Há cinco anos, quando Georgiana Darcy terminou seu curso de nível médio, surpreendeu o irmão ao declarar que ia cursar a faculdade de Medicina. William nunca imaginara que a irmã escolheria uma carreira tão difícil, que requeria tanta dedicação e estudo, sempre achara que ela escolheria, como a maioria das jovens de sua classe social, um curso universitário mais ameno até se casar com algum jovem rico de boa família, tornando-se mais uma socialite preocupada apenas com futilidades e seus problemas pessoais.
- Quero fazer a Faculdade de Medicina aqui em Londres porque quero viver perto de você William, desta feita você não terá como se livrar de mim, mandando-me estudar e viver longe de você. Sinto falta de sua companhia, desde que papai faleceu temos tido pouca convivência, mas isto vai acabar.
- Georgiana, eu nunca quis me livrar de você. Entenda que na época que papai morreu, eu era um rapaz de 23 anos, não tinha condições de criar e educar uma garota adolescente de 13. Considerei na época que a melhor solução seria você ser educada num internato para moças.
- Eu estava brincando quando disse que você quis se livrar de mim. Você tomou a decisão acertada para a época, embora eu tenha sofrido muito com nossa separação. Mas agora que estou com 18 anos e já adquiri toda a formação que se espera de uma jovem bem educada para não envergonhar meu irmão e minha família. Vou morar aqui junto de você.
- Será um prazer muito grande ter sua companhia Georgiana.
William sorriu complacente para sua irmã. Ela se transformara numa jovem bonita, meiga e alegre de longos cabelos intensamente loiros e olhos azuis. William sentia um intenso amor fraterno e uma responsabilidade de pai por ela, gostava de mimá-la, fazendo-lhe as vontades.
A presença de Georgiana na mansão dos Darcy em Londres foi um verdadeiro bálsamo para William. A imensa e suntuosa residência com seus aposentos imensos decorados com móveis antigos, verdadeiras relíquias acumuladas por gerações de Darcy, se iluminou com a presença da jovem.
Georgiana, diferente do calado e taciturno irmão, era alegre, jovial, sorridente e falante, adorava contar a ele estórias divertidas de seus colegas e professores da faculdade, de suas ex-colegas do internato, fazendo William rir, o que era raro naqueles tempos. E o arrastava, muitas vezes contra sua vontade, a cinemas, exposições, teatros e concertos, pondo fim à hibernação em que ele mergulhara desde o final de seu casamento.
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Agora aos 22 anos Georgiana estava formada e fazia residência médica no Hospital Real de Londres. Um renomado e respeitado hospital londrino ligado à escola de Medicina onde ela se graduara.
Ela se especializara em Pediatria, que tinha sido seu objetivo deste o princípio, pois adorava crianças e tinha um jeito todo especial com elas. Continuava sendo a alegria e o orgulho do irmão que se admirava de ver uma jovem que poderia ter uma vida de luxo e de ócio, madrugar todas as manhãs e se dedicar ao seu trabalho com afinco e dedicação.
- Georgiana? O que faz acordada uma hora destas. Já é bem tarde, quase uma da manhã. – disse Darcy consultando relógio de pulso - Hoje tive uma reunião de negócios seguida de um jantar que me prendeu até esta hora.
- William, tenho algo muito grave para te contar, por isso fiquei te esperando acordada.
- Você me assusta Georgiana. O que aconteceu?
- Hoje atendi um menino, que está internado no hospital por causa de complicações respiratórias. O nome dele Anthony Bennet, o nome da mãe Elizabeth Bennet. O garoto tem 5 anos de idade e é parecidíssimo com você, as mesmas feições do rosto, olhos azuis. A mãe do menino não estava presente quando o examinei, deixei um recado para que ela me procurasse quando chegasse e confirmando minhas suspeitas ela era realmente sua ex-mulher Elizabeth. Ela teve um filho seu. Você sabia disso William? Sabia que tinha um filho com ela?
- Georgiana você deve ser enganada.
