resto de minha vida .”

 

- Sim, Jane. Ela é tão boa, bonita, tem classe, para mim ela é perfeita. Faria um par maravilhoso com William, não acha? Ambos são tão lindos!

 

- Não! Não acho que fariam um lindo par. – disse Lizzy categórica, mas sentindo que havia sido ríspida em seu comentário tentou amenizá-lo. – Ou melhor, não creio que William se interesse por Jane, Georgiana. Depois ele deu a entender numa conversa que tivemos que quando se casar será com uma mulher de sua classe social, que é assim que se realizam os casamentos nas classes elevadas.

 

- Pois custo a acreditar que William pense desta forma. Ele já me disse que só se casaria por amor como nossos pais. E me disse que se quero ser feliz devo me casar por amor e o amor não escolhe classe social.

 

Lizzy se irritava profundamente com a ingenuidade e a visão distorcida que Georgiana tinha em relação ao irmão. Na opinião de Lizzy, o amor e devoção que Georgiana sentia por ele a cegava completamente, impedindo-a de enxergar a verdadeira personalidade dele.

 

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