Quando William veio se encontrar comigo no começo da noite do dia seguinte, resolvemos de comum acordo ir ao cinema e depois jantar.
Ele me levou para assistir seu filme que eu havia lhe confessado não haver assistido ainda.
- Mas, eu não quero forçá-lo a ver de novo este filme que você já deve estar cansado de assistir.
- Na verdade, eu o assisti duas vezes: nas estréias de L.A. e daqui de Londres. Não importo de assisti-lo novamente em sua companhia. Quero muito saber sua opinião sobre ele.
- Não se esqueça de que não sou repórter e muito menos crítica de cinema. Só posso dizer minha opinião pessoal, que é a de uma expectadora comum.
- É esta mesma que tem importância para mim.
À medida que o filme passava, eu me lembrava dos foras que havia dado durante as entrevistas com os atores e ao mesmo tempo em que tinha vontade de rir das besteiras que havia dito corava de vergonha. Sem dúvidas aquele havia sido o maior vexame que passei na vida!
Depois do cinema, fomos jantar num restaurante japonês, não era sofisticado, mas com comida excelente. A escolha havia sido de William, acho que ele o escolheu de propósito, um local em que poderia passar incógnito. Objetivo alcançado. Jantamos sem que ele fosse reconhecido, como um casal qualquer e pudemos conversar muito, ambos curiosos em desvendar o mistério que éramos um para o outro. Quem éramos e o que tínhamos vivido até aquele momento.
- Quer dizer que é verdade o que dizem sobre você estar de relações... estremecidas com seu pai? – perguntei quando Darcy estava me contando sobre sua família.
- A mídia exagera um pouco, mas é verdade. Meu pai nunca aceitou o fato de eu ter me tornado um ator. Ele queria que eu seguisse seus passos e aprendesse a tomar conta dos negócios da família, afinal sou seu único filho homem.
- É por isso que você fica num hotel quando vem a Londres, ao invés de ficar na casa de seus pais? – não resisti perguntar, apesar de achar que a pergunta era um tanto quanto indiscreta, mas Darcy pareceu não se importar e me respondeu tranquilo.
- Não é por este motivo. Apesar deste problema com meu pai, tanto ele como minha mãe e minha irmã gostariam muito que eu ficasse com eles, mas prefiro ficar num hotel para preservar a privacidade de minha família. Eles não teriam um instante de sossego, se eu ficasse hospedado na casa deles aqui em Londres.
William estava sentado em frente a uma coluna que o ocultava da mesa atrás da nossa, enquanto eu que estava em frente a ele tinha uma visão parcial o grupo nela sentado formado por três casais.
- William Darcy deve ser gay. Tem toda a aparência de ser. – disse uma voz masculina alto o suficiente para que pudéssemos ouvir claramente.
- Não acredito nisto. Ele não leva jeito de ser gay. – contestou uma voz feminina.
O teor da conversa despertou nossa curiosidade e paramos de conversar para ouvir o que o grupo dizia.
- Não acredito nisto. Ele está sempre bem acompanhado de belas mulheres. Já namorou várias estrelas de Hollywood. – falou outra voz feminina.
- Vocês, mulheres, nunca admitem que um bonitão possa ser gay, pois saibam que quase 100% deles são. E se não são, são bissexuais. Estes atores precisam fazer todo o tipo de “favores” para conseguir bons papéis.
- É isto aí, ele deve ser bissexual. – concordou um dos rapazes.
- Já ouvi dizer que o pai dele está brigado com ele por causa disto. Qual o pai que aceita uma situação destas? Ainda mais um sujeito orgulhoso de uma família tradicional como Lord Darcy.
Senti que William ficara irritado com a conversa que o envolvia pelo movimento de morder o canto dos lábios. Neste instante agi impulsivamente, levantei-me da mesa e antes que William pudesse me impedir me dirigi à mesa de onde vinham os comentários e disse:
- Com licença. Posso pedir um favor?
- Pois não... – todos na mesa olharam curiosos para mim.
- Antes de vocês saírem falando em público de uma forma tão leviana sobre quem não conhecem, deveriam considerar com mais cuidado a veracidade do que estão dizendo.