- Aposto o que você quiser de que aquele menino é seu filho. Você precisa ver como Elizabeth ficou quando me viu pensei até que fosse desmaiar. Quando a pressionei ela acabou confessando que estava grávida ao se divorciar de você. Perguntei por quê ela não contou a você, ela respondeu que você jamais acreditaria que o filho era seu. Elizabeth pediu, chegou até a implorar que eu nada dissesse a você, fiquei penalizada com o desespero dela, mas eu não concordei, fui firme e disse a ela que iria contar a você, que você tinha o direito de saber que tem este filho.
- Calma, Georgiana, é preciso ter certeza absoluta de que este menino seja meu filho.
- William quando você olhar o menino vai ter certeza de que ele é seu filho. Ele é a tua cara, sem por e sem tirar. Ele é um Darcy do fio de cabelo até a ponta dos pés. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi procurar nossos velhos álbuns de fotos e encontrei fotos suas quando tinha a mesma idade do menino, é impressionante a semelhança.
- Muitas vezes pessoas que nem são parentes são semelhantes.
- Neste caso não se trata de coincidência. Afinal Elizabeth era casada com você na época que o menino foi concebido. Felizmente, hoje em dia é tudo muito simples de ser esclarecido, basta fazer o exame de DNA. Você terá certeza absoluta se é ou não pai deste menino.
A notícia pegara William de surpresa.
Um filho!
Só podia ser engano de Georgiana, mas ele tinha que dar crédito a ela, pois era uma pessoa sensata e inteligente. E não estaria completamente descartada a possibilidade dele ter um filho com Elizabeth, afinal pela idade do menino ele havia sido concebido na época em que estivera casado com ela.
- Vou resolver tudo isto amanhã. Agora, vamos dormir Georgiana, estamos cansados e o cansaço não é um bom conselheiro para a solução de problemas. Deixe que amanhã eu resolverei esta questão. Boa noite.
Mas, apesar do cansaço físico, William não conseguiu pregar os olhos aquela noite. Um filho. Um filho não é algo que acontece na vida de um homem assim de repente. Quando uma esposa, uma namorada ou mesmo uma mulher com quem um homem tenha tido um relacionamento ocasional vem com a notícia de que ele vai ter um filho, o sujeito ainda tem vários meses para se preparar até que a criança nasça. Agora ser surpreendido com a notícia de que se é pai de uma criança de 5 anos de idade era o mesmo que receber uma pedrada no meio da testa sem estar esperando.
Assim que chegou a seu escritório na manhã seguinte, William pediu a sua secretária que entrasse em contato com James Donavan, o advogado que cuidara de seu divórcio e era considerado um dos melhores advogados especialistas em Direito de Família.
Naquele mesmo dia, o advogado atendeu o chamado de Darcy e após ouvir atentamente as explicações de seu cliente disse:
- Sr. Darcy, o senhor não gostaria de primeiramente ver esta criança para confirmar esta semelhança que sua irmã alega ter com o senhor. Ou melhor, além de ver a criança, marcar um encontro com sua ex-esposa e indagá-la sobre a paternidade desta criança? – sugeriu o experiente advogado.
- Não, Sr. Donavan prefiro não passar pelo estresse de me encontrar com minha ex-esposa, pois seja lá o que ela me disser vou ter que confirmar pelo exame de DNA. Confio plenamente no julgamento e bom senso de minha irmã.
- Se é assim, vamos entrar na Justiça com um pedido de investigação de paternidade. Estes processos correm todos em segredo de Justiça, de forma que o senhor não terá que se preocupar com eventual escândalo e exposição na mídia. O Juiz determinará que seja feito o exame de DNA, cujo resultado sairá em pouco tempo. O senhor terá a certeza científica de que esta criança é realmente seu filho. Se o resultado for negativo esquecemos este episódio e se for positivo tomaremos as providências cabíveis.
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Tony ficou internado no hospital apenas dois dias como medida preventiva e para observação, embora estivesse ainda um pouco abatido, estava sem febre e o pediatra responsável deu-lhe alta.