- Ora, quem é você, moça, para vir nos chamar a atenção sobre uma conversa que não te diz respeito?
- Vá cuidar de sua vida! – vociferou um dos rapazes, o mais grosseiro dos três.
Neste instante senti William ao meu lado
- Peço desculpas pela interrupção intempestiva de minha amiga, ela quis apenas me defender, mas isto não é necessário, pois estou bastante tranqüilo acerca de minha orientação sexual. Não acreditem em tudo que lêem nas revistas e tablóides. À propósito, recomendo que peçam o atum, ele está excelente. Vamos, Lizzy.
William me pegou pelo braço e me conduziu para a saída do restaurante.
- Há muito tempo deixei de me importar com o que falam a meu respeito. Ficaria louco se me importasse. A mídia precisa vender seus produtos e uma parte dela fabrica ou distorce os fatos ou nossas declarações. É um mundo podre, pode acreditar.
- As pessoas não podem sair espalhando boatos de fatos que não têm certeza e de que apenasouviram falar.
Mais tarde, mais calmos, enquanto caminhávamos tranquilamente pelas ruas àquela hora quase desertas da cidade, rimos muito lembrando das caras de absoluto assombro dos seis integrantes da mesa ao se verem diante da própria pessoa que estavam difamando.
- Eu adoro andar pelas ruas de Londres assim incógnito. É uma das inúmeras coisas que estou impedido de fazer.
- Nós, pessoas comuns, não fazemos ideia das limitações que as celebridades têm em sua vida particular. Mas, sou da opinião de que elas não podem se queixar disto, pois buscaram a fama e agora precisam pagar o preço cobrado por ela.
- É verdade. Quando somos ilustres atores anônimos ansiamos ser reconhecidos, mas quando a fama chega, a gente se dá conta do que perdeu por causa dela.
Após caminhar por alguns quarteirões, às vezes conversando, outras em silêncio, mas sempre confortáveis na companhia um do outro, chegamos ao Ritz.
- Acabamos chegando ao teu hotel. – comentei ao avistar o imponente edifício.
- Eu a trouxe aqui de propósito. Quer subir?
Pensei rapidamente nas implicações deste convite. O que aconteceria se eu subisse à suíte de William? Certamente não seria apenas para conversarmos.
- Há muitas razões para eu não subir...
- Quer subir?
Não resisti a este segundo convite ao ver o brilho de ansiedade e paixão naqueles lindos olhos azuis. Minha resposta foi aquela que meu corpo, mente e coração queria.
- Sim.
- Lizzy, não poderemos subir juntos, pois corremos o risco de ver uma foto nossa estampada nos tablóides amanhã de manhã entrando juntos no elevador. Não quero expô-la a este tipo de publicidade. Dê-me cinco minutos e você sobe em seguida. Tudo bem?
- Está bem.
Compreendi a precaução de William e confesso que fiquei lisonjeada com o cuidado e consideração que ele estava tendo comigo.
Quem disse que a vida de uma celebridade é fácil?
Esperei William entrar no hotel e depois de algum tempo entrei, mas fiquei perambulando pelo luxuoso saguão ainda cheio de hóspedes e funcionários. Passados alguns minutos, tomei o elevador em direção à suíte indicada por ele.
Logo que bati, ele atendeu à porta. Abri um grande sorriso ao vê-lo, mas notei imediatamente que havia algo muito errado. Sua expressão facial estava tensa e seu rosto me pareceu pálido.
- Lizzy, aconteceu um problema e você não poderá entrar. – disse ele baixinho.
- Problema? – eu não fazia a menor ideia de qual tipo de problema poderia ter acontecido em tão curto espaço de tempo que impedisse minha entrada.
- Sim, minha namorada, ou melhor, minha ex-namorada chegou inesperadamente da América e está aqui.
Neste instante surgiu no meu campo de visão uma mulher alta, ruiva, muito bonita e atraente, vestida num sensual vestido verde que modelava seu corpo perfeito.
- Quem está aí meu amor?
Diante da hesitação de William, minha presença de espírito não me abandonou e respondi rapidamente.
- Eu... eu sou a camareira do andar.
- Camareira? E por que não está uniformizada para vir atender um hóspede?
- É que eu já estava de saída, meu turno de trabalho já terminou, mas resolvi atender este último chamado.
- Estranho um hotel desta categoria permitir que seus empregados atendam seus hóspedes sem estarem devidamente uniformizados. – disse a ruiva arrogante. – Mas, já que está aqui, leve esta bandeja com os pratos sujos embora.
- Está bem, senhora. – respondi entrando na suíte para pegar a bandeja que se encontrava numa mesinha de canto da sala.
- Caroline, ela não tem obrigação de fazer isto. – e dirigindo-se a mim William disse: - Deixe senhorita, peço para outra pessoa que esteja em seu turno de serviço que venha buscar os pratos.
Neste instante, a mulher ignorando minha presença se aproximou de William, passou seus braços em volta do pescoço dele e procurou seus lábios num beijo sensual. Não preciso dizer como me senti, meu coração parecia que se partia em mil pedaços.
Após esta demonstração de intimidade fora de propósito e bastante constrangedora devido a minha presença, ela continuou falando com William como se eu não estivesse ali presenciando tudo.
- Meu amor, sei que você detesta surpresas, mas espero que tenha ficado contente por eu ter chegado assim de repente. Você estava demorando tanto para voltar para casa que não aguentei esperar por mais tempo.
Apressei-me em pegar a bandeja com os pratos usados, que segurei com força, pois tive receio de derrubar tudo com minhas mãos trêmulas. Sai rapidamente da suíte, pois não queria continuar vendo e ouvindo o que a tal namorada, ou ex-namorada, tinha a dizer a William.
Já estava no corredor completamente atordoada sem saber qual rumo tomar quando William apareceu ao meu lado, não sei explicar como se desvencilhou da namorada e conseguiu me alcançar ali.
- Desculpe...
- É estranho encarar a realidade. – foi o consegui dizer em estado de choque.
- Sinto muito... Não sei... o que dizer...
- Creio que “adeus” é o que se diz nesta hora. – respondi.
Lancei um último olhar à bela figura parada no longo e luxuoso corredor e fui caminhando em direção ao hall dos elevadores. A bandeja que eu carregava parecia pesar toneladas, eu a larguei na primeira mesa de canto que encontrei.
Meu mundo havia desmoronado. Meus sonhos despedaçados. Tudo havia terminado como havia começado: de repente. Tudo havia sido realmente surreal, só que naquele momento eu não estava achando que fora encantador, terminar da forma dolorosa que estava terminando.
Tomei o ônibus para casa com o coração apertado dentro do peito, felizmente, a àquela hora da noite ele estava quase vazio, pude sentar sossegada num canto e deixar que as lágrimas amargas de decepção e tristeza corressem por meu rosto sem que ninguém notasse.
Eu estava de volta à dura realidade de minha vida monótona e rotineira em Notting Hill.
No dia seguinte quando estávamos assistindo um filme. Charlotte deve ter percebido o meu desligamento do que se passava na tela, parou o filme e me perguntou sem rodeios como era seu jeito de ser.
- Ei! Você não vai me contar o que está acontecendo? Não quer dividir comigo esta tristeza que está estampada em seu rosto e em sua expressão corporal?
- Não houve nada. Só estou cansada, tive um dia duro e acho que vou me deitar.
- Se eu não a conhecesse há muitos anos eu acreditaria que não houve nada. Nem tente me enganar. Vamos Elizabeth Bennet use meu ombro para chorar tuas mágoas. Divida esta carga comigo. Tenho quase certeza de que esta tristeza está ligada a William Darcy.
- Acho que fiz a bobagem de me apaixonar por ele, Charlotte, apesar de saber que seria uma loucura porque ele é alguém que não poderia ser meu e eu sabia disto deste o princípio. Que futuro eu poderia ter com ele? Um astro de Hollywood!
- Amiga, não fique deste jeito. Vai ver o que está sentindo não passe de uma paixonite, destas que a gente costuma ter por artistas. Logo você o esquece, procure não pensar nele, se distrair e na semana que vem você já o terá esquecido.