- Sabe aquela doutora que cuidou de mim, aquela mocinha loira que parece uma fada, aquela que ficou conversando com você. Ela veio hoje de manhã e me deu um presente. – Tony mostrou um livro infantil a Lizzy - Ele não é lindo? Ela me beijou e disse que gosta de mim. Ela se chama Dra. Georgiana.
Logo após revelar a verdadeira identidade de Tony a Georgiana, Lizzy se preparou para enfrentar um furioso William Darcy tirando satisfações com ela, mas os dias se passaram sem que nada acontecesse. Lizzy foi ficando tranqüila, ela concluiu que Darcy havia resolvido ignorar a existência da criança na certeza de que não seria filho dele.
O alívio de Lizzy, entretanto, durou pouco. Uma semana após a alta de Tony, Lizzy recebeu uma intimação da Justiça para que apresentasse o filho, num renomado laboratório de análises clínicas londrino para coleta de sangue para o exame de DNA.
Lizzy ligou apavorada para Jane a quem já havia contado o encontro inesperado com Georgiana Darcy no hospital quando Tony estivera internado.
- Fique calma Lizzy. Você achava que Darcy não iria fazer nada? Ele está indo com cautela, pelos meios legais, como era de se esperar. Os muito ricos não dão um passo sem consultar seus advogados, era a atitude que se esperava de Darcy. Afinal o reconhecimento da paternidade de Tony é um assunto que envolve milhões de libras. Tony será o herdeiro dos Darcy. Você precisa cumprir esta determinação judicial e fornecer o material para o teste, a amostra do sangue de Tony.
- Seria bom se desse negativo.
- Não diga besteira Lizzy. Você sabe perfeitamente que vai dar positivo. Vou marcar um horário com David Ward. Você precisa ter seu advogado para representá-la na Justiça e para tratar com o advogado de Darcy de igual para igual. David irá instruí-la como você deverá agir. Fique calma.
- Jane, eu não tenho dinheiro para pagar um advogado como o Sr. Ward. Eu estou tão apavorada com o que William poderá fazer.
- Não se preocupe com os honorários do Ward, eu me encarrego disto, não precisa me pagar nada. Fique tranqüila, William não poderá fazer nada contra você. Embora o Direito de Família não seja minha área, vou te antecipar o que provavelmente irá acontecer. O exame dando positivo, William deverá reconhecer a paternidade e Tony receberá seu sobrenome, o juiz determinará com quem ficará a guarda do menino, que neste caso deverá continuar com você, determinará também o valor da pensão que Darcy pagará ao filho, e estipulará como será o direito de visita dele ao filho.
- Você disse que a guarda de Tony deverá continuar comigo? Há a possibilidade de eu perder a guarda dele?
- Calma, Lizzy. Uma mãe só perde a guarda do filho se for provado que a criança está sendo maltratada ou que a conduta dela atente contra a moral e os bons costumes. O que não é o seu caso.
- Eu tinha razão em não querer contar ao William sobre o Tony, nunca mais terei sossego.
- Sempre te disse que William tinha o direito de saber sobre o filho. Agora, Lizzy, para o bem de Tony procure não criar caso com William, se vocês dois começarem a brigar não será bom para ele. As crianças costumam ter uma espécie de radar e sentir no ar a briga dos pais, isto poderá afetá-lo emocionalmente. O coitado já é tão carente, não precisa se ver no meio de uma disputa dos pais.
- Eu sei Jane, não pretendo criar caso com William. Meu medo é que ele crie caso comigo.
- Tenha pensamentos positivos, minha irmã. Será bom para Tony ter o pai. Além da proteção e da fortuna de Darcy, ele finalmente se sentirá como os demais meninos, acho que esta descoberta está acontecendo em boa hora.
- E você acha que William irá se importar com ele, Jane? Tenho a impressão que irá desprezá-lo como me despreza.
-Lizzy, o fato dele ter entrado na Justiça com o pedido de investigação de paternidade revela que ele está se importando e muito com a possibilidade de ter um filho. Você só se lembra do lado negativo de William depois que se separou dele, mas ele era um sujeito gentil, muito educado, íntegro, apesar de sua natureza reservada. Acredito que ele irá se afeiçoar a Tony. Uma criança maravilhosa como ele conquistará a afeição de William em pouco tempo.
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O resultado do exame de DNA deu positivo.
Lizzy estranhava o fato de William, passado tantas semanas, não ter vindo tirar satisfações com ela por ter ocultado o filho e nem procurado conhecer o menino até aquele momento, mas logo ela saberia que aquela calmaria era a que precede uma tempestade violenta.
Lizzy voltava para casa, como de costume, segurando Tony pela mão e não prestou atenção ao luxuoso e reluzente carro preto estacionado na calçada quase em frente à entrada de seu prédio.
Ela mal teve tempo de entrar em seu quarto para trocar de roupa quando o interfone soou, ao atendê-lo ouviu uma voz máscula que ela jamais esqueceria mesmo que vivesse mil anos. A voz do ex-marido!
- Elizabeth é William Darcy, preciso conversar com você. Abra a porta de entrada do prédio.
Lizzy precisou se segurar no batente da porta da cozinha para não cair, pois sentiu seus joelhos fraquejarem. Respirou fundo e fez uma breve oração pedindo a Deus que lhe desse coragem para enfrentar o que estava por vir.
Após acionar o botão do interfone e se certificar que William entrara no prédio. Ela foi até o quarto de Tony e disse a ele:
- Tony está chegando um conhecido da mamãe que veio tratar de um assunto muito importante. Por favor, fique aqui em seu quarto brincando ou vendo os desenhos de seus livros de estórias. Não venha me interromper. Está bem?
- Mas quem é mamãe?
- Depois eu te explico tudo, Tony. Agora não tenho tempo, pois a pessoa já está subindo, por favor, faça como eu mandei. Fique aqui no seu quarto quietinho.
A campainha da porta soou quase ao mesmo tempo em que Lizzy fechava a porta do quarto de Tony. Lizzy foi atendê-la, em frente a ela estava parado o homem que assombrara sua vida durante todos aqueles anos. Seu ex-marido, o pai de seu filho.
William Darcy.
Alto, elegante e belo. Os seis anos em que estiveram separados transformaram a beleza juvenil de William na beleza viril de um homem maduro de 32 anos de idade. Vestido num impecável terno azul marinho que devia ser obra de seu renomado alfaiate da Saville Row, camisa de pequenas listas brancas e azuis e uma linda gravata de seda.
Após alguns segundos em que Lizzy ficou absorta naquela figura de homem que lhe trazia todo tipo de lembranças belas e dolorosas, ela fez literalmente de suas tripas coração, se recompôs e convidou William a entrar dizendo com a voz que soou ligeiramente trêmula:
- Entre William.
Lizzy não pôde deixar de notar que a figura elegante e sofisticada de William destoava no ambiente modesto e acanhado de sua sala de estar, mas era simplesmente ridículo se preocupar com isto quando questões de muito maior relevância estavam em jogo naquele momento.
- Por favor, sente-se.
William se acomodou no sofá e Lizzy numa poltrona em frente a ele.
Após alguns instantes de silêncio, enquanto ele percorria os olhos fazendo um inventário da sala e Lizzy olhava as feições sombrias do rosto do ex-marido apertando nervosamente uma mão contra a outra; a voz de William soou autoritária e ríspida.
- Acho que nem preciso dizer por que estou aqui. Quero saber por que você não teve a decência de me informar que estava esperando um filho meu por ocasião de nosso divórcio?
- Porque naquela época, diante das circunstâncias, você não teria acreditado que eu estava grávida de um filho seu.
- Ou era você que não tinha certeza se a criança era minha ou de seu amante?
- Só poderia ser seu filho, William... eu nunca tive um amante.
- Bem, não vim discutir se você teve ou não amante, esta questão foi encerrada há muito tempo e não vem ao caso agora. Vim por causa de meu filho, porque o exame de DNA deu positivo. Seu advogado deve ter informando isto a você.
- Sim, informou.
- Nunca passou por sua cabeça que eu tinha o direito de saber que tenho um filho com você? O que você andou falando ao garoto sobre mim? Porque aos cinco anos ele já deve ter te perguntado muitas vezes quem é o pai dele.