- O pior é que não tenho esta certeza. O que estou sentindo por ele é muito mais forte do que uma simples paixonite. É como se o amor fosse uma droga que não posso mais tomar.
- Pobre Lizzy! – exclamou Charlotte e sem outros argumentos me abraçou e eu, como já fizera outras vezes chorei no ombro de minha amiga as mágoas de meu coração ferido.
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Todas as semanas eu ia jantar na casa de Jane e Charles para colocar as novidades em dia com ela, brincar com meu sobrinho Kevin e conversar com Charles, que além de cunhado, era como se fosse o irmão que eu não tive.
- E aí como vão as coisas com William Darcy? Vocês continuam saindo? – perguntou Jane curiosa com um brilho de animação e malícia nos olhos.
- Não. Você não imagina o que aconteceu... – contei a Jane em detalhes o triste episódio do hotel, o fatídico encontro com a namorada dele.
- Você não sabia que ele tinha uma namorada? – Jane me perguntou surpresa.
- Não. Não sabia. Por quê? Você sabia?
- Todos sabem, saiu em todas as revistas de fofoca. Caroline Barlow é uma atriz estreante que fez um papel secundário em um dos filmes de Darcy, mas começou realmente a aparecer na mídia graças ao seu namoro com ele.
- Não diga! Minha vida inteira destruída por que não leio a revista “Hello”. – não consegui evitar o comentário sarcástico.
- Enfrente a realidade Lizzy. Essa situação nunca teve futuro. – ponderou Charles que estivera calado até aquele momento, ele parecia estar lendo o jornal, mas estava prestando atenção à nossa conversa.
- William Darcy é um deus. – continuou Charles. - E os mortais que brincam com os deuses...
- Se dão mal, não é? – perguntei por perguntar, pois sabia a resposta.
- Sempre. – concluiu Charles categórico, como todo bom advogado ele era um sujeito realista com ambos os pés fincados no chão.
- Mas não se desespere Lizzy. Acho que encontrei a solução para o seu problema. – disse Charles com um sorriso em seu rosto simpático querendo me animar.
- De verdade? E qual seria esta solução?
- Seu nome é Howard e trabalha comigo. Ele é um dos advogados do escritório. Estou pensando em apresentá-lo a você já faz algum tempo e eis que por coincidência eu o convidei para vir jantar aqui em casa amanhã. Será a oportunidade perfeita para vocês se conhecerem.
- Não Charles, você sabe muito bem o que penso destes encontros arranjados. Costumam não dar certo. Eu fico muito constrangida, me sentindo uma completa idiota, parecendo uma mercadoria sendo exposta para venda.
- Lizzy, venha jantar conosco amanhã. Você irá se distrair e aproveita para conhecer o Howard, de maneira descompromissada. – ponderou Jane com seu jeito meigo.
Sem jeito para dizer não, acabei aceitando para não decepcionar Jane e Charles e por falta de algo melhor para fazer no dia seguinte.
Não preciso dizer que conhecer Howard resultou em nada. Ele parecia ser um sujeito legal, embora excessivamente tímido, cada vez que eu lhe perguntava algo seu rosto pálido se enchia de um rubor intenso e ele chegava a engasgar nas palavras.
Conclusão: depois de namorar William Darcy ia ser difícil eu encontrar um substituto a altura. Eu sempre iria fazer comparações e a maioria dos homens sobre a face da Terra sairia perdendo. Eu precisaria passar por uma lavagem cerebral completa para apagar definitivamente aquele homem divino de minha mente.
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Era de manhã bem cedo quando a campainha de casa tocou. Após uma noite insone, eu já estava de pé fazia algum tempo, estava colocando um pouco de ordem na cozinha. Quando fui atender à porta não fazia a menor ideia de quem poderia ser àquela hora de um domingo, e me deparei com a última pessoa no mundo que eu esperava que aparecesse em minha casa.
William Darcy.
Ele me pareceu pálido e nervoso atrás de seus óculos escuros.
- Posso entrar? – perguntou meio sem jeito diante de meu espanto, segurando a porta.
- Sim. Claro.
Deixei William entrar e fique aguardando que ele explicasse sua visita inesperada.
LAST_UPDATED2