- Eu... eu disse que você tinha morrido antes dele nascer.
- Morrido eu! Você é mais irresponsável do que eu imaginava. Esta mentira demonstra claramente que você não tinha intenção alguma de contar a meu filho sobre minha existência! Você acha que foi justo o que fez comigo e com ele?
- Não, não foi. Assim como nada do que aconteceu entre nós foi justo.
- Esqueça o que aconteceu entre nós, é passado e este sim está morto. Não existe mais “nós”. O que existe é esta criança, meu filho, de quem você me negou cinco anos de sua existência, você me tirou a oportunidade de vê-lo crescer e de formar um vínculo com ele durante este período. E se Georgiana não o houvesse encontrado ao acaso eu jamais saberia de sua existência.
William parou abruptamente de falar quando viu o menino que devia ser seu filho parado na soleira da porta de entrada da sala com os olhos arregalados, muito pálido, o medo estampado em seu rosto infantil. Sem se dar conta no decorrer de sua fala William havia se exaltado, dando vazão a sua ira e levantou a voz muitos tons acima do que estava acostumado a falar. Lizzy que estava de costas para a porta, voltou-se rapidamente ao ver a expressão de William.
- Tony, eu não disse para você ficar em seu quarto? – advertiu Lizzy, levantando-se rapidamente e indo em direção ao filho.
- Mamãe por que este homem está brigando com você? Dava para ouvir do meu quarto ele gritando com você. Ele vai bater em você? – e enchendo-se de coragem aproximou-se de William com o dedinho em riste e disse: - Vá embora da minha casa já! Não quero que o senhor fique gritando e brigando com minha mãe. Vá embora daqui!
- Tony, não faça assim, a mamãe está apenas conversando com ele. Ele é um amigo, não me fará nada de mal. Por favor, vamos, vou levá-lo de volta ao seu quarto.
Lizzy pegou Tony pela mão e teve que arrastar o relutante menino de volta ao seu quarto. Lá chegando pediu a ele encarecidamente que continuasse ali. Não imaginara que a situação sairia de controle desta forma.
Ao voltar à sala a fisionomia sombria de Darcy falava claramente de seu desagrado pelas circunstâncias que se dera seu primeiro encontro com o filho.
- De repente virei um monstro que assusta crianças com gritos!
- William, eu reconheço que errei ao ocultar Tony de você. Peço desculpas, embora o pedido de desculpas não vá devolver a você todos estes anos que perdeu de convivência com ele, mas vou tentar remediar a situação da melhor forma possível.
- Espero que você tenha percebido a dimensão da perda que sofri por uma irresponsabilidade sua.
- Sim, percebi. William, em consideração ao nosso filho, vamos procurar manter um relacionamento amigável... Quero te pedir que espere alguns dias para eu poder preparar o Tony, conversar direito com ele sobre você, sobre as mudanças que ocorrerão na vida dele daqui para frente.
- Tudo bem, mas vou esperar apenas alguns dias. Já perdi muito tempo sem conhecer meu filho para que esta situação se prolongue. E espero que você consiga apagar esta imagem de monstro que ele deve ter ficado de mim por culpa sua. – concluiu William levantando-se do sofá dando sinais de que a visita estava encerrada.
- Espere um instante William, eu gostaria que você conhecesse o Tony... direito. Ele é um menino maravilhoso, tenho certeza de que com o tempo vocês irão se amar e se tornarão grandes amigos, como devem ser pai e filho.
Lizzy voltou rapidamente ao quarto de Tony e encontrou-o sentado na cama de braços cruzados sobre o peito, no rosto uma expressão amuada.
- Tony, aquele homem que veio conversar com a mamãe está indo embora. Quero que você peça desculpa a ele pela má-criação que fez. Está bem?
- Ele estava brigando com você. Não vou pedir desculpas. – retrucou Tony.
- Por favor, meu amor, não faça assim. É muito importante que você peça desculpas a ele.
- Por quê?
- Depois a mamãe explica tudo para você. Agora vamos.
Lizzy voltou à sala alguns minutos depois segurando Tony pela mão. O menino parecia visivelmente contrariado de cabeça baixa olhando o chão.
- Vamos, Tony. – Lizzy apertou a mão do garoto incentivando-o a falar.
- Minha mãe me mandou pedir desculpas por ter mandado o senhor embora. – murmurou o menino em voz bem baixa que mal dava para se ouvir e com os olhos pregados no chão demonstrando claramente que estava pedindo desculpas contra sua vontade.
- Está tudo bem Anthony, está desculpado. Eu sou William Darcy, depois sua mãe vai contar a você quem eu sou.
Tony permaneceu calado segurando a mão da mãe, olhando o chão com um semblante emburrado.
- Tony é um menino meio arredio com estranhos, mas depois que ele conhece melhor a pessoa e adquire confiança se torna expansivo e alegre. Você terá que ter um pouco de paciência com ele.
William nada disse sobre esta observação de Lizzy. Ficou olhando fixamente o filho por alguns minutos. Georgiana estava certa. O menino parecia muito com ele, a semelhança não se limitava aos olhos azuis, mas às feições do rosto e a cor do cabelo também.
- Até logo Elizabeth, aguardo seu telefonema. Aqui está meu cartão com o número de meu celular. Não tente nenhum truque como fugir porque será pior para você. Eu a descobriria em qualquer lugar que se escondesse.
William saiu do apartamento deixando atrás de si uma Lizzy devastada. Ela procurou disfarçar sua perturbação, o melhor que pôde para não deixar o filho ainda mais aborrecido.
Tony ficou algum tempo amuado e calado, numa clara demonstração de que os acontecimentos durante a visita de William o haviam afetado profundamente. Lizzy que conhecia o filho deixou-o em seu canto, mas passado algum tempo o menino veio conversar com ela.
- Mamãe eu não gostei daquele homem que veio te visitar. Se ele vier outra vez é melhor a gente não abrir a porta para ele. Ele fica gritando e olhando zangado para você, pensei que ele fosse bater em você. Tomara que ele não volte nunca mais!
Mal sabia o pequeno Tony que aquele homem viera para ficar em sua vida de forma definitiva. Lizzy achou melhor não dizer nada ao filho aquela noite, esperaria que o menino se acalmasse e escolheria uma ocasião mais propícia para revelar a verdadeira identidade daquele “homem”.
Naquela noite deitada no escuro de seu quarto, a visita de William passava e repassava na cabeça de Lizzy. William demonstrava claramente que estava pouco disposto a manter um diálogo amistoso com ela, os olhos dele tinham um brilho duro e sua voz era seca sem cordialidade alguma.
Ela reconhecia o seu erro ao ocultar o filho de William por tantos anos e dava razão a ele por estar furioso por isso. Mas, por ocasião do divórcio que alternativa lhe restara, ele com certeza devido às circunstâncias duvidaria que o filho fosse dele.
As palavras dele: ”Ou você não tinha certeza se era meu ou de seu amante?” demonstravam claramente que ele ainda acreditava que ela o havia traído. Era incrível como estas palavras carregadas de desprezo, passados tantos anos, ainda tinham o poder de machucá-la.
Lizzy tinha consciência de que teria que reaprender a conviver com William em novos termos. Eles tinham um filho que até completar sua maioridade e se tornar um homem independente precisava que seus pais decidissem em consenso as pequenas e grandes decisões que os pais costumam tomar pelos filhos enquanto crianças e adolescentes.
Lizzy sabia que para o seu próprio bem era melhor que ela esquecesse tudo o que um dia William Darcy representara para ela. Os sentimentos e as emoções somente atrapalhariam na nova relação que teria que estabelecer com ele.
O passado estava morto e deixara apenas lembranças amargas.
William demonstrara claramente que não a perdoara e que o ressentimento só aumentara com a descoberta deste filho que ela ocultara dele por tanto tempo. Mas, pelo bem de Tony ela teria que enfrentar o que estava por vir com coragem. Reconhecia sua parcela de culpa neste episódio, mas também tinha consciência de que continuava a pagar por erros que não cometera.
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